sexta-feira, 29 de abril de 2011

Os progenitores



Era suposto haver amor entre nós. É isso que nos distingue dos outros animais. O bicho-homem ama. O bicho-animal segue os instintos de procriação, sem amor. Por isso não deixa de ser estranho que, ao contrário do que às vezes assistimos entre os humanos, no mundo dos chamados animais irracionais quando nasce uma cria todos os instintos se concentram na nova vida que saiu de dentro da fêmea. É vulgar assistirmos aos animais selvagens que lambem as suas crias semicerrando os olhos de prazer; que as abraçam durante o sono para as aconchegar; que as defendem dos predadores por não quererem sofrer a sua perda; que lhes saram as feridas preferindo que estas fossem suas. Seria, por isso, tentador pensar que afinal poderá haver o sentimento amor entre os outros animais. Mas não posso. Não posso deixar de pensar que talvez, talvez, não hajam laços afectivos entre aqueles seres mas se tratem de facto, e apenas, de rituais de protecção da sua espécie e que a única graça que lhes foi concedida foi lutar pela sobrevivência da mesma.
E não pode haver cepticismo sobre isto quando observamos, por comparação,  os comportamentos do único animal racional com capacidade de amar, no planeta: nós.
Senão vejamos: se amamos as nossas crias, sendo que somos já os únicos que as concebem como resultado do amor entre um homem e uma mulher; se ritualizamos a sua chegada com festejos; se os cobrimos de todos os objectos de conforto que conhecemos; se lhes damos um nome como forma de distinção entre os outros mas, sobretudo, como forma de divinização para os progenitores; se lhes proporcionamos todos os cuidados médicos; se os instruímos e educamos; se lhes damos regras; se os alimentamos... Como é que podemos ser comparados com animais selvagens? Como? Parece evidente que não.
Como é que um pai que concebe um filho, possuindo o corpo de uma mulher, mas no nunca o desejou; que festeja o dia do parto, mas não sabe o dia aniversário do seu filho; que nunca soube educar mas conhece todos os caminhos para as agressões; que nunca soube dar a mão para erguer o filho de uma queda mas se enche de moral para o rebaixar mais pelas suas fraquezas... Se pode comparar com os outros animais irracionais? Como é que podemos chamar pai a um ser que, por fortuna da natureza, tem amor para dar mas não sabe como o fazer? Como é que um pai humano despreza filhos à nascença, não os protege do mundo e, por ventura, os deixa findarem-se às suas  mãos? Como é que isto é um pai humano? Como é que pude duvidar que este amor dos humanos não é mais verdadeiro que o dos animais?
De facto, não podemos comparar os sentimentos do bicho-homem com os sentimentos do bicho-animal. Uns têm instinto mas não amam. Os outros amam mesmo contra os instintos. De facto nós é que amamos e eles “apenas” protegem a continuidade da espécie. De facto eles protegem-se. Eles sim, dão continuidade à raça, enquanto nós amamos – coisa essa tão especial que se sobrepõem à nobreza de proteger a vida de quem é do nosso sangue.
Servirá, então, de alguma coisa pedir o amor incondicional de um progenitor?

Era suposto ter havido amor, mas não houve.




