6.11.13

Em nome de Samael




Diz-se que vou morrer.
Que alguém me procurará.
Essa coisa da morte.
Esses anjos que são demónios.
De sorrisos cândidos e fingidores.
Estupores.
Julgam que eu não sei o que os traz.
Mas sei-o bem.
Trazem a dor.
O silêncio.
A agonia.
As promessas que se quebrarão.
As palavras enganadas.
Trazem provas de resistência.
De desistência.
Trazem decisões impossíveis.
Obrigações que todos quererão negligenciar.
Esses bastardos desses anjos virão vergar-me.
Dizer-me o meu lugar.
As minhas limitações.
A minha humanidade.
A minha grandiosa insignificância.
Vão dizer-me que sou atacável.
Vão mostrar-me que sou derrubável.
E assim irão derrubar.
Conseguirão que todos tenham pena de mim.
Que lamentem o meu findar.
Esses anjos assistirão aos choros dos vencidos.
Daqueles que não me conseguiram fazer viver.
Desses que contavam comigo para primeiro os ver morrer.

Não morro tranquila.
Julgava a morte longe do sítio onde me encontro agora.
Julgava que todos morreriam antes de mim.



5.11.13

Das estações



Chove.
Neva como se Lúcifer vestisse a pele de Deus.
Como se fizesse chorar flocos sem cor.
Fingidor.
Chove como um Diabo que se ri das dores de ossos.
Que tem prazer no escuro das almas que definham.
Tragédia desenhada a preto.
Pintada a branco.

Floresce.
Deus sorri de vitória.
Alegra-se pela batalha ganha sem dor.
Louvor.
Radiantes cores dançam entre si.
Sacodem luz e bailam pólens.
Gargalham os ventos dóceis que sopram.
Segredam a felicidade de tanta cor.

Vive.
Explode calor pelos poros.
O inferno desce à terra e faz-se verde.
Alegre.
Luta-se entre o desejo e o desamor.
Ardem os pés sobre o chão.
Nada nasce de tanto aridez.
Deus deseja frio e chuva mais uma vez.

Seca.
Juntam-se à mesa Deus e o Diabo.
Ilustram um postal em tons pastel.
Babel.
Dão as mãos no entendimento.
As verdades ganham vez.
Juntos fizeram o melhor com o tempo.
Uniram-se e as estações nasceram outra vez.




2.11.13

O mocho




Não te sentes observado?
Olhado por alguém, ou alguma coisa, algures entre o céu e a terra?
Como se uns olhos se tivessem cravado em ti.
Como se cada arfar teu fosse arfado em sincronia com o arfar de alguém.
Não sentes?
Não andas pela noite com passos atrás dos teus?
Como uma réplica.
Um eco.
Como se os teus pés se tivessem duplicado e caminhassem ao teu lado.
Como se alguém, em vez de andar apressado, se arrastasse atrás de ti.
Nunca olhas para trás, sobre um ombro amedrontado?
Com os olhos latejantes de medo.
Com a cabeça metida num labirinto de caminhos desconhecidos.
Perdida.
Quantas vezes te questionas se haverá alguém te conheça profundamente?
Que saiba tudo de ti.
As vezes que sorris.
O número de palavras de exibes pela voz.
Quantas folhas folheias antes de dormir.
Quantas horas corres na solidão.
Pensas mesmo que estás protegido?
E que as palavras te escondem o rosto e o carácter?
Então agora olha para trás.
Vê bem o que tens atrás de ti.
Rende-te aos pés que assentas agora sobre o chão.
De nada adianta quereres fugir.
Perceberás que há sempre qualquer coisa que nos vê.
Que nos procura e que nos encontra.
Que haverá sempre obscuridade na solidão.
E alguém, ou alguma coisa, que se move melhor que nós nessa obscuridade e nessa solidão.
E que nos vigia a cada segundo, mesmo nas longas noites que acreditamos estar sozinhos.
Mesmo quando acreditamos que a nossa vida, até para nós, terminou.
E agora?
Não te sentes observado?

Bem vês. 
Nem sempre um fim acaba bem.




30.10.13

Às melhoras do meu querido...




Definham estas pontas de dedos,
Secam-me as falanges de tristeza,
Não te voltarei a estragar com o meu tacto,
Perdoa-me esta minha rudeza.

Regressa aos meus dedos tão sós,
Deixa-me voltar-te a tocar,
Preciso tanto dessa tua grandeza,
Não aguento mais sem em ti escrevinhar.



