segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Homem por instantes

Esta imagem só porque me diverte
[e para a minha amiga Elsa que diz que vai ter pesadelos]




A comida demora sete segundos a passar da boca ao estômago. O cabelo consegue aguentar até 3 kg. O comprimento do pénis é  três vezes o comprimento do polegar. O fémur é tão duro como o cimento. O coração das mulheres bate mais depressa. As mulheres piscam duas vezes mais os olhos. Usamos trezentos músculos para manter o equilíbrio. As mulheres leram o texto inteiro... O homem continua olhando para o seu polegar.


[Encontrei isto entre umas coisas antigas. Não sei porquê hoje achei graça. Quer dizer, eu sei porquê: porque também fiquei a fazer contas ao polegar... gaita...]




quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Eu já não sou eu




Todos os dias, quando me olho ao espelho pela manhã, vejo outra pessoa. Deixei de ser quem era. Perdi-me de mim. Abandonei-me.
Vejo a mãe que perdeu um filho, vejo a mulher que sofre todos os dias em silêncio, vejo a mulher que perdeu a força, vejo a mulher que tem de fingir ser o que já não é, vejo a mulher que tem pena de si mesma. Vejo o que mais ninguém vê.
Todos os dias, depois de passar a água pela rosto, ao regressar com os olhos ao espelho, inspiro e lamento a pele que tenho de vestir a partir daquele momento. Lamento-o e lamento-me.
Dali em diante, tenho de ser a pessoa que era antes. Tenho de ser a colega de trabalho de sempre, a amiga animada e disponível de sempre, a filha presente como sempre, a mulher de sempre.
Mas já não o sou. Apenas vou fingindo ser. Para que não hajam perguntas. Para descanso dos outros. De todos aqueles com quem cruzo os meus dias e que me julgam regressada ao que era, sem histórias nem passado e presente por resolver.
Todos os dias, ao sair de casa, arrasto estes olhos, agora lamacentos, e esta alma estilhaçada. Com os vértices afiados a infligirem-me dor, sempre. Mas vou. A normalidade lá fora obriga-me a ir. A encenar mais um dia. E a esperar que as horas corram, para que eu possa voltar a casa, tirar a máscara da normalidade, e dar ao espelho a pessoa que não sou.
Em troca, aguardo que o espelho me devolva a mim mesma.
Àquela pessoa que agora, tão distante e estranhamente, sou.