15.9.12

O fotógrafo e a escritora





*


As noites e madrugadas, encostada em esquinas vomitadas de sexo mal pago, amaldiçoaram-lhe o destino. Desde o primeiro trocar de dinheiro por gemidos fingidos que a sua vida tinha, drasticamente, terminado. Não se odiava pela opção que tomara, mas tinha deixado de conseguir olhar-se no espelho. No reflexo dos vidros dos carros que se encostavam às suas coxas. Nas montras abandonadas às luzes da noite. Deixou de se olhar, num desejo subconsciente de que as outras pessoas também não a vissem. Pensava que não se vendo, nenhuns olhos passariam por ela. Não aceitava a sua imagem. Não se olhava mais ao espelho. Não se deixara retratar, nunca mais, desde o primeiro dia em que se deitou com um homem, em troca de pão para a boca.
No intervalo das horas do dia em que estava acordada, ainda moribunda num sono de vergonha, lavava o rosto na água fria para despertar do embaraço. Começava naquele momento a vida comum e sorrateira que lhe trazia tranquilidade ao pulso. Agarrava-se às letras dos livros, ao sonho das imagens e à ilusão da felicidade que as histórias lhe traziam. Todos os dias, religiosamente, desenhava letras sobre as folhas, numa caligrafia traçada a rigor. A sua grande paixão sempre fora escrever, desde que aprendeu que uma caneta era um instrumento de criação. Chegou a iludir-se de que um dia poderia viver ao ritmo dessa caneta mas também um dia cresceu, os sonhos mirraram, e percebeu que a distância entre o rabiscar de tinta e a concretização da história era um caminho sem fim. Não lhe restaram, assim, alternativas a ter de entregar-se durante a noite a enredos inenarráveis, para durante o dia poder ser a escritora que, durante anos, desejou ser.



*


Andava perdido pelos dias e pelas noites há demasiado tempo. Não conhecia os intervalos em que devia dormir, estar acordado ou alimentar-se. Há muitos meses que os dias pareciam semanas e nada parecia acontecer na sua vida.
Os tempos em que tinha trabalhado numa empresa, tinham-lhe preenchido a necessidade de pagar contas mas nunca lhe alimentaram a emoção. Queria mais que apenas um emprego socialmente bem aceite e confortável. Sabia que dentro de si, bem lá na sua intimidade, gostaria de poder viajar pelo mundo a fotografar. A fotografar o mundo, claro está! Tinha tanto dentro de si para dar. Tinha tanto para dar e sabia tão pouco como o fazer. Por vezes sentia-se sufocado pelas suas próprias vontades sem soluções mas sentia-se incapacitado para agir. Ai, tantos sonhos que tinha, sem saber como realizar. Ai, tantos sonhos que tinha, pelos quais pouco lutou por concretizar. E sentia-se assim muitas vezes: impotente para mudar a sua própria vida.
E um dia, num daqueles dias afoitos em que a pessoa perde o norte e decide ser feliz, assinou meia-dúzia de papéis lá no emprego e pôs-se a correr. Correu dali para fora como se o mundo esperasse por ele, e ele já estivesse atrasado. Ele e a sua máquina fotográfica. Sempre na companhia da sua máquina fotográfica.
No dia em que se despediu, chegou a casa com a leveza de um miúdo traquina a quem soube bem fazer um disparate. 
No dia seguinte acordou na dura realidade de que o mundo continuava a girar e os sonhos não se tinham realizado sozinhos. Adormeceu numa depressão de dias, que pareciam semanas, que durante muitos meses lhe pareceram anos.



*


Numa das noites, em que a cabeça andava perdida pelo vazio das horas, agarrou na sua estimada máquina e fez-se à estrada. Pôs-se a caminho de coisa nenhuma e sem destino nenhum.

Percorreu quilómetros sem emoção, para esquecer-se daquilo em que a sua vida se tinha tornado. Pensou em deixar-se ir por um penhasco abaixo. Pensou em largar a vida. Pensou. Pensou que já não havia lugares, nem pessoas, nem objectos que valessem a pena fotografar. Os seus olhos já não viam nada que a sua máquina quisesse registar.

