Amanhã, quando chegares, pula do comboio com euforia. Salta para a gare com os braços abertos e corre até mim. Vais-me ver a sorrir, como sempre vês. Sabes bem porque sorrio para ti. Porque me fazes sentir mais jovem que nunca.
Fazes sentir que os amores desenfreados da adolescência chegaram agora.
Que vieram num comboio sem paragens, acelerado. Sei que também me irás sorrir. Que vais dar sentido ao momento e mostrar-me porque gosto tanto de ti. Vais-me fazer repetir-te que te amo, em segredo, ao ouvido. Como se o quanto te amo ainda fosse segredo para alguém. Amanhã quando saíres do comboio, corre. Há em mim um beijo urgente para te entregar.
No dia em que os reclusos quiseram fazer um motim, deram liberdade entre si para decidirem participar ou não participar. Chamavam-lhe o direito a manifestarem-se ou o direito a não se manifestarem. O breve momento de gozar de liberdade dentro do lugar onde sabiam não ter qualquer liberdade.
Há muitos anos que era assim. Nas horas de recreio ou à hora de almoço no refeitório, falavam sorrateiramente entre si, apenas com os cantos da boca, e traçavam planos para o dia do motim. Começavam em tom baixo, falavam com olhares e depois ganhavam tamanho e adensavam-se murmúrios. O ambiente ficava nervoso e, mesmo quem optava por não participar, sentia no ar a turbulência dos planos. Dias antes do motim, ouviam-se ameaças veladas entre celas. Os reclusos mais indignados largavam frases de insatisfação sobre quem decidiu não se meter. Ameaças sobre aqueles que, dentro do código de liberdade que tinham procurado instituir, optaram por se excluir. Legitimamente, excluir. Mas dentro daquela prisão a liberdade passava por dias de penumbra. Há muito que a liberdade se avizinhava ameaçada mesmo sem que alguém o notasse e, a cada motim, ficavam mais evidentes os rancores entre os reclusos. Apesar de terem instituído entre si que ninguém seria obrigado a participar, aqueles que se juntavam ao motim começavam a julgar os outros. Entre celas comentava-se que este ou aquele fulano, que até eram os que mais razões teriam para se manifestar são, afinal, os que se deixaram ficar. Uma vergonha! Passavam a ser olhados de lado, a ser motivo de desconfiança e a merecer comentários cobardes. Há muito que a ameaça sobre a liberdade se tinha tornado realidade e não apenas uma possibilidade. No dia do motim, os que se quiseram juntar a ele, lutavam. Deram a cara e o corpo aos confrontos na prisão. Uns saíram feridos, desasados, outro ilesos mas de convicções partidas. Uns não hesitaram em acreditar que conseguiriam o que queriam, outros desanimaram, lá no fundo do combate, por anteverem que de nada valeria o motim enquanto alguns companheiros se mantiverem à parte. A liberdade de uns estava a ser esmagada pela liberdade dos outros. E a intolerância de quem participou ignorava o direito ao silêncio dos que se mantivessem nas celas. Depois do motim, não restou nada. Não restou, sequer, uma moral da história. Algo que se tivesse aprendido com a ignorância do conflito. Algo que em vez de ter servir de escudo pudesse passar a servir de arma. Depois do motim, os guardas prisionais estavam contentes. Satisfeitos com os resultados. Muitíssimo satisfeito com o facto de os reclusos, depois de tantos motins, continuarem sem perceber porque não resultam eles. Por continuarem a não tirar numa lição de cada motim que acaba em nada. Os guardas riam dos tolos que, ao fim de um dia inteiro a combater sem armas nem estratégias, acabam, voluntariamente, por voltar às celas. Que no fim demonstraram as mesmas fragilidades e necessidades básicas dos restantes dias. Acabariam a rir-se, ainda mais, na manhã seguinte, quando os reclusos saírem das suas celas como se nada se tivesse passado e se voltassem a cumprimentar entre si. Até ao próximo motim não se ouvirão impropérios nem ofensas. No dia seguinte, quando os guardas fizeram contas, perceberam que lhes compensou o motim. Porque as greves de fome lhes pouparam as refeições, porque as brigas os fizeram esquecer do vício do tabaco, porque se gastou menos electricidade e água com os castigos que, posteriormente, cumpriram. Contas feitas, o motim serviu aos guardas mas não deu nada a quem dele participou. De fora, o que os guardas viram foi apenas uma luta entre os próprios reclusos. Sem eles se darem conta, lutaram apenas entre si. Contra si mesmos. Contra os que ficaram dentro das celas e os que quiseram ficar fora delas. Os guardas riram, mas não achavam graça aos reclusos que se mantiveram nas celas por suspeitarem que esses poderiam estar perto de perceber o que eles já sabiam: enquanto não se respeitar a liberdade das decisões dos homens, de nada terá valido a pena lutar por ela.
