22.10.13

Que caralho de vida!



Estou a ficar farta desta vidinha de merda.
Acorda. Toma banho. Veste. Come. Lava os dentes. Penteia. Maquilha. Aquece a marmita. Sai de casa. Entra no carro. Trabalho. Trabalho. Trabalho. Trabalho. Trabalho. Trabalho. Trabalho. Trabalho. Trabalho. Casa. De quando em vez, supermercado. E a partir daqui é sempre mais do mesmo entre limpar, cozinhar, arrumar, ler, escrever, sofá, net, televisão.
Que vida fixe que tenho levado até aqui, hein?!
Foda-se.
Agora estou no trabalho (sim, estou a dar prejuízo ao patrão) e nem estou com a consciência pesada porque, na verdade, o que me apetece é ir embora e amanhã já não voltar. É uma desgraça quando se vive assim. Quando se chega ao ponto em que isto já não faz sentido nenhum. Quando nem pelo dinheiro se trabalha porque, esse filho-da-puta do dinheiro, perde-se no dia em que se recebe. O filho-da-puta do dinheiro dura entre 24 a 48 horas mas eu tenho de continuar a trabalhar todas as 168 horas dos respectivos 21 dias.
Eu, que sempre fui boa para falar da infelicidade dos outros (porque, claro está, isto de mudar de vida é tão fácil e só não muda quem não quer) vejo-me agora enredada na minha própria inércia. Eu não quero fazer o que faço. Quero fazer outras coisas. Não quero ter patrão ou, então, quero ter um patrão fixe, e não estou a conseguir encontrar a fórmula e o caminho para chegar lá.
Às vezes (todos os dias) quando viajo pela net, acho sempre que toda a gente tem uma vida mais porreira que a minha. E talvez tenham. A questão é que eu não vejo qualquer vislumbre de infelicidade e de realidade na vida dos outros. Só na minha. E quando se vive assim… Ai meus amigos, está tudo perdido. A fé está perdida.
Queria eu ter a força, que acho sempre que os outros devem ter, para mudar a minha própria vida. Agarrar nestas pernas e nesta cabeça e mudar de trajectória.
Foda-se, eu sou uma gaja que pensa. Que tem ideias. Que tem capacidade de execução. Então falta-me o quê para me por a mexer?
Foda-se, não sei.
Mas que hoje estou cansada disto, estou.
Não se passou nada, nada contribuiu para que hoje se tornasse mais difícil pensar nisto, mas há dias em que uma pessoa questiona o que anda cá a fazer, que pensa mais na rotina, que se questiona sobre há quantas horas ou quantos dias não se ri, que pára para pensar se vai ser esta merda desta monotonia a vida toda.
Vai ser assim sempre? Ou até quando vai ser assim?
Depois volta-se a pensar no dinheiro (volta-se sempre) e lá aterramos na vidinha medíocre que nos foi destinada. A pessoa até se convence disso. De que é o destino. A culpa já não é nossa é do destino e das circunstâncias da vida. Raspa-se o pensamento pelo euromilhões (isso é que safava uma pessoa de uma vida de merda) e no segundo depois volta-se ao pensamento de pobrezinho: “pois, não vai sair o euromilhões – até porque não jogas – por isso tens de trabalhar nesse sítio espectacular que não tem nada para te oferecer para além de horários e obrigações em troca de zero orgasmos mentais”. Não se cria nada neste filho-da-puta de trabalho. Não se inventa nada. Não se irá chegar a lado nenhum. Mas a culpa nem é dos outros. É só minha.
Estou bem fodida comigo.
Nestes dias, em que parece que vou fazer uma revolução, fico ainda pior porque sei que vou chegar ao fim do dia exactamente como o comecei: deitada na cama, a olhar para o tecto, e a lamentar ser quem sou.