Parou o carro.
Olhou, absorto, a noite.
A fabulosa noite que, inesperadamente, tinha caído.
Sentia um perfume misturado na brisa e fechou os olhos para o saborear.
Ao abri-los novamente, uma mulher, estática, apareceu na sua frente. Com o medo a gritar duns profundos olhos esborratados e a tremelicar do cimo de uns saltos finos e de uma saia indecentemente curta. O medo só a fazia parecer ainda mais bonita.
O olhar dele colou-se à imagem dela. Daquela bela mulher, com o escuro da noite por trás, numa decadência genuína de quem não queria estar ali.

Ele agarrou-se à máquina e num pensamento desembriagado avançou:

"Posso fotografar-te?" - Perguntou.

"Não, deixa-me primeiro escrever-te" - Sussurrou-lhe ela com um sorriso.






14.9.12

Black Velvet




Está inaugurado o novo projecto de Jon Gavin e Dias Cães.
Podem visitar-nos em...

http://blackvelvetblack.blogspot.pt/ 



Um olhar diferente...
Um descrever diferente...


Os autores continuam com os seus blogues pessoais aqui e aqui!





12.9.12

Black Velvet



Dia 14 de Setembro nasce um novo Blog: Black Velvet

Resultado de uma parceria entre Jon Gavin e Dias Cães, o novo blog Black Velvet combinará textos e fotografias dos dois autores.

Este novo projecto nasce da necessidade de ambos os autores se aventurarem num novo registo, quer nas palavras quer nas imagens, num contexto mais intimista e sensual.

As fotografias de Jon Gavin continuarão por aqui...
E os textos de Dias Cães, já sabem, estarão aqui no lugar de sempre.

Se não nos encontrarmos antes, marcamos encontro dia 14 de Setembro no Black Velvet.
O dia em que revelaremos o link..

Até lá, boas leituras e bons disparos.

Jon Gavin e Dias Cães


10.9.12

Irresponsabilidade social



Uma pessoa, de vez em quando, lá mete a mão na consciência e percebe que ser infeliz é outra coisa.

Não sei se estou mais atenta ao mundo ou se o mundo está a piorar de tal maneira que é impossível não reparar em certas coisas, mas de há uns tempos para cá parecem somar-se cenas inimagináveis à minha frente. Nunca fui uma deslumbrada com os bens materiais e com o dinheiro, mas reconheço o conforto que trazem. Creio que numa análise honesta à nossa consciência, todos sabemos disto e todos preferíamos ter algum a mais, do que passar a vida a contar os tostões. E não me venham dizer que não.
Posto isto, acho que ainda estou no direito de me indignar com os extremos que vejo entre as vidas de uns e de outros. Como nunca tive luxos e na minha vida adulta passei a viver, apenas e só, do meu ordenado, ainda consigo ter distanciamento para ver o que é ser absurdamente pobre e ser absurdamente rico.
Num destes dias fui abalroada por uma realidade que, uma pessoa até sabe que existe, mas pensa sempre que nunca irá ser confrontada. Ou pelo menos que não terá de confrontar-se com as situações e dissecá-las até as compreender.
Depois de ouvir um bêbado a gritar, em plena Avenida da Liberdade, com um dedo em riste sobre um prédio de apartamentos de luxo que ali se prepara para aparecer, que "estes filhos da puta gastam aqui alguns cinco mil euros e um gajo a passar fome. Ladrões"... Ficou claro para mim que não temos todos a mesma noção do valor do dinheiro. Nem se trata de termos todos acesso a ele da mesma maneira, porque isso há muito que se sabe que não, mas a questão de tampouco saber localizar o devido número de zeros à direita de outro número, foi algo que me empurrou para sítios que eu não conhecia na mente. Fiquei algures entre o chocada e o lúcida.

