10.2.14

Três anos moribundos



E já passaram três anos nisto e eu nem me lembrei.
Se a psicologia explica tudo, também há-de explicar isto.




6.2.14

Autocomiseração

Marius Filipo



Afogada dentro de ti.
Finges ser-te.
Não o és.
Olhas-te nua.
Expias-te de soslaio.
Não queres enfrentar.
Um espelho.
Escondes-te.
Corres para nada.
Cansas-te de respirar.
Existes.
Olha para ti.
Para.
Estanque.
Mereces fugir.
Mas nunca.
Te irás.
Encontrar.

Lamentas.




5.2.14

Retrospectiva



Hoje deu-me para organizar o meu primeiro e-mail. Criei-o nos tempos da faculdade, vai para cima de dez anos e, de vez em quando, lá fazia uma limpeza, mas a última foi em 2006. Desde então que se tem acumulado algum lixo.
Lá me decidi a apagar coisas que não interessam mas que, por razão nenhuma, foram ficando: publicidade, e-mails de pessoas que já nem me lembro quem são, facturas electrónicas das contas de água, luz, gás e tantas outras a que uma pessoa nem se lembra que está aprisionada. Banalidades. 

Mas nestes oito anos de e-mails por organizar, vi muito mais que essas banalidades do quotidiano.
Nestes oito anos de e-mails, vi o primeiro contrato de trabalho, os dramas da primeira declaração de IRS, a procura da primeira casa para arrendar. O contrato da primeira casa que comprei. Encontrei fotografias de amigos que estão longe, mensagens de saudade, cartões de Natal e frases em maiúsculas, cheias de entusiasmo, a dizer "AMIGOS, ESTOU QUASE A CHEGAR A PORTUGAL!!!!". 
Vi o drama de quem teve de sair do país sem querer, e relativizei a emigração de que se fala de agora, porque compreendi que há muito que acontece. Felizmente, também assisti ao regresso de alguns. Pelo meio, vi as minhas fugas daqui, porque teimei em guardar os bilhetes electrónicos das viagens que fiz. Logo depois deliciei-me com as fotografias reveladas no regresso.
Encontrei-me em fotografias, com meia-dúzia de anos, com menos preocupações mas muitas mais inquietações interiores. Vi-me sorrir com honestidade na companhia de pessoas de quem verdadeiramente gosto. Reli e-mails de amor profundo. Encontrei os que traziam boas notícias: "Amiga, estou grávida!"; "Amiga, vou casar!"; "Amiga, arranjei trabalho!"...
Vi a vida dos meus amigos ser partilhada comigo.
Vi todos os meus sobrinhos e afilhados nascer de novo. Renasceram-me lágrimas nos olhos. Recebi os convites de batizado e fotografias que parecem ter cem anos. Mas foi tudo ontem.
Encontrei convites para inaugurações de negócios próprios. Vi nascerem projetos que, hoje sei, vingaram. Recordei projetos nos quais me envolvi que, já não me lembrava, mas não vingaram.
Encontrei a matrícula do regresso à faculdade e todos os trabalhos e e-mails trocados com colegas, como se tivesse, novamente, dezoito anos. Voltei a sentir-me jovem naquelas dezenas de mensagens. Recordei nomes de pessoas que sei que não voltarei a ver. Senti saudades de todos.
Também passei por mensagens, pouco católicas, trocadas com pessoas que não tiveram mais de um par de horas na minha vida. Encontros fugazes. Reencontrei os rostos dessas pessoas que não hesitei em apagar, como se, assim, também os apagasse de mim. Mas percebi que a pele não a posso arrancar. Percebi que me arrependi de poucas coisas na vida, mas que, ainda assim, me arrependi.
Finalmente, encontrei aquele amor que encontro todos os dias e que sei que vai durar para sempre. Aquele que faz redimir todos os outros de que me arrependi. Olhei para as fotografias, tão recentes, e que um dia me irão trazer tanta nostalgia, e vi que, o caminho que me trouxe até aqui foi decente e até feliz. Acabei por me surpreender com essa conclusão. Por vezes precisamos de fazer uma retrospectiva num minuto, para percebermos como, afinal, as coisas não foram bem como passámos anos a imaginar.