19.10.13

Pessoas porcas que vivem como cães



[nonsense]
[Porque as viagens na CP nem sempre são fáceis]



Cheira a cão molhado.
A chulé e a cão molhado.
Chulé dos pés de um homem daqueles que calçam meias turcas de fibra.
Cheira a mofo.
A mofo e a hálito podre.
Como aquelas pessoas que têm bocas que parecem grutas.
Ou que são apenas bocas em decomposição.
Como também têm aquelas pessoas que vestem blusas com suor de dois dias.
Aquelas que têm aureolas amarelas nas axilas e andam de braguilhas sempre abertas.
São as mesmas pessoas que usam as meias puídas nos calcanhares e um dedo a furar a biqueira.
Também podem ser aquelas pessoas que têm nódoas nas camisas e os botões abertos até ao umbigo de barrigas gordas.
As pessoas que têm furos na roupa também podiam ser essas pessoas.
E as pessoas que mostram regos de rabos a espreitar por calças justas são as mesmas pessoas que coçam virilhas como se ninguém estivesse a ver.
As minhas preferidas são as pessoas que escarram para o chão mesmo para os pés de quem vai a passar.
Nem os macacos arrancados do nariz superam isto.

E o que eu fico sem saber, é se essas pessoas gostam de ser porcos ou querem ser cães.
Ah! São só pessoas que não gostam de ser pessoas.
Então está bem.





18.10.13

Quando for grande




Quando for grande vou querer sair do escuro.
Vou abrir os olhos e viver.
Vou querer gostar de mim.
Gostar dos outros.
Vou querer vestir-me de azul.
Viver com uma nuvem branca sobre a cabeça.
Contrariar os defeitos desta alma assombrada.
Vou dormir de luz acesa para espantar o medo.
Vou correr.
Fugir de tudo o que não faz sentido em mim.
Vou mergulhar.
Afundar-me na liberdade dos prazeres.
Entregar-me à felicidade dos vícios.
Vou agarrar num cigarro e namorar-lhe a cinza.
Beber um copo de vinho até os lábios sorrirem roxos.
Vou cheirar a sândalo e vestir-me de mim mesma.
Sem medos.
Vou dançar de olhos fechados.
Olhar para dentro de mim e cair redonda no chão de embriaguez.
Quando for grande vou querer saber dizer não.
Não temer as reacções dos outros.
Não temer os meus sentimentos.
Vou querer emocionar-me sem agarrar as lágrimas.
Não esconder que tenho coração que sente.
Quero render-me às lições de vida.
Apontar menos dedos aos outros.
Cair mais em mim.
Vou querer ser um exemplo sei-lá-de-quê para alguém.
Vou querer ser única.
Saber envelhecer na pele e rejuvenescer no espírito.
Ver os novos nascerem e endireitarem-se.
Vou querer ver a vida a dar vida e a morte a não existir.
Não vou sucumbir às tristezas das perdas. 
Vou querer viver tudo o que não vivi até hoje.
Vou querer chegar ao dia em que sei que nenhum caminho ficou por percorrer.



17.10.13

O que eu não te disse sobre a solidão




Quando te falei da solidão, não encontrei as palavras certas.
Estava tomada pela emoção de umas lágrimas que se escondiam dentro de mim. Dentro da dor que se tornou admitir tanta solidão. Falei-te, por isso, com ideias vagas. Com palavras perturbadas e sem história, incapazes de construir as imagens que me correm nos pensamentos. Não te consegui dizer que a minha solidão se faz de muita gente. Dos espaços vazios entre tanta gente. Que me vejo rodeada de todas as pessoas que conheço mas profundamente vazia e só.

Quando te falei da solidão não te expliquei que a minha solidão não se faz exactamente das pessoas. Faz-se dos vazios entre as pessoas. Que a distância entre nós não está num corpo que vive longe do outro. A distância entre nós, aquela que me faz sentir só, está entre aquilo que sei que não me dás e que aquilo que eu queria que me desses. Está entre a minha vontade de participar dos teus dias, das tuas decisões, da tua felicidade, e aquilo em que não me queres fazer participar. A minha solidão nasce dos momentos em que tu, eu e todas as pessoas que conheço, não se preocupam em preencher os espaços vazios. Não se preocupam em estar presentes mesmo sem estar.

