9.9.13

Morrer em Lisboa





Está disponível, em formato digital, um conto mal sucedido em concursos literários mas que, ainda assim, partilho... aqui!





3.9.13

Conheces a tua vagina?




Para as mulheres, creio, não é comum ver vaginas. Conhecemos a nossa e podemos passar o resto da vida sem ver mais nenhuma, ao vivo e a cores (pornografia não conta). Não andamos a olhar para as vaginas umas das outras. Não pedimos para dar uma espreitadela. As coisas não funcionam assim entre nós. Ninguém anda a medir nada. Não nos interessam os penteados que cada uma opta por ter. Para além disso, partimos do pressuposto que as vaginas, além de não serem uma coisa lá muito interessante, não devem variar assim tanto de mulher para mulher (achava eu...).
E quando falo de vagina, não estou a falar de um pipi. Um pipi não revela nada do que é uma vagina. É apenas uma espécie de capa do livro (quantos de nós não fomos enganados por uma boa capa? Bem sei, bem sei...). Uma vagina é um ecossistema particular dentro da natureza de cada mulher. E não é conhecido até ser desvendado. E só é desvendado quando explorado.
Uma vagina não é como um pénis, que se vê num simples tirar de roupa. Uma vagina acontece noutra dimensão. Oculta. 
E esse mistério tem sido alimentado ao longo de toda a evolução humana. Se pensarmos na quantidade de vezes que a imagem do pénis foi divulgada e banalizada, ao ponto de não se ter tornado objecto de delírio, percebemos que o desejo de ter acesso a uma vagina (por imagem, filme, ao vivo...) tornou-se tão mais acentuada quanto a inacessibilidade a uma.
Mas não é da história das vaginas na evolução humana que quero falar. Voltemos antes à questão pertinente sobre as vaginas. E a minha questão é:
Quem pode dizer, ao certo que conhece bem a sua vagina?
Ou melhor, as minhas questões são:
Quem pode dizer que conhece e gosta muito da sua vagina?
E se perguntarmos aos nossos parceiros, que dirão eles da nossa vagina?
Será que a percepção deles é idêntica à nossa ou existe todo um conceito na cabeça dos homens que os fazem odiar aquelas vaginas que, nós mulheres, acharíamos normais, por consenso?
Ou para eles tanto faz? E a questão visual é pouco relevante na equação do prazer?
E se, além do sexo, mantivermos uma relação de amor através da nossa vagina?
O afecto amoroso toldará a ideia que o nosso parceiro terá?
Por haver amor à mistura ele dirá sempre que a nossa cena é a mais encantadora de todas?
E não vos amedronta poderem ser trocadas por uma vagina "melhor"?
Eu tenho imensas duvidas sobre tudo isto.
Tenho duvidas sobre o que eles acham e sobre o que nós, mulheres, pensamos acerca da estética das vaginas. O caso piora, francamente, se ainda juntarmos a ideia de que a estética reflecte o desempenho.
Uma vagina bonita e equilibrada esteticamente porta-se melhor e dá mais alegrias ao casal na hora do prazer?
E aquelas vaginas que parecem ter passado por uma trituradora de carne, poderão ditar o insucesso de uma relação sexual e, consequentemente, amorosa no caso de esta existir?
Daquilo que tenho ouvido - e tem sido muito - além de uma boa parte das mulheres nunca ter tido a curiosidade de se meter em cima de um espelho para ver o que anda por ali, uma outra parte não gosta de falar no assunto para não denunciar a sua insatisfação.
Infelizmente, começo a ter a percepção que há por aí muita vagina sem salvação à vista. Muitas mulheres tristes com o que têm. Muitos casais que, em silêncio, fazem passar a mensagem que na cama está tudo bem.
Mas conhecer bem a nossa vagina também deve passar por perguntar, a quem a vê em ângulos mais favoráveis que o nosso, se lá por baixo vai tudo bem. Envolver a outra pessoa no assunto. Perguntar se gostam, se não gostam, objectivos para a próxima época, etc. Para nos fortalecer. Dar confiança. Um atleta motivado pelo seu treinador, é um atleta com maior rendimento.
Por essa razão (e por palermice) à parte da opinião de um especialista e dos seus extensos elogios (questionável esta postura, eu sei) eu precisei de uma segunda opinião. Sem medos, sem rodeios, perguntei a quem a vê mais de perto e trabalha no terreno: "Gostas da minha vagina?" (... vá, talvez não tenha dito vagina...). "Pois é claro que gostas"... ou nunca mais lhe punhas os olhos em cima. Foi o mesmo que perguntar a um cego se queria ver.
Mas a questão não é essa. Não é a da beleza apenas por si. Não é a necessidade de aprovação. É o à vontade com o nosso corpo. O à vontade que proporcionamos à outra pessoa com quem dividimos o nosso corpo. É a liberdade. É a liberdade de se viver bem com o que se tem. Daí a importância em conhecermos a nossa vagina.

