26.8.12

A viúva e a criada



A expressão no rosto era a mesma de quando enterrara os seus outros seis maridos. Já se tinha habituado a casamentos curtos e a lutos longos. Nenhum dos seus sete casamentos tinha durado mais de seis meses mas a infelicidade de os perder a todos parecia prolongar-se por uma eternidade. Uma espécie de maldição, falavam, que parecia ter-se abatido sobre aquela bela viúva. A mais bela e voluptuosa viúva que todos os homens preferiam morrer a arriscar ter, do que morrer sem nunca ter tentado. Todos os seus maridos faleceram entre as suas pernas, ainda estas mal se tinham aberto, mas todos morriam de satisfação no rosto. O romance quedava-se rápido, interrompido pelas mortes inesperadas mas as alegrias pareciam estar-lhes gravadas nos corpos.
Tórridas noites e tórridos dias, viam o desfilar de corpos por aquela cama, quentes e em exaltação, como se adivinhassem que o fim se aproximava. Amou todos os seus maridos, todos os dias, e fornicou-os todas as noites, como se antevisse o seu final prematuro. E tinha razão para o temer.

Depois dos funerais chegava a casa, sem forças, e com o corpo magoado pela perda, desejando apenas entregar-se ao conforto da sua casa. A mansão, que tinha herdado do primeiro marido e que nunca deixou para trás, ainda lhe trazia boas recordações e por isso manteve sempre tudo no seu lugar e nunca se desfez de nenhum empregado. Quando chegava a casa tinha sempre à sua espera a sua mais fiel empregada. Como de costume pedia a Carlota que fizesse o seu chá de jasmim e mel, lhe preparasse o banho quente e lhe perfumasse o quarto com incenso da sândalo.
Carlota, a sua jovem criada, obedecia-lha e tinha-lhe verdadeira devoção e nunca, jamais, questionara uma ordem ou um pedido da sua bela patroa. Carlota tinha-lhe uma submissão que, por vezes, transbordava a simples dedicação e dever de empregada. Vivia para satisfazer a bela viúva.
Depois de cada um dos sete funerais, a que Carlota assistira, essa entrega era maior. Preparava tudo com mais atenção e acrescentava pormenores que sabia agradarem à desconcertante viúva. Com o chá, preparava os biscoitos de quinoa que sabia serem os seus preferidos, para o banho perfumava a água e aquecia as toalhas de algodão branco e, no regresso ao quarto, aguardava-a com uma massagem de óleos quentes.

A cada peça de roupa caída sobre o chão de mármore negro e branco, Carlota apaixonava os seus olhos a cada curva do corpo da sua bela patroa. Deixava-se enredar pela pele perfeita e pelos seus cabelos longos e estonteantes caídos sobre as costas. Já conseguia sentir as suas mãos a deslizarem ao longo das pernas torneadas e a tocar-lhe as mamas com as pontas dos dedos. Imaginava o encontro do seu corpo com o corpo untado em óleo da sua patroa. Sabia bem que os corpos se aqueciam quando as mamas de ambas se encaixassem e se beijassem ardentemente. As línguas, trocadas entre apertadelas de nádegas e chupões de mamilos, preparavam os orgasmos contidos que ambas desejavam.
Finalmente, naquela noite de luto, a bela viúva deixou-se envolver pelo chá refinado de Carlota e entregou-se ao tesão de fornicar a sua jovem e atrevida criada. Enlouqueceram-se durante toda a noite numa luta de sexo e suor. De desejo e descoberta. Carlota, finalmente, saciou-se com a sua bela patroa.

Todas as noites em que a viúva dormia com os seus maridos, Carlota escutava os gemidos de prazer do seu quarto. Furiosa e de desejo atiçado, masturbava-se com os gritos da sua patroa e gritava com raiva para dentro. 
Prometia todas as noites, a si mesma, que um dia aqueles gemidos aconteceriam quando o seu corpo possuísse o da sua bela patroa. No dia em que a comesse toda a noite e esta gritasse cada vez mais, e mais por ser possuída. Depois de tanto tempo a invejar o lugar daqueles sete maridos, Carlota lá o alcançou.