Quando te falei da solidão não te disse que sinto que se demitiram de mim. Que, mais que não me encontrarem, não me procuram. Que mesmo que tu e todos estivessem ao meu lado, todos os dias, estariam ausentes de mim. Sinto que todos estão ausentes. Sinto que não sou correspondida na necessidade da partilha e da convivência dos outros seres. Sinto que, talvez, caminhe sozinha neste gosto pela companhia e pela preocupação com os outros. Não vivo apenas dentro de mim mas de todos aqueles de quem gosto. Sinto, contudo, que ninguém me quer dentro de si. Mais que isso, ninguém quer entrar em mim e fazer parte desta casa fria.

Quanto te falei da solidão não te disse que sei que apenas eu luto para que os outros não se sintam sós. Mas por mais que queira não exigir um retorno dessa preocupação acabo, inevitavelmente, a fazê-lo pela esperança de, um dia, alguém ouvir os ecos dos meus apelos.

Quando te falei da solidão, não te disse que sei que me abandonaste, porque já não me sentes parte de ti.




14.10.13

Economia explicada por uma dona-de-casa




Regras básicas para gerir uma casa com pouco dinheiro:

1º Mantenha sempre a noção de realidade
Nem todos podemos comer bifes do acém ao pequeno-almoço, almoço e jantar. E se estiver a passar por dificuldades, então, deve colocar essa hipótese completamente de parte. Não é vergonha nenhuma comprar asas de frango em vez dos bifes de vaca, mas será uma grande vergonha ostentar um par de bifes na mão que não conseguiu pagar e mais tarde lembrarem-no disso.

2º Não viva acima das suas possibilidades
Se tem 5€ no porta-moedas não olhe para a caixa de Ferrero Rocher que custa 10€. Quando olhar para a caixa de Ferrero Rocher, lembre-se que não é isso que alimentará a sua família. Compre antes um frango com os 5€. Em média alimentará quatro pessoas e se o desfiar e fizer uma salada, com sorte, alimentará oito. É tudo uma questão de não encher o bandulho de guloseimas a uns e deixar com fome os outros.

3º Nunca queira resolver um problema de economia atacando nas finanças
Se não consegue comprar três carcaças hoje, não pense em resolver isso usando o dinheiro para o leite de amanhã. Só se irá afundar mais em despesas e continuará sem ter ou as carcaças ou o leite. A ideia é produzir mais, para poder ganhar mais e, consequentemente, ter mais para gastar. Daqui por uns tempos até poderá pensar em comprar manteiga para barrar as carcaças. Quiçá, não conquiste a secção de peixe ou de carne.

4º Faça uma boa gestão da despensa
Não devemos encher a fruteira de com 5kg de pêssegos, só porque é a fruta que está em promoção no mercado, quando apenas temos capacidade para consumir 1kg. Para todos os efeitos, os outros 4kg irão para o lixo quando, com o preço desse desperdício, poderia ter variado a fruta e, quem sabe, não se poderia ter dado ao luxo de comprar um abacaxi.

5º Reveja os prazos de validade com frequência
Não garantir o cumprimento dos prazos pode dar grandes dores de barriga, já para não falar do desperdício de dinheiro que os mesmos podem implicar. Investir em artigos quase fora de prazo, mas que são muito mais baratos, pode ser arriscado e não ter o retorno esperado. Deve analisar bem esses produtos antes dos adquirir. Já em casa, deve vigiar as datas com regularidade. Se não o sabe fazer peça a alguém que o faça.

6º Nunca fique a dever na mercearia
Os merceeiros são uma raça má: apontam tudo num caderninho. Se não pagar no dia seguinte começam a olhá-lo de lado, se não pagar ao fim de uma semana proíbem-no de entrar na loja e, se não pagar ao fim de quinze dias, é difamado por todo o bairro. Depois, sabe o que acontece? A confiança em si desce, nunca mais ninguém lhe empresta dinheiro, é rotulado de caloteiro, e se quiser comprar um molho de bróculos na mercearia abaixo da sua, vão-lhe fazer um manguito.

