sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Paranóia




Vês sombras e coisas que se mexem num ápice mesmo em frente às retinas dos teus olhos. Correm, fogem, do teu campo de visão e ficas a pensar que viste mas não viste. Pensas que estás louco e que viste mas não viste coisas que realmente existem. Mas se existem então viste mesmo o que pensavas que não viste que viste. Todos te tentam convencer de que não viste essas coisas. Que estás louco e sempre o foste. Acreditam e convencem-te a acreditar que viste e ouviste coisas que não existem e que não viste nem ouviste. E tu já nem sabes em quem acreditar. Acreditas primeiro em ti depois nos outros e de novo em ti até que vence a opinião dos outros. Entre acreditar e não acreditar que viste o que viste, que ouviste o que ouviste e que sentiste o que sentiste, já te baralhaste todo e já não sabes de novo em quem acreditar. Sentes conspirações e burburinhos nos ouvidos que te chegam à cabeça mas tentas acreditar que tudo são fantasias e que o que ouviste afinal não ouviste e que podes estar mesmo a enlouquecer no meio desses murmúrios. Já não te querem fazer acreditar que estás a inventar histórias e dizem-te que afinal está tudo na tua cabeça e enganam-te o tempo fazendo-te acreditares em coisas que eles agora efectivamente dizem ser verdade mas tu já não queres acreditar. Baralham-te mais uma vez e dizem-te que  afinal as mentiras são verdade e que as verdades são sempre mentiras. Misturam tudo e juntam palavras desordenadas e imagens abstractas para te dificultarem o raciocínio. Quando te sentem a escapar do labirinto espetam mais argumentados desorganizados e mais ideias descabidas e voltam a falar-te das coisas que não vês mas pensas que sim e dos sons que não existem mas dizes que ouves. Baralham tudo outra vez, sapateiam em cima da tua confusão, espremem-te a razão e voltam a sacudir tudo aquilo em que acreditavas. Conseguem que te ponhas em causa em vez de colocares em causa os outros e eles e todas as coisas em que realmente acreditavas e passas mais uma vez por louco por não conseguires tomar decisões e errares sempre que as tomas. Fazem um gajo sentir-se perdido e estúpido e confuso quando é na cabeça deles que tudo está perdido e partido e desarranjado. Fazem sentir que o mundo dos outros anda todo bem menos o teu e que apenas tu estás cuspido de todo a lógica universal. Convencem um gajo que ver bem, ouvir bem, pensar bem e andar bem é que está errado e que o certo é gozar com a razão dos outros.





quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Nova Iorque... Onde ficaste tu?



Perdi-me algures entre um empregozinho no Alentejo e um loft em Manhattan, e nem sei bem como foi que isso aconteceu.
Na época dos sonhos eu queria ser tão mais, e acabei a conquistar tão pouco. Eu sonhava tão alto, e deixei-me satisfazer com praticamente nada. Queria viver em Manhattan num loft, com asnas de madeira e paredes forradas a tijolo burro e com grandes vidraças emolduradas por ferro forjado e acabei a conseguir um empréstimo para a vida por um impessoal T1. Ainda assim, apesar de ambicionar chegar ao outro lado do Atlântico, queria viver de forma menos pretensiosa do que a forma como vivo hoje, porque, de alguma maneira, projectava aquela realidade com uma felicidade que não precisava de adereços, em vez desta vida sem ponta de graça mas recheada de adornos para lhe darem o brilho que não tem.

No meu íntimo sei que havia qualquer coisa de promissor em mim que não se chegou a cumprir.

