13.9.13

Quero morrer amanhã




Apetece-me desistir de mim.
Morrer por dentro.
Matar-me.
Experimentar a ida sem volta.
Encurralar-me na eternidade?
Quero apenas o total desaparecimento.
Sem memória.
Com dor.
Com dor saberei que foi verdade.
A morte.
Amanhã vou morrer. 
Só te peço a indiferença de sempre.
Não lamentes.
Sei que não lamentarás.
Mas aparece amanhã para o adeus.
Para olhares para mim.
Para o corpo apenas.
Nada mais restará.
Veste-te de qualquer coisa digna.
Aparece para o adeus.
Sem semblante.
De cigarros colados aos dedos.
Já te vejo fumares-me os ossos.
Põe-me um punhado de flores em cima.
Despede-te de mim junto à cova.
Sei que não te agoniarás em dor.
Ficamos por ali.
Sem tragédia nem palavras.
Ficamos por aqui.
Como ficámos sempre.



Obrigada M.




12.9.13

Ainda sobre as tulipas







"(...) plante os bolbos num novo vaso, com terra vegetal humedecida, sem que esteja encharcada. Embrulhe o vaso assim preparado num plástico e guarde-o no congelador da geladeira durante cerca de 6 meses, a uma temperatura ideal entre 2 e 5 °C.  Passado esse tempo, retire o vaso da geladeira e coloque-o num local fresco e com boa luminosidade por mais 2 meses, mantendo a terra sempre húmida.  Após esse procedimento, o vaso novamente embrulhado em plástico deve retornar ao congelador, onde deve permanecer por mais 6 meses. 
Concluída esta etapa, o vaso deverá ser colocado num local iluminado: 
a tulipa deverá florescer num período entre trinta a cinquenta dias."





Ontem, na origem do "Tulipas como bebés indesejados", escrito em conjunto com o Le Baladeur, esteve a conversa sobre uns bolbos de tulipas que comprei para plantar.
Comprei sem saber os cuidados necessários, na certeza de que uma planta cresce e sobrevive sem grande vigilância e cuidado. Enganei-me.
Ao ler um manual de cultivo de tulipas, nasceram em mim todas as duvidas sobre a minha capacidade para fazer crescer tão delicada forma de vida. Serei eu capaz de fazer nascer alguma coisa? E se nascer, terei meios para a fazer desenvolver-se de forma saudável, feliz?
Com o avançar da tomada de consciência sobre isto que é dar vida, agudizaram-se os sentimentos da minha inaptidão e imoralidade para decidir dar, ou não dar, vida ao que seja.
Li, reli, e pensei muito sobre o verdadeiro interesse que eu poderia ter em fazer germinar uma flor. E depois? Que se segue? Água e Sol para o resto da vida? Apenas isso? Com que propósito? E quanto dura a sua vida? Qual a proporção dos meses de gestação para o seu tempo útil de vida?
Quebraram-se em mim todas as certezas. A compra por capricho, por impulso de decorar um ambiente, quedaram-se ao perceber que a minha vontade interferia com a da natureza. Que estava ali, nas minhas mãos, a decisão de fazer, ou não fazer, nascer vida.
Quanto mais lia, em mais duvidas me afundava.
Apenas uma flor e tantos conflitos.
Apenas uma flor e tantos cuidados.
Será que trato com os mesmos cuidados, a vida dos outros e até a minha?
Que terei eu a aprender com a vida de uma tulipa, desde que decido dar-lhe vida até ela decidir morrer?
Não é assim com todos os humanos?
Não decidem por nós quando devemos nascer e não somos nós que temos a liberdade de decidir morrer?

Estranha vida esta, a de uma flor que demora tanto para nascer mas morre num ápice.
Estranha vida a nossa, que demora tão pouco a formar-se mas demora uma eternidade para nos ver apodrecer.

