1.10.13

As urnas

Post com delay... eu sei.
Dia 29 de Setembro de 2013






urna | s. f.
ur·na
(latim urna, -ae, vaso para água)
substantivo feminino
1. Vaso, de forma variável, que servia aos Antigos para guardar as cinzas dos mortos, recolher água das fontes, etc.
2. Vaso que tem a forma de uma urna antiga.
3. Caixão para defunto.
4. Vaso ou objecto análogo em que se recolhem as listas do voto, num acto eleitoral, ou os números de uma lotaria, rifa, etc.
5. [Botânica]   [Botânica]  Espécie de cápsula coberta por um opérculo.
6. [Popular]   [Popular]  Chapéu alto.

"urna", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa





3. Caixão para defunto.

Há qualquer coisa de desconcertante em fazer parte do momento em que nos confrontamos com a morte. Há anos que tento descortinar o porquê de sentir tantas emoções num velório, num funeral, mas esbarro sempre num emaranhado mental. Finalmente hoje, pensando em definitivo no assunto, lá consegui perceber porquê: porque se trata de um acto ritualizado.
A pessoa sai de casa preparada para se entristecer. Entra num cemitério que desclassifica, imediatamente, como local a evitar e passa a encarar como local inevitável. Olha para o número avassalador de campas e procura em volta de qual se encontram pessoas chorosas, e saberá que é a essa  que se deve dirigir. Há-de encontrar sempre uma cara conhecida nas campas que percorre até lá. Cruza os olhos baixos com alguém que chora. Esconde-se atrás de alguém na esperança de passar despercebido. Olha dez vezes para os nomes escritos nas lápides. Lê-os novamente para se capacitar que aquilo é real. Olha em volta para ver se ninguém topou que chegou atrasado. Fecha o casaco preto para não se ver a camisola vermelha por baixo. (Toda a gente sabe que o luto se faz de preto. Não de branco, nem de vermelho. É, curiosamente, instintivo). Ajeita o ramo de flores. Dirige-se à urna. Ao colocar as flores na urna sente que aquela fracção de segundo é congelada. Talvez espere que registem aquele momento. Durante um ou dois segundos suspende as flores sobre a urna para poder ser visto e para verem que não se esqueceu de se despedir. Despede-se sempre de quem já está morto. Nunca antes. Sai-se do cemitério ainda com o andar trôpego de quem sabe que viu o morto pela última vez e nunca, mas nunca, mais voltará a ver. Lá fora, acenos e cumprimentos a caras conhecidas. Conhece-se sempre alguém. Indaga-se sobre o que fazem algumas pessoas ali. O que terão pensado. Fazem-se juízos de valores. Critica-se mesmo sem saber a relação emocional com o morto: "Terão sido amigos? Ou familiares? Amigos, porquê? Onde se terão conhecido? E familiares? Inconcebível. Familiares? Terá sido tão desgraçado em vida para merecer familiares assim? Porquê?".
Volta-se para casa com a impaciência de não se saber se o seu funeral, um dia, também será assim. Se estará para breve. Se o gesto simpático de participar desta despedida lhe atenua os pecados cometidos ou se, pelo contrário, não serviu para coisa nenhuma. Todos queremos pensar que estamos salvos. Ninguém morre muito ansioso por ir para ao inferno. E quem não acredita numa vida para além da morte nem se dá ao trabalho de comparecer num funeral. Despedirmo-nos de um morto, também é, de certo modo, um acto de fé.