Por inércia, por força das circunstâncias, por interferências externas, por fraqueza ou por outras mil e uma coisas, a verdade é que perco-me a tentar perceber e justificar que a minha vida, afinal, não se tornou naquilo que eu queria, mas sim naquilo que eu deixei que se tornasse.
É curioso como a falta de atitude talhou mais o meu destino do que todas as boas intenções juntas. As boas intenções, de facto, não me colocaram em lugar nenhum. Os sonhos, não me colocaram em lugar nenhum. O simples querer, não me colocou em lado nenhum e, muito menos, em Nova Iorque. Ficar à janela, de olhar perdido, a pestanejar e a pensar como a vida irá ser boa comigo e me trará tudo o que desejei, trouxe apenas o consolo desse exacto momento. O consolo de uma ilusão boa, daquelas que nos traz conforto ao estômago. Mas não trouxe mais nada. Não vai trazer.
Não me trouxe Nova Iorque, nem o loft em Manhattan, nem as telas e os pinceis, nem um cachorro quente comido na rua, nem as corridas matinais no Central Park, nem as inaugurações de exposições em galerias arte, nem as tardes a vasculhar livrarias. 
Se pensar bem a fundo, quase consigo perceber porquê, mas depois sinto que me vou magoar mais com a resposta e deixo-me ficar pela superfície. Se a responsabilidade fosse de outro alguém, eu teria todo o gosto em aprofundar para depois arremessar culpas. Assim, adivinhando que a resposta sou eu, não me confronto a mim mesma para não me penitenciar. Na prática, é o mesmo motivo para não ter lutado pelo meu sonho. Porque não vou fundo. Porque tenho medo. Porque incorro sempre nos mesmos erros. Os nossos actos acabam por funcionar como círculos e as atitudes manifestam-se sistematicamente da mesma maneira em todas as decisões da nossa vida.
Uma coisa é certa, continuo a acreditar que a imprevisibilidade da vida parece ser superior às nossas vontades. Nunca equacionei a hipótese de ter este trabalhinho no Alentejo e aqui estou eu. Desejava ardentemente ter sido pintora em Nova Iorque e, afinal, nunca cheguei a sair daqui.
Não sei se perdi as forças ou fui engolida pelas circunstâncias mas sinto que deixei de dar aos braços cedo demais e me deixei afundar.

Agora, sinto saudades de Nova Iorque sem nunca lá ter estado. Aquelas saudades que se sentem por um amor não consumado. De quando sabemos que já só estamos apaixonados pela ideia da pessoa, e não pela pessoa, mas mesmo assim continuamos deslumbrados.
Sinto saudades daquilo que queria para mim e que, algures pelo caminho, perdi.

Perdi-me algures entre um empregozinho no Alentejo e um loft em Manhattan, e nem sei bem como foi que isso aconteceu mas sei que foi por minha culpa.




Se há coisa que este blog me tem trazido, é amor. 
Amor, afecto, carinho, amizade... de desconhecidos, tal como eu também sou para quem me segue.
Hoje, a Susana Silva decidiu partilhar comigo, connosco, esta foto que diz ter marcado a sua passagem por Nova Iorque.
E eu agradeço muito, agradeço mesmo muito, e por isso decidi que ela também deveria fazer parte deste texto.
Obrigada Susana. 




sábado, 15 de setembro de 2012

O fotógrafo e a escritora





*


As noites e madrugadas, encostada em esquinas vomitadas de sexo mal pago, amaldiçoaram-lhe o destino. Desde o primeiro trocar de dinheiro por gemidos fingidos que a sua vida tinha, drasticamente, terminado. Não se odiava pela opção que tomara, mas tinha deixado de conseguir olhar-se no espelho. No reflexo dos vidros dos carros que se encostavam às suas coxas. Nas montras abandonadas às luzes da noite. Deixou de se olhar, num desejo subconsciente de que as outras pessoas também não a vissem. Pensava que não se vendo, nenhuns olhos passariam por ela. Não aceitava a sua imagem. Não se olhava mais ao espelho. Não se deixara retratar, nunca mais, desde o primeiro dia em que se deitou com um homem, em troca de pão para a boca.
No intervalo das horas do dia em que estava acordada, ainda moribunda num sono de vergonha, lavava o rosto na água fria para despertar do embaraço. Começava naquele momento a vida comum e sorrateira que lhe trazia tranquilidade ao pulso. Agarrava-se às letras dos livros, ao sonho das imagens e à ilusão da felicidade que as histórias lhe traziam. Todos os dias, religiosamente, desenhava letras sobre as folhas, numa caligrafia traçada a rigor. A sua grande paixão sempre fora escrever, desde que aprendeu que uma caneta era um instrumento de criação. Chegou a iludir-se de que um dia poderia viver ao ritmo dessa caneta mas também um dia cresceu, os sonhos mirraram, e percebeu que a distância entre o rabiscar de tinta e a concretização da história era um caminho sem fim. Não lhe restaram, assim, alternativas a ter de entregar-se durante a noite a enredos inenarráveis, para durante o dia poder ser a escritora que, durante anos, desejou ser.