[Às portas da morte, não me restou alternativa que não fosse entregar o meu adorável computador aos Senhores Doutores para o arranjarem. 
Rezo ao Steve Jobs para não o querer perto de si tão cedo. 
Ainda é tão jovem. Tem tanto para me dar nesta vida...
Voltarei à escrita quando ele recuperar.]


23.10.13

E se um dia eu não quiser





É assombroso este amor que se consome nas distâncias.
Que vive das horas, dos dias, de um tempo castigador.
Um amor que vive da eternidade e da distância.
Mesmo desconhecendo quanto mais tempo será preciso para encurtar esse caminho. Tanta lonjura.

O que eu não quero é morrer na imensidão desse tempo.
Ficar prisioneira de uma decisão que nunca se irá tomar.
Ver maltratado o amor que sinto. A profundidade do que sinto.
Ver-te abandonado ao que foste antes de mim. Lembra-te da dor.

Porque se um dia eu já não quiser esperar,
Não quiser correr tantas horas e tantos dias,
Se já não quiser cansar estas pernas movidas por tanto amor,
Se já não permitir abrir feridas pela ilusão de um futuro que não existe;

Nesse dia saberei que já não vou querer esperar.
Já não vou ter pressa para chegar a lugar algum.
Não terei pressa de ser abandonada a um peito vago.
Não vou esperar por alguém que sei que não virá.

Se um dia eu não quiser este nosso grande amor,
Estranha apenas que eu tenha desistido de me deixar magoar,
Tantas horas, tantos dias, tantas esperanças depois.
Estranha apenas o estranho que foi não teres pressa de me amar.



22.10.13

Cabeças de alho




Sim, voltei.
Duas vezes no mesmo dia.
Hein?!
Duas de seguida não é para todos.
Bom, mas voltei aqui porque já percebi que o dia hoje não vai passar disto, e eu estou farta de tudo e todos e de mim incluída e, portanto, pus-me aqui a pensar nas coisas boas da vida, só para contrariar este estado de espírito (bom de ver que está, que nada vai mudar tão depressa).
E o que me veio logo à cabeça foi de como gosto de comer cabeças de alho assadas no forno.
Ora e porquê?
Não faço a mínima ideia mas creio que fará parte do desconcerto em que vai esta cabeça.
Podia ter pensado noutras coisas, como por exemplo, de como me sinto aconchegada com o licor de dez mon chéris. Tão inocente aquele calor que se instala na parte superior das bochechas. Tão bom.
Também me sinto feliz (durante cinco segundos) quando acordo de manhã, deitada de barriga para cima, e acho que estou tão magrinha e que aquele armazenamento de torresmos que tenho na zona abdominal afinal não passou de um sonho mau.
No fundo, sou pessoa que também encontra felicidade em coisas simples, quase todas ilusões, mas coisas simples.
Mas nada, nada, se compara ao prazer de espremer uns dentes de alhos assados entre os dedos. De levar aquele creme em que se transforma à boca e degustar o seu sabor tão avassalador. A sua textura tão delicada. Há qualquer coisa nos alhos que me transporta para um lugar em que as coisas correm bem.
E, claro está, uma pessoa mete-se a pensar em como uma coisa, aparentemente, tão agressiva e desagradável faz um bem danado à alma e na lição que pode retirar disto.
Não é imediato, demorei um bocadinho a teorizar sobre isto, mas lá cheguei a uma conclusão: se até os sacanas dos alhos me deixam feliz, e a acreditar que há um mundo de coisas que só eu gosto e mesmo assim consigo viver nele, porque é que não consigo transformar outras coisas, igual e aparentemente nocivas, em algo de bom na minha vida?
Descobri nos alhos assados com casca, que da coisa mais mal-cheirosa, se pode encontrar algo que, levando uma reviravolta, nos pode trazer aquele momento de felicidade.
Ainda não sei como é que isto vai mudar alguma coisa neste estado de espírito merdoso em que estou mas por algum lado se tem de começar.

[Que assunto mais interessante este dos alhos]


Que caralho de vida!