Foi uma viagem emocionante, é o que posso dizer.
Mais que as imagens, que poderia ver apenas num álbum, compreendi que foram sempre as palavras que mais me fizeram chorar.



31.1.14

O preto e o fascista



pre·to |ê| 
adjectivo
1. Da cor do ébano. = NEGRO
2. [Brasil, Informal]  Perigosoarriscado.
adjectivo e substantivo masculino
3. Diz-se de ou indivíduo de pele negra. = NEGRO
substantivo masculino
4. A cor negra.Ver imagem
5. [Física]  Ausência de todas as cores (por oposição a branco que é a reunião de todas).
6. Indumentária dessa cor (ex.: foi à ópera de preto).



fas·cis·mo 
(italiano fascismo)

substantivo masculino
1. [História]  Partido e movimento político em Itália que tinha por emblema os fascese terminou após a Segunda Grande Guerra depois de vários incidentesnum dos quais foi morto o seu chefe Mussolini (1883-1945).

2. [Política]  Tendência para o excesso de autoritarismo ou para o controlo ditatorial.


in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, http://www.priberam.pt/

Ultimamente (e apenas ultimamente) tenho-me apercebido que nos Estados Unidos há um grande problema em dizer-se a palavra "preto" como adjectivo qualificativo de um individuo, claro está, de raça negra.
Nos Estados Unidos chamam-lhes "negro", mas o adjectivo é tão mal visto que, para evitar a palavra negro, dizem "the "N" word": a palavra "N". Nem sequer a proferem!
É evidente que não têm problemas em dizer "black". Acho que ninguém diz: "the "B" word", mas a palavra "preto" não pode ser verbalizada.
"I'm the first black woman winning so many music awards", dizia a Beyoncé até com algum orgulho. Para mim, na minha minuscula visão do mundo, ele própria é que se catalogou e pelos vistos sem problemas nenhuns. Se eu tenho dito "sou a primeira branca a ver um concerto do Eminem" estava-se tudo pouco borrifando. Que raio de adjectivo qualificativo seria a palavra "branca"? 
De facto, o preconceito está mesmo na cabeça das pessoas, e isso não tem cor nem credo.

Entretanto, pus-me a pensar que adjectivo equivalente teríamos nós em Portugal, que fosse igualmente ofensivo. "Preto", pode não ser lindo, mas a meu ver é o que é. Há pretos, há brancos. Espero que ninguém me venha dizer que sou cor de "salmão da Noruega apanhado no mês da desova". Como não acho lógico que se chame "escuro" ou "cor-de-chocolate" a uma pessoa de raça negra. Somos pretos, somos brancos. É igual.
Pronto, e lá fiquei a pensar que éramos os melhores do mundo e que os americanos são uns patetas que inventam coisas onde não há. Estava quase a concluir, e a fechar esta história na minha cabeça, que não existia um equivalente em português para a ""N" word", até que...

[muda a linha que isto agora é outra conversa...]

Hoje, depois de um episódio de despotismo (coisa insignificante mas que me fez pensar no que andamos aqui a fazer e quem manda em quem) veio-me à ideia a palavra "fascista". Porque entretanto escrevi a palavra "fascista" e a coisa não me pareceu bonita. Dei até por mim a pensar o quão ofensivo seria eu chamar, de viva voz, fascista a alguém. Tentei redimir este pensamento fazendo o paralelo com a palavra "negro", contextualizá-la, ver que pode nem ser assim tão mau mas, chamar "fascista" a alguém, é mesmo ofensivo. Retorci mais um bocadinho o cérebro e conclui que, realmente a palavra "fascista" é muito feia mas, mais feio ainda, é sê-lo.
Será que tal como ser-se preto ou branco, é o que é, ser-se fascista, também é o que é?
Então, porque não chamá-lo a quem, realmente, o é?

