No dia em que te abandonei, Tinhas desistido de me fazer viver. Abandonei-te por me teres abandonado a mim. Nesse dia não mais chorei.
Desisti de me debater. Não sobrevivi.
No dia em que te abandonei,
Já tu me tinhas deixado. Há muito tempo me tinhas deixado. Já eu não apaixonava recordações.
Havias-me largado numa vala profunda de solidão,
Presa entre penhascos e ermos nublados,
Deixaste-me sozinha e infeliz. Também tu não mais sorriste. Quiseste tarde lutar por mim.
No dia em que te abandonei, Relutante em te largar, Chorei sem lágrimas nem dor.
Abandonei-te no limite da desesperança. Esperava que no teu próprio desalento lutasses, Que reconheces que não existes sem mim. Que contra a minha própria vontade desisti. Esperava-te ver como salvador. No dia em que te abandonei morri por dentro. Sei que nesse dia também morri para ti.
Olha-me de lado, chama-me nomes em voz baixa (dentro desse
cérebro retardado) roga-me pragas se quiseres.
Imagina-me a mais podre das putas a quem dás umas nalgadas, com essas mãos murchas, e que mesmo assim não cede.
Faz de mim o que quiseres em pensamentos mas, da boca para fora, vê se te controlas porque hoje não estou pra merdas. Não te aturo vai pra cima de uma eternidade, por isso, não vale a pena prolongares o que já não tem fim. Acaba com a tua sofreguidão de me foderes porque hoje, daqui, não levas ponta.
É verdade, sim, dou-te razão. Hoje até era o dia em que podia ter acordado a achar piada a essa tentativa de me enrabares com os olhos e com o pensamento, mas és tão frouxo que nem essa pica me dás. Logo hoje, que já acordei tão dorida. Uma pena. Tiveste mesmo azar.
Mas não insistas. Bem sei que eu podia achar graça a essa espécie de perseguição que me fazes, ver isso como assédio, sentir vaidade nessa rebarbadice, mas acredita que não acho. Vê bem que, por vir de ti, nem isso acho. Capacita-te que não vai dar.
Hoje, honey,
estás fodido cá pró meu lado.
Hoje, não te vou dar o cu.
Não dou, não dou, não dou.
Vai procurar outro mais mole, mais flácido e mais receptivo
a encavadelas sonsas e sem tesão, porque o que não falta por aí são seres a gostar de ser papados. É que dá menos trabalho ser papado que papar, 'tás a ver?
Estás, claro que estás. Que essa arte para gostar de saltar para cima dos outros teve de vir de muitos anos a servir de alvo em vez de ser o atirador.
Lembras-te quando eras tu o encavado?
Fazes por esquecer, bem sei, porque quando se apanha o gosto de estar por cima já não queremos saber como era estar por baixo.
Mas tenho boas notícias para ti, e olha que nunca tinha tido.
Quero que saibas que, quando me quiseres encavar à grande, com categoria e sem me deixar
a mínima hipótese, ganha talento e eu reconhecê-lo-ei.
Nem vou usar a puta da dor de cabeça como desculpa.
Até lá, mete-te no teu lugar, pára de me cheirar o cu e escolhe outra menos corrosiva e mais submissa para o entalares.
(ver até ao último segundo, onde tudo faz sentido)
A um palhaço, a um comediante, àquele amigo bem-disposto, uma pessoa perdoa tudo. Perdoa tudo menos que não tenha piada. Aquela piada que se espera de quem é um profissional de piadas. Por isso, se estão numa de contar piadas, pelo menos que as contem bem. Que nos convençam que depois da piada vamos largar uma valente gargalhada. Se não se sentem capazes de enfrentar um público com a atitude que este espera, então não subam ao palco. Quando não se está a trabalhar bem a melhor atitude é mesmo sair de cena. Abandonar o palco. Um dia, nesse dia, não haverá o espectáculo de todos os outros dias, porque o artista já não se sente capaz. Sempre é mais digno que ser apupado e empurrado à força para fora do palco. Mas não deixa de ser mau, afinal de contas, pagou-se bilhete, organizou-se a vidinha para ir passar um bom serão, alinha-se o estado de espírito com o estado de espírito do espectáculo de entretenimento que se vai ver, e a malta não se quer sentir defraudada. Não pode haver falhas. Porque no fim do espectáculo, se este não correr bem, o artista já tem o cachet no bolso e já não há verba para devolver o preço dos bilhetes. Mas quantas vezes que isto nos tem acontecido?.... Pagamos, pagamos, pagamos, mas o artista sai de cena e nós ficamos a arder com o dinheiro do bilhete. Espectáculo de piadas nem vê-lo. É uma desilusão. Nem à piada final tivemos direito para nos podermos esquecer como o resto foi mau.