4. Vaso ou objecto análogo em que se recolhem as listas do voto, num acto eleitoral.

Há qualquer coisa de emocionante em fazer parte de uma decisão importante como votar. Há anos que tento descortinar o porquê de sentir esta emoção em dia de eleições mas esbarro sempre num emaranhado mental. Finalmente hoje, pensando em definitivo no assunto, lá consegui perceber porquê: porque se trata de um acto ritualizado.
A pessoa sai de casa para votar. Entra na escola que desclassifica, imediatamente, como local de ensino e passa a encarar como local de voto. Olha para o seu número de eleitor duzentas e trinta e cinco vezes e vê a mesa a que se deve dirigir. Há-de encontrar sempre uma cara conhecida na mesa em que vota. Entrega os documentos de identificação em trocas de uns boletins. Esconde-se atrás de um biombo. Olha dez vezes para os nomes escritos nos boletins. Lê novamente para não dar um voto irreflectido ao inimigo. Olha em volta para ver se ninguém topou se a cruz foi desenhada mais acima ou mais abaixo no boletim. Dobra os boletins em quadrados perfeitos. (Toda a gente sabe que não se dobram apenas ao meio, mas também não se dobram em seis. É, curiosamente, instintivo). Junta os papelinhos. Dirige-se à urna. Ao colocar os boletins na ranhura da urna sente que aquela fracção de segundo é congelada. Talvez espere que registem aquele momento. Como os que vimos as pessoas famosas terem direito nos meios de comunicação social. Durante um ou dois segundos suspendem os boletins sobre a ranhura da urna para poderem ser fotografadas e filmadas. Sorri-se sempre para quem está na mesa de voto. Despede-se com um "bom dia". Sai da sala ainda com o andar trôpego de quem acabou de tomar uma grande decisão. Lá fora, acenos e cumprimentos a caras conhecidas. Conhece-se sempre alguém. Indaga-se sobre em quem aquelas pessoas terão votado. Fazem-se juízos de valores. Critica-se mesmo sem saber onde foram postas as cruzes: "Terão votado em branco? Ou com voto nulo? Em branco, porquê? Não sabe em quem votar? Não tem opinião própria? E Nulo? Inconcebível. Nulo? Terá desenhado coisas impróprias no boletim? Ou desenhado uma cruz em todas as opções? Para quê? Qual o propósito?".
Volta-se para casa com a impaciência de se saber se o voto foi ao encontro de uma maioria ou se, pelo contrário, não serviu para coisa nenhuma. Todos queremos fazer parte da maioria. Todos queremos pensar que estamos enturmados. Ninguém vai votar muito ansioso por ficar em último lugar. Quem não acredita nem comparece. Votar, também é, de certo modo, um acto de fé.





29.9.13

O Palhaço




Por hoje é tudo o que tenho para te dizer.