sábado, 16 de abril de 2011

Deus e o Diabo



Vieram ao mundo na mesma época. Viram o Sol pela primeira vez, com poucas horas de diferença. Nasceram entre o mesmo par de pernas. Alimentaram-se das mesmas tetas. Partilharam o mesmo pão. Brincaram juntos. Caíram lado a lado e ergueram-se em simultâneo. Foram amigos. Amaram-se como irmãos. Mas cresceram indiferentes. Viveram como inimigos. Morreram como rivais.
Caminhos bifurcados fizeram-nos desencantar-se um do outro. De perder o amor que lhes foi ensinado pela progenitora. De se obrigarem a gostar de coisas distintas, só para não assumirem que, afinal, queriam o mesmo.
Um escolheu o caminho mais difícil. Não temeu o relevo áspero e as armadilhas escondidas. Enfrentou as intempéries, e os seres perigosos; dormiu nas noites negras sob céus revoltados. Caminhou sempre sozinho. Não fez amigos por já não confiar em ninguém. Ninguém o seguiu por não ter palavras de mentira que todos queriam ouvir. Não iludiu ninguém a troco de sorrisos. No fim do seu percurso dorido apenas alcançou respeito por si próprio, sem notoriedade dos outros. Sem prémios. Sem marca na história. Passou discreto pelo mundo, mas havia de morrer em festa. Ninguém lhe desejou a vida.
O caminho fácil, havia de ser percorrido por outros pés. Brancos e puros. Trilharam rectas esplendorosas. Conheceu as mais belas paisagens. Bebericou da água mais fresca. Repousou em todas as eiras. Foi acolhido em todas as casas e dormiu sempre quente, pelas mantas ou pelas carnes de mulheres. O bucho sempre cheio e bem regado proporcionaram-lhe boas cores e uma alma cheia de verbos ilusionistas. Os povos caiam a seus pés para ouvir as histórias, incrivelmente falsas, que tão bem sabia contar. Foi um mestre fingidor e, por essa arte, arrebatou méritos, honras e um lugar na história. Morreu em glória. Ainda o idolatram como se estivesse vivo. Memorável figura que tantos anos passados, ainda perdura no peito de todos.
Os caminhos percorridos na solidão nunca foram premiados. Considerados actos egoístas, nunca foram interpretados como crescimento e exercícios de reflexão. Caminhar sozinho fez deste irmão um carrasco em vez de um salvador, porque ninguém quis ouvir as verdades que ele aprendeu.
Por oposição, preferiram alicerçar as suas crenças num ser manipulador. Que usou as palavras com mestria. Que aparentava genialidade por ousar falar com palavras nunca proferidas. Por alindar banalidades que ninguém parava para interiorizar. Tentou meio-mundo com falas de profeta. E caíram nessa tentação, por se acharem menos do que ele.
Deus e o Diabo são os irmãos mais desavindos da história.
Deus enganou os parvos, que encontrou por esses atalhos rectos, com as suas histórias de encantar.
O Diabo seguiu sozinho, na obscuridade da verdade, por saber, de antemão, que nós não valíamos o esforço.



domingo, 10 de abril de 2011

A carne humana



Acordei nauseada. Suada de alucinações. Desiludida de respirar. Dorida de nojo.
Não queria abrir os olhos para não recordar as imagens da noite que passou, mas também não consegui prosseguir o sono por repetir na cabeça todos os gestos. Todas as frases. Todos os sons. Todos os cheiros.
Ontem os corpos estavam possuídos. As bocas balbuciavam silêncios idiotas porque apenas sorriam sexo. A música... tão alta... sufocava-me o raciocínio e toldava-me as percepções. Os perfumes melados, misturados com o álcool exalado pelas bocas pecadoras, eram insuportáveis.
Queria apagar a história de ontem. Queria apagar a história da humanidade que nos trouxe até aqui. Apagar os comportamentos selvagens que herdámos. Cunhar os Homens de evolução. Lembrar-lhes o longo caminho até aqui. Gritar-lhes que há muito não somos símios descontrolados pelos impulsos sexuais. Para quê tanta sofisticação se, por baixo de vestes luxuosas, os corpos não passam de carnes impetuosas desorientadas por cérebros primitivos. Não aguento tanta promiscuidade. Sinto-me vomitar. Estou embriagada pelas cenas ordinárias, estupidamente vulgares, que as pessoas propagandeiam. Vulgaridades que as pessoas vendem sem ser a troco de dinheiro. Puras exibições hormonais. Rituais de acasalamento. Sexo porco. Perversões. Micróbios. Pele. Mucos. Desfaleço de nojo, como se tivesse sido o meu corpo  o  possuído. 
Percebo tão bruscamente que o decoro morreu. Ou, simplesmente, deixámos de o fingir.  Ninguém mais se esconde por trás de regras. Ninguém mais recorda o poder das imagens a preto e branco, que impunham candura à pior das orgias. Envergonha-me olhar para os outros animais nesta selva e ver os seus comportamentos pouco dignos. Só buscam carne. Caça pura. Instintos errados para um objecto delineado. Caçar. Comer. Lamber os beiços.
Apetecia-me morrer por saber que fugir dali não seria suficiente para me esquecer das cenas repugnantes. O amor dedicado, sofrido pelas horas sem conquista, desapareceu. Morreu por homicídio. Mataram-no. E o meu doce jeito de amar antes de acasalar não encontrará parceiro para esse desafio. Acabaram-se os romances de janela. Acabaram-se os olhares que acabam em amor. Acabaram-se as conquistas demoradas. Acabaram-se as notas musicais.
Agora, neste mercado fácil para talhantes, os bifes conquistam-se em segundos. Sem jogos. Sem sonho. Sem desejo do coração. Apenas desejo entre as pernas.
Caminhamos para isto. Voltámos a ser símios. E envergonho-me por isso.