Como Deus nesse dia tinha algum tempo disponível para mim (pena que não tenha noutros dias para outras coisas), fez-me esbarrar noutra cena nauseante. Eu sou uma pessoa com sentido de humor e sarcasmo quanto baste, mas há ironias que eu dispenso. Passar pela montra da Prada e ver um homem bem constituído, relativamente arranjado e limpo, a vasculhar no lixo mesmo ali ao lado, ainda me deixa perturbada com o que o universo prepara para as pessoas. Naquele dia parei na montra da Prada apenas para me confrontar. Para ver que era real um homem, com fome, estar a vasculhar num caixote do lixo, mesmo em frente de uma mala que custa umas largas centenas de euros, que uma senhora irá comprar por capricho e usar uma ou duas vezes. Quis confrontar-me porque, noutra escala de consumo, eu sei que também compro coisas desnecessárias para satisfazer um impulso consumista.
E para ir para casa sossegada e de cabeça no chão, Deus, esse grande gestor de recursos humanos, mandou estacionar dois Bentleys na Avenida, fez descer de lá umas senhoras muito bem postas,  e esqueceu-se de tirar os dois mendigos enrolados em cartões a dormir nos bancos do jardim em frente. Erros de logística Deus, erros de logística. Toca a melhorar isso, senão a malta começa a deixar de acreditar.

Uns dias lembro-me de todos os pormenores, outros a coisa atenua-se, mas noutros levo machadadas de  morte mesmo em cheio no esterno.
Como o meu cérebro se ocupa pouco a pensar em coisas que não devia, ainda sou brindada com momentos tristes vindos do meu próprio sangue. Quando à simples pergunta "o que é que a miúda precisa para os anos?", me respondem "ela gostava muito de ter um telemóvel android raios - que - a - partam - que - tem - 13 - anos - e - ainda - não - ganha - para - o - sustentar"... Eu só tenho como alternativa pensar que sou eu que ando ao contrário do mundo.
Então eu vejo um homem feito, a tirar comida do meio do lixo, e esta fedelha quer um telemóvel de umas centenas de euros para mandar mensagens às amigas. Pior! Muito pior! Pergunto se não há nada de útil que precise e dizem-me que “como cresceu não tem roupa nem sapatos para o próximo Inverno”...
Puta que pariu!
Ai não tem roupa nem sapatos, mas bora lá pedir a esta otária um telemóvel de gajos ricos.
Puta que pariu, outra vez!
Mas desde quando isto é ensinar valores aos miúdos. Desde quando isto é querer o bem de um filho quando não se lhe dá a conhecer o valor das coisas. Parece-me que sei bem que educação teve o bêbado que achava que aquela obra custava alguns cinco mil euros!!!

Para terminar em grande, e porque não sou pessoa de me deixar sufocar sem tentar sobreviver primeiro, e porque estas histórias todas já estavam a fermentar cá dentro, este fim-de-semana houve um momento derradeiro e revelador que me fez tomar uma atitude. Num reallity show, a protagonista mostrava-se indignada por a enteada de 18 anos ter comprado uma mala Hermés, de cerca de cem mil dólares, para "destruir" em fins artísticos (sim, sim, já sei... tudo pela arte!). Uma "irresponsabilidade social". Foi assim que ela se referiu à compra da mala. Como uma "irresponsabilidade social".
Aquilo atingiu-me. 
Não foi pela mala ou pelo uso que a miúda fez do dinheiro. É lá com ela.
Foi por, noutra escala, me ter visto naquele papel.

Ontem entrei no closet (só isto é indicia logo problemas).
Tirei tudo lá de dentro.
Tirei tudo dos varões, das gavetas e das prateleiras.
Percebi que acumulava coisas por irracionalidade emocional, por não saber relativizar que se trata apenas de roupa. Por não saber ser pragmática.
Ontem, eliminei quase metade da minha roupa e é evidente que ainda sobra.
Exponho aqui sem vergonha, apesar de ter todas as razões para a ter, que havia roupa que já nem me lembrava que tinha. Roupa que vesti uma ou duas vezes e deixei de gostar (talvez já não gostasse assim tanto quando a comprei). Roupa velha que jamais voltaria a usar. Roupa cara que comprei por capricho. Roupa que há muito deixou de me servir. Roupa que alguém lá fora precisa e eu andei a guardar apenas por me dar um sentimento de conforto e segurança e não por precisar realmente.
Enfim... 