O bolbo tem de estar acima dos 10 cm da base do vaso mas não mais abaixo que 15 cm da superfície.
Tem de estar uns tempos numa incubadora de frio, embrulhado, com todo o zelo.
Tem de ter humidade mas não estar encharcado em água. Há quem aconselhe substituir a rega por cubos de gelo, para uma rega lenta e fria.
Quando brotar, e empurrar com força a terra que tem sobre si, deverá ver o Sol mas sem contacto com o calor.
Fantástica esta luta pela vida de uma modesta tulipa.Uma criatura que se faz vingar no frio. No ambiente mais penoso à vida mas que vive. Vive vigorosa.Cumpre o seu ciclo.
Nasce. Vive. Morre.
Como nós.
Em menos de nada, morre. Em menos tempo do que aquele que, justamente, deveríamos ter para lhe prestar admiração. Morre ainda jovem, por ter idade de ser velha.
Meses de luta no frio que acabam na secura de um deserto.
Tudo isto para nascer e morrer num ápice.
Nasce em Abril. Morre logo em Maio.
"Morreste no último dia de Maio", constatou Le Baladeur.

Não deveria ser assim connosco?
Nascermos a saber o dia em que vamos morrer?





11.9.13

Tulipas como bebés indesejados



"Mentiria com quantos dentes tenho se não te dissesse que o mundo é quadrado.

Se te dissesse que a minha felicidade se faz da tua e deste nada que nasceu entre nós, era apenas uma pequena mentira, daquelas que se dizem para os corpos descansarem como merecem.

Não penses mais em mim como aquele que um dia foi o teu lugar. Como aquele que te dizia todas as mentiras que te faziam dormir a acreditar... Pensa antes no seguinte: por mim, existimos com o único propósito de deixar de ser. Experiências penosas, mas necessárias, ou libertadoras, se conseguires pensar no mundo, em vez de só pensares em ti. Se pensares que a dor que te atravessa é um mísero tremor perante um mundo que, no final, apenas tem por destino acabar, o que para mim sempre fez todo o sentido. No fundo, quero dizer que, como um bebé indesejado, fonte de elo eterno, ligação ininterrupta, não nos podemos ter. 

O mundo não nos quer. Eu não te quero. E dentro de ti espero que encontres essa razão embrulhada em fantasias, de que juntos, seremos como um animal morto que se debate para voltar a uma vida que já não existe.
Acabo estas linhas, afiadas como facas. Embora não com o propósito de te magoar, sinto que é a única maneira de te fazer entender isto. Morreste no último dia de Maio."



Escrito a quatro mãos, com alguém cujas palavras e sentimentos admiro, numa noite em que falámos de tulipas, de vida e de morte.




10.9.13

O prisioneiro


Foto de Jon Gavin e texto de Dias Cães para Black Velvet



*

Passava os dias a sonhar de olhos abertos, perdidos num horizonte de coisas que não existiam. Sonhava-se nos braços dele, a receber beijos que nunca viu. A ouvir declarações que nunca lhe tinham sido dirigidas. Sonhava todos os dias com aquele homem a quem dizia "amo-te" vezes sem conta na sua cabeça. Perdeu-se pelos caminhos do coração, sabia-o, e entregou-se a isso de peito aberto.
Não queria acreditar que aquele homem lhe pertencia. Que era seu. Meio-mundo de mulheres a debaterem-se por ele, e ele, fez-se seu. Apenas homem de uma só mulher. Muitas foram as vezes que sentia sombras de vozes atrás dos seus ombros, maldizentes, agoirentas como a morte, mas recolhia-se dentro de si e ignorava o que tanto espanto causava nos outros. Pareciam não querer que fosse feliz com o homem que faria qualquer mulher feliz.
Bem... talvez fosse mesmo isso que causava tanta apoquentação.