- Se eu quisesse dizer quem sou, enquanto autora deste blog, dizia.
- Não o fiz.
- Se eu quisesse promover-me e promover os blogs que tenho, fazia-o.
- Não o fiz.
- Se eu gostasse de falar com quem me conhece, sobre o blog, fazia-o.
- Mas não o faço.
- Se eu quisesse dizer à minha família que tenho um blog, dizia.
- Mas nunca, nunca, disse.
- Se eu quisesse que a minha família me viesse fazer perguntas, pedir explicações e vasculhar, sobre o que escrevo... em vez de ter um blog, escrevia-lhes cartas todos os dias.
- Não o faço.
- Se eu achasse bonito os meus pais ouvirem-me dizer ou escrever "caralho", "foda-se" e "puta", dizia-lhes.
- Mas nunca disse.
- Se eu não conhecesse a diferença entre aquilo que um pai pensa que um filho é, e aquilo que um filho realmente é, então não teria um blog onde escrevo como mulher para ter antes um blog onde escrevesse como filha.
- Mas não tenho.
- Se eu não conhecesse os limites da boa educação e decoro que se deve ter para com um pai, tinha-lhes exibido este blog com orgulho.
- Nunca exibi.
- Se eu achasse que os pais têm de saber tudo sobre a vida dos filhos, não me teria importado que me lessem os diários na adolescência.
- Mas importei.
- Se eu estivesse numa posição justa e soubesse das venturas e desventuras de todos os que vêm até aqui para me ler, aceitaria que andassem a espalhar as minhas, à minha revelia, junto dos meus.
- Mas não estou.
- Se eu fosse só uma personagem por trás de um blog não me importaria que falassem de mim.
- Mas não sou.
Desculpem-me, mas não tenho assim tanto orgulho na minha inteligência e no que escrevo para andar a falar no blog por aí, por isso, não tomem essa iniciativa por mim.
Falava com uma amiga sobre a questão de existirem tantas mulheres interessantes sem parceiro. E sobre a questão do tempo se estar a esgotar para elas e, elas, terem de correr cada vez mais para apanhar um comboio que teima em não parar, com a incógnita de não saber se algum dia ele irá parar de facto.
Caímos na questão da injustiça desta perseguição do tempo às mulheres. Da injustiça de uma mulher - das super mulheres, sobretudo - não encontrarem quem queira desfrutar da sua perfeição.
Mas não existem mulheres perfeitas. Ponto. E nós não o somos, de todo, apesar de gostarmos de pensar que sim e de pensar que não existem razões no mundo para alguém não nos querer.
Já os homens também não são perfeitos mas tendem a reconhecer ou aceitar isso com mais facilidade. Ou então, simplesmente, não pensam no caso.
Posto isto, todos percebemos que nenhuma das duas incógnitas da equação é perfeita. Então, pergunto eu, para quê querermos ser perfeitas? Para agradar a quem?