*


Andava perdido pelos dias e pelas noites há demasiado tempo. Não conhecia os intervalos em que devia dormir, estar acordado ou alimentar-se. Há muitos meses que os dias pareciam semanas e nada parecia acontecer na sua vida.
Os tempos em que tinha trabalhado numa empresa, tinham-lhe preenchido a necessidade de pagar contas mas nunca lhe alimentaram a emoção. Queria mais que apenas um emprego socialmente bem aceite e confortável. Sabia que dentro de si, bem lá na sua intimidade, gostaria de poder viajar pelo mundo a fotografar. A fotografar o mundo, claro está! Tinha tanto dentro de si para dar. Tinha tanto para dar e sabia tão pouco como o fazer. Por vezes sentia-se sufocado pelas suas próprias vontades sem soluções mas sentia-se incapacitado para agir. Ai, tantos sonhos que tinha, sem saber como realizar. Ai, tantos sonhos que tinha, pelos quais pouco lutou por concretizar. E sentia-se assim muitas vezes: impotente para mudar a sua própria vida.
E um dia, num daqueles dias afoitos em que a pessoa perde o norte e decide ser feliz, assinou meia-dúzia de papéis lá no emprego e pôs-se a correr. Correu dali para fora como se o mundo esperasse por ele, e ele já estivesse atrasado. Ele e a sua máquina fotográfica. Sempre na companhia da sua máquina fotográfica.
No dia em que se despediu, chegou a casa com a leveza de um miúdo traquina a quem soube bem fazer um disparate. 
No dia seguinte acordou na dura realidade de que o mundo continuava a girar e os sonhos não se tinham realizado sozinhos. Adormeceu numa depressão de dias, que pareciam semanas, que durante muitos meses lhe pareceram anos.



*


Numa das noites, em que a cabeça andava perdida pelo vazio das horas, agarrou na sua estimada máquina e fez-se à estrada. Pôs-se a caminho de coisa nenhuma e sem destino nenhum.

Percorreu quilómetros sem emoção, para esquecer-se daquilo em que a sua vida se tinha tornado. Pensou em deixar-se ir por um penhasco abaixo. Pensou em largar a vida. Pensou. Pensou que já não havia lugares, nem pessoas, nem objectos que valessem a pena fotografar. Os seus olhos já não viam nada que a sua máquina quisesse registar.

Parou o carro.
Olhou, absorto, a noite.
A fabulosa noite que, inesperadamente, tinha caído.
Sentia um perfume misturado na brisa e fechou os olhos para o saborear.
Ao abri-los novamente, uma mulher, estática, apareceu na sua frente. Com o medo a gritar duns profundos olhos esborratados e a tremelicar do cimo de uns saltos finos e de uma saia indecentemente curta. O medo só a fazia parecer ainda mais bonita.
O olhar dele colou-se à imagem dela. Daquela bela mulher, com o escuro da noite por trás, numa decadência genuína de quem não queria estar ali.

Ele agarrou-se à máquina e num pensamento desembriagado avançou:

"Posso fotografar-te?" - Perguntou.

"Não, deixa-me primeiro escrever-te" - Sussurrou-lhe ela com um sorriso.






sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Black Velvet




Está inaugurado o novo projecto de Jon Gavin e Dias Cães.
Podem visitar-nos em...

http://blackvelvetblack.blogspot.pt/ 



Um olhar diferente...
Um descrever diferente...


Os autores continuam com os seus blogues pessoais aqui e aqui!





quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Black Velvet



Dia 14 de Setembro nasce um novo Blog: Black Velvet

Resultado de uma parceria entre Jon Gavin e Dias Cães, o novo blog Black Velvet combinará textos e fotografias dos dois autores.