27.9.13

A pequena ditadora





Sempre maior que os outros. Mais esperta, mais astuta, mais inteligente, mais senhora de si. No fundo, senhora dos outros também. A pequena ditadora, apesar da sua fraca figura, achava-se sempre acima dos outros e deitava-lhes olhares dominadores e sobranceiros como quem nega a existência de alguém equiparado a si. Também gostava de levantar a voz e impor palavras de autoridade mesmo sobre quem merecia reverência. Não admitia, sequer, que alguém a tentasse ultrapassar. Nem mesmo quem legitimamente o poderia fazer. Problemas de autoestima, dizia-se. Complexo de inferioridade camuflado numa altivez que faria adivinhar precisamente o contrário. A pequena ditadora confundia os outros. Ora gigante, ora minguada, nunca se percebia bem se estava à defesa ou se atacava tudo e todos para não dar tempo de ser ferida. Confundia os outros porque lhe viam no corpo a genica de uma pequena e arrogante burguesa e nos olhos o medo de uma criança maltratada. Mas ela pensava que os outros só a viam como a rainha que tudo sabia. Era assim que se gostava de imaginar.
Era mesmo fantástica a pequena ditadora. Pequena, espevitada, de passo firme e acelerado, como quem corre para salvar o mundo, mesmo sem notar que o mundo não lhe pedia para ser salvo. Corria apenas para verem que ela corria. Talvez também corresse para fugir de si e dos seus pensamentos e da sua vida pouco ocupada, quando não estava ocupada a mandar na vida dos outros. Mas isso seria outra conversa. A pequena ditadora nunca se vergava à sua própria vida. Não se enxergava. Não se virava para si, não se analisava, e nunca se lembrava que tinha três dedos virados para si, quando apontava o dedo a alguém. Problemas de tamanho. De escala. Só olhava de baixo para cima mas acredita que os outros é que se inclinavam para a ouvir falar.
Pobre pequena ditadora que nunca viu o quão miserável era a sua indistinta existência aos olhos de quem realmente manda no mundo e não tem tempo a perder com a vida medíocre dos outros. Não entendia, e talvez tivesse passado toda a sua vida sem entender, que as coisas importantes se passam a um nível superior à sua baixa estatura e que o seu umbigo é tão pequeno que ninguém o via além dela. Pobre pequena ditadora que, de tempos em tempos, quando era contrariada por alguém de altura maior que a sua, se escondia num pranto de lágrimas que recusava denunciar. A pequena ditadora chorava muito. Escondia-se. Não admitia, mas chorava muito. Chorava todos os dias e nem sabia porquê. Dizia que não sabia, a coitada. Mas todas as pessoas sabiam. Chorava por ser desautorizada. Por ficar só no seu reino de ordens em surdina. Por nem se darem ao trabalho de lhe dizer um gigante "NÃO" porque ela era tão pequena que nem essa atenção merecia. Só na cabeça dela, no seu mundo de ditadura matriarcal, é que era possível ela pensar que mandava em alguém e que alguém acatava o que ela dizia. A pequena ditadora, de passos rápidos e raciocínio ágil, não convencia ninguém para além dela própria, que um dia iria chegar longe e que todos se vergariam às suas imposições.
A pequena nunca se fez grande. A história contaria, mais tarde, que morreu pequena como nasceu. E que morreu a mandar na vida dos outros em vez de tomar conta da sua. Morreu sozinha, numa noite de choro sem razão, e com todos os dedos apontados para si.
A pequena ditadora, nunca foi feliz.




25.9.13

A tua pele. A tua mortalha.





Ontem quiseste morrer por todos os desgostos que sentias. Primeiro amargurastes os olhos de lágrimas. Os pensamentos encheram-se de interrogações. As mãos não se despregaram da cabeça, comprimindo-a, como se assim encontrasses uma solução. Depois veio o álcool. Encharcaste-te no vapor do Gin, do Whisky e de um velho Porto, que religiosamente guardavas para um momento importante. Ontem nem era esse momento e tu sabia-lo, mas os pensamentos toldados não te permitiram obedecer a qualquer critério. Ainda foste mais bruto e terminaste com todo o vinho que tinhas em casa. Rendeste-te de exausto à tua cama, que insistia em rodopiar sobre o tecto. Despiste-te do frio e repousaste nu, de roupas e de pensamentos, sobre aqueles lençóis que gritavam por mudança. Evadiste-te de ti por instantes. Os instantes em que a cama ondulava por baixo do teu corpo. Aqueles breves momentos em que o álcool te deu sono em vez de estrica. Querias deixar-te morrer embriagado naquela escuridão dos pensamentos mas a vida corria-te nas veias mesmo contra  a tua vontade. Ela também te preferia entregar ao álcool e abandonar-te o corpo vandalizado mas a crueza das tuas decisões fizeram-te viver. Caído na cama, de corpo morto, com desnorte em roda da cabeça, os pés sem chão e as mãos suadas entre o papel dos cigarros que se apagavam e os copos da bebida que derramavas, observas-te com despeito. Olhas esse corpo novo, esculpido num dia de inspiração, que mal alimentas de comida mas encharcas em bebidas que te elevam aos deuses. E vês o quão pouco vales para os outros. Olhas para ti e vês ainda menos do que a realidade tem para te oferecer. Olhas-te com esses olhos semi-cerrados pelo Gin e nublados pelos cigarros e contas as linhas pretas que desenhaste sobre a tua vida. Lês com atenção as tatuagens que cravaste na tua pele num dia sem amor e relembras os momentos de dor de cada história traçada. Olhas para as mãos, para o peito, para as pernas e não encontras as histórias que querias contar porque quando as traçaste os sentidos eram outros. O amor, as memórias, a eternidade de todos os traços pintados morrerão contigo, nessa cama que roda a cada trago. Deixaste de entender porque infligiste tu um dia dor à tua pele para contar histórias que são mentiras e que de nada te servirão na noite em que os cigarros que consumirem as pontas dos dedos e pegarem fogo ao lençóis e ao colchão onde agora te deitas. Todas as lembranças e pessoas que trazes agora agarradas ao corpo não te conseguirão salvar do álcool, nem dos cigarros, nem da depressão, nem da solidão que agora vives mas vão estar sempre aí para te lembrar que lhes continuas a falhar. Vais questionar-te se as tatuagens que te cobrem o corpo contam a tua história, se te diferenciam e imortalizam, ou servem apenas para te aterrorizar e dizer, a cada instante, que, quando morreres, nenhum deles te conseguirá perdoar.




