sexta-feira, 27 de junho de 2014

Os piores dos melhores III




À semelhança do ano passado irei ausentar-me para gozar umas pequenas férias.
Por isso deixo uma selecção de textos, para o caso de precisarem entreter-se durante estes dias (apesar de existirem coisas melhores para fazer, ouçam o que eu vos digo).

O único senão, tal como no ano passado, é que estes textos não são os mais lidos, mas sim, os menos lidos de 2013 mas que muito gostei de escrever.

E quando digo menos lidos, estou a falar de menos lidos MESMO, com visitas abaixo das cinquenta espreitadelas onde trinta devem ter sido minhas.

E alguém consegue adivinhar qual foi o texto com menos visitas?

Fica ainda uma nota final: Espantoso como os textos de baboseiras foram os mais lidos (vocês gostam é de macacada e eu alinho).




Até já.



Habemus resoluções

Das Estações

O mocho

As urnas

A tua pele. A tua mortalha.

O prisioneiro

O motim

Seremos velhos

O Padre da minha aldeia

Pelo mar adentro





terça-feira, 24 de junho de 2014

As andorinhas voltam sempre a casa






Eu conheci a Sónia assim...

Eu falei da amizade pela Sónia assim...

A Sónia responde-me assim...

E depois querem que uma pessoa ande bem. Não dá, né?


Somos, masé uma cambada de choronas, pá! :)





segunda-feira, 23 de junho de 2014

Dos três aos trinta e três



"Still Loving You" é uma canção da banda alemã de hard rock e heavy metal Scorpions. Foi escrita por Rudolf Schenker com Klaus Meine, para seu nono álbum de estúdio, Love at First Sting, lançado em 1984. Em julho do mesmo ano, foi lançado como o segundo single do álbum. Sua letra tem sido vista como uma metáfora da divisão daAlemanha Oriental e Alemanha Ocidental , mas o significado real é sobre a história de um amor desesperado. Em uma entrevista com a Songfacts, Rudolf Schenker explicou: "É uma história sobre um caso de amor, onde reconhecem que pode ter acabado, mas irão tentar de novo".
O videoclipe foi lançado em julho de 1984, e foi filmado em Dallas, Texas no Reunion Arena.
É considerada uma das baladas clássicas do grupo alemão, além de ser ícone do estilo power ballad. Ingressou no Top 10 em alguns países europeus, incluindo na França, onde obteve em poucos meses, o certificado de platina ao superar um milhão de cópias vendidas. Até o momento, apenas na França, o single já vendeu mais de 1,7 milhões cópias.
Em 1992, foi lançada em uma versão remasterizada em uma compilação homónima, que em alguns países foi lançado como um single.

in Wikipédia


Pelos vistos estávamos apenas em 1984.
Lembro-me tão bem de ver semanas a fio esta música no primeiro lugar do Top + e de ter uma opinião tão formada sobre esta música, que ia jurar que tinha nessa altura treze anos e não três.
Eu tinha apenas três anos quando esta música passava vezes sem conta e eu recordo-me de tantos momentos dessa época.

Mas desengane-se quem pensa que eu tenho boas memórias sobre esta música. Porque eu odiava esta música.
Pior: tinha medo.
Medo da negritude da música (mesmo sem saber ler nem escrever, quanto mais perceber inglês), e do homem do videoclip.
Naquela altura a música parecia-me ter uma hora e meia... De tanto que a odiava. Mas ela lá continuava, semana após semana, como um sucesso de vendas, sempre em primeiro lugar.
Graças a Deus, ao fim de umas semanas já nem davam o videoclip inteiro.

Hoje, evoco esta música muitas vezes.

Aquele lado nostálgico, mais que assustador, leva-me a sítios dentro de mim a que, nalguns dias, é bom voltar. Não pela felicidade. Mas pela realidade. Porque, por vezes, preciso de me encontrar com aquela criança que já tinha sentimentos de adulto, para saber como reagir agora. Porque aquela criança velha que fui soube resolver problemas que hoje me fazem ser muito mais ligeira na maneira de encarar a vida. Não há nenhuma metáfora por trás disto, nem um moral, nem uma conclusão muito elaborada sobre a relação entre odiar e gostar desta música aos três e aos trinta e três anos. É apenas uma memória que guardo que não quero largar.  