Enfim, se quisermos ver isto de um modo mais sério, chegamos à conclusão de que estamos neste ponto, porque é a história que temos. É o passado que herdamos.
Os americanos não lidam bem com os tempos da escravatura e com a descriminação que criaram, e nós não vivemos bem com o tempo em que um mandava e os outros baixavam as orelhas, mesmo que isso custasse a ignorância, a fome, a miséria e a falta de liberdade de um povo inteiro.
Há-de haver outro país onde não se podem fazer piadas com a palavra "gás", hão-de haver outros onde não se pode dizer "Cristiano Ronaldo". As coisas são como são.
Cada um vive com os seus fantasmas e pensamos que, apenas por proferirmos palavras, estamos a evocar o regresso deles.





29.1.14

A outra que te fugiu




Verdade. 
Ela fugiu-te das mãos, dos braços, da pele, da vida, de um futuro, de um livro por escrever, de um animal de estimação por ter, de um filho que não queria. Fugiu-te da casa, do pó, da louça, das escadas sem fim, do fôlego por recuperar. Queria respirar. Fugiu-te das lembranças que não quis levar, fugiu-te aos jogos e ao amor. Fugiu-te da pessoa que és. Fugiu-te da vida que lhe podias dar. Fugiu dela própria para se encontrar num outro lugar. Fugiu-te das palavras, dos actos, das omissões e de tudo o que lhes davas e que só ocupavam o tempo que não tinha. Fugiu-te do ar que lhe tiravas. Do amor frenético que duplicavas pelos dois. Fugiu-te porque estava cansada de vos olhar.
Pois não, não compreendeste, nunca compreendeste. Nem a ela, nem às outras, nem a todas as que um dia terás. Que te fugiram dessa imensidão de coisas que sentes e as obrigas a multiplicar.

Nunca precisaste evadir-te de ti para te voltares a encontrar? Noutra forma? Com outra mente? Com outra alma? Num outro lugar? Nunca precisaste de te voltar a encontrar?
Não consegues olhar para trás, ver o mesmo filme vezes sem conta a passar, e conseguir prever como é que o filme irá acabar?

Mais uma que te fugiu. Pois fugiu. Fugiu-te.
Escapou daquilo que não queria, do que sabia que iria ter. Do que sabia que tu tinhas para lhe dar.
Fugiu-te. 
Verdade: Não irá voltar.




28.1.14

O homem das calças curtas




O homem das calças curtas, era altivo, sobranceiro e arrogante. 
Olhava as mulheres de cima, porque as mulheres não lhe mereciam elevação. Talvez se permitisse ter pensamentos subtis, mas pouco honestos, sobre aquelas que apresentavam andar confiante e nariz afiado. Pelo confronto. Pelo desafio. Por serem as mulheres que a mulher dele nunca haveria de ser. 
Com os homens, tornava-se estranhamente submisso, como um cão, porque tinha as calças curtas (e dentro de si sabia-o). Elogiava sempre as calças dos outros, mesmo sabendo que os outros não lhe poderiam retribuir o elogio. Aparentava não se importar mas definhava por dentro. Não se sentia confiante perto dos outros homens que usavam calças à medida, e a culpa morria-lhe em cima por saber que nada fez para isso mudar. Preferia o servilismo à afirmação, mesmo não se dando conta disso. Nunca haveria de passar de um fraco de calças curtas que apenas em saias sabia mandar. Era o que se dava por contente de ser. Era uma triste falta de ambição.
Pontualmente, os mais atentos, bem viam como se movimentava, falsamente, de coluna hirta mas deixando germinar, dentro de si, uma semente de incertezas. Andar firme, palavra assertiva, mas calças curtas e alma desconcertada. A insegurança que se espalhava dentro de si, como um lamaçal sobre campos empapados, teimava em invadir-lhe a mente e a encurtar-lhe as pernas. E havia mesmo quem reparasse, apesar de ele jurar em pensamentos, que não.