23.9.13

Odeias-me por tanto me amares

Deborah Parkin



Não compreendo as mensagens de amor que me deixas. Aquelas, que dissimulas em textos poéticos e cheios de metáforas como se tivesses a falar da vida de outra pessoa. Como se não fosse das tuas entranhas incandescentes que escreves. Desse desejo infernal de me teres. Martirizas-te e vives assombrada com a minha existência. Punes-te por não viveres em paz com a tua. Com a tua existência apaixonada pela minha. Embaraças-te sozinha. Culpas-te e escondes-te de coisas que mais ninguém sabe existirem. Então, de quê e de quem te escondes, para além de ti mesma?
Tens vergonha dos teus pensamentos e de ti e de tudo o que fantasias sobre mim. Só te atreves a pensar em mim quando fechas os olhos e sabes que os teus pensamentos não serão violados por ninguém. Fazes-me tua nessa vida de prazeres inconfessáveis mas sempre com o medo a rondar-te os pensamentos. Sempre com medo. Sempre com suores a rebentarem-te pelos poros com medo de ser invadida e descoberta. Com medo que descubram essa mulher que me ama. Essa que tens viva dentro de ti. 
Diz que me admiras de uma vez por todas. Que me amas. Sim, que me amas. Porque não dizê-lo, se o sentes? Que diferenças vês entre viveres em silêncio por fora e viveres aos gritos por dentro? Apenas a dor que em ti agudizas. Nada mais. Se viveres mais um dia sufocada nesse inferno de desejos por cumprir, rodeada de máscaras perturbadas, apenas tu definharás.

Só mesmo os teus olhos e esse coração enforquilhado podem ver mal num sentimento como o amor. Odeias-me por me amares. Que culpa tenho eu disso?

Porque não me amas em liberdade mulher? Ama-me sem essas fronteiras que ergues dentro de ti. Ninguém te irá condenar, não te condenes tu. Faz-me tua e não temas vigiar-me as carnes e os pensamentos de perto. Invade-me de olhos abertos, de boca presa ao pecado, de respiração colada ao peito. Descobre a vida através do meu corpo. Vive em mim.

Não, não compreendo as mensagens de amor que me deixas porque não pode sentir amor quem se teme a si próprio.




22.9.13

Carta à minha amiga que vai casar




(Caramba... não sei o que lhe escrever. Da amizade e blá, blá, blá. Devia ser mais do que isto mas as palavras insistem em ficar escondidas cá dentro)


Dia 3 de Janeiro de 1981. Dia 18 de Janeiro de 1981.