E, voltando trinta anos atrás, à criança que se sentava no chão da sala, com a televisão de imagem a preto e branco, a ver o Top +, chego à conclusão que aquela miúda de três anos só podia mesmo ser uma fixe.





sábado, 21 de junho de 2014

Qu4tro Segundos







Uma vez, um homem, disse-me que eu devia ter vergonha do meu corpo. Mas não assim, desta maneira contida. Disse-o com outras palavras que nunca mais consegui repetir mas que não paro de ouvir na minha cabeça.

Nunca consegui ultrapassar aquela frase. De apenas quatro segundos.

Nem aquele momento, aquele dia. Nunca consegui ultrapassar a repulsa que passei a sentir pelo meu corpo. E é isso que não lhe perdoo. Ter-me roubado de mim mesma.
Não o amava e por isso não fiquei ferida por o perder. O que ficou ferido foi o amor próprio. Passei a viver num enorme embaraço dentro da minha própria cabeça. Na vergonha, como ele mesmo disse. Na humilhação das palavras.
E, desde então, não me sinto tão mulher.
E como é que se pode aceitar que alguém nos faça isto?
Que nos humilhe ao ponto de não querermos mais existir no nosso próprio corpo?

Um par de anos depois, rodeada de amor, de sentimentos genuínos, de pessoas boas, não consegui apagar aqueles quatro segundos. Não houve, depois disso, um momento que revertesse aqueles quatro segundos.
E não sei porque consigo falar disto hoje, mais de dois anos volvidos, mas talvez precise de o fazer como parte desse processo de reversão. De cura. Porque eu preciso curar-me daquele momento. Preciso voltar a mim, fazer as pazes com o meu corpo, e deixar que o meu corpo se deixe amar por quem me ama. Independentemente da forma que ele tiver. Porque naqueles quatro segundos foi-me tirada a alegria a mim e a quem agora me tem. E que por isso me tem partida em cacos.

Ainda acredito que um dia me voltarei a cruzar com o homem que me disse que devia ter vergonha do meu corpo. Mas não assim, desta maneira contida. E nesse dia acho que não lhe vou dizer nada. Porque ainda hei-de sentir vergonha de mim e ele há-de continuar a sentir-se bem consigo. Vergonha e medo. Porque, apesar desse homem nunca me ter tocado, senti-me, profundamente, violada. Senti-me ainda pior por nunca o ter conseguido contar a ninguém.

E hoje, na minha cabeça, não importa se o abuso durou apenas quatro segundos ou uma vida. Porque soube-o, nesse dia, que quatro segundos é todo o tempo que precisamos para morrer.



quinta-feira, 19 de junho de 2014

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sobre a amizade e o tempo




A amizade, talvez como a paixão e o amor, tem maneiras de nascer, crescer, de ser vivida e de se alimentar, completamente distintas ao longo das várias fases da nossa vida. Tem a ver com a maturidade. O crescimento. Porque os sentimentos também se maturam e fazem crescem.
Na infância, os primeiros amigos são os filhos dos amigos dos nossos pais, os amigos da creche, que hão-de ser os da escola, da catequese, do grupo de desporto... e crescemos com eles, com as afinidades que se desenharam ao sabor do tempo e das parcas rotinas que nos estão destinadas e decididas pelos progenitores. Não pensamos muito nisso. 
Ao crescermos, ao sermos empurrados para a vida, sobretudo se fizermos mudanças radicais como mudar de cidade, sair de casa dos pais, ir estudar ou trabalhar para fora, começamos a criar a nossa rede de amigos de uma maneira mais consciente e madura. Também são amizades mais emocionais porque, na verdade, metemos a empatia a trabalhar e os relacionamentos dão-se com quem, efectivamente, sentimos uma ligação. De certo modo, passamos a ser nós que "escolhemos" os nossos amigos.