O homem das calças curtas estava tão longe de entender que tinha as calças demasiado curtas que, no dia em que se decidiu a olhar ao espelho, já não se encontra em si, nem nas calças, nem a si dentro das calças. Perdera-se tanto na contemplação dos outros que, no dia em que se olhou, é que entendeu que as calças, que em tempo lhe estiveram boas, agora lhe começavam a escassear. Sobravam-lhe os lados, fugiam-lhe as bainhas. Aquelas calças já não eram suas ou, pelo menos, já não eram para si. Há momentos em que um homem o deveria perceber sem que alguém lho tenha de dizer. Maldito o tempo que esgotou a olhar para os outros em vez de olhar para si e de perceber que aquelas calças há muito que estavam curtas.
Assombrado com a descoberta, a contorcer-se contra as suas próprias memórias e crenças, confrontou-se uma vez mais com a sua imagem no espelho. Estupefacto viu: As calças já não eram mais que uns meros calções. Ainda se debateu, mentalizando-se que, o que via, eram apenas umas calças muito, muito, curtas. Demorou a aceitar que não passavam de uns calções e que há muito que, o que tentava esconder, estava já exposto aos olhos de todos. Há muito que aqueles calções estavam longe daqueles tempos áureos em que soube usar umas calças decentes.

Num fugaz momento de lucidez, questionou-se: "Nunca terei sentido o frio a fustigar-me as pernas ou terei preferido viver na ilusão de um conforto que há muito deixou de existir?".

Este pensamento ocorreu-lhe tarde demais. 
Quando, finalmente, se deu conta, já nem a dignidade tinha para se cobrir. 



26.1.14

O mito




Há um velho louco que todos veneram que espalha beijos pelas crianças e sabedoria pelos adultos. Que fala sozinho, que fala entre-dentes, e que fala com todas as mulheres e homens que a si se dirigem.
Deambula pela cidade, arrastando consigo apenas o seu corpo e as suas vestes. Não possui casa, nem bens, nem cão, nem comida. Tem-se apenas a si e às suas duas histórias: a verdadeira e a imaginada.
Não depende de ninguém, não aceita esmolas, não espera compaixão. E nunca escondeu não ter nada para oferecer. As pessoas, contudo, acreditam que sim. Acreditam em tantas coisas como a loucura dele também o faz acreditar. As outras pessoas, que não aquelas que habitam dentro dele, mas antes aquelas a quem se desconhecem patologias, acreditam, exactamente, nas mesmas insanidades que ele. Que fenómeno curioso este.
Um homem, um velho homem desabrigado, sem instrução, sem amor a si ou aos outros, sem moral nem alma, consegue impor fantasias e alegorias sobre si a um enorme punhado de gente. Todos acreditam que ele é bom demais para a pouca sorte que lhe coube, que é um injustiçado, um infeliz, um desgraçado incompreendido. Um coitado a quem ninguém chama coitado porque é feio dizer-se o que se pensa. Mas ninguém pensa quão feio pode ser aquele homem que é tudo menos coitado. Todos vêem um mito. Ninguém vê a verdade. Ninguém vê o louco, o doente, o mentiroso. Ninguém conhece o homem violento, desequilibrado e imprevisível que ele poderá ser. É mais tranquilo acreditar apenas no que se vê. Faz melhor à alma ver um enjeitado indefeso que um delinquente que se acobardou com o seu passado. Vive-se melhor assim. 
Acreditar na paz daquele velho louco, traz paz a todos os que o conhecem. Acreditar que aquele homem que todos beijam, cumprimentam, com quem conversam e de onde acreditam existir sabedoria, é mais consolador que acreditar na mentira, no engano, na insegurança e no medo que ele representa. Invadir a cabeça das pessoas é perigoso mas real.
Perigoso para quem não quer ver a verdade. Real para quem a sabe manipular.