7º Regateie sempre o preço
Não raras vezes somos roubados. Ao longo da nossa vida fomos roubados várias vezes. Balanças descalibradas, códigos de barras trocados, artigos que passam em duplicado… Por isso, não se iniba de regatear o preço. Faça bluf. Diga que ainda ontem pagou menos pelo mesmo artigo; que o vizinho é mais rico e mesmo assim pagou menos; que o produto não é assim tão bom e que há melhor na concorrência. Aceitar a primeira opção é mostrar ou riqueza ou desespero. Nenhum dos dois fará de si um bom gestor do orçamento familiar.

8º Faça trocas justas com os seus vizinhos
Se um dia oferecer um cesto de laranjas a um vizinho, pode esperar que, de futuro, ele lhe venha a retribuir com a mesma quantidade de maçãs. O que não pode, é receber uma banana e oferecer 1kg de papaias. A isso chama-se déficit. E o déficit é como uma doença prolongada: nunca acaba bem.

9º Nunca perdoe uma dívida
Primeiro, porque ninguém lhe perdoaria a si. Segundo, porque rapidamente se espalharia a notícia de que você é o otário que empresta e não pede de volta. Terceiro, porque abre um precedente. Se for mole, e não negociar, o buraco no orçamento ficará apenas do seu lado. Exija que, pelo menos, a divida seja saldada em garrafas de azeite todos os meses.

10º Crie o seu próprio sustento
Parado não consegue meter comida na mesa. Trabalhe. Obtenha um ordenado. Ou melhor, crie a sua própria riqueza e sustentabilidade. Se tem quintal, plante as suas próprias couves. Mesmo que não as venda, não dispenda dinheiro a comprar aos outros. Se vive a um passo do mar, pesque o seu próprio peixe. Mesmo que tenha trabalho a amanhá-lo em casa, pelo menos não passa pelo ridículo de ir gastar o seu dinheiro em peixe congelado apanhado aí mesmo à sua porta. Se tem habilidade para alguma coisa, use essa criatividade em seu benifício. Não dependa de ajudas para concretizar projectos. Não espere que o resgatem.

11º Nunca dispense o jardineiro se você não sabe cortar a relva
Não temos de saber fazer tudo. Idealmente sim, mas nesse caso não existiriam profissões e não existiriam pessoas especializadas em determinadas áreas. O merceeiro, sabe da mercearia. Por isso tem o seu valor. O jardineiro, sabe de jardinagem. Por isso tem o seu valor. O canalizador, sabe de canalizações. Por isso tem o seu valor. Não deixe, portanto, sair de sua casa quem produz ou o faz poupar dinheiro. Não deixe que o jardineiro vá embora se não tem quem saiba trabalhar com o cortador de relva. Não deixe o seu filho sair de casa se for ele o único a saber fazer contas. Não deixe o seu marido ir embora se ele for o único a meter um ordenado em casa.

12º Nunca roube
Se roubar, isso significa que esse dinheiro vai faltar a alguém. Se faltar a alguém, quer dizer que essa pessoa já não poderá gastar o dinheiro que lhe foi roubado. Se já não vai gastar o que lhe roubaram, quer dizer que alguém vai deixar de receber esse dinheiro. Quem deixar de o receber, não vai poder voltar a comprar, a investir, esse dinheiro. Se ninguém comprar, ninguém vende. Se ninguém vender, não se gera receita. Se não se gerar receita entra-se em falência. E a falência é sempre, mas sempre, aquilo que se quer evitar.





8.10.13

O homem que não voltou




Maria.
35 anos.