Talvez sejamos formatadas de pequeninas com a conversa inofensiva de sermos princesas, de brincarmos às casinhas, de termos bebés para alimentar, pôr a dormir e mudar as fraldas, de termos pequenos trens de cozinha para fazermos comida de brincar, por nos responsabilizarem "se queres um cãozinho é para tomares conta dele" e outras mil e uma coisas que se incutem, irreflectidamente, na educação das meninas.
Talvez.
Lá falámos da minha experiência dos tempos em que lutava para que gostassem de mim por ser a super mulher e, claro, falámos da fase distinta em que ela se encontra. Aquela fase em que ainda não encontrou respostas para o facto de ser fantástica mas estar sozinha.
Eu, do alto da minha psicologia de trazer por casa, e depois de ter percebido que isto de ser super mulher não leva a lado nenhum nas relações com quem quer que seja, lá lhe disse que ela se esforça demais e quando nos esforçamos demais, nota-se.
Podemos saber fazer tudo numa casa e no trabalho, sermos o pilar da nossa família, sermos as melhores amigas que alguém pode ter, sermos ricas, sermos giras, sermos magras, sermos altas, sermos inteligentes, sermos uma bomba na cama e umas madames à mesa... Mas se nos esforçamos demais essas "vantagens" desvanecem-se na dúvida de quem nos olha como impossíveis de alcançar.
Uma vez disseram-me que eu metia medo aos homens por causa do meu excesso de confiança (óh céus, qual?) e por saber fazer tudo. Porque um homem não quer uma mulher que saiba fazer tudo, um homem também quer uma mulher para proteger. Para poder dar a mão e para poder partilhar algumas coisas.
Tão verdade.
Aceitei o que me disseram e deixei de mostrar as cartas todas no primeiro jogo, para que vissem o lado emocional, carente, feminino e sensível que eu, obviamente, tinha.
Deixei de querer ser super mulher.
Deixei de me esforçar demais.
Ninguém nunca me pediu para eu ser mais do que era. Era apenas a minha cabeça a vender-me a ideia de que eu não era boa o suficiente. Mas somos todos o suficiente (ou até mais do que isso) para alguém.
Sobretudo, percebi, vi, experienciei que, quem ama, quem se apaixona perdidamente por nós, quer tudo menos que corramos maratonas pelo seu amor e atenção. Tem de ser uma troca natural e mútua.
Se estão a correr demais é porque o objectivo se está a afastar em vez de vir ao vosso encontro.
Eu preferi deixar de correr atrás e percebi que o ideal é que os dois corram à mesma velocidade até convergirem no mesmo ponto.
Deixei de querer ser a super mulher.
Ganhei o super homem (bolas, os super homens também não existem, não é? Ganhei o Batman, vá).
Percebi desde o início que tínhamos a mesma pedalada e que íamos chegar juntos ao mesmo sítio.
Agora de onde é que vem a história das torradas com chá?
No dia em que o Batman entrou porta adentro, eu quis mostrar que era a super mulher (ainda quis, sim). Arrumei a casa, mudei a roupa da cama, perfumei o ambiente e preparava-me para fazer o jantar que ele desejasse. Mesmo o mais impossível e difícil dos jantares.
Perguntei-lhe, cheia de atenção, o que queria ele que eu fizesse para jantar.
E ele respondeu, cheinho de carinho a transbordar pelos seus olhos doces:
- Umas torradinhas com um chá, amor, para comermos juntinhos no sofá.
...
Não dêem demais.
Eles não exigem nada de nós.
Querem apenas, e exactamente, o mesmo que nós.
Tempo para nos desfrutarem, para conhecerem as verdadeiras pessoas por trás das capas, para namorarem antes que o tempo e a vida nos empurre para os inevitáveis marasmos.
Não precisamos de fazer o pino, correr, saltar e dar cambalhotas.
Afinal de contas eles só nos pedem torradas e, convenhamos, somos sempre nós a exigir o caviar.