A questão está em inverter o ponto de interrogação da pergunta "eu conheço a minha vagina?" num ponto de exclamação "eu conheço a minha vagina!" e viver feliz da vida com isso.



E, por amor de Deus, nunca pensem que uma vagina é um pipi. Sempre é menos uma coisa para baralhar.







27.8.13

(Nem sei que nome dê a isto)

(E como, decididamente, não estou com as ideias organizadas, vai uma foto a condizer... com qualquer coisa)


Durante estes dias pensei muito no porquê de a vida nem sempre nos trazer as coisas na hora certa.
De como só nos dá a paciência para sermos pais quando já somos avós; de como atingimos um ordenado digno para podermos usufruir da vida quando já passamos a idade de toda a plenitude física e mental; de como chegamos ao topo da carreira, em que nos é dada a possibilidade de tomar decisões, quando já estamos cansados.
Não sei se há alguma coisa de perverso nisto, se é alguma lição de moral que a vida nos quer dar ou se, simplesmente, ainda não tenho idade para compreender a ordem dos acontecimentos e a lógica de primeiro termos de respirar quando não há ar e só em fase terminal nos ser dado oxigénio.
Se estiver perante uma lição de vida, temo poder passar por ela sem a compreender, senão vejamos:
Para que raio nos serve uma lição de vida se depois da vida nada existe? E mesmo que exista, o que é que se pretende com isso? Fazem-nos um teste de aptidão, lá do outro lado? "Ora bem, escolheu a profissão errada, demorou quarenta anos a atingir o topo de carreira, ganha uma reforma miserável mas, agora sim, já pode ir passar as férias que tanto desejou a Ayamonte. Diga-me, então, o que aprendeu com isto?"
Nada. Ou melhor, aprendi.
Aprendi que mais vale ir usufruindo do pouco que se tem ao longo da vida do que investir tudo - hipotecar a felicidade da juventude - num futuro incerto, que não se sabe quando acaba e que não se sabe o que nos reserva.
Não vou ter filhos agora à espera de ser uma óptima avó no futuro. Mais vale investir tudo como mãe. Dar tudo no agora. Dar tudo como mãe, como filha, como amiga, como amante, agora, do que num futuro que não sei quando acontecerá.
Não vou deixar de gozar sete dias numa praia perto de casa na esperança de daqui por dez anos ter dinheiro para ir às Maldivas. Eu não sei o que acontece daqui por dez anos. Não sei se por essa altura já estarei a fazer o teste de moral no lado de lá. Sei, e disso tenho a certeza, que é injusto não termos todos os meios para sermos felizes na idade certa. No momento certo. Sei que era agora que queria ter um bom carro, enquanto tenho coragem para as viagens sem fim; Que queria ter uma casa em cada porto, enquanto me apetece conhecer o mundo; Que queria ter muito dinheiro, enquanto faz sentido tentar construir uma vida; Que queria que a pessoa que amo tivesse toda a saúde que merece ter, enquanto somos jovens e acreditamos que este amor vai ser para sempre e, esse sempre, é feito de muitos e longos anos.
Se a lição que a vida me quer dar, ao privar-me de tudo isto no vigor da minha idade jovem/adulta, é que há um sabor na conquista e que, essa conquista, precisa de anos para ser firmada, então que me leve já. Porque não será depois dos setenta anos que irei ver beleza nem sentido nos objectos que hoje me são sinónimo de conforto nem, certamente, esperarei a saúde necessária à minha felicidade numa idade em que, inevitavelmente, sabemos que o tempo se está a esgotar.