Apenas quinze dias separaram a nossa vinda ao mundo, ainda o mundo não sabia que nada nos iria separar.
Cruzámos os nossos caminhos com poucos meses de vida e vivemos esses tempos, lado-a-lado, sem sabermos da presença uma da outra. Talvez essa viesse a ser uma das lições das nossas vidas. Mesmo sem nos vermos todos os dias, sem sabermos uma da outra e sem ouvirmos as nossas vozes com frequência, houve sempre algo que manteve as nossas vidas unidas: A amizade.
E a maior beleza da amizade é sentir-se dentro do peito e ocupar-nos os pensamentos. Não precisamos de ver, estar, ouvir a outra pessoa todos os dias. A amizade constrói-se e alimenta-se, por vezes, de coisas invisíveis como as recordações, o respeito, a confiança. 
Foi, também, contigo que aprendi um valor importante. Foi contigo que aprendi o valor de guardar um segredo. A importância da fidelidade numa amizade. Da tal confiança. Éramos muito pequenas, e não recordo o segredo em particular, mas lembro-me de me pedires “não digas a ninguém”. E eu nunca disse. Tomei aquele pedido como uma missão a cumprir muito importante na nossa amizade. Foi nesse dia que percebi que o silêncio entre duas amigas é inestimável e também serve de alimento à amizade.
Com isto te quero dizer que, apesar de distantes, te sinto como uma parte de mim. Como uma das peças fundamentais para o meu crescimento e para os valores de amizade e respeito que hoje transporto porque, creio, foi um caminho que fomos construindo juntas. Por isso te guardo como a minha querida amiga de infância. Sempre a mais meiga e honesta, consigo e com os outros.
E hoje, passados mais de trinta anos, sinto-me feliz por fazer a partilha desta amizade e da pessoa especial que és, com mais alguém: com o teu marido. Por ver-te percorrer a vida com quem escolheste. E por quereres, perante todos, partilhar essa felicidade e me incluíres nela.

Dia 12 de Dezembro de 2012. Dia 12 de Outubro de 2013.

Os dias do início de um casamento que sei que te fará muito feliz. Mais uma etapa onde te espero acompanhar.




13.9.13

Quero morrer amanhã




Apetece-me desistir de mim.
Morrer por dentro.
Matar-me.
Experimentar a ida sem volta.
Encurralar-me na eternidade?
Quero apenas o total desaparecimento.
Sem memória.
Com dor.
Com dor saberei que foi verdade.
A morte.
Amanhã vou morrer. 
Só te peço a indiferença de sempre.
Não lamentes.
Sei que não lamentarás.
Mas aparece amanhã para o adeus.
Para olhares para mim.
Para o corpo apenas.
Nada mais restará.
Veste-te de qualquer coisa digna.
Aparece para o adeus.
Sem semblante.
De cigarros colados aos dedos.
Já te vejo fumares-me os ossos.
Põe-me um punhado de flores em cima.
Despede-te de mim junto à cova.
Sei que não te agoniarás em dor.
Ficamos por ali.
Sem tragédia nem palavras.
Ficamos por aqui.
Como ficámos sempre.



Obrigada M.




12.9.13

Ainda sobre as tulipas







"(...) plante os bolbos num novo vaso, com terra vegetal humedecida, sem que esteja encharcada. Embrulhe o vaso assim preparado num plástico e guarde-o no congelador da geladeira durante cerca de 6 meses, a uma temperatura ideal entre 2 e 5 °C.  Passado esse tempo, retire o vaso da geladeira e coloque-o num local fresco e com boa luminosidade por mais 2 meses, mantendo a terra sempre húmida.  Após esse procedimento, o vaso novamente embrulhado em plástico deve retornar ao congelador, onde deve permanecer por mais 6 meses. 
Concluída esta etapa, o vaso deverá ser colocado num local iluminado: 
a tulipa deverá florescer num período entre trinta a cinquenta dias."