quinta-feira, 7 de abril de 2011

Mata-me



Acordaram. Não se olharam e nem se viram. Não sabiam da existência um do outro há muito. Não importava. Os seus corpos já não se conheciam e, por isso, não se procuravam para calar as saudades que não sentiam. Eram apenas duas pessoas deitadas sobre a mesma vida. Dormindo como desconhecidos, nos intervalos dos dias em que não se deitavam como inimigos. Mas os dias como inimigos rareavam. O esforço de convivência que isso comportava já não lhes valia o suor. O investimento duma troca de palavras nunca aconteceu quando se passaram a olhar como irmãos e, mais tarde, quando se passaram a olhar apenas como conhecidos e, finalmente, quando deixaram, simplesmente, de se olhar. Aquela cama já não conhece o calor. 
Levantar daquela cama de manhã era como desistir de sofrer. Acabar com o suplício de forçar um sono num lugar sem alma. Aliviar o corpo de um descanso que não teve. Ela levantava-se sempre de avanço. Ele fingia não ter despertado só para não ter de fingir que não a viu. Ela no início também fingia que não sabia que ele já estava acordado, mas com correr dos anos passou a ignorar este teatro ritualizado. E o ritual era assim há uma eternidade de tempo que ninguém merece viver. E pelo menos no acordo desse ritual ambos se entregavam com o mesmo empenho. 
Ela seguiu o caminho das tábuas de madeira corridas, que os nós tão bem conhecia por nunca os olhos do chão levantar. Os pés pesados sobre a madeira quente davam-lhe o conforto que não obtinha na cama e, por isso, caminhava lentamente, para prolongar esse prazer e não pelo tédio que se podia prever.
Ele continuou inerte. De corpo esticado sobre o colchão, olhando para o tecto, de olhos bem abertos, como se os pensamentos já não tivessem nascido nessa manhã. A sua cabeça estava vaga. E a oficina, que em tempos muito laborou naquele cérebro, parecia agora desactivada. Já não restava nada.
Nessa manhã, igual a todas as outras desde que deixaram de se olhar, um deles percebeu a insustentabilidade de partilhar o mesmo oxigénio. Percebeu que não era tarde para tentar. Soube, com toda a convicção, que não haveria de ter outras manhãs como aquela. Quis dar-se uma oportunidade. E deu.
Ele chamou a mulher ao quarto, sem se mexer do colchão, com um murmúrio difícil de transformar em palavras, por estas há muito não ecoarem pela casa. Ela pasmou-se e receou ter de manter uma conversa. Não sabia como fazê-lo. Pregou os olhos nos nós do soalho de madeira e arrastou-se de volta ao quarto. Ficou-se pela porta, olhando aquela pessoa que a chamou.
Ele está sentado na beira cama. Sem roupa. Sem cor. Sem a olhar. Vago.

Um tiro directo à cabeça.