Foram precisos sete chás, setes noites e matar sete homens para que isso um dia, finalmente, pudesse acontecer.





17.8.12

O fato da senhora M.



A senhora M. vestia todos os dias o mesmo fato. Vestia todos os dias o mesmo fato, há mais de quinze anos. E nesses quinze anos o seu fato já tinha estado ora apertado, ora folgado. Ora puído, ora lustroso. Nuns dias o fato parecia assentar-lhe na perfeição mas em muitos outros dias nem se conseguia olhar ao espelho. Achava aquele fato um truque de ilusionismo do qual não se conseguia livrar. Por vezes odiava-o e queria um novo mas não sabia como o conseguir. Angustiava-se. Sofria sozinha. Silenciava a dor. Sonhava que um dia acordava e tinha um fato novo. Ali mesmo, sem esforço. Mas no fundo do seu ser sabia que isso nunca iria acontecer. E então lá continuava, atormentada com a realidade, a tentar mudar qualquer coisa que fosse no seu fato, sem saber como. A dar-lhe a graça que não tinha.
Por vezes, a senhora M. ganhava coragem e lá se dispunha a fazer umas pequenas emendas no fato. Cortava ali, cozia acolá. Apertava de um lado, esticava para o outro. Mais umas pregas, umas bainhas e, por vezes, muito raramente, até parecia que a coisa se ia ajeitar. Mas a costura não era o seu condão e acabava por desarranjar o que parecia já estar bem alinhavado. Era trapalhona e não sabia cuidar bem do seu fato. Acabava a estragar, logo depois, o pouco que tinha conseguido fazer.
Uma coisa era certa: aquele fato não pertencia à senhora M. e a senhora M. nunca gostou daquele fato.
A cada dia que passava ganhava-lhe cada vez mais aversão. Queria acabar com ele. Queria sentir-se linda num fato novo. Fazer girar cabeças na rua. Soltar comentários elogiosos das bocas de homens e mulheres. Queria que vissem linda por fora, como sabia ser por dentro.

Um dia saiu à rua com o peito cheio de coragem para comprar outro fato. Voltou para casa, de braços rendidos e de tristeza desenhada no rosto. Desistiu de comprar o fato. Desistiu de mostrar uma coisa que não era.
Entregou-se ao inevitável. Passou o velho fato a ferro e voltou a vesti-lo. Continuou assim, infeliz, de braços estendidos, à espera que um dia alguém lhe veja a beleza, tal e qual como ela é.

O fato até podia ser medíocre, mas foi o único que a senhora M. teve, e aquele com o qual teve de aprender a viver.





9.8.12

Iogurtes de morango




Um dia acordas e percebes que afinal gostas de iogurte de morango. Percebes que estás disposto a fazer cedências em coisas que antes não abrias mão. Percebes que gostas de pickles de gengibre quando não sabias bem porque razão comias uma coisa que sabe a amoníaco. Não te dás conta que te ris de coisas estúpidas, simplesmente, porque estás em estado de estupidificação total. Não te apercebes que acordas a sorrir e te tornas, estranhamente, simpático para toda a gente. Que nunca te enervas com nada e até fazes conversa de circunstâncias com outras pessoas na fila de supermercado. 
Começas a perceber, aos poucos, que tudo à tua volta corre bem e que isso só acontece porque é isso que dás aos que estão à tua volta também. E pouco depois percebes que é tão bom receber aquilo que  dás, que não entendes porque não o fizeste sempre. Depois cais em ti e percebes. Percebes que estás  lambuzado de gelados e iogurtes de morango na cara, como ainda não tinhas estado. Percebes que isto de gostar de iogurtes de morango é do melhor que há e que os vais querer comer até ao fim dos teus dias.
Um dia acordas, pensas melhor no teu futuro, e percebes que queres passar o resto da tua vida com aquele sorriso parvo na cara. Que mesmo que envelheças que nem uma cavaca seca, vais querer ter sempre aquele açúcar por cima. Que vais querer envelhecer. Que já não vais ter medo de envelhecer. Que a única coisa que vais mesmo querer é envelhecer, porque só assim podes ter tempo para usufruir de todos os iogurtes e gelados. Porque só assim podes ganhar tempo. Porque só assim tens razões para querer acordar. Todos os dias.