E pronto. Era só isto.




13.8.13

365

Tenho-te Amado.




Todos os Dias.





4.8.13

Os piores dos melhores II





À semelhança do ano passado irei ausentar-me por uns dias.
Mas para não ficar com a sensação de ter abandonado isto, deixo uma selecção de textos, um por cada dia que estarei longe.
O único senão, tal como no ano passado, é que estes textos não são os mais lidos, ao contrário deste que foi lido uns milhares de vezes.
Estes textos que vos deixo, são os menos lidos de 2012 mas dos que mais gostei de escrever.


Entretanto, já sabem... estarei de olho em vocês!

Até já.



Vende-se

Quando os dedos tocaram o céu

Os lugares. Os objectos. As pessoas... As pessoas...

O fotógrafo e a escritora

Paranóia

O mar

Conheces?

albus albus

De quantas formas podemos morrer?

Quero ser Miss!

O Nascimento





2.8.13

A mulher invisível





Sim, além de um Homem Invisível também houve uma Mulher Invisível na história do cinema.
E neste filme que é a minha vida (linda clichésada) há uma pessoa que quer, à força, fazer de mim uma mulher invisível... Para estar à vontade para a pouca-vergonha, está-se mesmo a ver. Mas eu brinco às mulheres invisíveis quando bem me apetecer.

Vamos directos ao assunto: Ando, vai para cima de uma vida, para mandar uma babe  ir cagar à mata passear.

Darling, eu estou em todo o lado onde cospes frases de amor ao meu rapaz, por isso não finjas que não sabes que te estou a ver e, pior ainda, não faças cenas tristes à espera que eu veja, só com o objectivo de me irritar. Eu já estou irritada. 
No entanto, ando aqui a aguentar-me. Vê bem como sou boazinha. Nem vou fingir e dizer que não é por ti que estou armada em senhora polida, e que é por ele. E que ele merece que eu seja uma senhora e não ligue a constantes bombardeamentos teus. Sou-te sincera: Ando a aguentar-me por ti, mesmo! Para não te dar força nem esse prazer de me veres incomodada, que eu também sou mulher e sei como as coisas funcionam. Era a tua alegria veres-me encavada derrotada.
Eu sei que, se te for foder lixar a cabeça, tu vais ter o que queres: vais ter toda a atenção e a toda a certeza de que eu ando a ver o esfreganço pélvico virtual que andas a fazer no mural do meu rapaz e a ficar minada com isso.
Como és porcalhona tonta mas não deves ser totalmente parva, deves saber que eu, efectivamente, vejo a masturbação psicológica que lhe andas a fazer. Sim, eu vejo e tu sabes. E eu sei que tu sabes que eu vejo. Só não tens a certeza, nem como o provar, e eu também não te vou dar essa vitória.
Não te vou dar o prazer de te descompor em público, de te mandar mensagens ressabiadas, nem de ir armar peixeirada aí para essa aldeia de fim de mundo onde tu achas que és gente.
Vou-me manter aqui na minha.
Fingir-me de invisível. Como os ninjas, 'tás a ver?
E depois faço toda uma série de exercícios de concentração.
Rezo umas caralhadas orações em voz alta antes de me deitar.
Evito ir ao mural do rapaz durante o dia para não estragar o monitor com mais golpes de x-acto nos teus olhinhos.
Imagino-te dez vezes ao dia leprosa, com a vagina ressequida como uma rolha de cortiça, míope, com cáries nos dentes e o cabelo a cair.
Mas também tenho pensamentos bons e desejo que arranjes uma pila amiga só para ti.
E peço aos anjinhos todos para não fazeres a mínima ideia que escrevo por aqui, para não ficares com o pito orgulho aos saltos por eu estar a fazer uma cena e por estar, claramente, fora de mim com a merda novela que andas a fazer.