Fazendo contas ao resultado final e para quem gosta de números:
- Cerca de 70 peças de roupa.
- Cerca de 20 peças de roupa interior.
- 15 kg no total.
- 1/2 guarda-fatos vazio.
- 3 gavetas vazias.
- Mais de 20 cabides vagos.
- Dinheiro... muito, mas no meio de tudo o que isto implica, isso é o que menos me preocupa.

Por estes dias, a roupa seguirá para quem realmente precisa e, apesar de não estar ilibada da minha responsabilidade social, sinto que ter consciência já é um bom avanço que convém não abandonar.




6.9.12

Os lugares. Os objectos. As pessoas... As pessoas...



Nasci numa vila que mais tarde se elevou a cidade, mas nunca me senti a viver em mais que uma aldeia.
Não me deu ferramentas nem luz para dali fugir. Mostrava-me apenas um túnel que, acreditava, até ser prazeroso. Não conhecia outras paragens por isso aquelas não me pareciam lentas. Eram as únicas que tinha como possíveis. Estava rendida a uma estagnação que desconhecia ser real. No fundo desse corredor, onde não imaginava quantas coisas aconteciam, parece que, afinal, havia mundo.
Larguei as estradas atarracadas da vila, que insistiram em chamar de cidade, e caminhei devagar para ver se os pés se firmavam. Aguentaram-se e prossegui. Os joelhos lá se tocavam de tremores mas o passo acelerava-se ao ritmo do peito em euforia. 
Entendi o que estava para lá daquele esconso túnel e a gargalhada vinda do esófago amagou os suores frios das mãos. Os suores de ansiedade foram-se à medida que a confiança atracava. Rendi-me.
Encontrei-me naquele local. A verdadeira cidade encontrou-se comigo e eu não faltei ao compromisso. Dormi mais de dois milhares de noites nela. Vivi muitas vidas nos seus dias. Conheci um punhado de gente que ainda hoje insiste em permanecer na minha vida. Cruzei-me com outros milhares de pessoas que nem fazem ideia que lhes sinto a falta. Aqueles desconhecidos do metro, do autocarro e das ruas, que me habituei a ver nas rotinas. Ainda penso em alguns. Gostava secretamente que alguns também me sentissem a falta. Afinal de contas partilhamos passos e caminhos. Caminhos que acabaram divergentes porque as vidas também o são. Falo na primeira pessoa quando assumo que fui a primeira a divergir, quando mais tarde traí a cidade grande. Quando traí o meu amor por ela. Quando me traí. Traí-me e enganei-me quando decidi abandonar este amor pela incerteza da aventura e do desconhecido. Fiz as malas, larguei umas lágrimas, levantei a cabeça e mentalizei-me que o certo era arriscar. Rumei à ruralidade de uma outra aldeia que insistiram em chamar de cidade. E nem era a minha. Nunca foi e percebo que nunca será. Foi como se abandonasse um amor que me ensinou a crescer, por um caso com um desconhecido atraente. Nesta aldeia a que chamam de cidade, ganhei outras coisas, mas perdi a identidade. Anulei-me.
Mas mais uma vez lá me lembro das pessoas que vou pescando e aquelas que me caçaram. Também aqui, nesta aldeia a que chamam cidade, coleccionei pessoas que vou levar comigo, quaisquer que sejam os caminhos que me esperam. Amor verdadeiro e abnegado foi aquilo que aqui conheci. Daquele amor que não quer nada em troca: só se entrega.
Como me vou entregando a cada cidade que que passo, também daqui já me custaria levantar amarras. Aqui também já é a minha casa. Por isso vivo neste dilema sobre o sítio onde pousar. Sobre os motivos que me levaram a ficar num sítio em não no outro. Sobre as razões que me levarão, um dia, a querer aconchegar-me num lugar e ficar descansada. Porque sei que um dia é isso que vou querer.
Quando penso no abstracto e me coloco estas questões a resposta acaba por ser sempre a mesma: o que me prende aos lugares são as pessoas.
O dia em que mais uma vez quiser arrumar as malas, largar umas lágrimas e partir, com certeza que o farei por uma pessoa. Por alguém. Por qualquer motivo. Por um qualquer motivo que tenha a ver com pessoas, porque os bens, esses, vou largando e recolhendo exactamente nos sítios onde os encontrei. Os bens, são apenas coisas pesadas sem sentido. As pessoas nem preciso de as carregar ao colo e cabem aos milhares no coração.