Ontem, na origem do "Tulipas como bebés indesejados", escrito em conjunto com o Le Baladeur, esteve a conversa sobre uns bolbos de tulipas que comprei para plantar.
Comprei sem saber os cuidados necessários, na certeza de que uma planta cresce e sobrevive sem grande vigilância e cuidado. Enganei-me.
Ao ler um manual de cultivo de tulipas, nasceram em mim todas as duvidas sobre a minha capacidade para fazer crescer tão delicada forma de vida. Serei eu capaz de fazer nascer alguma coisa? E se nascer, terei meios para a fazer desenvolver-se de forma saudável, feliz?
Com o avançar da tomada de consciência sobre isto que é dar vida, agudizaram-se os sentimentos da minha inaptidão e imoralidade para decidir dar, ou não dar, vida ao que seja.
Li, reli, e pensei muito sobre o verdadeiro interesse que eu poderia ter em fazer germinar uma flor. E depois? Que se segue? Água e Sol para o resto da vida? Apenas isso? Com que propósito? E quanto dura a sua vida? Qual a proporção dos meses de gestação para o seu tempo útil de vida?
Quebraram-se em mim todas as certezas. A compra por capricho, por impulso de decorar um ambiente, quedaram-se ao perceber que a minha vontade interferia com a da natureza. Que estava ali, nas minhas mãos, a decisão de fazer, ou não fazer, nascer vida.
Quanto mais lia, em mais duvidas me afundava.
Apenas uma flor e tantos conflitos.
Apenas uma flor e tantos cuidados.
Será que trato com os mesmos cuidados, a vida dos outros e até a minha?
Que terei eu a aprender com a vida de uma tulipa, desde que decido dar-lhe vida até ela decidir morrer?
Não é assim com todos os humanos?
Não decidem por nós quando devemos nascer e não somos nós que temos a liberdade de decidir morrer?

Estranha vida esta, a de uma flor que demora tanto para nascer mas morre num ápice.
Estranha vida a nossa, que demora tão pouco a formar-se mas demora uma eternidade para nos ver apodrecer.

O bolbo tem de estar acima dos 10 cm da base do vaso mas não mais abaixo que 15 cm da superfície.
Tem de estar uns tempos numa incubadora de frio, embrulhado, com todo o zelo.
Tem de ter humidade mas não estar encharcado em água. Há quem aconselhe substituir a rega por cubos de gelo, para uma rega lenta e fria.
Quando brotar, e empurrar com força a terra que tem sobre si, deverá ver o Sol mas sem contacto com o calor.
Fantástica esta luta pela vida de uma modesta tulipa.Uma criatura que se faz vingar no frio. No ambiente mais penoso à vida mas que vive. Vive vigorosa.Cumpre o seu ciclo.
Nasce. Vive. Morre.
Como nós.
Em menos de nada, morre. Em menos tempo do que aquele que, justamente, deveríamos ter para lhe prestar admiração. Morre ainda jovem, por ter idade de ser velha.
Meses de luta no frio que acabam na secura de um deserto.
Tudo isto para nascer e morrer num ápice.
Nasce em Abril. Morre logo em Maio.
"Morreste no último dia de Maio", constatou Le Baladeur.

Não deveria ser assim connosco?
Nascermos a saber o dia em que vamos morrer?





11.9.13

Tulipas como bebés indesejados



"Mentiria com quantos dentes tenho se não te dissesse que o mundo é quadrado.

Se te dissesse que a minha felicidade se faz da tua e deste nada que nasceu entre nós, era apenas uma pequena mentira, daquelas que se dizem para os corpos descansarem como merecem.

Não penses mais em mim como aquele que um dia foi o teu lugar. Como aquele que te dizia todas as mentiras que te faziam dormir a acreditar... Pensa antes no seguinte: por mim, existimos com o único propósito de deixar de ser. Experiências penosas, mas necessárias, ou libertadoras, se conseguires pensar no mundo, em vez de só pensares em ti. Se pensares que a dor que te atravessa é um mísero tremor perante um mundo que, no final, apenas tem por destino acabar, o que para mim sempre fez todo o sentido. No fundo, quero dizer que, como um bebé indesejado, fonte de elo eterno, ligação ininterrupta, não nos podemos ter. 

O mundo não nos quer. Eu não te quero. E dentro de ti espero que encontres essa razão embrulhada em fantasias, de que juntos, seremos como um animal morto que se debate para voltar a uma vida que já não existe.
Acabo estas linhas, afiadas como facas. Embora não com o propósito de te magoar, sinto que é a única maneira de te fazer entender isto. Morreste no último dia de Maio."



Escrito a quatro mãos, com alguém cujas palavras e sentimentos admiro, numa noite em que falámos de tulipas, de vida e de morte.