19.7.12

Os piores dos melhores




A eterna questão:

Porque é que alguns textos foram lidos milhares de vezes, como este, e outros nem receberam um par de olhos em cima?

Transformando a questão em resposta imediata:

Estou de saída por uns tempos e queria deixar-vos algo novo que pudessem ler. Queria deixar-vos o melhor do melhor!
Por isso dediquei-me a seleccionar os textos que mais gostei de escrever em 2011 mas que, simultaneamente, foram os menos lidos de sempre.
Não estão aqui os que mais gostei de escrever e que foram lidos centenas de vezes. Não.
A vocês ofereço apenas os meus mais adorados filhos de 2011, mas que ficaram órfãos de leitores.
Por isso vos digo que deixo algo novo para ler. Porque estes textos receberam raras visitas.
Morreram sozinhos.

Os melhores dos piores... ou os piores dos melhores... a verdade é que vos deixo um texto por dia, para cada um dos dias que estarei ausente, porque não aguento estar ausente por um dia que seja.

Estarei de olho em vocês.
Até já.


Morre seu filho da mãe. Morre.

A queda de Sócrates

Deus e o Diabo

O prodigioso terminal de autocarros

A fita de Möbius

A praia dos clichés

A freira e a prostituta

O álbum

Carta a Saramago

Um dia, não me caso.

A nespereira e o marmeleiro

A Esfera





16.7.12

O homem que veio da Lua

Ilustração Dias Cães


No dia 16 de Julho de 1969, nasceu apenas uma criança em todo o planeta Terra. 
No dia em que - dizem - o homem foi à Lua.

Na sua aldeia todos ficaram desconfiados. Nunca tinham visto a Maria grávida e, de repente, no dia em que - dizem - o homem foi à Lua, o seu filho nasceu. Coisa estranha esta, de nascer a única criança em mais de vinte anos naquela aldeia, logo no dia em que a Lua ficou mais perto da Terra e o homem lhe conseguiu chegar. Logo no dia em que não nasceu mais nenhuma criança no resto do mundo.
O boato não tardou a espalhar-se: "O filho da Maria veio da Lua".
O miúdo lá foi crescendo com o estigma e as histórias a rondarem-lhe a cabeça e, de tanto insistirem na teoria, até ele começou a acreditar que tinha vindo num foguetão, directamente da Lua, para ser entregue aos cuidados daquela mulher a quem chamava de mãe. Até o miúdo acreditava que tinha vindo da Lua e, com o passar dos anos, passou a comportar-se como tal. E já ninguém estranhava. O miúdo era do mais esquisito que tinham visto. Era mesmo.
Era aluado na escola, não tinha amigos porque orbitava por outros interesses, e nunca teve namoradas por ter a cabeça no mundo da Lua. O miúdo era estranho, todos concordavam. Vivia lá no mundo dele, apesar de nunca ter conhecido outro que não fosse o da sua aldeia. Da sua aldeia e de toda a superfície da sua legítima mãe, que todos os dias continuava a visitar. Lá olhava pela janela, todas as noites, para tentar compreender a sua mãe, compreender-se a si e compreender porque diabo ela o tinha mandado assentar pés na Terra. Mas ele nunca quis ter os pés assentes. Nunca se quis ficar pela Terra. Tão pouco pela aldeia. O miúdo era tonto mas sonhava. E os seus sonhos voavam, sempre em direcção à sua mãe.
Por isso um dia pensou em construir um foguetão e montar-se nele. Recolheu sucata em todas as casas, oficinas e lixeiras. Aprendeu mecânica e astronomia. Inventou instrumentos e traçou rotas. Desenhou um fato e ensaiou viagens. Estudou este mundo e o outro. Conheceu tudo sem sair do sítio. Cresceu. Ambicionou. Fez. Um dia pensou em construir um foguetão e construiu. Um dia pensou em fugir e fugiu. 
Agora vive na Lua e já nem pensa voltar. Vive sozinho mas com os olhos a brilhar.

Hoje, passados 43 anos desde o seu nascimento, na aldeia todos sabem: Afinal este homem não veio da Lua, afinal este homem é mesmo de outro mundo.


Ao Salvador,
Parabéns.