Ela não respira. Não acredita no que acabou de alcançar. A libertação há-de ser saboreada lá mais para a frente. Sorri com os olhos, apesar de reconhecer a perversidade de o fazer. Os ombros caem-lhe leves.
O que ela não sabe é que, nesse instante, obteve o único pedaço de amor das últimas duas décadas. Recebeu a última declaração de amor da sua vida. Foi olhada pelo homem com quem se deitava.
O que ela não soube nunca, é que ele se matou por tanto a desejar e não suportar nunca ter sentido o seu calor na cama. O que ela nunca há-de saber é que foi amada até morrer.


segunda-feira, 4 de abril de 2011

O dom



Talvez já tenham passado seis ou sete encarnações. Talvez uma dúzia. Ninguém neste momento saberá. Já não caminha ninguém pela terra que se lembre, ou saiba, quantas vezes aquela mulher já viveu para depois morrer... voltar a nascer e logo depois voltar a morrer... e a nascer, e por aí adiante. Assim foi, e continua a ser, até que o seu caminho sobre a terra se esgote. Até que a eternidade perca sentido. Até que o seu espírito se complete e abandone o mundo material e ascenda ao sítio onde pertence. 
Mas apesar de se desconhecer a origem desta mulher, sabe-se que a sua primeira vida é anterior a Cristo e, talvez até, anterior à Dinastia Ptolomaica, o que a tornou ao longo dos séculos num espírito velho e sábio. Não velho de exausto, nem sábio de petulante, mas antes um espírito calejado pelos corpos vivos que não o estimaram, mas que muito lhe deram a saber sobre a vida, sobre as relações entre os homens e sobre os caminhos até à morte. Todos lhe ensinaram que por mais que se lute, ou por mais que se esteja conformado, a inevitabilidade da morte não se compadece com sentimentos. Todos os corpos morrem. Todas as almas vivem. E é entre essa morte e essa vida que existe um espectro que poucos tem a graça de ver. De sentir. De ser. 
Esta mulher, que ninguém sabe de onde veio, tem esse dom. Esse sentido apurado para o mundo que acontece entre a vida e a morte. Essa capacidade de compreensão das coisas que os olhos não vêm. Essa aptidão para sentir o tacto ao invisível. A habilidade de falar com os que já partiram e com os que querem voltar. Essa mulher fora abençoada. Fora brindada com um dom. Um dom que renega desde a sua primeira vida. Um milagre que nunca aceitou. Uma benção que não pediu para ter.
Ao longo dos séculos viveu embaraços - alguns que lhe custaram a vida - e viveu momentos de coroação. Foi escrava e foi rainha. Foi um zero e foi um mil. Foi tudo para alguém mas também foi ninguém para um mundo. 
Foi esta a maior beleza do seu percurso: ser todos para, mil anos depois, conhecer-nos a todos. Foi a pele de incontáveis personagens porque só assim saberia hoje descodificá-los. Soube crescer mulher e soube crescer homem para os compreender a ambos. Esta mulher foi temida, mas também foi amada. Esta mulher ouviu segredos, mas nunca teve um ouvido para segredar os dela. Esta mulher encarna e desencarna apenas para servir os outros. Esta mulher nunca atalhou um caminho doloroso por saber que o crescimento só vem por essa via. 
Por ainda não ter atingido o fim do seu percurso pela terra, esta mulher irá continuar a vaguear, perdida, escondendo o seu dom. Escondendo o seu dom por medo da inquisição. Por receio dos dedos apontados ao desconhecido. 
Apesar de todo o bem que fez à humanidade esta mulher não tem estátuas, nem homenagens, nem reconhecimento no mundo dos vivos. Mas por todo o bem que tem feito aos mortos, ela é reconhecida no "lado de lá" e, por mais sombrio que possa ser, desse lado todos a esperam de braços abertos.
Um dia o seu caminho se extinguirá. Apenas quando tiver sido perfeita. Por essa altura perder-se-á para sempre a memória dessa mulher que percorreu o mapa da história, e este mundo e o outro, como nunca antes se havia feito.
Memorável mulher que lia almas. Impressionante alma que ainda lê pessoas. 
O seu nome era Agnes. O seu nome ainda o é.