Quando olho para a estrada que se vai diminuindo lá atrás, vejo que não deixei nada caído. Não perdi bens fundamentais. Não me faltou nada daquilo que mantém uma pessoa de pé. Olho para trás, por cima de um ombro que insiste em se elevar, e vejo que nada colhi. Deixei tudo exactamente onde estava. Não trouxe nada do que era dos lugares atrás de mim. Não movi nada nem ninguém. Andei e o cenário permaneceu igual. Olhando para trás vejo, que não tenho nada. Não recolhi nada.
As pessoas, as muitas que se foram colando a mim, e que eu amo que me arrastem com elas, essas boas centenas de pessoas, são bens inalienáveis e indeslocáveis. Não é importante que o sejam. É importante que permaneçam, independentemente do ponto geográfico onde se encontram. Se não puderem vir até mim, eu irei ter com elas.


Esta música... apenas porque sim.






26.8.12

A viúva e a criada



A expressão no rosto era a mesma de quando enterrara os seus outros seis maridos. Já se tinha habituado a casamentos curtos e a lutos longos. Nenhum dos seus sete casamentos tinha durado mais de seis meses mas a infelicidade de os perder a todos parecia prolongar-se por uma eternidade. Uma espécie de maldição, falavam, que parecia ter-se abatido sobre aquela bela viúva. A mais bela e voluptuosa viúva que todos os homens preferiam morrer a arriscar ter, do que morrer sem nunca ter tentado. Todos os seus maridos faleceram entre as suas pernas, ainda estas mal se tinham aberto, mas todos morriam de satisfação no rosto. O romance quedava-se rápido, interrompido pelas mortes inesperadas mas as alegrias pareciam estar-lhes gravadas nos corpos.
Tórridas noites e tórridos dias, viam o desfilar de corpos por aquela cama, quentes e em exaltação, como se adivinhassem que o fim se aproximava. Amou todos os seus maridos, todos os dias, e fornicou-os todas as noites, como se antevisse o seu final prematuro. E tinha razão para o temer.

Depois dos funerais chegava a casa, sem forças, e com o corpo magoado pela perda, desejando apenas entregar-se ao conforto da sua casa. A mansão, que tinha herdado do primeiro marido e que nunca deixou para trás, ainda lhe trazia boas recordações e por isso manteve sempre tudo no seu lugar e nunca se desfez de nenhum empregado. Quando chegava a casa tinha sempre à sua espera a sua mais fiel empregada. Como de costume pedia a Carlota que fizesse o seu chá de jasmim e mel, lhe preparasse o banho quente e lhe perfumasse o quarto com incenso da sândalo.
Carlota, a sua jovem criada, obedecia-lha e tinha-lhe verdadeira devoção e nunca, jamais, questionara uma ordem ou um pedido da sua bela patroa. Carlota tinha-lhe uma submissão que, por vezes, transbordava a simples dedicação e dever de empregada. Vivia para satisfazer a bela viúva.
Depois de cada um dos sete funerais, a que Carlota assistira, essa entrega era maior. Preparava tudo com mais atenção e acrescentava pormenores que sabia agradarem à desconcertante viúva. Com o chá, preparava os biscoitos de quinoa que sabia serem os seus preferidos, para o banho perfumava a água e aquecia as toalhas de algodão branco e, no regresso ao quarto, aguardava-a com uma massagem de óleos quentes.