Minha querida amiga, até podes continuar a querer ter o meu rapaz como troféu (eu sei como é: quando eles arranjam outra é quando mais os queremos. Por exercício. Por provocação) mas não tentes é fazer-me desaparecer quando eu estou aqui bem vivinha, a ver o espectáculo a acontecer, o acidente a dar-se e a pouca-vergonha a crescer.
Lembra-te: Ninja!
Sou como um ninja. Apareço e desapareço sem dares por isso mas estou mais perto de ti do que tu pensas. Pronta a ninjar.
Sim, minha querida, eu estou aqui e estou-te a ver. Estou com um olho nos acontecimentos e com dois olhos em ti... e faz bem as contas e vê que outro olho pode estar vigilante, que eu gosto pouco de marmeladas feitas pelas costas.





31.7.13

Exercícios de humildade




Quando era muito pequena, ainda não sabia ler nem escrever, preconizei aquele que havia de ser o meu maior exercício de humildade. Ou pelo menos o mais emblemático e que me viria a servir, no futuro, de termo de comparação com outros momentos idênticos. Tive consciência dele apenas uns anos mais tarde mas sei que foi nessa idade, em que os dentes de leite ainda estavam para ficar, que comecei um percurso de auto-análise. De tomada de consciência. De uma das muitas lições de vida que viria a ter.
Nesse tempo, em que era ginasta, tinha muita vaidade em ser a menina que era escolhida para a linha da frente da formação. Aquela que todos conseguiriam ver a fazer as cambalhotas, os pinos e as espargatas. Um orgulho. Gostava do aprumo do maillot  azul com a gola de marinheiro. Do pequeno apanhado no cabelo. Da pose de pequena diva da ginástica, com as costas rigorosamente direitas e rígidas.
Até que um dia, passados meia-dúzia de anos, descobri em casa da minha prima, que também tinha pertencido ao mesmo grupo de ginástica rítmica, uma cassete de vídeo que o meu tio tinha guardado, religiosamente, com uma autocolante a anunciar "Sarau de ginástica 1985".
Eu e a minha prima lá fomos ver a cassete e eu, como é óbvio, transparecia uma evidente segurança de que iríamos assistir apenas a mais um grande momento da minha infância, cheia de genialidade. Mas o que acabei a ver foi uma menina, perdida no meio de outras meninas. Com um maillot  azul com gola de marinheiro, igual ao de todas as outras meninas, agarrada a uma boia, a uma bola, a um arco e a tentar encontrar o X no chão que indicava a minha posição e completamente interessada em chamar a atenção do público em vez de cumprir a minha rotina.
Nesse dia vi a menina que não conseguiu fazer o pino depois de três tentativas esforçadas, apesar de, nas minhas felizes memórias, apenas recordar um sarau fora de série em que eu tinha cumprido o que esperavam de mim, com grande sucesso.
Foi preciso meia-dúzia de anos depois para ter o meu exercício de humildade.
Coloquei em perspectiva aquela nova consciência e soube, a partir daí, que o que achamos de nós nem sempre é o que realmente somos. Aprendi, a partir desse dia, que afinal prometo muito e realizo pouco. Que sou uma fraude.
Aprendi que era escolhida para a linha da frente pela conveniência de ser a mais pequena e não por ser a melhor. Aprendi que só temos uma oportunidade para fazer o nosso melhor e que as restantes tentativas são apenas o aumentar do número de falhas.

Trinta anos volvidos e fui obrigada a lembrar-me do meu maillot  azul com gola de marinheiro.
Relembrei, com a dor de quem se viu humilhado, que as expectativas sobre mim não se cumpriram e que, ainda assim, havia uma lição a reter daquele momento: a lição de humildade.
Hoje, perante um júri de mulheres e homens adultos, em que me defendi, defendi um trabalho suado e sofrido, e em que fiz o pino à primeira e sem quaisquer ajudas, voltei a ter a minha lição de humildade.
Erradamente, defendi que o papel de um arquitecto, quando passa por intervir num edifício histórico, deve ser mais modesto e menos centrado em si e que, resumidamente, se trata de um exercício de humildade para um arquitecto assumir a responsabilidade de intervir num edifício sem impor a sua marca.
A referência a "um exercício de humildade" foi mal acolhido por uma troika de divas que, naturalmente, adoram tudo nesta vida menos o conceito de humildade.
Erro o meu.
Para mostrar interesse em esclarecer todas as questões, a menina do maillot azul que nunca concretizava o pino à primeira, ainda tentou explicar que "humildade", naquele contexto, significava respeito. Respeito pela pré-existência, pelo edifício, pela sua história.
Segundo erro.
Dois conceitos, altamente desconhecidos para os jurados num dia só: Humildade e Respeito.
Admito que foi puxar pela minha sorte, esquecer a minha sina e gozar com o meu karma, mas ninguém me iria defender a não ser eu própria. E preferi arriscar a ficar parada a ver os outros brilharem com as piruetas. Mas voltei a ser colocada na primeira fila.
Naquele momento senti-me pequenina. A fazer investidas contra a esteira, uma e outra vez, sem nunca conseguir fazer o pino.