Olhando, e comparando, as amizades de infância com as amizades formadas em idade adulta, acho que me identifico mais com as últimas. Costumo até dizer que, se conhecesse hoje alguns dos amigos que mantenho desde a infância, não haveria a mínima chance de sermos amigos. Porque seguimos vidas diferentes. Temos ideologias, opiniões, ambições diferentes. E não há mal nenhum nisto. As coisas são mesmo assim: crescemos e tornamo-nos no que queremos tornar e, o que é um facto, é que não queremos todos o mesmo. Mas que raio se faz ao amor de infância que alimentou essas amizades? Nada, claro. E por isso deixamo-las, ali, no coração.
Apesar de acreditar que com a maturidade surgem as amizades para a vida, tenho um núcleo de amigas de infância (desde os três meses de vida, ali, lado-a-lado nos berços) sem as quais não me imagino. É bom sabê-las ali, na nossa terra, e saber exactamente onde as posso encontrar. E sinto muito conforto por elas se manterem todas juntas no mesmo sítio e que apenas eu me tresmalhei. É tão bom imaginá-las a uns passos umas das outras como quando tínhamos uns cinco anos.
Ter amigos também é isto: cristalizar o tempo. Reencontrarmo-nos numa história que aconteceu há vinte anos, ou não nos reconhecermos num momento que aconteceu há dez anos. Podemos voltar atrás no tempo, usando os amigos como referências, e vermos quem éramos antes do que somos agora. Põe-nos em perspectiva. 
Com os novos amigos a vida parece dividir-se num antes e num depois: antes deles e depois deles. Um antes e depois na formação do meu carácter.
Eu acredito que os amigos, as amizades, nos moldam. Nos moldam a vida, a personalidade, o carácter, o tempo. A vida passa a fatiar-se por grupos de amigos, lugares e momentos e nunca mais a vimos como um todo, homogéneo, sem sal.
E eu sou das que prefiro a vida assim: diversos amigos em muitos lugares diferentes, com interesses diferentes e, sobretudo, com maneiras de me olhar diferentes.


[E assim me deixei ficar a pensar nesta coisa da amizade, do amor entre amigos (porque acredito que o há), nas amizades de longa data e nas amizades recentes. Fiquei assim porque de vez em quando me vejo ficar sem as pessoas de quem gosto por perto. E fiquei a pensar em qual nos dói mais uma partida? Naquelas que tivemos tempo para sedimentar uma relação ou naquela onde ainda se vive a descoberta do outro? Questiono-me, também, se será aceitável sofrer mais com uns do que com outros? E se não for aceitável, isso fará de mim pior pessoa, pior amiga dos meus amigos? Ou tornar-me-á apenas numa pessoa que tem um coração generoso e se identifica com as preocupações dos outros, independentemente, da origem da amizade e do tempo?

E no fundo todo este raciocínio começou por aqui:

Apesar de já ter aprendido que de nada vale sofrer com uma partida porque haverá sempre um regresso, desta vez, com a partida de duas amigas, sinto uma amargura diferente. Porque não é bem dor. É tristeza. É impotência.
Vão-se embora porque aqui não há trabalho. Não vale a pena dissertar sobre o assunto: aqui não encontram trabalho. Simples assim.
Quando tentei encontrar respostas dentro de mim, para a pergunta: "Mas porque é que me custa tanto que, logo estas duas pessoas recentes na minha vida, se vão embora?", fiquei ali num vai-não-vai entre motivos egoísta e motivos altruístas. Afinal de contas, antes de pensar na saudade que vou sentir, tenho de pensar no bem que isto fará às suas vidas.
Estas minhas amigas, foram escolhidas por mim. Não são amigas de infância, não são colegas/amigas, não são amigas comuns com outros amigos. São só minhas amigas porque assim quisemos ser. Porque nos escolhemos. E eu vou sentir a falta delas.]



À R. e à S.




terça-feira, 17 de junho de 2014

Repetições # 2




Hoje é dia de voltar à etiqueta "Repetições".

Exactamente no dia 17 de Junho de 2012, estava assim. Hoje não estou melhor mas por outras razões. Razões muito distintas até. Afinal, de quantas formas podemos ser abandonados?