*

Ele fez-se dela no momento em que lhe olhou nos olhos negros e lhe sentiu o perfume a lírios. Disse-lhe sempre ao ouvido o quão apaixonado estava e o quanto se tinha rendido aos encantos de amar uma só mulher. Ele murmurava-lhe sempre ao ouvido. As mais românticas palavras foram sempre entregues a ela, em sussurros encostados ao ouvido.As pessoas que falavam atrás dos ombros dela, bem sabiam esta manha dos sussurros. Conheciam-lhe bem as razões para tantos segredinhos ao ouvido. Um homem que nasce de rédea solta nunca mais se volta a prender. As mulheres mais velhas sabiam-no bem. Ele não era mais que um homem bonito e bem-falante que caçava rapariguinhas com palavras mansas e tons melosos. Queria-as por vaidade. Depois como troféus. Algumas por orgulho. Outras por apostas consigo mesmo. Esta rapariga em particular apenas a quis por saber que ele ia ser o seu primeiro homem. E foi.

*

Mil mulheres choravam pelas ruas, cabisbaixas, infelizes por nunca mais se terem alegrado por ver aquele homem excepcional. Algumas das mulheres que lhe falavam por trás dos ombros não choravam. As que choravam eram as inocentes cheias de saudades. As que não choravam eram as mais experientes na vida, que conheciam bem o traste que ali estava. Não lhe lamentavam o sumiço. Desejaram que se tivesse evaporado antes de ter cruzado o seu caminho com os caminhos delas. Mas apenas umas tinham consciência disto, outras não.
A sua apaixonada... Talvez o soubesse. Nunca se veio a confirmar.
Mas a sua apaixonada não chorava. E também não andava de cabeça baixa aos suspiros. Não rezava todas as noites antes de se deitar para que ele voltasse. Não se recordava dele com um sorriso como quem recorda o melhor da vida.
As pessoas sussurravam-na atrás dos seus ombros coisas estranhas mas, pela primeira vez, não era para a chamarem de parva.


*

Foram precisos trinta e dois dias para que sucumbisse à sua mente. 
Há trinta e dois dias que fora largado num velho armazém, escuro e lamacento, sem as boas roupas e o bom alimento no corpo. O perfume exuberante desvaneceu-se pouco depois de ali ser deixado. O sorriso formatado aguentou-se apenas umas horas até perceber que nada mais havia para rir.
Há trinta e dois dias, que a sua apaixonada se fartou das vozes nos seus ombros. Que abriu os olhos e lhe viu as mil camas, das mil mulheres que agora o choram, fartas de tudo o que ele lhe tinha prometido apenas a ela.
Há trinta e dois dias que o aliciou para uma aventura com uma desconhecida e confirmou que espécie de homem ali estava.

Fechou o portão e mandou a chave para um poço.
Depois dos trinta e dois dias em que a sua mente sucumbiu, não mais se soube quanto terá aguentado o seu corpo.






9.9.13

Morrer em Lisboa





Está disponível, em formato digital, um conto mal sucedido em concursos literários mas que, ainda assim, partilho... aqui!





3.9.13

Conheces a tua vagina?