Quando fores velho, Eu também o serei. Não me irei rir de ti. Não estranharei esse velho corpo. Não sentirei outro cheiro que não o teu. Não vou ver-te como um velho. Serei igual a ti quando o fores. Estarei cansada e caduca. De pele seca como barro. De olhar vago e sem horizonte. Também terei largado este corpo. O cheiro da minha pele não será o mesmo. Olharás para mim e verás um cúmulo de histórias passadas. Mas não te lembrarás da moça nova que fui para não te amargurares. Pensarás nela como uma perda. Por vezes chorarás. Sentirás falta da alegria que tive. Também tu não quererás rir. Quando formos velhos seremos outros. Não existiremos como somos agora. Tal como agora já não somos o que já fomos. Seremos outras pessoas novas em corpos velhos. Mas olharei para ti e continuarei a ver-te. A ver o amor que nos uniu. A ver a jóia que guardas dentro de ti. Olharei para as tuas velhas mãos e saberei que és tu por baixo dessa pele. Sei que olharás para mim e não reconhecerás a moça que fui. Mas olharás para mim e vais amar-me nessa lembrança, como se ainda o fosse. Continuarás a procurar-me os pés debaixo dos lençóis e a reconheres-lhes o calor. Continuaremos os dois a esperar que as nossas vidas procurem o mesmo dia para o seu fim.
O nosso medo não pode superar-nos a vontade de viver. Não pode ganhar-nos as forças e vergar-nos. Diminuir-nos e humilhar-nos. Impedir-nos as pernas de andar. Tem antes de nos fazer arriscar viver. Não nos pode prender a um destino que não conhecemos. A um futuro que não sabemos quando chegará. Tem de nos deixar descobrir os dias que sucedem dias. Endireitar-nos, fazer-nos olhar em frente, e andar. Quando se começa uma viagem não se vê todo o caminho mas confia-se num final. Sabemos que andamos em direcção a um destino. Mas tem de se andar. Tem de se dar passos, acelerar o ritmo, por vezes correr. E por vezes andar para trás. Entrar, por momentos, dentro de nós, viajarmos pela nossa cabeça, e daquilo que pensávamos que seria um dia a nossa vida. Perceber que não tem de acontecer o que imaginámos. Aceitar que entre o momento que nascemos e aquele em que estamos agora, aconteceram coisas que nos alteraram o depois. Temos de parar e olharmo-nos como indivíduos capazes. Primeiro vermo-nos como crianças, sem meios para tomar decisões. E depois encararmo-nos como adultos e perceber o poder que temos, finalmente, nas mãos. Temos de olhar para dentro de nós e esquecer os planos que sabíamos não vingar. Riscar a história que conhecíamos. Começar uma nova. Escrever tudo outra vez. Não recear que também essa história tenha pontos e vírgulas. Não temer que também essa história tenha um dia de ser corrigida ou apagada. Aceitar que o caminho tem atalhos, tem curvas, tem penhascos e que, por vezes, é preciso voltar atrás para encontrar o trilho certo. Não faz mal errar. Mas é imperdoável nem tentar. De que temos medo afinal? Que a nossa vontade não seja maior que o nosso medo? Que os resultados não compensem o risco e as consequências de se errar? Que, afinal, o caminho não tenha rectas e termine, sim, num profundo penhasco? Os mais afoitos viram tudo. Os que temeram nem saíram do lugar. Como podemos dizer, então, que nos conhecemos sem nem sabemos como viemos aqui parar?
Isto é mesmo assim. Sem polimentos nem delicadezas.
Não vales ponta de corno como colega de trabalho [sim, vou falar do trabalho, identifiquem-me o ID e venham-me cá prender] e desconfio que como homem ainda és pior mas, na tua vidinha particular fazes o que bem entenderes e faltas ao respeito a quem deixar mas, aqui no trabalho, não voltas a fazer farinha comigo porque, até ver, tenho sido a gaja porreira que nem mereces que eu seja.