E nesse dia, em que acordas e percebes que afinal gostas de iogurtes de morango... está tudo estragado.

Descobres que os vais comer para o resto da vida e que, o resto da vida, é muito tempo. Descobres que esse imenso tempo pode não sê-lo para ti mas pode sê-lo para alguém. Descobres que não vais querer morrer nunca. Nem tu nem a pessoa com quem divides os iogurtes de morango. Descobres que a vida plena de iogurtes de tutti-frutti afinal não vai acontecer. Mudas de planos e de estratégia porque, de repente, as prioridades se inverteram todas. Vais descobrir que devíamos ser imortais para passarmos a eternidade dos fins de tarde a passear de mãos dadas e a comer gelados. Que não importa que aos 30 prefiras um cone de bolacha e aos 80 prefiras um copo com colher, desde que o sabor do gelado seja igual. Que o que importa é que te rias de ti e do outro de cada vez que se olharem de frente e não denunciarem que o gelado vos apalhaça a cara. Que o importante é que, todos os dias, ao meterem a cabeça na almofada, mesmo que não se beijem, ao fecharem os olhos, conheçam o sabor dos lábios um do outro de cor. 

E nesse dia, em que adormeces e percebes que já não vives sem iogurtes de morango... está tudo estragado.


Olá. Já sabes como me chamo. Já sabes que gosto de ti. 
E ainda não sabes mas quero dizer-to agora: gosto muito de iogurtes de morangos. 
De Cornetos é que nem por isso, mas alinho num de nata.





3.8.12

O Breu


Uma mulher prostrada.
O traje preto de mortificação.
O olhar vago no escuro.
A tristeza assombrada.
A vaguidão.
A vaguidão daquela alma.
A vaguidão desta mulher.

As sombras amaldiçoadas.
As outras almas sentidas.
O penar de quem não sabe.
O sentimento oco de quem não sente.
O pesar.
O pesar de quem a olha.
O pesar de quem não tem o que consolar.

O ébano da morte.
O bater de asas de corvos.
As roupas puídas de velho.
As mãos consumidas de sofrimento.
A pele.
A pele negra.
A pele morta.

Um caixão triste.
Uma morte esperada.
Um sonho que acabou.
A paixão não consumada.
O agror.
O agror de ter acreditado.
O agror de o sepultar.

O azeviche da noite.
O breu de um rastejar.
O medo de prosseguir.
O horror de quem desistiu de amar.
O caminho.
O caminho que perdeu.
O caminho que já não consegue encontrar.

A escuridão dos pensamentos.
As incertezas do fim.
Um fim sem se esperar.
As lágrimas de saudade a rondar.
O negro do sofrer.
O apagar da luz.
O adeus.
O adeus que não se fez.
O amor que não se consumou.


O adeus que não se fez.
O amor que não se consumou.

O adeus que não se fez.
O amor que não se consumou.




2.8.12

O meu coração. As tuas artérias. O nosso sangue.


Do meu Coração


O meu coração andava moribundo. Sem pinga de sangue nem fulgor. Corria-me pelas veias, solitário, para lá e para cá, sem emoção. Sem destino. Perdido. Corria-me pelo corpo, acabado, pálido, como rios e ribeiros que se tornam lentos até se sumirem. Que se esgotam num fiozinho, até secarem.
Ao meu coração faltava rumo e corrente. Faltava força e vontade de querer. Andava fraco, quase morto, porque não queria bater. 
Os meus rios e ribeiros procuravam um local para desaguar onde sentissem que, no encontro com outras águas, não existiria o doce ou o salgado. Que as suas águas doces se iriam juntar a um imenso mar salgado e, de repente, seriam um só. Este coração, morto e sem sangue, apenas o era porque não encontrava um mar forte e corajoso que o fizesse viver. Era apenas um coração sozinho sem caminhos para alguém lá chegar. Era um coração desligado das artérias que o fazem bombear. 