Estou a ficar farta desta vidinha de merda.
Acorda. Toma banho. Veste. Come. Lava os dentes. Penteia. Maquilha. Aquece a marmita. Sai de casa. Entra no carro. Trabalho. Trabalho. Trabalho. Trabalho. Trabalho. Trabalho. Trabalho. Trabalho. Trabalho. Casa. De quando em vez, supermercado. E a partir daqui é sempre mais do mesmo entre limpar, cozinhar, arrumar, ler, escrever, sofá, net, televisão.
Que vida fixe que tenho levado até aqui, hein?!
Foda-se.
Agora estou no trabalho (sim, estou a dar prejuízo ao patrão) e nem estou com a consciência pesada porque, na verdade, o que me apetece é ir embora e amanhã já não voltar. É uma desgraça quando se vive assim. Quando se chega ao ponto em que isto já não faz sentido nenhum. Quando nem pelo dinheiro se trabalha porque, esse filho-da-puta do dinheiro, perde-se no dia em que se recebe. O filho-da-puta do dinheiro dura entre 24 a 48 horas mas eu tenho de continuar a trabalhar todas as 168 horas dos respectivos 21 dias.
Eu, que sempre fui boa para falar da infelicidade dos outros (porque, claro está, isto de mudar de vida é tão fácil e só não muda quem não quer) vejo-me agora enredada na minha própria inércia. Eu não quero fazer o que faço. Quero fazer outras coisas. Não quero ter patrão ou, então, quero ter um patrão fixe, e não estou a conseguir encontrar a fórmula e o caminho para chegar lá.
Às vezes (todos os dias) quando viajo pela net, acho sempre que toda a gente tem uma vida mais porreira que a minha. E talvez tenham. A questão é que eu não vejo qualquer vislumbre de infelicidade e de realidade na vida dos outros. Só na minha. E quando se vive assim… Ai meus amigos, está tudo perdido. A fé está perdida.
Queria eu ter a força, que acho sempre que os outros devem ter, para mudar a minha própria vida. Agarrar nestas pernas e nesta cabeça e mudar de trajectória.
Foda-se, eu sou uma gaja que pensa. Que tem ideias. Que tem capacidade de execução. Então falta-me o quê para me por a mexer?
Foda-se, não sei.
Mas que hoje estou cansada disto, estou.
Não se passou nada, nada contribuiu para que hoje se tornasse mais difícil pensar nisto, mas há dias em que uma pessoa questiona o que anda cá a fazer, que pensa mais na rotina, que se questiona sobre há quantas horas ou quantos dias não se ri, que pára para pensar se vai ser esta merda desta monotonia a vida toda.
Vai ser assim sempre? Ou até quando vai ser assim?
Depois volta-se a pensar no dinheiro (volta-se sempre) e lá aterramos na vidinha medíocre que nos foi destinada. A pessoa até se convence disso. De que é o destino. A culpa já não é nossa é do destino e das circunstâncias da vida. Raspa-se o pensamento pelo euromilhões (isso é que safava uma pessoa de uma vida de merda) e no segundo depois volta-se ao pensamento de pobrezinho: “pois, não vai sair o euromilhões – até porque não jogas – por isso tens de trabalhar nesse sítio espectacular que não tem nada para te oferecer para além de horários e obrigações em troca de zero orgasmos mentais”. Não se cria nada neste filho-da-puta de trabalho. Não se inventa nada. Não se irá chegar a lado nenhum. Mas a culpa nem é dos outros. É só minha.
Estou bem fodida comigo.
Nestes dias, em que parece que vou fazer uma revolução, fico ainda pior porque sei que vou chegar ao fim do dia exactamente como o comecei: deitada na cama, a olhar para o tecto, e a lamentar ser quem sou.





19.10.13

Pessoas porcas que vivem como cães



[nonsense]
[Porque as viagens na CP nem sempre são fáceis]



Cheira a cão molhado.
A chulé e a cão molhado.
Chulé dos pés de um homem daqueles que calçam meias turcas de fibra.
Cheira a mofo.
A mofo e a hálito podre.
Como aquelas pessoas que têm bocas que parecem grutas.
Ou que são apenas bocas em decomposição.
Como também têm aquelas pessoas que vestem blusas com suor de dois dias.
Aquelas que têm aureolas amarelas nas axilas e andam de braguilhas sempre abertas.
São as mesmas pessoas que usam as meias puídas nos calcanhares e um dedo a furar a biqueira.
Também podem ser aquelas pessoas que têm nódoas nas camisas e os botões abertos até ao umbigo de barrigas gordas.
As pessoas que têm furos na roupa também podiam ser essas pessoas.
E as pessoas que mostram regos de rabos a espreitar por calças justas são as mesmas pessoas que coçam virilhas como se ninguém estivesse a ver.
As minhas preferidas são as pessoas que escarram para o chão mesmo para os pés de quem vai a passar.
Nem os macacos arrancados do nariz superam isto.