Este novo projecto nasce da necessidade de ambos os autores se aventurarem num novo registo, quer nas palavras quer nas imagens, num contexto mais intimista e sensual.

As fotografias de Jon Gavin continuarão por aqui...
E os textos de Dias Cães, já sabem, estarão aqui no lugar de sempre.

Se não nos encontrarmos antes, marcamos encontro dia 14 de Setembro no Black Velvet.
O dia em que revelaremos o link..

Até lá, boas leituras e bons disparos.

Jon Gavin e Dias Cães


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Irresponsabilidade social



Uma pessoa, de vez em quando, lá mete a mão na consciência e percebe que ser infeliz é outra coisa.

Não sei se estou mais atenta ao mundo ou se o mundo está a piorar de tal maneira que é impossível não reparar em certas coisas, mas de há uns tempos para cá parecem somar-se cenas inimagináveis à minha frente. Nunca fui uma deslumbrada com os bens materiais e com o dinheiro, mas reconheço o conforto que trazem. Creio que numa análise honesta à nossa consciência, todos sabemos disto e todos preferíamos ter algum a mais, do que passar a vida a contar os tostões. E não me venham dizer que não.
Posto isto, acho que ainda estou no direito de me indignar com os extremos que vejo entre as vidas de uns e de outros. Como nunca tive luxos e na minha vida adulta passei a viver, apenas e só, do meu ordenado, ainda consigo ter distanciamento para ver o que é ser absurdamente pobre e ser absurdamente rico.
Num destes dias fui abalroada por uma realidade que, uma pessoa até sabe que existe, mas pensa sempre que nunca irá ser confrontada. Ou pelo menos que não terá de confrontar-se com as situações e dissecá-las até as compreender.
Depois de ouvir um bêbado a gritar, em plena Avenida da Liberdade, com um dedo em riste sobre um prédio de apartamentos de luxo que ali se prepara para aparecer, que "estes filhos da puta gastam aqui alguns cinco mil euros e um gajo a passar fome. Ladrões"... Ficou claro para mim que não temos todos a mesma noção do valor do dinheiro. Nem se trata de termos todos acesso a ele da mesma maneira, porque isso há muito que se sabe que não, mas a questão de tampouco saber localizar o devido número de zeros à direita de outro número, foi algo que me empurrou para sítios que eu não conhecia na mente. Fiquei algures entre o chocada e o lúcida.

Como Deus nesse dia tinha algum tempo disponível para mim (pena que não tenha noutros dias para outras coisas), fez-me esbarrar noutra cena nauseante. Eu sou uma pessoa com sentido de humor e sarcasmo quanto baste, mas há ironias que eu dispenso. Passar pela montra da Prada e ver um homem bem constituído, relativamente arranjado e limpo, a vasculhar no lixo mesmo ali ao lado, ainda me deixa perturbada com o que o universo prepara para as pessoas. Naquele dia parei na montra da Prada apenas para me confrontar. Para ver que era real um homem, com fome, estar a vasculhar num caixote do lixo, mesmo em frente de uma mala que custa umas largas centenas de euros, que uma senhora irá comprar por capricho e usar uma ou duas vezes. Quis confrontar-me porque, noutra escala de consumo, eu sei que também compro coisas desnecessárias para satisfazer um impulso consumista.
E para ir para casa sossegada e de cabeça no chão, Deus, esse grande gestor de recursos humanos, mandou estacionar dois Bentleys na Avenida, fez descer de lá umas senhoras muito bem postas,  e esqueceu-se de tirar os dois mendigos enrolados em cartões a dormir nos bancos do jardim em frente. Erros de logística Deus, erros de logística. Toca a melhorar isso, senão a malta começa a deixar de acreditar.