Tive o meu exercício de humildade.
Pelo menos hoje, alguém o teve.


19.7.13

Manual de sobrevivência




Manual de sobrevivência para quem lida diariamente com otários, cobardes e hipócritas e outros tipos de jumentos
(como o título é muito longo nunca vou poder editar um livro só meu, o que é uma grande pena)


Pois é meus amigos, temos dias em que precisamos imenso de um amparo, de uma mão que nos guie, de uma vozinha que nos corrija a vontade de mandar à merda os imensos cidadãos que perturbam o nosso dia-a-dia.
Por isso, é com todo o prazer que venho partilhar alguma da minha vasta experiência, graciosamente resultante do convívio muito frequente com os mais altos asnos desta piquena sociedade onde sobrevivo.
Preparei um manual só para vós, pessoas amorosas, que são diariamente levadas ao limite da paciência, da boa-educação e da finesse
Fiquem com o meu "Manual de sobrevivência para quem lida diariamente com otários, cobardes e hipócritas e outros tipos de jumentos":

Capítulo I

Quando os imbecis atacam por telefone

1º - Caso não consiga ver quem o está a contactar (ainda há imensos telefones fixos sem visor, o que é uma enorme maçada), comece o telefonema sempre com o seu tom habitual e não avance até compreender, exactamente, com quem está a falar. 

2º - Depois de ter a certeza que está a falar com aquele imbecil do costume, modere o tom, não mostre empatia, disponibilidade nem voluntarismo. Fale pouco, responda evasivamente, não alimente a conversa, mostre desconhecimento sobre todos os assuntos que ele abordar. Lembre-se que o objectivo não é fazer o outro feliz: é terminar com o seu sofrimento.

3º - Se perceber que afinal está a falar com um outro qualquer noveau tromper não aponte as armas. Dê uma segunda oportunidade à pessoa. Afinal de contas todos temos maus dias. Mas convenhamos, se à terceira vez se voltar a armar em anormal, você já terá legitimidade para colocar em prática as restantes tácticas do manual.

4º - Nunca, mas nunca, atenda um telefonema que não é para si. Se o telefone do colega de trabalho, ou o telemóvel da sua mãe, estiverem a tocar, não caia na tentação. Não amplie a sua rede de otários quando não há qualquer necessidade. Lembre-se que todos conhecemos estropícios mas se podermos ficar só por aqueles que já estão na nossa rede de contactos, melhor.

5º - Mas, caso cometa esse gravíssimo erro, proceda da seguinte maneira: afável. Sim, não vai querer que façam queixa de si nas suas costas. Antes ter para atirar aos outros do que esperar que os outros atirem sobre si. Seja simpático mas não mostre interesse em resolver-lhe os problemas ou dar-lhe a informação que ele pretende. Evasiva: é a palavra de ordem.

6º - Caso esteja a lidar com uma pessoa de patente acima da sua, e que sabe que o pode massacrar no futuro, diga sempre que sim a tudo. Não combata. Não é o momento para insuflar o ego nem demonstrar inteligência. Diga que sim a tudo mesmo que não pretenda fazer absolutamente nada. 

7º - Não se esqueça, controle o tom de voz, mantenha um tom monocórdico mas firme, o suficiente para que do outro lado entendam que tem mais que fazer, e nunca se exalte. Mantenha a razão do seu lado.