No dia em que esse homem abandonar este mundo, e a cidade que diz ter vindo salvar, muitos lhe sentirão a falta no primeiro dia em que se tornar pó. Muitos irão lembrar o homem bom que sabia tudo. O amigo do povo. O único desabrigado. Mas o que muitos outros nunca saberão, é que ele foi apenas, e só, mais um louco que ninguém travou.





18.1.14

33 coisas

fotografia original de Sónia Silva



33 coisas confessáveis para fazer até aos 34:

1º -
2º -
3º -
4º -
5º -
6º -
7º -
8º -
9º -
10º -
11º -
12º -
13º -
14º -
15º -
16º -
17º -
18º -
19º -
20º -
21º -
22º -
23º -
24º -
25º -
26º -
27º -
28º -
29º -
30º -
31º -
32º -
33º -

Eu sei lá.
Depois preencho.




16.1.14

O "querer" e o "poder": esses conceitos desavindos.





que·rer |ê| 

(latim quaero, -ere, procurar, buscar, perguntar, informar-se, procurar obter, pedir)

verbo transitivo
1. Ter a vontade ou a intenção de.

2. Anuir ao desejo de outrem.
3. Ordenar, exigir.
4. Procurar.
5. Poder (falando de coisas).
6. Requerer, ter necessidade de.
7. Fazer o possível para, dar motivos para.
8. Permitir, tolerar (principalmente quando acompanhado de negação).
9. Admitir, supor.
verbo intransitivo
10. Exprimir terminantemente a vontade.
11. Amar, estimar.
verbo pronominal
12. Desejar estar, desejar ver-se.
13. Amar-se.
substantivo masculino
14. Desejo, vontade.


po·der |ê| 
(latim vulgar *potere, de possum, posse, ser capaz de, poder)
verbo transitivo
1. Ter a faculdade de.
2. Ter ocasião ou possibilidade de.
3. Estar sujeito a.
4. Ter força física para.
5. Ter razões para.
verbo intransitivo
6. Ter força, possibilidade, autoridade, influência para.
verbo auxiliar
7. Usa-se seguido de infinitivo para indicar possibilidade de ocorrência (ex.: isso pode acontecer) ou pedido de autorização (ex.: posso entrar?).
substantivo masculino
8. Possibilidade, faculdade.
9. Força física, vigor do corpo ou da alma.


in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, http://www.priberam.pt/dlpo/poder [consultado em 16-01-2014].




Acontece-me mais vezes do que gostaria, querer muito uma coisa e não poder tê-la ou realizá-la. Acho que hoje estou nessa encruzilhada novamente.

Olho para mim, para as expectativas sobre mim, e entendo que nunca estarei à altura, porque a distância entre o querer  e o poder, nem sequer é contabilizável. É imensa.
Há dias, em que me culpabilizo por não responder ao estímulos. Outros dias há, em que sou autocomplacente, mascarando a verdade dura de que não faço mais porque não quero. Dizer-se que não se tem ou não se faz porque não se pode, é mais aceitável, mas dizer-se que não se faz, porque não se quer, mostra menos fraqueza.
Já tive momentos na vida em que superei o medo de querer e, assim, consegui pôr em acção a vontade, o poder. É menos emotivo elevarmos a capacidade de poder em vez do querer. Querer é mais visceral. Move mais emoções, tensões, convicções. Admitir que queremos, que ambicionamos algo, torna-nos mais ferozes, mais combativos. Exige suores que nascem de dentro dos nossos pensamentos e ganham uma força extraordinária ao alcançar o nosso exterior. O poder e não querer, coloca-nos num local escuro: o sítio daquele medo que julgamos adormecidos em nós. 
E quererá alguém viver com o medo de querer e não poder?