Fui abandonada na berma de uma estrada aos dois anos. Ainda de me lembro. A estrada estava escura. A noite estava amena. Não tive medo. Ainda me lembro.
Abriram-me a porta do carro como a um cão. Não me disseram nada. Não me bateram. Não se despediram. Apenas não me quiseram mais.
Um homem, que passou horas mais tarde, meteu-me dentro da sua carrinha. Percorremos um longo silêncio. Ele levou-me à polícia. Quando me entregou o homem chorou muito. Disso não me lembro. Contaram-me mais tarde. Mas dizem que chorava de dor, de raiva, de tristeza. Aqueles sentimentos que eu não tive por nem entender o que se passava. Apenas sei, agora, que naquela noite houve coisas que morreram em mim. Eu não sabia dizer por palavras. Mas algumas coisas ficaram perdidas. 
A polícia e umas mulheres de tom mecanizado, fizeram-me muitas perguntas nos dias que se seguiram. Nunca respondi. Sabia poucas palavras. Esqueci as que conhecia. A minha memória estava feita de coisas que não usam palavras. Imagens. Lembrava-me apenas daquela noite mas isso já não lhes importava. Queriam saber do passado. Eu sei lá do passado. Nessa altura sabia ainda menos. Por isso calei-me. Durante anos, calei-me. Ninguém parecia interessado em, realmente, me ouvir. Pensaram que eu estivesse traumatizada. Que talvez tivesse visto alguma coisa que não devia. Mas eu apenas me calei. Não tinha nada para dizer. Durante muitos anos não tive nada para dizer.
Às vezes lembrava-me do homem que me meteu na carrinha e me levou à polícia. Ainda me lembro. Não exactamente do homem. Não me lembro dele. Lembro-me do medo na cara dele. Da coragem. Penso na razão que o levou a parar a carrinha naquela estrada escura e ajudar-me. No que fez aquele homem emocionar-se. Às vezes pergunto-me se nele também terá morrido alguma coisa.
Nunca pensei em quem me abandonou. Também nunca os culpei. Não sei porque me abandonaram. Por isso não os culpo. Eram dois.
Hoje, os muitos abandonos que sofro, doem mais. Porque me lembro de tudo. Porque foram muitos. Muito mais que dois. Porque são feitos na luz do dia. Com palavras. Com acções. Com torturas. Com memórias.
Hoje, quem me abandona nas bermas dos meus sentimentos, tem culpa.

Lembro-me muitas vezes do homem da carrinha que me salvou.
Questiono-me por onde andará ele agora e porque é que nunca mais voltou.



2.10.13

Dia de mudanças





Dia de mudanças no blog.

O tamanho da fonte do texto está melhor assim, pitosgas?

(O que eu odeio mudanças...)







1.10.13

As urnas

Post com delay... eu sei.
Dia 29 de Setembro de 2013






urna | s. f.
ur·na
(latim urna, -ae, vaso para água)
substantivo feminino
1. Vaso, de forma variável, que servia aos Antigos para guardar as cinzas dos mortos, recolher água das fontes, etc.
2. Vaso que tem a forma de uma urna antiga.
3. Caixão para defunto.
4. Vaso ou objecto análogo em que se recolhem as listas do voto, num acto eleitoral, ou os números de uma lotaria, rifa, etc.
5. [Botânica]   [Botânica]  Espécie de cápsula coberta por um opérculo.
6. [Popular]   [Popular]  Chapéu alto.