A cada peça de roupa caída sobre o chão de mármore negro e branco, Carlota apaixonava os seus olhos a cada curva do corpo da sua bela patroa. Deixava-se enredar pela pele perfeita e pelos seus cabelos longos e estonteantes caídos sobre as costas. Já conseguia sentir as suas mãos a deslizarem ao longo das pernas torneadas e a tocar-lhe as mamas com as pontas dos dedos. Imaginava o encontro do seu corpo com o corpo untado em óleo da sua patroa. Sabia bem que os corpos se aqueciam quando as mamas de ambas se encaixassem e se beijassem ardentemente. As línguas, trocadas entre apertadelas de nádegas e chupões de mamilos, preparavam os orgasmos contidos que ambas desejavam.
Finalmente, naquela noite de luto, a bela viúva deixou-se envolver pelo chá refinado de Carlota e entregou-se ao tesão de fornicar a sua jovem e atrevida criada. Enlouqueceram-se durante toda a noite numa luta de sexo e suor. De desejo e descoberta. Carlota, finalmente, saciou-se com a sua bela patroa.

Todas as noites em que a viúva dormia com os seus maridos, Carlota escutava os gemidos de prazer do seu quarto. Furiosa e de desejo atiçado, masturbava-se com os gritos da sua patroa e gritava com raiva para dentro. 
Prometia todas as noites, a si mesma, que um dia aqueles gemidos aconteceriam quando o seu corpo possuísse o da sua bela patroa. No dia em que a comesse toda a noite e esta gritasse cada vez mais, e mais por ser possuída. Depois de tanto tempo a invejar o lugar daqueles sete maridos, Carlota lá o alcançou.

Foram precisos sete chás, setes noites e matar sete homens para que isso um dia, finalmente, pudesse acontecer.





17.8.12

O fato da senhora M.



A senhora M. vestia todos os dias o mesmo fato. Vestia todos os dias o mesmo fato, há mais de quinze anos. E nesses quinze anos o seu fato já tinha estado ora apertado, ora folgado. Ora puído, ora lustroso. Nuns dias o fato parecia assentar-lhe na perfeição mas em muitos outros dias nem se conseguia olhar ao espelho. Achava aquele fato um truque de ilusionismo do qual não se conseguia livrar. Por vezes odiava-o e queria um novo mas não sabia como o conseguir. Angustiava-se. Sofria sozinha. Silenciava a dor. Sonhava que um dia acordava e tinha um fato novo. Ali mesmo, sem esforço. Mas no fundo do seu ser sabia que isso nunca iria acontecer. E então lá continuava, atormentada com a realidade, a tentar mudar qualquer coisa que fosse no seu fato, sem saber como. A dar-lhe a graça que não tinha.
Por vezes, a senhora M. ganhava coragem e lá se dispunha a fazer umas pequenas emendas no fato. Cortava ali, cozia acolá. Apertava de um lado, esticava para o outro. Mais umas pregas, umas bainhas e, por vezes, muito raramente, até parecia que a coisa se ia ajeitar. Mas a costura não era o seu condão e acabava por desarranjar o que parecia já estar bem alinhavado. Era trapalhona e não sabia cuidar bem do seu fato. Acabava a estragar, logo depois, o pouco que tinha conseguido fazer.
Uma coisa era certa: aquele fato não pertencia à senhora M. e a senhora M. nunca gostou daquele fato.
A cada dia que passava ganhava-lhe cada vez mais aversão. Queria acabar com ele. Queria sentir-se linda num fato novo. Fazer girar cabeças na rua. Soltar comentários elogiosos das bocas de homens e mulheres. Queria que vissem linda por fora, como sabia ser por dentro.