Hoje, depois de uma pequena instrospecção, percebi que tenho muito querer mas pouco poder. E isso, até ver, ainda não me serviu de coisa alguma. Apenas alimentou o medo de um dia vir a desistir de mim.



O meu lindo funeral



Hoje pus-me a pensar no quão importante é tratarmos do nosso próprio funeral.

E de onde é que veio isto?
Um colega meu em estilo de brincadeira sem graça desejou-me a morte e eu fiquei a matutar que não quero que este tipo de gente vá ao meu funeral. Mas como poderei evitá-lo?

Fazendo uma guest list.
Ah pois é!

E como os amigos e a família não se podem deserdar destes eventos tive, precisamente, de pensar numa guest list para os meus colegas de trabalho. É esse grupo que tenho de limitar.
Ora o meu local de trabalho tem cerca de mil e duzentos funcionários e, como é evidente, não conheço nem metade desta gente. Pois da metade que conheço, estimo que um terço não goste de mim e, é garantido, que o outro terço das pessoas seu eu que não gosto delas. Sobra, portanto, o último terço, colegas de trabalho entre os quais alguns bons amigos, de quem eu gosto ou, pelo menos, não desgosto. Perfaz, mais coisa, menos coisa, duzentas pessoas. E duzentas pessoas já são muitas pessoas. Duzentas pessoas chegam para encher, à justa, quatro autocarros para fazerem a viagem até à minha terra natal.
[Já vos estou a ver a cantar o Kumbaya durante os 120 km que separam o nosso local de trabalho da minha aldeia que Deus me livre de ficar enterrada numa terra que não é minha.]

Vá, metade dessas pessoas vão ter outras coisas para fazer e acabarão por arranjar uma desculpa para não ir. Tudo bem, desde que avisem com antecedência. Não quero lugares vazios na plateia.
Pois então, se eu morresse, e na visão optimista de que o meu funeral vai ser um acontecimento importante (sobretudo se morrer jovem, como o outro me desejou), o meu patrão iria dispensar os funcionários que quisessem acompanhar-me à última morada, bem como os autocarros para o efeito. Só do meu trabalho iriam, então, cem pessoas, e cem pessoas são dois autocarros cheios. Assim ao estilo de "ide lá à capital ao Colombo e ao Vasco da Gama aproveitar os saldos participar da manifestação que nós bancamos tudo".
Mas, de repente, quando cheguei a este ponto do raciocínio pensei: "Alto!!! Ninguém vai passear à minha conta".
Foi então que firmei esta ideia de ter uma guest list para o meu funeral. A importância de ter uma num funeral. Evitam-se constrangimentos, falsas carpideiras, e a conversa do "coitadinha era tão nova".
Com uma guest list garante-se a presença apenas daquelas que desejamos ter ali, naquele momento importante.

Entretanto, saltou-me o raciocínio para outras minudências:
Se a minha entidade patronal tivesse a linda ideia de mandar uma coroa de flores (com um cartãozinho lá pendurado como seu o fosse ler), que flores quereria eu?
Pensei em orquídeas só para lhes lixar mais [como se fosse possível, ahahaha...] o orçamento.
Depois pensei que isto era bonito se tivesse uma mensagem, um simbolismo. Pois era. Então que sejam cravos vermelhos. Só assim, naquela de me ser devolvida a liberdade de expressão, ali, na hora da morte.

Quanto aos acepipes, não haveria, porque não estamos na América.

Quanto à mortalha, não é preciso complicar: quero ir com as minhas skinny jeans pretas, e uma long sleeve básica preta. As argolas de ouro que a minha avó me deixou e as sabrinas de leopardo.

Quero um fotógrafo mas não quero ser fotografada. O fotógrafo é só para apanhar o ambiente do evento. Porque não faltava mais nada que era nas últimas fotografias cá por cima, ter o azar de ser apanhada de olhos fechados.