Para as mulheres, creio, não é comum ver vaginas. Conhecemos a nossa e podemos passar o resto da vida sem ver mais nenhuma, ao vivo e a cores (pornografia não conta). Não andamos a olhar para as vaginas umas das outras. Não pedimos para dar uma espreitadela. As coisas não funcionam assim entre nós. Ninguém anda a medir nada. Não nos interessam os penteados que cada uma opta por ter. Para além disso, partimos do pressuposto que as vaginas, além de não serem uma coisa lá muito interessante, não devem variar assim tanto de mulher para mulher (achava eu...).
E quando falo de vagina, não estou a falar de um pipi. Um pipi não revela nada do que é uma vagina. É apenas uma espécie de capa do livro (quantos de nós não fomos enganados por uma boa capa? Bem sei, bem sei...). Uma vagina é um ecossistema particular dentro da natureza de cada mulher. E não é conhecido até ser desvendado. E só é desvendado quando explorado.
Uma vagina não é como um pénis, que se vê num simples tirar de roupa. Uma vagina acontece noutra dimensão. Oculta. 
E esse mistério tem sido alimentado ao longo de toda a evolução humana. Se pensarmos na quantidade de vezes que a imagem do pénis foi divulgada e banalizada, ao ponto de não se ter tornado objecto de delírio, percebemos que o desejo de ter acesso a uma vagina (por imagem, filme, ao vivo...) tornou-se tão mais acentuada quanto a inacessibilidade a uma.
Mas não é da história das vaginas na evolução humana que quero falar. Voltemos antes à questão pertinente sobre as vaginas. E a minha questão é:
Quem pode dizer, ao certo que conhece bem a sua vagina?
Ou melhor, as minhas questões são:
Quem pode dizer que conhece e gosta muito da sua vagina?
E se perguntarmos aos nossos parceiros, que dirão eles da nossa vagina?
Será que a percepção deles é idêntica à nossa ou existe todo um conceito na cabeça dos homens que os fazem odiar aquelas vaginas que, nós mulheres, acharíamos normais, por consenso?
Ou para eles tanto faz? E a questão visual é pouco relevante na equação do prazer?
E se, além do sexo, mantivermos uma relação de amor através da nossa vagina?
O afecto amoroso toldará a ideia que o nosso parceiro terá?
Por haver amor à mistura ele dirá sempre que a nossa cena é a mais encantadora de todas?
E não vos amedronta poderem ser trocadas por uma vagina "melhor"?
Eu tenho imensas duvidas sobre tudo isto.
Tenho duvidas sobre o que eles acham e sobre o que nós, mulheres, pensamos acerca da estética das vaginas. O caso piora, francamente, se ainda juntarmos a ideia de que a estética reflecte o desempenho.
Uma vagina bonita e equilibrada esteticamente porta-se melhor e dá mais alegrias ao casal na hora do prazer?
E aquelas vaginas que parecem ter passado por uma trituradora de carne, poderão ditar o insucesso de uma relação sexual e, consequentemente, amorosa no caso de esta existir?
Daquilo que tenho ouvido - e tem sido muito - além de uma boa parte das mulheres nunca ter tido a curiosidade de se meter em cima de um espelho para ver o que anda por ali, uma outra parte não gosta de falar no assunto para não denunciar a sua insatisfação.
Infelizmente, começo a ter a percepção que há por aí muita vagina sem salvação à vista. Muitas mulheres tristes com o que têm. Muitos casais que, em silêncio, fazem passar a mensagem que na cama está tudo bem.
Mas conhecer bem a nossa vagina também deve passar por perguntar, a quem a vê em ângulos mais favoráveis que o nosso, se lá por baixo vai tudo bem. Envolver a outra pessoa no assunto. Perguntar se gostam, se não gostam, objectivos para a próxima época, etc. Para nos fortalecer. Dar confiança. Um atleta motivado pelo seu treinador, é um atleta com maior rendimento.
Por essa razão (e por palermice) à parte da opinião de um especialista e dos seus extensos elogios (questionável esta postura, eu sei) eu precisei de uma segunda opinião. Sem medos, sem rodeios, perguntei a quem a vê mais de perto e trabalha no terreno: "Gostas da minha vagina?" (... vá, talvez não tenha dito vagina...). "Pois é claro que gostas"... ou nunca mais lhe punhas os olhos em cima. Foi o mesmo que perguntar a um cego se queria ver.
Mas a questão não é essa. Não é a da beleza apenas por si. Não é a necessidade de aprovação. É o à vontade com o nosso corpo. O à vontade que proporcionamos à outra pessoa com quem dividimos o nosso corpo. É a liberdade. É a liberdade de se viver bem com o que se tem. Daí a importância em conhecermos a nossa vagina.

A questão está em inverter o ponto de interrogação da pergunta "eu conheço a minha vagina?" num ponto de exclamação "eu conheço a minha vagina!" e viver feliz da vida com isso.



E, por amor de Deus, nunca pensem que uma vagina é um pipi. Sempre é menos uma coisa para baralhar.