É como ir jantar fora a um sítio fino e só se safar a sobremesa. Até perdoamos que o resto da refeição tenha sido medíocre.
Ou como ir ao cinema: se o final do filme for bom, até nos esquecemos das duas horas anteriores de puro sofrimento e agonia sem compreender a genialidade do autor que fez um filme só para satisfação pessoal. Parece que, nos dias que correm, já ninguém se lembra desta velha teoria de que um bom final salva um mau início.
As pessoas até podem aceitar fazer sacrifícios, levar com uns abanões, ter vómitos, penhorar a casa mas no fim, mesmo no fim disto tudo, a coisa vai ter de correr muito bem. Em algum momento vai ter de correr bem. Vai ter de haver a piada no final que salva isto tudo. Vai ter de haver um Parfait de chocolate com spuma de champagne servido por um empregado sueco que nos olha para o decote. Vai ter de haver um beijo na boca em bicos dos pés com a Torre Eiffel como pano de fundo, antes do The End.
Nós aceitamos um mau espectáculo se no fim a saída for em beleza.
Já chega de subidas e descidas de pano, de vergonhas e embaraços, de constrangimentos da nossa e da vossa parte. Chega de ter pena dos artistas por passarem a vida a levar com tomates e ovos podres nas trombas e mesmo assim continuarem a subir ao palco.
Pronto, já chega!
Contem lá a piada e sigam com a vossa vida, por favor.
Amanhã, quando chegares, pula do comboio com euforia. Salta para a gare com os braços abertos e corre até mim. Vais-me ver a sorrir, como sempre vês. Sabes bem porque sorrio para ti. Porque me fazes sentir mais jovem que nunca.
Fazes sentir que os amores desenfreados da adolescência chegaram agora.
Que vieram num comboio sem paragens, acelerado. Sei que também me irás sorrir. Que vais dar sentido ao momento e mostrar-me porque gosto tanto de ti. Vais-me fazer repetir-te que te amo, em segredo, ao ouvido. Como se o quanto te amo ainda fosse segredo para alguém. Amanhã quando saíres do comboio, corre. Há em mim um beijo urgente para te entregar.
No dia em que os reclusos quiseram fazer um motim, deram liberdade entre si para decidirem participar ou não participar. Chamavam-lhe o direito a manifestarem-se ou o direito a não se manifestarem. O breve momento de gozar de liberdade dentro do lugar onde sabiam não ter qualquer liberdade.
Há muitos anos que era assim. Nas horas de recreio ou à hora de almoço no refeitório, falavam sorrateiramente entre si, apenas com os cantos da boca, e traçavam planos para o dia do motim. Começavam em tom baixo, falavam com olhares e depois ganhavam tamanho e adensavam-se murmúrios. O ambiente ficava nervoso e, mesmo quem optava por não participar, sentia no ar a turbulência dos planos. Dias antes do motim, ouviam-se ameaças veladas entre celas. Os reclusos mais indignados largavam frases de insatisfação sobre quem decidiu não se meter. Ameaças sobre aqueles que, dentro do código de liberdade que tinham procurado instituir, optaram por se excluir. Legitimamente, excluir. Mas dentro daquela prisão a liberdade passava por dias de penumbra. Há muito que a liberdade se avizinhava ameaçada mesmo sem que alguém o notasse e, a cada motim, ficavam mais evidentes os rancores entre os reclusos. Apesar de terem instituído entre si que ninguém seria obrigado a participar, aqueles que se juntavam ao motim começavam a julgar os outros. Entre celas comentava-se que este ou aquele fulano, que até eram os que mais razões teriam para se manifestar são, afinal, os que se deixaram ficar. Uma vergonha! Passavam a ser olhados de lado, a ser motivo de desconfiança e a merecer comentários cobardes. Há muito que a ameaça sobre a liberdade se tinha tornado realidade e não apenas uma possibilidade. No dia do motim, os que se quiseram juntar a ele, lutavam. Deram a cara e o corpo aos confrontos na prisão. Uns saíram feridos, desasados, outro ilesos mas de convicções partidas. Uns não hesitaram em acreditar que conseguiriam o que queriam, outros desanimaram, lá no fundo do combate, por anteverem que de nada valeria o motim enquanto alguns companheiros se mantiverem à parte. A liberdade de uns estava a ser esmagada pela