Das tuas Artérias

No teu corpo, o mais tumultuoso dos mares sobrevive. Vive em ti esse sangue salgado e inóspito. Revoltoso e indignado. Vives forte e aceitando sempre o avanço das marés, sem medo que a maré te vire o barco. Enfrentas, de peito feito, o ardiloso destino que o teu sangue te reservou. Os caminhos por ele percorridos, cheios de abismos e obstáculos, parecem fáceis às muitas lutas travadas. Lutas silenciosas e solitárias que gritavam por companhia. Lutavam por chegar a um lugar que desconhecias mas sabias querer alcançar. Subias a pulso todas as margens das tuas artérias para desaguar num desconhecido lugar. Subias a pulso por saberes que o melhor estava por concretizar. Desconhecias-me o coração mas soubeste sempre que não havia outro para conquistar.
Na chegada do teu sangue ao meu coração, a máquina começou a funcionar.

Faremos o Nosso Sangue

Um dia a bravura da tua corrente lutou para chegar até mim. Remaste contra esse mar que vive dentro das tuas artérias para me chegares ao coração. As tuas artérias ligaram-se a mim. Abraçaram-me o coração e uniram esse mar salgado, aos meus rios e ribeiros de águas doces.
Ao galgar as margens das tuas artérias, esse sangue audaz soube invadir o meu coração. Arrebatou-me e casou-se comigo num dia inesperado. O teu sangue ultrapassou todas as margens e entrou por esta casa abandonada, desenfreado, arrombando-lhe a porta sem medo. Percorreu-lhe todos os caminhos e instalou-se para sempre na mais nobre das divisões. Chegaste ao meu coração e sentaste-te no trono que há muito era teu. Aguardava por ti sozinha, na certeza de que um dia ias chegar. 

O meu coração bate agora com vida, porque as tuas artérias lhe trouxeram um futuro inteiro.




 

19.7.12

Os piores dos melhores




A eterna questão:

Porque é que alguns textos foram lidos milhares de vezes, como este, e outros nem receberam um par de olhos em cima?

Transformando a questão em resposta imediata:

Estou de saída por uns tempos e queria deixar-vos algo novo que pudessem ler. Queria deixar-vos o melhor do melhor!
Por isso dediquei-me a seleccionar os textos que mais gostei de escrever em 2011 mas que, simultaneamente, foram os menos lidos de sempre.
Não estão aqui os que mais gostei de escrever e que foram lidos centenas de vezes. Não.
A vocês ofereço apenas os meus mais adorados filhos de 2011, mas que ficaram órfãos de leitores.
Por isso vos digo que deixo algo novo para ler. Porque estes textos receberam raras visitas.
Morreram sozinhos.

Os melhores dos piores... ou os piores dos melhores... a verdade é que vos deixo um texto por dia, para cada um dos dias que estarei ausente, porque não aguento estar ausente por um dia que seja.

Estarei de olho em vocês.
Até já.


Morre seu filho da mãe. Morre.

A queda de Sócrates

Deus e o Diabo

O prodigioso terminal de autocarros

A fita de Möbius

A praia dos clichés

A freira e a prostituta

O álbum

Carta a Saramago

Um dia, não me caso.

A nespereira e o marmeleiro

A Esfera





16.7.12

O homem que veio da Lua

Ilustração Dias Cães


No dia 16 de Julho de 1969, nasceu apenas uma criança em todo o planeta Terra. 
No dia em que - dizem - o homem foi à Lua.