"urna", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa





3. Caixão para defunto.

Há qualquer coisa de desconcertante em fazer parte do momento em que nos confrontamos com a morte. Há anos que tento descortinar o porquê de sentir tantas emoções num velório, num funeral, mas esbarro sempre num emaranhado mental. Finalmente hoje, pensando em definitivo no assunto, lá consegui perceber porquê: porque se trata de um acto ritualizado.
A pessoa sai de casa preparada para se entristecer. Entra num cemitério que desclassifica, imediatamente, como local a evitar e passa a encarar como local inevitável. Olha para o número avassalador de campas e procura em volta de qual se encontram pessoas chorosas, e saberá que é a essa  que se deve dirigir. Há-de encontrar sempre uma cara conhecida nas campas que percorre até lá. Cruza os olhos baixos com alguém que chora. Esconde-se atrás de alguém na esperança de passar despercebido. Olha dez vezes para os nomes escritos nas lápides. Lê-os novamente para se capacitar que aquilo é real. Olha em volta para ver se ninguém topou que chegou atrasado. Fecha o casaco preto para não se ver a camisola vermelha por baixo. (Toda a gente sabe que o luto se faz de preto. Não de branco, nem de vermelho. É, curiosamente, instintivo). Ajeita o ramo de flores. Dirige-se à urna. Ao colocar as flores na urna sente que aquela fracção de segundo é congelada. Talvez espere que registem aquele momento. Durante um ou dois segundos suspende as flores sobre a urna para poder ser visto e para verem que não se esqueceu de se despedir. Despede-se sempre de quem já está morto. Nunca antes. Sai-se do cemitério ainda com o andar trôpego de quem sabe que viu o morto pela última vez e nunca, mas nunca, mais voltará a ver. Lá fora, acenos e cumprimentos a caras conhecidas. Conhece-se sempre alguém. Indaga-se sobre o que fazem algumas pessoas ali. O que terão pensado. Fazem-se juízos de valores. Critica-se mesmo sem saber a relação emocional com o morto: "Terão sido amigos? Ou familiares? Amigos, porquê? Onde se terão conhecido? E familiares? Inconcebível. Familiares? Terá sido tão desgraçado em vida para merecer familiares assim? Porquê?".
Volta-se para casa com a impaciência de não se saber se o seu funeral, um dia, também será assim. Se estará para breve. Se o gesto simpático de participar desta despedida lhe atenua os pecados cometidos ou se, pelo contrário, não serviu para coisa nenhuma. Todos queremos pensar que estamos salvos. Ninguém morre muito ansioso por ir para ao inferno. E quem não acredita numa vida para além da morte nem se dá ao trabalho de comparecer num funeral. Despedirmo-nos de um morto, também é, de certo modo, um acto de fé.




4. Vaso ou objecto análogo em que se recolhem as listas do voto, num acto eleitoral.

Há qualquer coisa de emocionante em fazer parte de uma decisão importante como votar. Há anos que tento descortinar o porquê de sentir esta emoção em dia de eleições mas esbarro sempre num emaranhado mental. Finalmente hoje, pensando em definitivo no assunto, lá consegui perceber porquê: porque se trata de um acto ritualizado.
A pessoa sai de casa para votar. Entra na escola que desclassifica, imediatamente, como local de ensino e passa a encarar como local de voto. Olha para o seu número de eleitor duzentas e trinta e cinco vezes e vê a mesa a que se deve dirigir. Há-de encontrar sempre uma cara conhecida na mesa em que vota. Entrega os documentos de identificação em trocas de uns boletins. Esconde-se atrás de um biombo. Olha dez vezes para os nomes escritos nos boletins. Lê novamente para não dar um voto irreflectido ao inimigo. Olha em volta para ver se ninguém topou se a cruz foi desenhada mais acima ou mais abaixo no boletim. Dobra os boletins em quadrados perfeitos. (Toda a gente sabe que não se dobram apenas ao meio, mas também não se dobram em seis. É, curiosamente, instintivo). Junta os papelinhos. Dirige-se à urna. Ao colocar os boletins na ranhura da urna sente que aquela fracção de segundo é congelada. Talvez espere que registem aquele momento. Como os que vimos as pessoas famosas terem direito nos meios de comunicação social. Durante um ou dois segundos suspendem os boletins sobre a ranhura da urna para poderem ser fotografadas e filmadas. Sorri-se sempre para quem está na mesa de voto. Despede-se com um "bom dia". Sai da sala ainda com o andar trôpego de quem acabou de tomar uma grande decisão. Lá fora, acenos e cumprimentos a caras conhecidas. Conhece-se sempre alguém. Indaga-se sobre em quem aquelas pessoas terão votado. Fazem-se juízos de valores. Critica-se mesmo sem saber onde foram postas as cruzes: "Terão votado em branco? Ou com voto nulo? Em branco, porquê? Não sabe em quem votar? Não tem opinião própria? E Nulo? Inconcebível. Nulo? Terá desenhado coisas impróprias no boletim? Ou desenhado uma cruz em todas as opções? Para quê? Qual o propósito?".
Volta-se para casa com a impaciência de se saber se o voto foi ao encontro de uma maioria ou se, pelo contrário, não serviu para coisa nenhuma. Todos queremos fazer parte da maioria. Todos queremos pensar que estamos enturmados. Ninguém vai votar muito ansioso por ficar em último lugar. Quem não acredita nem comparece. Votar, também é, de certo modo, um acto de fé.