8º - Todos os contactos de todos os imbecis que conhece devem ser religiosamente guardados para não ter a surpresa de atender um telefonema indesejado. Para algumas pessoas estamos sempre, simplesmente, fora de rede.



Capítulo II

Quando os tontos atacam por mail ou qualquer outro meio igualmente cobardola

9º - Tenha a certeza de uma coisa: quando uma pessoa, com quem temos um relacionamento assim a dar para o azedo, nos contacta por mail, claramente, está a denunciar a sua fraqueza de espírito. Nesse momento fique seguro de que você tem o controlo da situação nas mãos.

10º - Se o tom do mail for agressivo, mantenha a noblesse. Não instigue esse tom. Não se envolva em troca de espinhas porque, relembre-se, tudo o que ficar escrito pode virar-se contra nós e não teremos como negar um momento de rudeza ou falta de educação.

11º - Se o mail demonstrar frouxidão e fraqueza, considere uma atitude altiva. Mostre-lhe que está no poder e ao comando da situação. Mostre-lhe que ele, nesse momento, depende de si, do seu humor, e da sua vontade de colaborar.

12º - Comece sempre o mail com o mesmo cumprimento que lhe dirigem a si, mas atenção! Se se dirigirem a si num tom frívolo ou cheio de intimidades, coloque a pessoa no sítio a que ela pertence e retome o tom formal. Não tema fazê-la sentir-se inferior. 

13º - O final do mail é, igualmente, importante. Nunca largue beijinhos e abraços antes do seu nome. Também não aconselho os "melhores cumprimentos". Não queira ser simpático com quem não merece. Um simples "cumprimentos" bastará e mantê-lo-á num local seguro entre a cordialidade e o profissionalismo.

14º - Nunca responda ao mail. Crie um novo. Não vai querer enganos. Não exclua a hipótese de pensar que está a falar com a amiga sobre o idiota que acabou de lhe enviar um mail e, afinal, estar a dizê-lo ao próprio. Acredite, pode acontecer.

15º - Não se envolva em mails em cadeia e não eternize o sofrimento. Não exceda os dois mails. Está do seu lado, da pessoa inteligente, conduzir a conversa até onde bem entender.

15º - Todos os mails de todos os imbecis que conhece devem ser religiosamente guardados porque, no caso de vir a ser necessário defender-se deve de os usar como prova. Não hesite!


Capítulo III
Quando os estupores atacam pessoalmente

16º - Antes de mais, mantenha sempre o controlo. Não se finja surpreendida mas também não seja simpática. Erga o pescoço, mantenha o queixo hirto, olhe de cima para baixo. É proibido sorrir. Um sorriso hoje, dois amanhã e o palerma achará que já são amigos.

17º - Nunca pare. Continue sempre o seu caminho ou que estava a fazer. Mostre que tem uma vida, que está ocupada e não que tem tempo para conversas de circunstância. Torne evidente que ele não tem nada para lhe dizer que interesse.

18º - Nunca cumprimente com beijos e considere se um aperto de mão é merecido. Lembre-se que está a tocar numa mão que facilmente poderá estar conspurcada. O ideal será um aceno de cabeça e um voltar de costas com o nariz empinado sobre o ombro.

19ª - O mais importante num contacto pessoal é a linguagem corporal. Mesmo que não profira uma palavra, o seu corpo dirá o que está a sentir e a pensar. Por isso, foque os olhos do otário, e nunca desvie. Ele que o faça primeiro. Enfraqueça-o. Mantenha o tronco direito e não gesticule porque irá demonstrar um nervosismo vencedor para o adversário. Cerre os lábios. E quando falar seja duro e nunca mude de tom. Mas não exagere. Pode criar uma tensão inversa e excitar o estuporzinho. E vai querer tudo menos viver com a recordação de uma erecção, à sua conta, do maior estupor à face da terra.

20º - Caso ele até simpatize consigo, mantenha a altivez. Não ceda. Caso ele nutra, igualmente, os mesmos sentimentos de asco por si, mantenha o duelo justo e não tente inverter a psique do adversário... Ou quem acabará excitado é você.

21º - Nunca aceite números de telefone, mails, presentes, sorrisos ou qualquer tipo de convites. Mais tarde irá pagar a factura.