11.7.12

Bagagem fora de formato




(quem não gosta de posts ressabiados, por favor não leia este)

A maltinha gosta muito de falar da vida alheia. Já se sabe que sim. E quando essa maltinha vive nas profundezas do Alentejo e nunca viu outra coisa na vida que não fossem batas de nylon com padrões esteticamente questionáveis e sapatinhos ortopédicos, então estamos mesmo mal. E eu percebo isso tudo em aldeãs de 99 anos, mas já me custa mais a aceitar em gajas de 30 e tal anos que vivem na cidade.
Sempre fui bagagem fora de formato por cá. Eu sei, reconheço e não me sinto mal com isso. Umas roupas esquisitas, uns sapatos diferentes, uma personalidade descontraída (epá isso é que não! Então a malta anda-se a suicidar em massa por causa de sermos uns deprimidos e vem para aqui esta gaja rir-se?) … Enfim, vê-se a milhas que não sou de cá e ainda não me moldei totalmente à coisa. Mas não espero tratamento especial por isso, muito pelo contrário. Esperava a esta altura do campeonato que olhassem para mim e já não vissem nada. Ou melhor, que me vissem de bata de nylon e sapatos ortopédicos e ficassem sossegados.
Não generalizando (que é coisa que eu até gosto muito de fazer mas hoje não em apetece), admito que não sinto olhares reprovadores de toda a gente, mas a verdade é que ainda os há.
Desde opinarem sobre uns sapatos “demasiado coloridos”, a aconselharem-me a não usar roupa preta, a dizerem que me viram aos beijos na boca com um colega que é casado (e não muito atraente), até tentarem humilhar-me relativamente à minha condição física, tem valido de tudo nestes anos que estou por cá. E eu continuo sem cu para aturar isto.
E se dúvidas tivesse, de que ainda não me olham como igual, de quando em vez lá sou brindada com comentários de gente que devia estar a trabalhar mas prefere passar o tempo a falar dos outros. E ainda dizem que não há trabalho no Alentejo! Então não há? Falar da vida dos outros dá um trabalho dos diabos.
E foi assim, mais uma vez, que um destes dias lá tive de ouvir mais um comentário (por favor tentem falar mais baixo se a ideia for eu não ouvir) quando entrei no café perto do trabalho e duas coleguinhas encostadas ao balcão trocaram este diálogo, em relação à minha pessoa, como não podia deixar de ser:
- Esta está mais magra.
- Não acho. Já a vi melhor.

Eu sei. Foi curto e desenxabido. Podiam ter descambado também na cor das unhas dos pés. Mas foi só mesmo isto e eu não sou de inventar.
Isto, entenda-se, foi dito enquanto aqueles quatro olhinhos que não deviam existir, me percorreram de baixo para cima, culminando no meu encantador sorriso que lhes denunciou imediatamente que eu ouvi a conversa. E eu percebo esta ordem, uma vez que a minha estonteante variedade de sapatos é coisa para ser apreciada em primeiro plano, sobretudo para quem não alterna muito entre chinelos e pantufas. O meu sorriso… enfim… preferem deixar para último para não serem confrontadas com a minha excelsa e exemplar dentição… que isto de ter os dentes todos às vezes atrapalha as pessoas e podiam já não conseguir continuar a destilar veneno o resto do dia. Mas adiante.
Posto isto, ainda houve tempo para largarem um “vamos embora que já falámos mal de toda a gente”, e lá levantaram aqueles cotovelos desidratados do balcão, colocando as carteiras debaixo dos sovacos e arrastando os pés cheios de calosidades dali para fora.  
Agora, analisando aquelas pessoas, e podendo descambar nelas da maneira menos polida possível, eu prometo aqui e agora que não o irei fazer. Pois que não irão sair das pontas destes dedos comentários desagradáveis dirigidos àquelas duas pessoas. Porque reconheço – porque sim, sou boazinha – que a uma delas bem chega pesar dez arrobas e parecer um lenhador, e à outra bem chega ser uma mal fodida e ter cara de acidente nuclear numas minas de carvão. E ser mal fodida é coisa que colhe toda a minha solidariedade, por isso não vou falar mal. Desejo apenas que ela se vá foder (Isto é libertador. Têm de experimentar em voz alta).
Também sinto alguma simpatia pela outra, por pesar mais de dez arrobas e também ser uma mal fodida, mas isso é culpa dela, por isso que se lixe. Vá, quanto muito poupo-a por ter sido aquela que achou que eu estava mais magra (mas honey, perto de ti todaaaaa gente está mais magra).