27.8.13

(Nem sei que nome dê a isto)

(E como, decididamente, não estou com as ideias organizadas, vai uma foto a condizer... com qualquer coisa)


Durante estes dias pensei muito no porquê de a vida nem sempre nos trazer as coisas na hora certa.
De como só nos dá a paciência para sermos pais quando já somos avós; de como atingimos um ordenado digno para podermos usufruir da vida quando já passamos a idade de toda a plenitude física e mental; de como chegamos ao topo da carreira, em que nos é dada a possibilidade de tomar decisões, quando já estamos cansados.
Não sei se há alguma coisa de perverso nisto, se é alguma lição de moral que a vida nos quer dar ou se, simplesmente, ainda não tenho idade para compreender a ordem dos acontecimentos e a lógica de primeiro termos de respirar quando não há ar e só em fase terminal nos ser dado oxigénio.
Se estiver perante uma lição de vida, temo poder passar por ela sem a compreender, senão vejamos:
Para que raio nos serve uma lição de vida se depois da vida nada existe? E mesmo que exista, o que é que se pretende com isso? Fazem-nos um teste de aptidão, lá do outro lado? "Ora bem, escolheu a profissão errada, demorou quarenta anos a atingir o topo de carreira, ganha uma reforma miserável mas, agora sim, já pode ir passar as férias que tanto desejou a Ayamonte. Diga-me, então, o que aprendeu com isto?"
Nada. Ou melhor, aprendi.
Aprendi que mais vale ir usufruindo do pouco que se tem ao longo da vida do que investir tudo - hipotecar a felicidade da juventude - num futuro incerto, que não se sabe quando acaba e que não se sabe o que nos reserva.
Não vou ter filhos agora à espera de ser uma óptima avó no futuro. Mais vale investir tudo como mãe. Dar tudo no agora. Dar tudo como mãe, como filha, como amiga, como amante, agora, do que num futuro que não sei quando acontecerá.
Não vou deixar de gozar sete dias numa praia perto de casa na esperança de daqui por dez anos ter dinheiro para ir às Maldivas. Eu não sei o que acontece daqui por dez anos. Não sei se por essa altura já estarei a fazer o teste de moral no lado de lá. Sei, e disso tenho a certeza, que é injusto não termos todos os meios para sermos felizes na idade certa. No momento certo. Sei que era agora que queria ter um bom carro, enquanto tenho coragem para as viagens sem fim; Que queria ter uma casa em cada porto, enquanto me apetece conhecer o mundo; Que queria ter muito dinheiro, enquanto faz sentido tentar construir uma vida; Que queria que a pessoa que amo tivesse toda a saúde que merece ter, enquanto somos jovens e acreditamos que este amor vai ser para sempre e, esse sempre, é feito de muitos e longos anos.
Se a lição que a vida me quer dar, ao privar-me de tudo isto no vigor da minha idade jovem/adulta, é que há um sabor na conquista e que, essa conquista, precisa de anos para ser firmada, então que me leve já. Porque não será depois dos setenta anos que irei ver beleza nem sentido nos objectos que hoje me são sinónimo de conforto nem, certamente, esperarei a saúde necessária à minha felicidade numa idade em que, inevitavelmente, sabemos que o tempo se está a esgotar.

E pronto. Era só isto.




13.8.13

365

Tenho-te Amado.




Todos os Dias.





4.8.13

Os piores dos melhores II





À semelhança do ano passado irei ausentar-me por uns dias.
Mas para não ficar com a sensação de ter abandonado isto, deixo uma selecção de textos, um por cada dia que estarei longe.
O único senão, tal como no ano passado, é que estes textos não são os mais lidos, ao contrário deste que foi lido uns milhares de vezes.
Estes textos que vos deixo, são os menos lidos de 2012 mas dos que mais gostei de escrever.


Entretanto, já sabem... estarei de olho em vocês!

Até já.