Na sua aldeia todos ficaram desconfiados. Nunca tinham visto a Maria grávida e, de repente, no dia em que - dizem - o homem foi à Lua, o seu filho nasceu. Coisa estranha esta, de nascer a única criança em mais de vinte anos naquela aldeia, logo no dia em que a Lua ficou mais perto da Terra e o homem lhe conseguiu chegar. Logo no dia em que não nasceu mais nenhuma criança no resto do mundo.
O boato não tardou a espalhar-se: "O filho da Maria veio da Lua".
O miúdo lá foi crescendo com o estigma e as histórias a rondarem-lhe a cabeça e, de tanto insistirem na teoria, até ele começou a acreditar que tinha vindo num foguetão, directamente da Lua, para ser entregue aos cuidados daquela mulher a quem chamava de mãe. Até o miúdo acreditava que tinha vindo da Lua e, com o passar dos anos, passou a comportar-se como tal. E já ninguém estranhava. O miúdo era do mais esquisito que tinham visto. Era mesmo.
Era aluado na escola, não tinha amigos porque orbitava por outros interesses, e nunca teve namoradas por ter a cabeça no mundo da Lua. O miúdo era estranho, todos concordavam. Vivia lá no mundo dele, apesar de nunca ter conhecido outro que não fosse o da sua aldeia. Da sua aldeia e de toda a superfície da sua legítima mãe, que todos os dias continuava a visitar. Lá olhava pela janela, todas as noites, para tentar compreender a sua mãe, compreender-se a si e compreender porque diabo ela o tinha mandado assentar pés na Terra. Mas ele nunca quis ter os pés assentes. Nunca se quis ficar pela Terra. Tão pouco pela aldeia. O miúdo era tonto mas sonhava. E os seus sonhos voavam, sempre em direcção à sua mãe.
Por isso um dia pensou em construir um foguetão e montar-se nele. Recolheu sucata em todas as casas, oficinas e lixeiras. Aprendeu mecânica e astronomia. Inventou instrumentos e traçou rotas. Desenhou um fato e ensaiou viagens. Estudou este mundo e o outro. Conheceu tudo sem sair do sítio. Cresceu. Ambicionou. Fez. Um dia pensou em construir um foguetão e construiu. Um dia pensou em fugir e fugiu. 
Agora vive na Lua e já nem pensa voltar. Vive sozinho mas com os olhos a brilhar.

Hoje, passados 43 anos desde o seu nascimento, na aldeia todos sabem: Afinal este homem não veio da Lua, afinal este homem é mesmo de outro mundo.


Ao Salvador,
Parabéns.


11.7.12

Bagagem fora de formato




(quem não gosta de posts ressabiados, por favor não leia este)

A maltinha gosta muito de falar da vida alheia. Já se sabe que sim. E quando essa maltinha vive nas profundezas do Alentejo e nunca viu outra coisa na vida que não fossem batas de nylon com padrões esteticamente questionáveis e sapatinhos ortopédicos, então estamos mesmo mal. E eu percebo isso tudo em aldeãs de 99 anos, mas já me custa mais a aceitar em gajas de 30 e tal anos que vivem na cidade.
Sempre fui bagagem fora de formato por cá. Eu sei, reconheço e não me sinto mal com isso. Umas roupas esquisitas, uns sapatos diferentes, uma personalidade descontraída (epá isso é que não! Então a malta anda-se a suicidar em massa por causa de sermos uns deprimidos e vem para aqui esta gaja rir-se?) … Enfim, vê-se a milhas que não sou de cá e ainda não me moldei totalmente à coisa. Mas não espero tratamento especial por isso, muito pelo contrário. Esperava a esta altura do campeonato que olhassem para mim e já não vissem nada. Ou melhor, que me vissem de bata de nylon e sapatos ortopédicos e ficassem sossegados.
Não generalizando (que é coisa que eu até gosto muito de fazer mas hoje não em apetece), admito que não sinto olhares reprovadores de toda a gente, mas a verdade é que ainda os há.
Desde opinarem sobre uns sapatos “demasiado coloridos”, a aconselharem-me a não usar roupa preta, a dizerem que me viram aos beijos na boca com um colega que é casado (e não muito atraente), até tentarem humilhar-me relativamente à minha condição física, tem valido de tudo nestes anos que estou por cá. E eu continuo sem cu para aturar isto.
E se dúvidas tivesse, de que ainda não me olham como igual, de quando em vez lá sou brindada com comentários de gente que devia estar a trabalhar mas prefere passar o tempo a falar dos outros. E ainda dizem que não há trabalho no Alentejo! Então não há? Falar da vida dos outros dá um trabalho dos diabos.
E foi assim, mais uma vez, que um destes dias lá tive de ouvir mais um comentário (por favor tentem falar mais baixo se a ideia for eu não ouvir) quando entrei no café perto do trabalho e duas coleguinhas encostadas ao balcão trocaram este diálogo, em relação à minha pessoa, como não podia deixar de ser:
- Esta está mais magra.
- Não acho. Já a vi melhor.