Eu fui sempre bagagem fora de formato cá no burgo e não creio que isto tenda a alterar-se. Bem sei que muitas vezes a exclusão e discriminação começam na própria pessoa e na atitude que tem para com os outros, ou que opta por ter nos meios em que se move. Não é o caso. Garanto. Não é o caso.

Agora, para finalizar, apenas peço:
Deixem lá de reparar se estou gorda ou se estou magra, se venho de saltos altos ou descalça, e se comi dois gajos ou três na semana passada. Se não se sentem bem convosco, façam por estar. Já em tempos ouvi uma grande verdade, relativamente aos comportamentos que temos em relação aos outros, dizerem muito sobre nós próprios. Ouvi dizerem: “Há qualquer coisa naquela pessoa que não gosto em mim”.
E se calhar é isso mesmo. Eu tenho qualquer coisa que vocês, não gostam em vocês mesmas.
E esta é de borla.
Vão lá para casa pensar no assunto.




9.7.12

A Aritmética do Tesão



Olha. Desvia. Olha. Sorri. Desvia. Atiça. Sorri. Move. Atiça. Avança. Move. Beija. Avança. Lambe.

1        2         1       3         2         4        3         5         4          6           5        7          6            8         

Beija. Morde. Lambe. Saliva. Morde. Chupa. Saliva. Geme. Chupa. Deseja. Geme. Fode. Deseja. 

7         9           8        10         9         11        10       12         11       13          12        14       13        

Entrega. Fode. Toca. Entrega. Grita. Toca. Ama. Grita. Suspira. Ama. Abraça. Suspira. Liberta.

 15         14         16         15        17       16       18       17      19       18       20       19       21

Abraça.  Abandona. Liberta. Afasta. Abandona. Açoita. Afasta. Ignora. Açoita. Mata. Ignora. Mata.

20          22          21         23          22           24         23        25          24        26       25        26






2.7.12

Desejos obscuros



Os infinitos corredores de mármore ampliavam as sombras das enormes janelas de sacada do antigo convento. O brilho da luz da manhã lambia o chão polido e agudo, travado pelas imensas paredes brancas decoradas com lambris de azulejos em cobalto e estanho.
Os seus passos ecoavam em cada um dos generosos corredores e o rosto ora iluminava-se ora ensombrava-se, conforme se iam descontando as janelas. Caminhava firme pelo mármore mas de rosto sobre os pés. De pasta na mão direita e dois ou três livros debaixo do braço esquerdo. Por vezes erguia a cabeça e cumprimentava alguns professores seus colegas, mas apenas por cortesia. Tinha uma atitude reservada.
Uma vez por semana, precisamente antes das aulas de teoria de arte que leccionava, a sua pulsação estranhamente balava-se quando os, seus passos certos pelo mármore, eram interrompidos pela passada ritmada de uma intrigante aluna. Sua aluna. Cruzavam-se apenas ao último dia de cada semana. Olhavam-se de soslaio antes de cada aula e fugiam com os olhos logo depois. Os olhares cruzavam-se mil vezes durante a aula. Tantas quantas as vezes que se evitavam. 
Um punhado de semanas depois o jogo já se agoniava na sua garganta. Sabia que era errado desejar o corpo da sua aluna, mas era inegável a sede que tinha de a possuir. A aluna atiçava-lhe a vontade em cada lábio sugado e a cada toque propositado no decote. Em cada mamilo teso que denunciava sob as blusas finas e entreabertas. Os pensamentos assombravam-lhe os dias, as noites, e os seus passos por aqueles corredores. Temia cruzar-se com ela e não lhe resistir.
Um dia, ao fundo de um dos longos corredores, viu-a a espreitar e a recolher-se logo de seguida. Intrigou-se. Hesitou. Foi atrás. Acelerou os passos. Levantou a cabeça. O peito batia mais rápido. Dobrou a esquina do corredor e vislumbrou-a ao fundo, a escapulir-se novamente. Desta vez não se deteve e correu. Largou a pasta e os livros, correu de peito aberto e de susto no rosto. Ao fundo do corredor uma  das portas estava entre-aberta. A biblioteca estava, inexplicavelmente, aberta naquele momento. De pulso descontrolado, entrou sem hesitar.
A sua aluna esperava.
Semi-nua.
Pousada sobre uma poltrona velha. 
Com o desejo a saltar-lhe pelas mamas.
Com a vontade a latejar-lhe entre pernas.
Entreabriu os lábios sensuais para dizer "quero-te", mas sem dizer nada.
A professora correu para o corpo da sua aluna.
Beijou cada milímetro da sua pele e entregou a sua boca aos mamilos tesos da jovem mulher que naquele momento possuía. Chupou cada um até lhe sentir os gemidos de prazer.
As duas entregaram-se de modo ardente e compulsivo, aos dois corpos de mulheres, por entre livros e estantes de mogno velho. Por entre luxo e tesão. Por entre o proibido e o desejado. Apaixonavam-se a cada língua que sentiam. A cada dedo que faziam penetrar. A cada olhar que já não evitavam.