É verdade, sim senhor, sou uma gaja desbocada e tenho tanto a mania de não ter segredos profissionais que acabo por fazer uso da transparência das palavras, mas ainda meto travão na falta de educação e também vou tendo alguma noção de hierarquia e respeito pelos mais velhos [sim, se me estás a ler, és um velho! Porra, pá!]. Mas isto hoje acabou-se! Não papo faltas de respeito nem constantes tentativas de humilhação [vai tentando] e muito menos manifestações machistas contra a minha pessoa.
Sou uma gaja cumpridora do meu horário de trabalho, nunca falto, nunca meti uma puta de uma baixa médica [nem verdadeira nem falsa - sim, eu sei quem vocês são], sou uma colega porreira, sou profissional, sou competente, sou responsável, sou tudo!
Esse tudo, devia bastar-te para manteres a linha da dignidade que existe entre ti e mim. Não me tens de amar, nem de adorar o meu riso estridente ou de ser fã das minhas roupas-demasiado-modernas-para-a-tua-tacanhez, mas mantém essa tal dignidade e esse respeito se esperas o mesmo de mim.
Não aceito que um caralho qualquer [isto já nem é contigo, é com toda a minha gente] me venha passar atestados de incompetência, de burrice e de estupidez. Atestados passados por um perna-aberta [isto já é contigo] que diz que sim às maiores barbaridades só para ficar bem com Deus e com o Diabo. Que diz que sim, por cima de quem diz não, para favorecer amigos e facilitar compadrios.
Não aceito bocas que dissimulam comentários humilhantes à minha competência profissional, de um machista frustrado que, por não ter onde exercer a sua autoridade, pensa que a pode vir exercer em mim. Sou mulher mas não sou estupida e já devias saber que subestimar uma mulher inteligente dá merda e, não raras vezes, uma rotura sangrenta e perpétua. És velho de cabeça mas pouco sábio e ainda não aprendeste ou percebeste que uma mulher ferida é pior que uma puta de uma vaca que muge toda a noite junto aos ouvidos até se implorar a Deus para morrer.
Pois "deslembra-te" de mim meu amigo. Não sou tua mulher, nem tua amante, nem tua filha, nem tua empregada, nem tua subalterna, nem tua admiradora, nem tua-porra-nenhuma.
Sou uma gaja que trabalha no mesmo sítio que tu, para o mesmo patrão que tu, que tem as mesmas obrigações que tu e que tem os mesmos direitos que tu [em teoria, pelo menos, que eu sei que tens levado umas palmadinhas nas costas], por isso não me venhas dar cházadas, nem gracejes com o que não tem gracinha nenhuma [o Diabo que te carregue mais ao teu sentido de humor geriátrico-rebarbado] porque do meu lado só vais ter como retorno repostas lixadas e reprovadoras, sem mudar a perspectiva de que não és mais do que eu.
Vou-me ficar por aqui, apesar de haver muitos anos de coisas por dizer, mas lembra-te que isto que estou a fazer contigo chama-se só falta de educação [vendo bem, em legítima defesa e para me poupar a ir para um psicólogo tratar das neuroses que, amiúde, me proporcionas. É, digamos, um desabafo terapêutico. Assim como uma espécie de saco de boxe, 'tás a ver?] mas o que tu me tens feito tem um nome: Assédio.
E tem outro: Perseguição.
E pasma-te mas tem ainda mais um: Cobardia.
Já agora, a propósito daquela cena do ID, se te der para me vires foder o juízo pelo menos que seja como diz o outro: mexe-me nas mamas porque eu gosto que me mexam nas mamas quando me estão a foder.
(Foda-se! Isso querias tu... que não vês umas vai para cima de um centenário).
O padre da minha aldeia, certo dia na missa, tentou convencer a sua audiência a tomar uma determinada posição, sobre um assunto que nem ele entendia, com um sermão fraco de argumentos e recheado de metáforas difíceis de descortinar.