Vende-se

Quando os dedos tocaram o céu

Os lugares. Os objectos. As pessoas... As pessoas...

O fotógrafo e a escritora

Paranóia

O mar

Conheces?

albus albus

De quantas formas podemos morrer?

Quero ser Miss!

O Nascimento





2.8.13

A mulher invisível





Sim, além de um Homem Invisível também houve uma Mulher Invisível na história do cinema.
E neste filme que é a minha vida (linda clichésada) há uma pessoa que quer, à força, fazer de mim uma mulher invisível... Para estar à vontade para a pouca-vergonha, está-se mesmo a ver. Mas eu brinco às mulheres invisíveis quando bem me apetecer.

Vamos directos ao assunto: Ando, vai para cima de uma vida, para mandar uma babe  ir cagar à mata passear.

Darling, eu estou em todo o lado onde cospes frases de amor ao meu rapaz, por isso não finjas que não sabes que te estou a ver e, pior ainda, não faças cenas tristes à espera que eu veja, só com o objectivo de me irritar. Eu já estou irritada. 
No entanto, ando aqui a aguentar-me. Vê bem como sou boazinha. Nem vou fingir e dizer que não é por ti que estou armada em senhora polida, e que é por ele. E que ele merece que eu seja uma senhora e não ligue a constantes bombardeamentos teus. Sou-te sincera: Ando a aguentar-me por ti, mesmo! Para não te dar força nem esse prazer de me veres incomodada, que eu também sou mulher e sei como as coisas funcionam. Era a tua alegria veres-me encavada derrotada.
Eu sei que, se te for foder lixar a cabeça, tu vais ter o que queres: vais ter toda a atenção e a toda a certeza de que eu ando a ver o esfreganço pélvico virtual que andas a fazer no mural do meu rapaz e a ficar minada com isso.
Como és porcalhona tonta mas não deves ser totalmente parva, deves saber que eu, efectivamente, vejo a masturbação psicológica que lhe andas a fazer. Sim, eu vejo e tu sabes. E eu sei que tu sabes que eu vejo. Só não tens a certeza, nem como o provar, e eu também não te vou dar essa vitória.
Não te vou dar o prazer de te descompor em público, de te mandar mensagens ressabiadas, nem de ir armar peixeirada aí para essa aldeia de fim de mundo onde tu achas que és gente.
Vou-me manter aqui na minha.
Fingir-me de invisível. Como os ninjas, 'tás a ver?
E depois faço toda uma série de exercícios de concentração.
Rezo umas caralhadas orações em voz alta antes de me deitar.
Evito ir ao mural do rapaz durante o dia para não estragar o monitor com mais golpes de x-acto nos teus olhinhos.
Imagino-te dez vezes ao dia leprosa, com a vagina ressequida como uma rolha de cortiça, míope, com cáries nos dentes e o cabelo a cair.
Mas também tenho pensamentos bons e desejo que arranjes uma pila amiga só para ti.
E peço aos anjinhos todos para não fazeres a mínima ideia que escrevo por aqui, para não ficares com o pito orgulho aos saltos por eu estar a fazer uma cena e por estar, claramente, fora de mim com a merda novela que andas a fazer.

Minha querida amiga, até podes continuar a querer ter o meu rapaz como troféu (eu sei como é: quando eles arranjam outra é quando mais os queremos. Por exercício. Por provocação) mas não tentes é fazer-me desaparecer quando eu estou aqui bem vivinha, a ver o espectáculo a acontecer, o acidente a dar-se e a pouca-vergonha a crescer.
Lembra-te: Ninja!
Sou como um ninja. Apareço e desapareço sem dares por isso mas estou mais perto de ti do que tu pensas. Pronta a ninjar.
Sim, minha querida, eu estou aqui e estou-te a ver. Estou com um olho nos acontecimentos e com dois olhos em ti... e faz bem as contas e vê que outro olho pode estar vigilante, que eu gosto pouco de marmeladas feitas pelas costas.