A luz rasante do fim do dia, que agora deslizava pelas janelas de sacada, tocava-lhes de modo quente os dois corpos desnudados sobre a tapeçaria em que dormiam. Abraçadas. De pernas entrelaçadas. Beijaram-se pela última vez na promessa de não voltar a acontecer.
Voltaram a amar-se todos os dias contra a sua vontade.
Contra a vontade de todos os que, entre velhos mármores e velhos mognos, as julgaram.


À nAnónima


28.6.12

Sobre a felicidade e os novelos



*

Uma vez na praia ouvi uma mãe, desesperada por adormecer o seu pequeno filho, dizer-lhe: "Oh filho, mas porque é que não dormes? Para dormir basta fechar os olhos". 
E aquilo foi um momento revelador. Estranhamente revelador e lúcido. 
Naquele instante, aquela lógica, pareceu-me ter encaixe em muitas outras coisas. Era tão simples aquela ideia, mas tão simples, que me questionei porque não funciona assim em tudo na vida?
Tens fome? Então porque não comes?
Tens frio? Porque não te vestes?
Tens medo? Então porque não enfrentas?
Estás cansado? Porque não te sentas?
Nisto, enquanto tentava perceber porque é que aquela criancinha não conseguir dormir apesar do bom conselho da mãe, procurava na minha cabeça respostas também para outras coisas tão importantes da vida, mas que não conseguimos resolver por vias tão pragmáticas. E cheguei a uma conclusão. A criança não precisava apenas de fechar os olhos para dormir: ela tinha de querer dormir. Ela tinha de permitir-se fechar os olhos. Tinhas de ter essa vontade. Dependia apenas do “seu querer”. Naquele momento as felicidades, da mãe e do filho, dependiam apenas de “um querer”, e quem devia ter esse querer, naquele momento, não quis. E, assim, a outra felicidade ficou comprometida por isso.

Conheço muita gente que lamenta não ser feliz, mas na verdade nunca o quis ser. Nunca se permitiu ser. São pessoas que deixaram os factores externos terem mais poder de intervenção, que a sua própria vontade. São pessoas que fecham os olhos mas nunca se deixam dormir. São pessoas que não querem dormir com medo que os outros as acordem. Têm medo de ser acordados e gostar. Parece que têm medo de ser felizes.
Também há os que não são felizes porque penduram essa felicidade numa decisão dos outros. Porque não sabem caminhar sozinhos e dependem do bocadinho de felicidade que os outros lhes queiram proporcionar.