29.9.13

O Palhaço




Por hoje é tudo o que tenho para te dizer.





27.9.13

A pequena ditadora





Sempre maior que os outros. Mais esperta, mais astuta, mais inteligente, mais senhora de si. No fundo, senhora dos outros também. A pequena ditadora, apesar da sua fraca figura, achava-se sempre acima dos outros e deitava-lhes olhares dominadores e sobranceiros como quem nega a existência de alguém equiparado a si. Também gostava de levantar a voz e impor palavras de autoridade mesmo sobre quem merecia reverência. Não admitia, sequer, que alguém a tentasse ultrapassar. Nem mesmo quem legitimamente o poderia fazer. Problemas de autoestima, dizia-se. Complexo de inferioridade camuflado numa altivez que faria adivinhar precisamente o contrário. A pequena ditadora confundia os outros. Ora gigante, ora minguada, nunca se percebia bem se estava à defesa ou se atacava tudo e todos para não dar tempo de ser ferida. Confundia os outros porque lhe viam no corpo a genica de uma pequena e arrogante burguesa e nos olhos o medo de uma criança maltratada. Mas ela pensava que os outros só a viam como a rainha que tudo sabia. Era assim que se gostava de imaginar.
Era mesmo fantástica a pequena ditadora. Pequena, espevitada, de passo firme e acelerado, como quem corre para salvar o mundo, mesmo sem notar que o mundo não lhe pedia para ser salvo. Corria apenas para verem que ela corria. Talvez também corresse para fugir de si e dos seus pensamentos e da sua vida pouco ocupada, quando não estava ocupada a mandar na vida dos outros. Mas isso seria outra conversa. A pequena ditadora nunca se vergava à sua própria vida. Não se enxergava. Não se virava para si, não se analisava, e nunca se lembrava que tinha três dedos virados para si, quando apontava o dedo a alguém. Problemas de tamanho. De escala. Só olhava de baixo para cima mas acredita que os outros é que se inclinavam para a ouvir falar.
Pobre pequena ditadora que nunca viu o quão miserável era a sua indistinta existência aos olhos de quem realmente manda no mundo e não tem tempo a perder com a vida medíocre dos outros. Não entendia, e talvez tivesse passado toda a sua vida sem entender, que as coisas importantes se passam a um nível superior à sua baixa estatura e que o seu umbigo é tão pequeno que ninguém o via além dela. Pobre pequena ditadora que, de tempos em tempos, quando era contrariada por alguém de altura maior que a sua, se escondia num pranto de lágrimas que recusava denunciar. A pequena ditadora chorava muito. Escondia-se. Não admitia, mas chorava muito. Chorava todos os dias e nem sabia porquê. Dizia que não sabia, a coitada. Mas todas as pessoas sabiam. Chorava por ser desautorizada. Por ficar só no seu reino de ordens em surdina. Por nem se darem ao trabalho de lhe dizer um gigante "NÃO" porque ela era tão pequena que nem essa atenção merecia. Só na cabeça dela, no seu mundo de ditadura matriarcal, é que era possível ela pensar que mandava em alguém e que alguém acatava o que ela dizia. A pequena ditadora, de passos rápidos e raciocínio ágil, não convencia ninguém para além dela própria, que um dia iria chegar longe e que todos se vergariam às suas imposições.
A pequena nunca se fez grande. A história contaria, mais tarde, que morreu pequena como nasceu. E que morreu a mandar na vida dos outros em vez de tomar conta da sua. Morreu sozinha, numa noite de choro sem razão, e com todos os dedos apontados para si.
A pequena ditadora, nunca foi feliz.