Da tua Janela dói-me o peito





Um dia decidiste dizer que ias embora. E foste. De uma maneira fugida. Não como quem foge de alguém, mas como quem foge de si. E isso ainda me doeu mais. Isso ainda me dói.

Agora, que te revejo as ideias, imagino as deambulações dessa alma atormentada para manter um segredo assim. Vejo-te nessa situação hesitante. Acordando um dia de peito feito mas escondendo as ideias que em ti nasciam. Aprofundando sem fim a vontade de partir, mas ocultando no rosto e nas palavras os avanços dos teus planos. Partiste um dia, quase em segredo, ainda mal tinhas pavoneado a novidade. Ainda mal tinhas arrumado as ideias e a vida. Ainda mal tinhas olhado o que deixavas para trás. Mas um dia decidiste dizer que ias embora. E foste.
Saíste um dia de casa, deixando os móveis assombrados pelo despejo dos teus bens. Deixaste as gavetas vazias e as janelas cerradas. Abandonaste tudo em ti e roubaste o significado à palavra lar. A luz, que entrava generosa pela janela, não mais aqueceu o quarto onde dormias. Sentiu-se traída, a janela velha e agora teima em não funcionar. Diz que lhe fazes falta. Diz que só tu a fazes chiar. O soalho, esse, morreu pela falta dos teus passos. Secou de desgosto e não consegue mais brilhar. Inerte , como me encontro, nem o consigo consolar. Os meus passos não lhe iludem a tua presença.

De vez em quando consigo entrar no teu quarto. Primeiro olho-o de longe. Espreito-lhe o espírito. Sinto-lhe a ausência. E ele, de vez em quando, lá me deixa entrar. De passos sorrateiros para não perturbar o soalho, passo as mãos pelos móveis vazios que ali deixaste. E eles nem mexem. Morreram de desgosto e solidão. E eu deixo-os. Não apoquento os seus vazios. Também não gosto que apoquentem os meus.
De pé em pé, lá vagueio pelo quarto para ir poisar na janela. De todas as vezes, dirigi-me sempre à janela. Ela não reclama nem  resiste e, por vezes, noto-lhe a generosidade do peitoril. Sente falta que alguém por ali espreite, e eu faço-lhe a vontade. Penduro-me nela e perco o olhar. Perco as horas no pensar. Finco bem os pés no pequeno banco de madeira, agarro o peitoril com tremores, e espreito. Penduro-me nela e perco o olhar na esperança de te ver voltar. Mas um dia decidiste dizer que ias embora. E foste.

Aquele banco, ali abandonado, resiste sozinho naquele soalho mal-tratado. Como tu. Sozinho em cima das pernas a aguentar o peso do desconhecido. A lutar por ser atingido por um clarão. Por vezes, também eu fico assim. Apenas suspensa nas pernas, a olhar para o longe, como se o longe fosse logo ali. Mas não é. Como se o tal clarão te trouxesse de volta, mas não traz.

Espero que te aguentes nas tuas pernas, mas se não aguentares volta, porque tens outras tantas em casa à tua espera. Tantas quantas as pernas que tem o banco. E ele, bem o vês, continua firme à tua espera.




quinta-feira, 12 de junho de 2014

Os Pais-Deus




Hoje estava a ler um desses blogues mainstream, de pais que sabem tudo sobre filhos e parentalidade, e deparei-me com uma afirmação que me deixou a pensar. Aliás, todo o texto me deixou a pensar sobre a conta em que aquele pai se tem e de como isso o pode impedir de olhar para a relação com os filhos de maneira plena e bilateral. 
O autor do blog dizia qualquer coisa como (mesmo correndo o risco de estar a descontextualizar) "os pais são as figuras que os filhos idolatram e admiram porque, para eles, os pais são os seus super-heróis". Afirmação que me fez lembrar uma outra "de que os filhos gostam sempre dos pais" e na qual não acredito minimamente. Apesar de eu não ser mãe e por isso nunca me ser dado o direito a pensar sobre estas coisas, confesso que achei logo aquela conversa um bocado presunçosa mas, depois, reflectindo melhor, achei-a perigosa... para o filho e para a relação de pai e filho. E nisto das relações nunca nada deve ser dado como garantido, nem mesmo as que incluem sangue e código genético.
Este pai está a partir do princípio que o seu filho o olha como exemplo de perfeição, como modelo a seguir, mas será isso que o filho realmente pensa? Será mesmo um pai-exemplo? Não será antes uma ideia que ele quer alimentar? Não estará a colocar uma pressão e uma expectativa nos sentimentos do filho sobre si que, caso saiam logrados, poderão vir a ser cobrados mais tarde, de pai para filho?