*

Há muitos anos, discutia com um namorado um assunto tão importante para ele, que eu já nem me lembro qual era. Mas era muito importante, com certeza, porque para mim só vale a pena discutir (brigando) quando o assunto é sério. Mas, honestamente, acho que apenas estávamos a divergir porque a comunicação estava a acontecer em frequências diferentes e, já se sabe, grande parte dos problemas entre as pessoas têm origem nas falhas de comunicação. Ainda assim eu quis dar uma oportunidade àquela conversa, mas eliminado a discussão, e por isso tentava explicar-lhe a sua inutilidade. Expliquei que devíamos optar por simplificar os raciocínios mas investir esforços em verbalizá-los na perfeição e que, quanto mais simples fosse a sua entrega à comunicação, menos desentendimentos existiriam, porque a probabilidade de o receptor perceber mal a mensagem, seria muito menor.
Ficou irado. Queria discutir e eu não estava a alinhar.
É que para mim, dentro do bolo da felicidade, as discussões inglórias não têm lugar. São uma espécie de tripas de peixe em cima de uma tarte de amêndoas: simplesmente, não bate certo. Ser feliz num território de conflito é, para mim, entrar em zona non aedificandi. Por isso procuro primeiro o caminho simples para as coisas: conversar. Conversar apenas. Ser simples. Comunicar de modo simples. Mas comunicar muito.
Lá continuei a minha senda de apaziguamento e tentei explicar-lhe que não pensávamos da mesma maneira porque ele tinha um raciocínio complexo, enquanto o meu era linear e que as atitudes pragmáticas são quase sempre as melhores. Mas não estava a ter sucesso.
E eis que se deu um episódio que viria a ficar para as histórias das nossas vidas (que, entretanto, cada um seguiu com a sua).
Com as palavras já  esgotadas e a perderem o sentido, transmiti-lhe num gesto o que estava a pensar daquilo tudo, dizendo-lhe com as mãos:  "É que tu pensas “assim”, enquanto eu penso “assim”".
Enquanto no primeiro "assim" simulava o gesto de enrolar um novelo de lã emaranhado e, no segundo "assim", parecia desenrolar desse novelo um fio simples e direito.
Ele quedou-se. Percebeu que dentro dele o novelo tinha a mesma extensão de fios que eu tinha dentro de mim, mas os fios deles estavam todos enrolados, e os meus não.


Nos momentos em que a felicidade não nos atinge porque temos problemas em comunicar, devíamos lembrar-nos deste novelo. Pensarmos que está nas nossas cabeças viver apenas com um fio de lã em vez passarmos a vida a embrulhar um novelo. Porque é fácil emaranhar um fio até dele fazer um novelo, mas é muito mais difícil desembaraçar um novelo até obtermos apenas um fio.






20.6.12

Um dia. Fomos um.




Houve um dia em que vivemos tudo.
Vivemos tudo apenas naquele dia.
Eu fui tua.
Tu, irremediavelmente, meu.
Um dia.

Vivemos juntos.
Caminhámos abraçados.
Beijámos os lábios.
Adormecemos lado a lado.
Acordámos um só.

Olhei-te para lá dos olhos.
Tu viste-me o fundo.
Eu disse-te palavras sem som.
Dei-te o corpo à paixão.
Deste-me o teu amor no silêncio.
Por dentro gritámos.

Tocámos a nossa pele em tempo lento.
Dedilhaste colcheias até ao meu coração.
Balbuciei-te gemidos de lábios rendidos.
Ofeguei choro de emoção.
Disse-te tudo sem falar.
Pousei-te o olhar.
Não fugiste.
Avançaste em mim.
Eu inspirei.
O mundo dissipou-se.

Demos mãos e sorrisos.
Gargalhámos para o ar.
Lambuzámos os rostos.
Contemplámos as expressões.
Entregámo-nos aos minutos.
Esperámos nunca acabar.

Corremos juntos.
Nadámos nus.
Voámos alto.
Caímos duro.
Sofremos cortes.

Bifurcaram-se os caminhos.
Ficaram negros os olhares.
Pesaram-nos os pés.
Travaram-se as pernas.
O coração queria voar.
Não voou.

Eu olhei-te com dor.
Tu disseste apenas um som.
Não entendi a palavra.
Senti em ti o pesar.
Acenaste ao amor.
Foste em desespero.
Avancei a desmaiar.
Afastámo-nos dois.
Já não éramos só um.




[Informação adicional para os leitores com limitações auditivas: Coloque as mãos sobre as colunas de som. A música é intensa e emocionante, tal como nós a ouvimos. Mas trata-se apenas de uma melodia. Esta música não tem letra. O texto é de minha autoria, não se tratando da transcrição da letra da canção, como já me foi questionado. Fechem os olhos. Usufruam do seu ritmo e da sua intensidade. Aqui não são precisas palavras.]



17.6.12

Da tua janela dói-me o peito



Um dia decidiste dizer que ias embora. E foste. De uma maneira fugida. Não como quem foge de alguém, mas como quem foge de si. E isso ainda me doeu mais. Isso ainda me dói.