Uns dias lembro-me de todos os pormenores, outros a coisa atenua-se, mas noutros levo machadadas de  morte mesmo em cheio no esterno.
Como o meu cérebro se ocupa pouco a pensar em coisas que não devia, ainda sou brindada com momentos tristes vindos do meu próprio sangue. Quando à simples pergunta "o que é que a miúda precisa para os anos?", me respondem "ela gostava muito de ter um telemóvel android raios - que - a - partam - que - tem - 13 - anos - e - ainda - não - ganha - para - o - sustentar"... Eu só tenho como alternativa pensar que sou eu que ando ao contrário do mundo.
Então eu vejo um homem feito, a tirar comida do meio do lixo, e esta fedelha quer um telemóvel de umas centenas de euros para mandar mensagens às amigas. Pior! Muito pior! Pergunto se não há nada de útil que precise e dizem-me que “como cresceu não tem roupa nem sapatos para o próximo Inverno”...
Puta que pariu!
Ai não tem roupa nem sapatos, mas bora lá pedir a esta otária um telemóvel de gajos ricos.
Puta que pariu, outra vez!
Mas desde quando isto é ensinar valores aos miúdos. Desde quando isto é querer o bem de um filho quando não se lhe dá a conhecer o valor das coisas. Parece-me que sei bem que educação teve o bêbado que achava que aquela obra custava alguns cinco mil euros!!!

Para terminar em grande, e porque não sou pessoa de me deixar sufocar sem tentar sobreviver primeiro, e porque estas histórias todas já estavam a fermentar cá dentro, este fim-de-semana houve um momento derradeiro e revelador que me fez tomar uma atitude. Num reallity show, a protagonista mostrava-se indignada por a enteada de 18 anos ter comprado uma mala Hermés, de cerca de cem mil dólares, para "destruir" em fins artísticos (sim, sim, já sei... tudo pela arte!). Uma "irresponsabilidade social". Foi assim que ela se referiu à compra da mala. Como uma "irresponsabilidade social".
Aquilo atingiu-me. 
Não foi pela mala ou pelo uso que a miúda fez do dinheiro. É lá com ela.
Foi por, noutra escala, me ter visto naquele papel.

Ontem entrei no closet (só isto é indicia logo problemas).
Tirei tudo lá de dentro.
Tirei tudo dos varões, das gavetas e das prateleiras.
Percebi que acumulava coisas por irracionalidade emocional, por não saber relativizar que se trata apenas de roupa. Por não saber ser pragmática.
Ontem, eliminei quase metade da minha roupa e é evidente que ainda sobra.
Exponho aqui sem vergonha, apesar de ter todas as razões para a ter, que havia roupa que já nem me lembrava que tinha. Roupa que vesti uma ou duas vezes e deixei de gostar (talvez já não gostasse assim tanto quando a comprei). Roupa velha que jamais voltaria a usar. Roupa cara que comprei por capricho. Roupa que há muito deixou de me servir. Roupa que alguém lá fora precisa e eu andei a guardar apenas por me dar um sentimento de conforto e segurança e não por precisar realmente.
Enfim... 

Fazendo contas ao resultado final e para quem gosta de números:
- Cerca de 70 peças de roupa.
- Cerca de 20 peças de roupa interior.
- 15 kg no total.
- 1/2 guarda-fatos vazio.
- 3 gavetas vazias.
- Mais de 20 cabides vagos.
- Dinheiro... muito, mas no meio de tudo o que isto implica, isso é o que menos me preocupa.

Por estes dias, a roupa seguirá para quem realmente precisa e, apesar de não estar ilibada da minha responsabilidade social, sinto que ter consciência já é um bom avanço que convém não abandonar.




quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Os lugares. Os objectos. As pessoas... As pessoas...