As crianças, um dia, serão adultos e a relação infantil  que mantêm com os pais será, um dia, uma relação entre adultos, por isso parece-me extremamente importante que, desde cedo, os pais construam essa relação com os olhos no futuro e, sobretudo, nos sentimentos dos filhos. Que os observem, que se observem a eles próprios, e que reflitam sobre aquilo que os filhos pensam deles. Uma vez ouvi uma terapeuta falar sobre os casos que tem no consultório de filhos, já adultos, que se queixam do facto de os pais nunca terem parado para os ouvir e de nunca se terem interessado sobre as suas opiniões, gostos... E, os pais, quando confrontados com a situação, diziam não entender as razões dessas queixas porque "sempre fizeram tudo por eles". O que a terapeuta dizia, e a meu ver muito bem, é que nunca importa o que os pais dizem que fizeram, mas sim, aquilo que os filhos sentem que os pais fizeram. É um facto.

Eu compreendo que os pais e as mães queiram ser um exemplo para os filhos, que os eduquem à semelhança da educação que receberam ou mediante os padrões e princípios que acreditam ser os melhores, mas o que acho perigoso é um progenitor achar, per si, que é um exemplo de perfeição aos olhos dos filhos sem, antes, parar para o escutar, conhecer. No fundo, acho perigoso um progenitor considerar o sucesso da sua parentalidade um facto adquirido.
Podemos não ser todos pais mas todos somos filhos, de uma maneira exercida ou não, por isso todos sabemos que nem sempre olhámos os nossos pais de forma heroica, sobretudo com o avançar da idade e com a aquisição de consciência e maturidade. Aliás, todos chegaremos àquele ponto em que nos revemos nos comportamentos dos nossos pais, mesmo aquele que acharíamos repreensíveis, e compreenderemos que não somos perfeitos tal como eles não foram.
Então porque é que, na posição de progenitor, poderei pensar que o meu filho me considera o seu super-herói?
Eu até poderei querer sê-lo, e bem, mas não poderei afirmar que é isso que a criança acha, sem ser meramente especulativo.

Aquilo em que acredito é que os pais nem sempre são um bom exemplo para os filhos, porque são pessoas comuns e, as pessoas comuns, erram. Não há mal nenhum nisso, mas mais vale conviver com essa realidade do que fantasiar uma perfeição que não existe.
Aquilo em que acredito é que as crianças nos olham como redes de segurança mas não necessariamente como exemplos a seguir. Eles também conseguem avaliar o certo e o errado e, quando observam comportamentos errados nos adultos, sabem se os devem repetir ou não, ou não existiram as eternas lutas entre pais e filhos para que estes se portem bem e não digam coisas erradas, nem aplicação constante da velha moral "faz o que eu digo não faças o que eu faço".
Acredito que se os pais quiserem conhecer os filhos em vez de deixarem isso para a garantia do deslumbramento do "ele irá sempre gostar de mim", os filhos serão mais felizes, mais cúmplices dos seus pais, e mais respeitadores da individualidade de cada pessoa pelas suas vidas fora.
Não acredito no pai-Deus, que pensa que basta existir para o seu filho o idolatrar.



domingo, 8 de junho de 2014

Uma singela carta de amor




Pediste-me que te escrevesse uma carta,
Mas uma carta não se pede.
Como o amor não se inventa,
Como a paixão não se reacende,
Dou-te estas letras porque te pertencem.