Agora, que te revejo as ideias, imagino as deambulações dessa alma atormentada para manter um segredo assim. Vejo-te nessa situação hesitante. Acordando um dia de peito feito mas escondendo as ideias que em ti nasciam. Aprofundando sem fim a vontade de partir, mas ocultando no rosto e nas palavras os avanços dos teus planos. Partiste um dia, quase em segredo, ainda mal tinhas pavoneado a novidade. Ainda mal tinhas arrumado as ideias e a vida. Ainda mal tinhas olhado o que deixavas para trás. Mas um dia decidiste dizer que ias embora. E foste.

Saíste um dia de casa, deixando os móveis assombrados pelo despejo dos teus bens. Deixaste as gavetas vazias e as janelas cerradas. Abandonaste tudo em ti e roubaste o significado à palavra lar. A luz, que entrava generosa pela janela, não mais aqueceu o quarto onde dormias. Sentiu-se traída, a janela velha e agora teima em não funcionar. Diz que lhe fazes falta. Diz que só tu a fazes chiar. O soalho, esse, morreu pela falta dos teus passos. Secou de desgosto e não consegue mais brilhar. Inerte , como me encontro, nem o consigo consolar. Os meus passos não lhe iludem a tua presença.

De vez em quando consigo entrar no teu quarto. Primeiro olho-o de longe. Espreito-lhe o espírito. Sinto-lhe a ausência. E ele, de vez em quando, lá me deixa entrar. De passos sorrateiros para não perturbar o soalho, passo as mãos pelos móveis vazios que ali deixaste. E eles nem mexem. Morreram de desgosto e solidão. E eu deixo-os. Não apoquento os seus vazios. Também não gosto que apoquentem os meus.

De pé em pé, lá vagueio pelo quarto para ir poisar na janela. De todas as vezes, dirigi-me sempre à janela. Ela não reclama nem  resiste e, por vezes, noto-lhe a generosidade do peitoril. Sente falta que alguém por ali espreite, e eu faço-lhe a vontade. Penduro-me nela e perco o olhar. Perco as horas no pensar. Finco bem os pés no pequeno banco de madeira, agarro o peitoril com tremores, e espreito. Penduro-me nela e perco o olhar na esperança de te ver voltar. Mas um dia decidiste dizer que ias embora. E foste.

Aquele banco, ali abandonado, resiste sozinho naquele soalho mal-tratado. Como tu. Sozinho em cima das pernas a aguentar o peso do desconhecido. A lutar por ser atingido por um clarão. Por vezes, também eu fico assim. Apenas suspensa nas pernas, a olhar para o longe, como se o longe fosse logo ali. Mas não é. Como se o tal clarão te trouxesse de volta, mas não traz.

Espero que te aguentes nas tuas pernas, mas se não aguentares volta, porque tens outras tantas em casa à tua espera. Tantas quantas as pernas que tem o banco. E ele, bem o vez, continua firme à tua espera.




14.6.12

Na minha ausência...


Tudo começou assim, quando a SS me propôs uma troca: Aceitava um livro do "Dias Cães" se eu aceitasse uma sessão fotográfica realizada por ela. E eu aceitei!
A SS é verdadeiramente talentosa e esta é uma pequena amostra (muito pequena para quem é tão grande no que faz) do dom que tem para fotografar, e para olhar para as coisas com olhos de quem sonha. Foi das primeiras seguidoras do blog e um dia decidimos conhecer-nos pessoalmente. Não tinha como recusar tão simpático convite.
Assim, esta semana, aproveitando as férias por Lisboa, lá fomos as duas à descoberta de um lugar para fazermos as fotografias. A Tapada das Necessidades foi o cenário. Um deslumbrante e surpreendente cenário.

Adorei a tarde, a companhia, a experiência e, sobretudo, gostei de ter ficado com um registo da fase "Dias Cães" que estou a atravessar. Sim, porque um dia há-de esgotar-se mas eu vou querer olhar para trás e ver o que fiz. Este registo fotográfico vai, com certeza, fazer parte das muitas recordações deste período vivido por entre as letras. Por entre as histórias. Por entre os livros.


Agradeço à SS a generosa oferta esperando que o sucesso lhe bata à porta... ou à objectiva da sua câmara fotográfica.

Muito, muito obrigada!



10.6.12

Volto já...


Estou de partida. Estarei uma semana na cidade de onde nunca devia ter saído. Por isso não vou escrever.

Eu sei que não.