liberdade dos outros. E a intolerância de quem participou ignorava o direito ao silêncio dos que se mantivessem nas celas. Depois do motim, não restou nada. Não restou, sequer, uma moral da história. Algo que se tivesse aprendido com a ignorância do conflito. Algo que em vez de ter servir de escudo pudesse passar a servir de arma. Depois do motim, os guardas prisionais estavam contentes. Satisfeitos com os resultados. Muitíssimo satisfeito com o facto de os reclusos, depois de tantos motins, continuarem sem perceber porque não resultam eles. Por continuarem a não tirar numa lição de cada motim que acaba em nada. Os guardas riam dos tolos que, ao fim de um dia inteiro a combater sem armas nem estratégias, acabam, voluntariamente, por voltar às celas. Que no fim demonstraram as mesmas fragilidades e necessidades básicas dos restantes dias. Acabariam a rir-se, ainda mais, na manhã seguinte, quando os reclusos saírem das suas celas como se nada se tivesse passado e se voltassem a cumprimentar entre si. Até ao próximo motim não se ouvirão impropérios nem ofensas. No dia seguinte, quando os guardas fizeram contas, perceberam que lhes compensou o motim. Porque as greves de fome lhes pouparam as refeições, porque as brigas os fizeram esquecer do vício do tabaco, porque se gastou menos electricidade e água com os castigos que, posteriormente, cumpriram. Contas feitas, o motim serviu aos guardas mas não deu nada a quem dele participou. De fora, o que os guardas viram foi apenas uma luta entre os próprios reclusos. Sem eles se darem conta, lutaram apenas entre si. Contra si mesmos. Contra os que ficaram dentro das celas e os que quiseram ficar fora delas. Os guardas riram, mas não achavam graça aos reclusos que se mantiveram nas celas por suspeitarem que esses poderiam estar perto de perceber o que eles já sabiam: enquanto não se respeitar a liberdade das decisões dos homens, de nada terá valido a pena lutar por ela.
- Se eu quisesse dizer quem sou, enquanto autora deste blog, dizia.
- Não o fiz.
- Se eu quisesse promover-me e promover os blogs que tenho, fazia-o.
- Não o fiz.
- Se eu gostasse de falar com quem me conhece, sobre o blog, fazia-o.
- Mas não o faço.
- Se eu quisesse dizer à minha família que tenho um blog, dizia.
- Mas nunca, nunca, disse.
- Se eu quisesse que a minha família me viesse fazer perguntas, pedir explicações e vasculhar, sobre o que escrevo... em vez de ter um blog, escrevia-lhes cartas todos os dias.
- Não o faço.
- Se eu achasse bonito os meus pais ouvirem-me dizer ou escrever "caralho", "foda-se" e "puta", dizia-lhes.
- Mas nunca disse.
- Se eu não conhecesse a diferença entre aquilo que um pai pensa que um filho é, e aquilo que um filho realmente é, então não teria um blog onde escrevo como mulher para ter antes um blog onde escrevesse como filha.
- Mas não tenho.
- Se eu não conhecesse os limites da boa educação e decoro que se deve ter para com um pai, tinha-lhes exibido este blog com orgulho.
- Nunca exibi.
- Se eu achasse que os pais têm de saber tudo sobre a vida dos filhos, não me teria importado que me lessem os diários na adolescência.
- Mas importei.
- Se eu estivesse numa posição justa e soubesse das venturas e desventuras de todos os que vêm até aqui para me ler, aceitaria que andassem a espalhar as minhas, à minha revelia, junto dos meus.
- Mas não estou.
- Se eu fosse só uma personagem por trás de um blog não me importaria que falassem de mim.
- Mas não sou.
Desculpem-me, mas não tenho assim tanto orgulho na minha inteligência e no que escrevo para andar a falar no blog por aí, por isso, não tomem essa iniciativa por mim.
Falava com uma amiga sobre a questão de existirem tantas mulheres interessantes sem parceiro. E sobre a questão do tempo se estar a esgotar para elas e, elas, terem de correr cada vez mais para apanhar um comboio que teima em não parar, com a incógnita de não saber se algum dia ele irá parar de facto.
Caímos na questão da injustiça desta perseguição do tempo às mulheres. Da injustiça de uma mulher - das super mulheres, sobretudo - não encontrarem quem queira desfrutar da sua perfeição.