E o que eu fico sem saber, é se essas pessoas gostam de ser porcos ou querem ser cães.
Ah! São só pessoas que não gostam de ser pessoas.
Então está bem.





18.10.13

Quando for grande




Quando for grande vou querer sair do escuro.
Vou abrir os olhos e viver.
Vou querer gostar de mim.
Gostar dos outros.
Vou querer vestir-me de azul.
Viver com uma nuvem branca sobre a cabeça.
Contrariar os defeitos desta alma assombrada.
Vou dormir de luz acesa para espantar o medo.
Vou correr.
Fugir de tudo o que não faz sentido em mim.
Vou mergulhar.
Afundar-me na liberdade dos prazeres.
Entregar-me à felicidade dos vícios.
Vou agarrar num cigarro e namorar-lhe a cinza.
Beber um copo de vinho até os lábios sorrirem roxos.
Vou cheirar a sândalo e vestir-me de mim mesma.
Sem medos.
Vou dançar de olhos fechados.
Olhar para dentro de mim e cair redonda no chão de embriaguez.
Quando for grande vou querer saber dizer não.
Não temer as reacções dos outros.
Não temer os meus sentimentos.
Vou querer emocionar-me sem agarrar as lágrimas.
Não esconder que tenho coração que sente.
Quero render-me às lições de vida.
Apontar menos dedos aos outros.
Cair mais em mim.
Vou querer ser um exemplo sei-lá-de-quê para alguém.
Vou querer ser única.
Saber envelhecer na pele e rejuvenescer no espírito.
Ver os novos nascerem e endireitarem-se.
Vou querer ver a vida a dar vida e a morte a não existir.
Não vou sucumbir às tristezas das perdas. 
Vou querer viver tudo o que não vivi até hoje.
Vou querer chegar ao dia em que sei que nenhum caminho ficou por percorrer.



17.10.13

O que eu não te disse sobre a solidão




Quando te falei da solidão, não encontrei as palavras certas.
Estava tomada pela emoção de umas lágrimas que se escondiam dentro de mim. Dentro da dor que se tornou admitir tanta solidão. Falei-te, por isso, com ideias vagas. Com palavras perturbadas e sem história, incapazes de construir as imagens que me correm nos pensamentos. Não te consegui dizer que a minha solidão se faz de muita gente. Dos espaços vazios entre tanta gente. Que me vejo rodeada de todas as pessoas que conheço mas profundamente vazia e só.

Quando te falei da solidão não te expliquei que a minha solidão não se faz exactamente das pessoas. Faz-se dos vazios entre as pessoas. Que a distância entre nós não está num corpo que vive longe do outro. A distância entre nós, aquela que me faz sentir só, está entre aquilo que sei que não me dás e que aquilo que eu queria que me desses. Está entre a minha vontade de participar dos teus dias, das tuas decisões, da tua felicidade, e aquilo em que não me queres fazer participar. A minha solidão nasce dos momentos em que tu, eu e todas as pessoas que conheço, não se preocupam em preencher os espaços vazios. Não se preocupam em estar presentes mesmo sem estar.

Quando te falei da solidão não te disse que sinto que se demitiram de mim. Que, mais que não me encontrarem, não me procuram. Que mesmo que tu e todos estivessem ao meu lado, todos os dias, estariam ausentes de mim. Sinto que todos estão ausentes. Sinto que não sou correspondida na necessidade da partilha e da convivência dos outros seres. Sinto que, talvez, caminhe sozinha neste gosto pela companhia e pela preocupação com os outros. Não vivo apenas dentro de mim mas de todos aqueles de quem gosto. Sinto, contudo, que ninguém me quer dentro de si. Mais que isso, ninguém quer entrar em mim e fazer parte desta casa fria.

Quanto te falei da solidão não te disse que sei que apenas eu luto para que os outros não se sintam sós. Mas por mais que queira não exigir um retorno dessa preocupação acabo, inevitavelmente, a fazê-lo pela esperança de, um dia, alguém ouvir os ecos dos meus apelos.

Quando te falei da solidão, não te disse que sei que me abandonaste, porque já não me sentes parte de ti.