Nasci numa vila que mais tarde se elevou a cidade, mas nunca me senti a viver em mais que uma aldeia.
Não me deu ferramentas nem luz para dali fugir. Mostrava-me apenas um túnel que, acreditava, até ser prazeroso. Não conhecia outras paragens por isso aquelas não me pareciam lentas. Eram as únicas que tinha como possíveis. Estava rendida a uma estagnação que desconhecia ser real. No fundo desse corredor, onde não imaginava quantas coisas aconteciam, parece que, afinal, havia mundo.
Larguei as estradas atarracadas da vila, que insistiram em chamar de cidade, e caminhei devagar para ver se os pés se firmavam. Aguentaram-se e prossegui. Os joelhos lá se tocavam de tremores mas o passo acelerava-se ao ritmo do peito em euforia. 
Entendi o que estava para lá daquele esconso túnel e a gargalhada vinda do esófago amagou os suores frios das mãos. Os suores de ansiedade foram-se à medida que a confiança atracava. Rendi-me.
Encontrei-me naquele local. A verdadeira cidade encontrou-se comigo e eu não faltei ao compromisso. Dormi mais de dois milhares de noites nela. Vivi muitas vidas nos seus dias. Conheci um punhado de gente que ainda hoje insiste em permanecer na minha vida. Cruzei-me com outros milhares de pessoas que nem fazem ideia que lhes sinto a falta. Aqueles desconhecidos do metro, do autocarro e das ruas, que me habituei a ver nas rotinas. Ainda penso em alguns. Gostava secretamente que alguns também me sentissem a falta. Afinal de contas partilhamos passos e caminhos. Caminhos que acabaram divergentes porque as vidas também o são. Falo na primeira pessoa quando assumo que fui a primeira a divergir, quando mais tarde traí a cidade grande. Quando traí o meu amor por ela. Quando me traí. Traí-me e enganei-me quando decidi abandonar este amor pela incerteza da aventura e do desconhecido. Fiz as malas, larguei umas lágrimas, levantei a cabeça e mentalizei-me que o certo era arriscar. Rumei à ruralidade de uma outra aldeia que insistiram em chamar de cidade. E nem era a minha. Nunca foi e percebo que nunca será. Foi como se abandonasse um amor que me ensinou a crescer, por um caso com um desconhecido atraente. Nesta aldeia a que chamam de cidade, ganhei outras coisas, mas perdi a identidade. Anulei-me.
Mas mais uma vez lá me lembro das pessoas que vou pescando e aquelas que me caçaram. Também aqui, nesta aldeia a que chamam cidade, coleccionei pessoas que vou levar comigo, quaisquer que sejam os caminhos que me esperam. Amor verdadeiro e abnegado foi aquilo que aqui conheci. Daquele amor que não quer nada em troca: só se entrega.
Como me vou entregando a cada cidade que que passo, também daqui já me custaria levantar amarras. Aqui também já é a minha casa. Por isso vivo neste dilema sobre o sítio onde pousar. Sobre os motivos que me levaram a ficar num sítio em não no outro. Sobre as razões que me levarão, um dia, a querer aconchegar-me num lugar e ficar descansada. Porque sei que um dia é isso que vou querer.
Quando penso no abstracto e me coloco estas questões a resposta acaba por ser sempre a mesma: o que me prende aos lugares são as pessoas.
O dia em que mais uma vez quiser arrumar as malas, largar umas lágrimas e partir, com certeza que o farei por uma pessoa. Por alguém. Por qualquer motivo. Por um qualquer motivo que tenha a ver com pessoas, porque os bens, esses, vou largando e recolhendo exactamente nos sítios onde os encontrei. Os bens, são apenas coisas pesadas sem sentido. As pessoas nem preciso de as carregar ao colo e cabem aos milhares no coração.

Quando olho para a estrada que se vai diminuindo lá atrás, vejo que não deixei nada caído. Não perdi bens fundamentais. Não me faltou nada daquilo que mantém uma pessoa de pé. Olho para trás, por cima de um ombro que insiste em se elevar, e vejo que nada colhi. Deixei tudo exactamente onde estava. Não trouxe nada do que era dos lugares atrás de mim. Não movi nada nem ninguém. Andei e o cenário permaneceu igual. Olhando para trás vejo, que não tenho nada. Não recolhi nada.
As pessoas, as muitas que se foram colando a mim, e que eu amo que me arrastem com elas, essas boas centenas de pessoas, são bens inalienáveis e indeslocáveis. Não é importante que o sejam. É importante que permaneçam, independentemente do ponto geográfico onde se encontram. Se não puderem vir até mim, eu irei ter com elas.


Esta música... apenas porque sim.