Mas não existem mulheres perfeitas. Ponto. E nós não o somos, de todo, apesar de gostarmos de pensar que sim e de pensar que não existem razões no mundo para alguém não nos querer.
Já os homens também não são perfeitos mas tendem a reconhecer ou aceitar isso com mais facilidade. Ou então, simplesmente, não pensam no caso.
Posto isto, todos percebemos que nenhuma das duas incógnitas da equação é perfeita. Então, pergunto eu, para quê querermos ser perfeitas? Para agradar a quem?
Talvez sejamos formatadas de pequeninas com a conversa inofensiva de sermos princesas, de brincarmos às casinhas, de termos bebés para alimentar, pôr a dormir e mudar as fraldas, de termos pequenos trens de cozinha para fazermos comida de brincar, por nos responsabilizarem "se queres um cãozinho é para tomares conta dele" e outras mil e uma coisas que se incutem, irreflectidamente, na educação das meninas.
Talvez.
Lá falámos da minha experiência dos tempos em que lutava para que gostassem de mim por ser a super mulher e, claro, falámos da fase distinta em que ela se encontra. Aquela fase em que ainda não encontrou respostas para o facto de ser fantástica mas estar sozinha.
Eu, do alto da minha psicologia de trazer por casa, e depois de ter percebido que isto de ser super mulher não leva a lado nenhum nas relações com quem quer que seja, lá lhe disse que ela se esforça demais e quando nos esforçamos demais, nota-se.
Podemos saber fazer tudo numa casa e no trabalho, sermos o pilar da nossa família, sermos as melhores amigas que alguém pode ter, sermos ricas, sermos giras, sermos magras, sermos altas, sermos inteligentes, sermos uma bomba na cama e umas madames à mesa... Mas se nos esforçamos demais essas "vantagens" desvanecem-se na dúvida de quem nos olha como impossíveis de alcançar.
Uma vez disseram-me que eu metia medo aos homens por causa do meu excesso de confiança (óh céus, qual?) e por saber fazer tudo. Porque um homem não quer uma mulher que saiba fazer tudo, um homem também quer uma mulher para proteger. Para poder dar a mão e para poder partilhar algumas coisas.
Tão verdade.
Aceitei o que me disseram e deixei de mostrar as cartas todas no primeiro jogo, para que vissem o lado emocional, carente, feminino e sensível que eu, obviamente, tinha.
Deixei de querer ser super mulher.
Deixei de me esforçar demais.
Ninguém nunca me pediu para eu ser mais do que era. Era apenas a minha cabeça a vender-me a ideia de que eu não era boa o suficiente. Mas somos todos o suficiente (ou até mais do que isso) para alguém.
Sobretudo, percebi, vi, experienciei que, quem ama, quem se apaixona perdidamente por nós, quer tudo menos que corramos maratonas pelo seu amor e atenção. Tem de ser uma troca natural e mútua.
Se estão a correr demais é porque o objectivo se está a afastar em vez de vir ao vosso encontro.
Eu preferi deixar de correr atrás e percebi que o ideal é que os dois corram à mesma velocidade até convergirem no mesmo ponto.
Deixei de querer ser a super mulher.
Ganhei o super homem (bolas, os super homens também não existem, não é? Ganhei o Batman, vá).
Percebi desde o início que tínhamos a mesma pedalada e que íamos chegar juntos ao mesmo sítio.
Agora de onde é que vem a história das torradas com chá?
No dia em que o Batman entrou porta adentro, eu quis mostrar que era a super mulher (ainda quis, sim). Arrumei a casa, mudei a roupa da cama, perfumei o ambiente e preparava-me para fazer o jantar que ele desejasse. Mesmo o mais impossível e difícil dos jantares.
Perguntei-lhe, cheia de atenção, o que queria ele que eu fizesse para jantar.
E ele respondeu, cheinho de carinho a transbordar pelos seus olhos doces:
- Umas torradinhas com um chá, amor, para comermos juntinhos no sofá.
...
Não dêem demais.
Eles não exigem nada de nós.
Querem apenas, e exactamente, o mesmo que nós.
Tempo para nos desfrutarem, para conhecerem as verdadeiras pessoas por trás das capas, para namorarem antes que o tempo e a vida nos empurre para os inevitáveis marasmos.
Não precisamos de fazer o pino, correr, saltar e dar cambalhotas.
Afinal de contas eles só nos pedem torradas e, convenhamos, somos sempre nós a exigir o caviar.