Eu sei. Foi curto e desenxabido. Podiam ter descambado também na cor das unhas dos pés. Mas foi só mesmo isto e eu não sou de inventar.
Isto, entenda-se, foi dito enquanto aqueles quatro olhinhos que não deviam existir, me percorreram de baixo para cima, culminando no meu encantador sorriso que lhes denunciou imediatamente que eu ouvi a conversa. E eu percebo esta ordem, uma vez que a minha estonteante variedade de sapatos é coisa para ser apreciada em primeiro plano, sobretudo para quem não alterna muito entre chinelos e pantufas. O meu sorriso… enfim… preferem deixar para último para não serem confrontadas com a minha excelsa e exemplar dentição… que isto de ter os dentes todos às vezes atrapalha as pessoas e podiam já não conseguir continuar a destilar veneno o resto do dia. Mas adiante.
Posto isto, ainda houve tempo para largarem um “vamos embora que já falámos mal de toda a gente”, e lá levantaram aqueles cotovelos desidratados do balcão, colocando as carteiras debaixo dos sovacos e arrastando os pés cheios de calosidades dali para fora.  
Agora, analisando aquelas pessoas, e podendo descambar nelas da maneira menos polida possível, eu prometo aqui e agora que não o irei fazer. Pois que não irão sair das pontas destes dedos comentários desagradáveis dirigidos àquelas duas pessoas. Porque reconheço – porque sim, sou boazinha – que a uma delas bem chega pesar dez arrobas e parecer um lenhador, e à outra bem chega ser uma mal fodida e ter cara de acidente nuclear numas minas de carvão. E ser mal fodida é coisa que colhe toda a minha solidariedade, por isso não vou falar mal. Desejo apenas que ela se vá foder (Isto é libertador. Têm de experimentar em voz alta).
Também sinto alguma simpatia pela outra, por pesar mais de dez arrobas e também ser uma mal fodida, mas isso é culpa dela, por isso que se lixe. Vá, quanto muito poupo-a por ter sido aquela que achou que eu estava mais magra (mas honey, perto de ti todaaaaa gente está mais magra).

Eu fui sempre bagagem fora de formato cá no burgo e não creio que isto tenda a alterar-se. Bem sei que muitas vezes a exclusão e discriminação começam na própria pessoa e na atitude que tem para com os outros, ou que opta por ter nos meios em que se move. Não é o caso. Garanto. Não é o caso.

Agora, para finalizar, apenas peço:
Deixem lá de reparar se estou gorda ou se estou magra, se venho de saltos altos ou descalça, e se comi dois gajos ou três na semana passada. Se não se sentem bem convosco, façam por estar. Já em tempos ouvi uma grande verdade, relativamente aos comportamentos que temos em relação aos outros, dizerem muito sobre nós próprios. Ouvi dizerem: “Há qualquer coisa naquela pessoa que não gosto em mim”.
E se calhar é isso mesmo. Eu tenho qualquer coisa que vocês, não gostam em vocês mesmas.
E esta é de borla.
Vão lá para casa pensar no assunto.




9.7.12

A Aritmética do Tesão



Olha. Desvia. Olha. Sorri. Desvia. Atiça. Sorri. Move. Atiça. Avança. Move. Beija. Avança. Lambe.

1        2         1       3         2         4        3         5         4          6           5        7          6            8         

Beija. Morde. Lambe. Saliva. Morde. Chupa. Saliva. Geme. Chupa. Deseja. Geme. Fode. Deseja. 