Pediste-me que dissesse que te amo,
Mas o amor não se pede.
Como o futuro não se adivinha,
Como o passado não se esquece,
Dou-te este coração porque te pertence.

Pediste-me que não morresse antes de ti,
Mas a morte não se pede.
Como os dias não se contam,
Como as noites são frias sem calor,
Dou-te a minha vida em troca do teu amor.




terça-feira, 3 de junho de 2014

Maria Rita






Sabes, Maria Rita, por vezes temos de ser mais fortes que os outros, mesmo quando estamos na situação mais difícil.
Temos de dar aquele sorriso na hora certa, fazer aquele aceno de cabeça como quem consente, levantar o polegar para dizer que está tudo bem. E não é por nós, Maria Rita, nunca é por nós. É pelos outros que estão lá fora, do lado de lá do vidro: Os adultos.
Sabes, os adultos são pessoas que sabem o que é sofrer, que conhecem todas as dores - as do corpo e as da alma - porque já cá andam há muitos anos, já caminharam muitas estradas, já ouviram muitas histórias e por isso já não sonham, só vivem com a realidade. E a realidade que inventam é sempre tudo menos sonhadora. E nós sabemos que sonhar é bom. 
Por isso, Maria Rita, quando vires um adulto sem esperança, derrubado pela realidade da vida, e com os braços estendidos de cansaço, dá aquele sinal de que eles precisam. Um piscar de olho, um esgar com o canto da boca, um bocejo, que seja, mas alimenta-lhes a fé. E lembra-te que não é por nós, nunca é por nós. Mas esses adultos precisam de voltar à estrada sem curvas e às histórias sem fantasmas. Precisam de voltar a acreditar que em cada ser que nasce há esperança. Que há continuidade, descendência, e que essa continuidade e descendência é que os virá salvar de uma vida cheia de obstáculos. 
Sabes, Maria Rita, desde o início que a vida contigo se desenhou melhor e por isso esperam tudo de ti. Esperam que dês o tal sorriso que os irá resgatar, que lhes dê as forças que eles já não têm. Mas tu sabes bem que a tens. Nesse coração pequenino, do tamanho de um polegar, há mais vida que numa dúzia de corações de gigantes.

Então põe-no a pulsar.



Música: Menina da Lua
Cantora: Maria Rita

Leve na lembrança
A singela melodia que eu fiz
Pra ti, ó bem-amada
Princesa, olhos d'água
Menina da lua

Quero-te ver clara
Clareando a noite intensa deste amor
O céu é teu sorriso
No branco do teu rosto
A irradiar ternura

Quero que desprendas
De qualquer temor que sintas
Tens o teu escudo
O teu tear
Tens na mão, querida
A semente
De uma flor que inspira um beijo ardente
Um convite para amar

Leve na lembrança
A singela melodia que eu fiz
Pra ti, ó bem-amada
Princesa, olhos d'água
Menina linda




segunda-feira, 2 de junho de 2014

Em nome de Samael (Áudio)

video




Em nome de Samael

Diz-se que vou morrer.
Que alguém me procurará.
Essa coisa da morte.
Esses anjos que são demónios.
De sorrisos cândidos e fingidores.
Estupores.
Julgam que eu não sei o que os traz.
Mas sei-o bem.
Trazem a dor.
O silêncio.
A agonia.
As promessas que se quebrarão.
As palavras enganadas.
Trazem provas de resistência.
De desistência.
Trazem decisões impossíveis.
Obrigações que todos quererão negligenciar.
Esses bastardos desses anjos virão vergar-me.
Dizer-me o meu lugar.
As minhas limitações.
A minha humanidade.
A minha grandiosa insignificância.
Vão dizer-me que sou atacável.
Vão mostrar-me que sou derrubável.
E assim irão derrubar.
Conseguirão que todos tenham pena de mim.
Que lamentem o meu findar.
Esses anjos assistirão aos choros dos vencidos.
Daqueles que não me conseguiram fazer viver.
Desses que contavam comigo para primeiro os ver morrer.

Não morro tranquila.
Julgava a morte longe do sítio onde me encontro agora.
Julgava que todos morreriam antes de mim.




publicação original aqui!