22º - Finalmente, lembre-se daquele princípio zen, dito por um daqueles senhores que vestem camisas de dormir e meditam um horror de séculos para serem boas pessoas: tudo o que damos recebemos de volta. E todas as pessoas com quem fomos filhos da mãe, acabam por se cruzar no nosso caminho, mais cedo ou mais tarde e, na próxima vez, podemos estar nós na mó de baixo e os sacaninhas na mó de cima, calçados com uns high heels da Louboutin de 15 cm a perfurarem-nos as órbitas em menos de nada.

23º - Nesse dia sorria... e corra.




16.7.13

A mulher mais feia




Sou a mulher mais feia do mundo.
A mais feia entre todos os feios e bonitos e entre aqueles que nem são nem deixam de ser.
Sou a mulher mais feia entre os vivos e os que já morreram.
Nunca mais existirá sobre o mundo uma mulher tão feia como eu.
Sou mais feia do que a imagem que vejo de mim ao espelho e sou mais feia que aquilo que os olhos dos outros vêem.
Sou a mulher que consegui ser e a mulher que os outros fizeram de mim e, juntos, fizemos com que eu seja a mulher mais feia do mundo.
A vida que levei, aquela que traço na mente, aquela que na realidade vou ter, fazem-me feia.
As pessoas, as vidas, as histórias, as quedas, os caminhos, todos eles, me farão mais feia do que já sou.
Nasci feia.
Fui criada feia.
Assim hei-de continuar a viver.
Assim hei-de morrer.
Morrerei feia, de feia que sou.
Sou tão feia.
Mais feia que aqueles que pecam, e matam, e mentem, e roubam, e se acobardam.
Sou tudo mais que isso porque sou feia por dentro e também sou feia por fora.
Sou feia de dentro para fora, mais do que alguma vez foi possível conceber.
Nas muitas maneiras que há de ser feia, eu sou.
Sou feia até por me achar feia.
Por me culpar.
Por não aceitar, por sofrer, por me ferir, por desistir.
Sou feia por não me aceitar.
Com os meus pensamentos feios enegreço-me mais.
Nas minhas palavras queimadas de fel fico ainda mais feia com tanto amargor.
Fico azeda e varada.
Não há, nem nunca houve, no mundo uma mulher mais feia do que eu.
Nunca mais haverá.
Morrerei sabendo que depois de mim tudo será melhor e que as mulheres feias não mais existirão.
Porque eu fui, um dia, a mulher mais feia do mundo.




12.7.13

Porque respiras?

Roberto Falk


Não te sentes só?
Ou sozinho?
Não te sentes muito sozinho?
Longe do que são os outros?
Daquilo que os outros conseguem ser e tu não?
Não te cansas desse vazio?
De viver numa moldura com essa imagem distante, estática?
Não pensas, de vez em quando, em acabar com esse sofrimento silencioso?
Acabar com esse vazio que sentes aí dentro?
Quantas vezes te questionas sobre a razão da vida?
Dessa vida, assim, sem destino nem razão de existir?
Nunca pensaste, por breves segundos que fosse, em conhecer os limites da vida?
De tentar chegar àquele ponto limite em que quase não se pode voltar para trás?
De sentir a ponta dos pés apoiados numa linha muito fina, prestes a quebrar-se, e mesmo assim ficares ali a veres o que dá?
Quantas vezes já tentaste deixar de respirar, aos poucos, para ver o que acontecia a seguir?
Não te apetece conhecer o silêncio que vem depois?
Não sentes paz quando imaginas esse momento de silêncio?
O que te impede de passares o limite e conheceres o que vem depois de libertares o último sopro?
O que é que te impede?
É o mesmo que te impede de viver?
O mesmo que te impede de sair da tua imagem estática para te juntares ao quadro onde está a vida dos outros?
Porque não tentas agora?
Porque não abrandas a respiração, acalmas o pulso e te deixas ir, sem turbulências?

Anda, experimenta.
Pára de respirar uns segundos e não desistas.
Espera até ao silêncio que vem a seguir.
Nesse silêncio compreenderás a vida que deixaste.