7         9           8        10         9         11        10       12         11       13          12        14       13        

Entrega. Fode. Toca. Entrega. Grita. Toca. Ama. Grita. Suspira. Ama. Abraça. Suspira. Liberta.

 15         14         16         15        17       16       18       17      19       18       20       19       21

Abraça.  Abandona. Liberta. Afasta. Abandona. Açoita. Afasta. Ignora. Açoita. Mata. Ignora. Mata.

20          22          21         23          22           24         23        25          24        26       25        26






2.7.12

Desejos obscuros



Os infinitos corredores de mármore ampliavam as sombras das enormes janelas de sacada do antigo convento. O brilho da luz da manhã lambia o chão polido e agudo, travado pelas imensas paredes brancas decoradas com lambris de azulejos em cobalto e estanho.
Os seus passos ecoavam em cada um dos generosos corredores e o rosto ora iluminava-se ora ensombrava-se, conforme se iam descontando as janelas. Caminhava firme pelo mármore mas de rosto sobre os pés. De pasta na mão direita e dois ou três livros debaixo do braço esquerdo. Por vezes erguia a cabeça e cumprimentava alguns professores seus colegas, mas apenas por cortesia. Tinha uma atitude reservada.
Uma vez por semana, precisamente antes das aulas de teoria de arte que leccionava, a sua pulsação estranhamente balava-se quando os, seus passos certos pelo mármore, eram interrompidos pela passada ritmada de uma intrigante aluna. Sua aluna. Cruzavam-se apenas ao último dia de cada semana. Olhavam-se de soslaio antes de cada aula e fugiam com os olhos logo depois. Os olhares cruzavam-se mil vezes durante a aula. Tantas quantas as vezes que se evitavam. 
Um punhado de semanas depois o jogo já se agoniava na sua garganta. Sabia que era errado desejar o corpo da sua aluna, mas era inegável a sede que tinha de a possuir. A aluna atiçava-lhe a vontade em cada lábio sugado e a cada toque propositado no decote. Em cada mamilo teso que denunciava sob as blusas finas e entreabertas. Os pensamentos assombravam-lhe os dias, as noites, e os seus passos por aqueles corredores. Temia cruzar-se com ela e não lhe resistir.
Um dia, ao fundo de um dos longos corredores, viu-a a espreitar e a recolher-se logo de seguida. Intrigou-se. Hesitou. Foi atrás. Acelerou os passos. Levantou a cabeça. O peito batia mais rápido. Dobrou a esquina do corredor e vislumbrou-a ao fundo, a escapulir-se novamente. Desta vez não se deteve e correu. Largou a pasta e os livros, correu de peito aberto e de susto no rosto. Ao fundo do corredor uma  das portas estava entre-aberta. A biblioteca estava, inexplicavelmente, aberta naquele momento. De pulso descontrolado, entrou sem hesitar.
A sua aluna esperava.
Semi-nua.
Pousada sobre uma poltrona velha. 
Com o desejo a saltar-lhe pelas mamas.
Com a vontade a latejar-lhe entre pernas.
Entreabriu os lábios sensuais para dizer "quero-te", mas sem dizer nada.
A professora correu para o corpo da sua aluna.
Beijou cada milímetro da sua pele e entregou a sua boca aos mamilos tesos da jovem mulher que naquele momento possuía. Chupou cada um até lhe sentir os gemidos de prazer.
As duas entregaram-se de modo ardente e compulsivo, aos dois corpos de mulheres, por entre livros e estantes de mogno velho. Por entre luxo e tesão. Por entre o proibido e o desejado. Apaixonavam-se a cada língua que sentiam. A cada dedo que faziam penetrar. A cada olhar que já não evitavam.

A luz rasante do fim do dia, que agora deslizava pelas janelas de sacada, tocava-lhes de modo quente os dois corpos desnudados sobre a tapeçaria em que dormiam. Abraçadas. De pernas entrelaçadas. Beijaram-se pela última vez na promessa de não voltar a acontecer.
Voltaram a amar-se todos os dias contra a sua vontade.
Contra a vontade de todos os que, entre velhos mármores e velhos mognos, as julgaram.


À nAnónima