Um dia saiu à rua com o peito cheio de coragem para comprar outro fato. Voltou para casa, de braços rendidos e de tristeza desenhada no rosto. Desistiu de comprar o fato. Desistiu de mostrar uma coisa que não era.
Entregou-se ao inevitável. Passou o velho fato a ferro e voltou a vesti-lo. Continuou assim, infeliz, de braços estendidos, à espera que um dia alguém lhe veja a beleza, tal e qual como ela é.

O fato até podia ser medíocre, mas foi o único que a senhora M. teve, e aquele com o qual teve de aprender a viver.





9.8.12

Iogurtes de morango




Um dia acordas e percebes que afinal gostas de iogurte de morango. Percebes que estás disposto a fazer cedências em coisas que antes não abrias mão. Percebes que gostas de pickles de gengibre quando não sabias bem porque razão comias uma coisa que sabe a amoníaco. Não te dás conta que te ris de coisas estúpidas, simplesmente, porque estás em estado de estupidificação total. Não te apercebes que acordas a sorrir e te tornas, estranhamente, simpático para toda a gente. Que nunca te enervas com nada e até fazes conversa de circunstâncias com outras pessoas na fila de supermercado. 
Começas a perceber, aos poucos, que tudo à tua volta corre bem e que isso só acontece porque é isso que dás aos que estão à tua volta também. E pouco depois percebes que é tão bom receber aquilo que  dás, que não entendes porque não o fizeste sempre. Depois cais em ti e percebes. Percebes que estás  lambuzado de gelados e iogurtes de morango na cara, como ainda não tinhas estado. Percebes que isto de gostar de iogurtes de morango é do melhor que há e que os vais querer comer até ao fim dos teus dias.
Um dia acordas, pensas melhor no teu futuro, e percebes que queres passar o resto da tua vida com aquele sorriso parvo na cara. Que mesmo que envelheças que nem uma cavaca seca, vais querer ter sempre aquele açúcar por cima. Que vais querer envelhecer. Que já não vais ter medo de envelhecer. Que a única coisa que vais mesmo querer é envelhecer, porque só assim podes ter tempo para usufruir de todos os iogurtes e gelados. Porque só assim podes ganhar tempo. Porque só assim tens razões para querer acordar. Todos os dias.

E nesse dia, em que acordas e percebes que afinal gostas de iogurtes de morango... está tudo estragado.

Descobres que os vais comer para o resto da vida e que, o resto da vida, é muito tempo. Descobres que esse imenso tempo pode não sê-lo para ti mas pode sê-lo para alguém. Descobres que não vais querer morrer nunca. Nem tu nem a pessoa com quem divides os iogurtes de morango. Descobres que a vida plena de iogurtes de tutti-frutti afinal não vai acontecer. Mudas de planos e de estratégia porque, de repente, as prioridades se inverteram todas. Vais descobrir que devíamos ser imortais para passarmos a eternidade dos fins de tarde a passear de mãos dadas e a comer gelados. Que não importa que aos 30 prefiras um cone de bolacha e aos 80 prefiras um copo com colher, desde que o sabor do gelado seja igual. Que o que importa é que te rias de ti e do outro de cada vez que se olharem de frente e não denunciarem que o gelado vos apalhaça a cara. Que o importante é que, todos os dias, ao meterem a cabeça na almofada, mesmo que não se beijem, ao fecharem os olhos, conheçam o sabor dos lábios um do outro de cor. 

E nesse dia, em que adormeces e percebes que já não vives sem iogurtes de morango... está tudo estragado.


Olá. Já sabes como me chamo. Já sabes que gosto de ti. 
E ainda não sabes mas quero dizer-to agora: gosto muito de iogurtes de morangos. 
De Cornetos é que nem por isso, mas alinho num de nata.





3.8.12

O Breu


Uma mulher prostrada.
O traje preto de mortificação.
O olhar vago no escuro.
A tristeza assombrada.
A vaguidão.
A vaguidão daquela alma.
A vaguidão desta mulher.