Começou por ler uma parábola qualquer, que ninguém escutou com a devida atenção porque, assim-como-assim, já se ouvem as mesmas histórias vai para cima de uma eternidade e as pessoas não se importam de cumprir com o credo mas não lhes peçam sacrifícios, como manter os níveis de atenção elevados, perante tão desinteressante cantilena e tão medíocre sermão. Depois lá se perdeu num discurso sem coerência nem objetivo, para além de querer impor a sua opinião aos outros e de querer que os outros vejam nessa opinião a indiscutível verdade. Não sei se mais alguém ouviu o que eu ouvi mas a mim não me engana: aquilo há muito que deixara de ser uma missa e há muito que ele tinha despido a pele de padre.
O público não era o mais motivado, concordo, mas o orador também não era (nunca foi) o mais convincente. Olhar rasteiro sobre as letras das escrituras, voz hesitante e apagada, mãos trémulas e frias, pouca presença, pouco carisma, pouco fé. Assim, nem Deus acredita! Mas a verdade é que, a dormir ou não, a imagem do conjunto de fiéis lá permanecia. Aquele velho público… ensonado, iletrado, desinteressado e cansado. Era o que tínhamos. Sempre dão menos trabalho e são mais fáceis de convencer.
Mas, talvez dado o absurdo da coisa, eu prestava atenção ao que o senhor padre lá ia dizendo. Queria ver onde é que aquilo ia dar. A dúzia e meia de velhinhas que dormitavam nos bancos corridos de madeira (ajudadas pela visão inovadora do pavimento radiante sob os pés que o padre meses antes mandou instalar) lá iam embaladas pelas histórias mas nada comparsas de tão empreendedor discurso. O senhor padre não sabia mas restava-lhe apenas eu como interessada, ainda que descrente. Ele nunca chegou a saber mas no final aquela conversa toda cheirou-me a filme de baixo orçamento: a pessoa quer acreditar até ao fim que o filme vai acabar em bom, mas esse fim nunca acontece. O filme é, simplesmente, mau.
No fim da missa, as beatas saíram tal e qual como entraram. Não foram lá fazer mais do que lhes é habitual, e esse hábito tirou-lhes a emoção e o sentido crítico. Foram à sua vida. Hão-de voltar outro dia para ouvir o mesmo sermão sem levantar questões e estar ao lado do padre para o que der e vier.
As outras, aquelas que dormiam, gostaram muito da missa, sim senhor, que o senhor padre fala muito bem. Sabem lá elas! Já só apanharam o “ ide em paz e que o Senhor vos acompanhe” e isso é inquestionável. Estas também voltarão para ouvir mais patacoadas sem pensar muito, que isso dá trabalho e pode-se vir a perceber o embuste do discurso e não queremos cá revoluções de ideias.
As que se lembraram naquele dia de ir à missa, para limpar a cabeça e as ideias, vieram piores. Não resolveram nada, o padre não lhes resolveu nada, e ainda trazem um assunto para pensar em casa. Essas pessoas que nunca vão à missa (e percebe-se sempre quem são) ficaram surpreendidas. Amedrontadas. Aterrorizadas. Incrédulas até, com tamanho sacrilégio camuflado num sermão casto. Com a dissimulação de um pedido de sacrifícios sob palavras salvadoras, coisa que não se via desde os tempos que Cristo veio à terra. Mas essas pessoas são aquelas que não vão voltar e por isso nunca conseguirão fazer a diferença e acordar aquele público moribundo.
A diferença é que passados dois mil anos já ninguém acredita em milagres de multiplicação dos pães quando está a passar fome, dura e real. Ninguém está para dar a outra face quando leva uma bofetada bem assente. E ninguém se vai inibir de atirar a primeira pedra à primeira filha de putice que se fizer.
Por isso cuidado senhor padre, muito cuidado, porque se não sabe fazer milagres não nos venha pedir para não cometer pecados, sobretudo se o que estiver em causa for a nossa defesa.