As sombras amaldiçoadas.
As outras almas sentidas.
O penar de quem não sabe.
O sentimento oco de quem não sente.
O pesar.
O pesar de quem a olha.
O pesar de quem não tem o que consolar.

O ébano da morte.
O bater de asas de corvos.
As roupas puídas de velho.
As mãos consumidas de sofrimento.
A pele.
A pele negra.
A pele morta.

Um caixão triste.
Uma morte esperada.
Um sonho que acabou.
A paixão não consumada.
O agror.
O agror de ter acreditado.
O agror de o sepultar.

O azeviche da noite.
O breu de um rastejar.
O medo de prosseguir.
O horror de quem desistiu de amar.
O caminho.
O caminho que perdeu.
O caminho que já não consegue encontrar.

A escuridão dos pensamentos.
As incertezas do fim.
Um fim sem se esperar.
As lágrimas de saudade a rondar.
O negro do sofrer.
O apagar da luz.
O adeus.
O adeus que não se fez.
O amor que não se consumou.


O adeus que não se fez.
O amor que não se consumou.

O adeus que não se fez.
O amor que não se consumou.




2.8.12

O meu coração. As tuas artérias. O nosso sangue.


Do meu Coração


O meu coração andava moribundo. Sem pinga de sangue nem fulgor. Corria-me pelas veias, solitário, para lá e para cá, sem emoção. Sem destino. Perdido. Corria-me pelo corpo, acabado, pálido, como rios e ribeiros que se tornam lentos até se sumirem. Que se esgotam num fiozinho, até secarem.
Ao meu coração faltava rumo e corrente. Faltava força e vontade de querer. Andava fraco, quase morto, porque não queria bater. 
Os meus rios e ribeiros procuravam um local para desaguar onde sentissem que, no encontro com outras águas, não existiria o doce ou o salgado. Que as suas águas doces se iriam juntar a um imenso mar salgado e, de repente, seriam um só. Este coração, morto e sem sangue, apenas o era porque não encontrava um mar forte e corajoso que o fizesse viver. Era apenas um coração sozinho sem caminhos para alguém lá chegar. Era um coração desligado das artérias que o fazem bombear. 

Das tuas Artérias

No teu corpo, o mais tumultuoso dos mares sobrevive. Vive em ti esse sangue salgado e inóspito. Revoltoso e indignado. Vives forte e aceitando sempre o avanço das marés, sem medo que a maré te vire o barco. Enfrentas, de peito feito, o ardiloso destino que o teu sangue te reservou. Os caminhos por ele percorridos, cheios de abismos e obstáculos, parecem fáceis às muitas lutas travadas. Lutas silenciosas e solitárias que gritavam por companhia. Lutavam por chegar a um lugar que desconhecias mas sabias querer alcançar. Subias a pulso todas as margens das tuas artérias para desaguar num desconhecido lugar. Subias a pulso por saberes que o melhor estava por concretizar. Desconhecias-me o coração mas soubeste sempre que não havia outro para conquistar.
Na chegada do teu sangue ao meu coração, a máquina começou a funcionar.

Faremos o Nosso Sangue

Um dia a bravura da tua corrente lutou para chegar até mim. Remaste contra esse mar que vive dentro das tuas artérias para me chegares ao coração. As tuas artérias ligaram-se a mim. Abraçaram-me o coração e uniram esse mar salgado, aos meus rios e ribeiros de águas doces.
Ao galgar as margens das tuas artérias, esse sangue audaz soube invadir o meu coração. Arrebatou-me e casou-se comigo num dia inesperado. O teu sangue ultrapassou todas as margens e entrou por esta casa abandonada, desenfreado, arrombando-lhe a porta sem medo. Percorreu-lhe todos os caminhos e instalou-se para sempre na mais nobre das divisões. Chegaste ao meu coração e sentaste-te no trono que há muito era teu. Aguardava por ti sozinha, na certeza de que um dia ias chegar. 

O meu coração bate agora com vida, porque as tuas artérias lhe trouxeram um futuro inteiro.