14.2.14
12.2.14
Dentro de mim somos muitas
Hoje senti uma dor imensa ao reler isto.
Fui eu que escrevi. Era suposto já não me dizer nada.
Questiono-me do que serei feita?
Que tipo de pessoa é esta que escreve tão duramente?
Que sofrimentos terei tido na minha existência para escrever assim?
Não me lembro.
Julgo que nada se terá passado.
Absolutamente nada.
Será por isso?
Precisará a minha mente de recriar momentos de dor intensa para me fazer sentir viva?
Poderia, alguma vez, passar por esse mesmo processo com momentos de felicidade e palavras de autoajuda?
Não seria eu.
Não seria nenhuma daquelas que habita em mim.
Seria outro eu que ainda não conheço.
Não sei quando é que todas estas personagens partirão de dentro de mim.
Mas sei que lamentarei o dia em que isso acontecer.
Para já, arrumo-as todas dentro da cabeça.
Deixo, alternadamente, uma ou outra vir à boca e aos dedos que escrevem.
Hoje, creio, deixei uma delas vir também ao coração.
11.2.14
21 gramas
"Em 1907, para tentar provar que a alma existe e tem
peso, o médico americano Duncan MacDougall, pesou seis pessoas antes e
depois de morrerem e constatou que o ponteiro da balança quase sempre descia.
O instrumento de trabalho de MacDougall era como uma enorme
balança de dois pratos. De um lado ficava o paciente em estado terminal,
deitado numa cama, do outro lado o médico colocava pesos equivalentes.
A primeira cobaia foi um homem com tuberculose, que ficou sob
observação durante 3 horas e 40 minutos. Nesse tempo, perdeu peso aos poucos,
em média 28 gramas por hora e, de repente, morreu. Segundo o médico, o prato da
balança subiu, registando a perda dos famosos 21 gramas. "No instante em
que a vida parou, o lado oposto caiu tão rápido que foi assustador", disse
o médico ao jornal The New York Times.
Mas o peso registado nos outros pacientes foi diferente. O
segundo teria perdido 46 gramas. O terceiro, 14 gramas e, alguns minutos
depois, mais 28. Com o outro, o ponteiro da balança desceu e depois subiu
novamente. Segundo o médico, a diferença tinha a ver com o temperamento de cada
um. "Um dos homens era apático, lento no pensamento e na acção. Nesse
caso, acredito que a alma ficou suspensa no corpo, depois da morte, até se dar
conta que estava livre."
Para comprovar a sua teoria, MacDougall fez o mesmo teste com quinze cães e nenhum deles teria perdido um grama sequer. Conclusão: homens têm alma,
cães não. Será que existe alguma verdade nos estudos de MacDougall?
"Não", afirma o autor do livro "Morte ao Pó: O
que Acontece com os Cadáveres?", Kenneth V. Iserson, da Universidade do
Arizona. Iserson chama a atenção para o fato de o ar ter peso, coisa que
MacDougall não levou em conta, e diz que não existe "o" momento da
morte. "O processo pode se esticar por dias ou semanas". Mesmo com
todas essas contradições, MacDougall é conhecido até hoje pela sua teoria dos
21 gramas."
In Wikipédia [tradução livre]
Encostei o meu ouvido ao seu peito, naquele preciso momento em que suspirou. Senti a alma desprender-se do corpo. A pairar sobre o quarto. Sobre o seu corpo velho e sobre mim. Ali paradas. Sem saber o que se seguia. Sem saber a qual das duas cabia o passo seguinte. Aguardei, com cerimónia, uns minutos. Nunca me tinha passado a morte pelas mãos. Nem sabia se era aquilo a morte: simplesmente morrer. Largar o último quinhão de ar. Ficar inerte. Abandonar um corpo usado. Seguir com a alma para outras vidas. Juraria, se preciso fosse, que lhe vi a alma despedir-se do corpo, como uma neblina levantada com um sopro. Juro que aquela alma viveu além da morte. Eu vi.
Olhei-lhe o rosto antes da partida. Olhei depois. Não era a mesma pessoa. Mas eu tive-lhe o mesmo amor. Era o corpo da mulher velha, que deu vida à vida que me fez viver. Amei-a na despedida como nunca terei amado na chegada. Em todo o caminho. Amei-a mais depois de um adeus que ela nunca chegou a saber que lhe fiz.
Morrerei eu, um dia, e o arrependimento de um amor tardio não me salvará. Talvez, quando a minha alma chegar até à sua, lhe possa dizer o quão agradecida estou por me deixar assistir à sua morte. Por ter esperado por mim para a ver morrer.
Ela amou-me mais ali. E não me doeu. Agradeci-lhe a partilha deste momento comigo. A sós.
Depois vieram as outras pessoas. Foi-se o nosso momento, o nosso silêncio. Vieram os rituais em que, sei, não acreditava. Choraram pessoas que, sei, não a amavam. Naquele dia que entregámos o seu corpo velho e magro, foi-se a crença de um céu e de um Pai que nos acolhe. Perdeu-se a magia. A história passou a ser outra. Levaram-nos a alma e deixaram-nos cá o corpo sem significado. Deixaram cá aquilo de que não se conseguiram livrar. Deixaram-nos um corpo para mandarmos para a terra. Para o lixo. Mas a nós também nos custa, sabiam?
[Soube que tinha morrido quando lhe olhei o rosto e vi que já não era ela quem ali estava. Restou apenas um corpo. Foi-se a alma. Não se sabe para onde.]
10.2.14
Três anos moribundos
E já passaram três anos nisto e eu nem me lembrei.
Se a psicologia explica tudo, também há-de explicar isto.
6.2.14
Autocomiseração
Marius Filipo
Afogada dentro de ti.
Finges ser-te.
Não o és.
Olhas-te nua.
Expias-te de soslaio.
Não queres enfrentar.
Um espelho.
Escondes-te.
Escondes-te.
Corres para nada.
Cansas-te de respirar.
Existes.
Olha para ti.
Para.
Estanque.
Mereces fugir.
Mas nunca.
Te irás.
Encontrar.
Lamentas.
Cansas-te de respirar.
Existes.
Olha para ti.
Para.
Estanque.
Mereces fugir.
Mas nunca.
Te irás.
Encontrar.
Lamentas.
5.2.14
Retrospectiva
Hoje deu-me para organizar o meu primeiro e-mail. Criei-o nos tempos da faculdade, vai para cima de dez anos e, de vez em quando, lá fazia uma limpeza, mas a última foi em 2006. Desde então que se tem acumulado algum lixo.
Lá me decidi a apagar coisas que não interessam mas que, por razão nenhuma, foram ficando: publicidade, e-mails de pessoas que já nem me lembro quem são, facturas electrónicas das contas de água, luz, gás e tantas outras a que uma pessoa nem se lembra que está aprisionada. Banalidades.
Mas nestes oito anos de e-mails por organizar, vi muito mais que essas banalidades do quotidiano.
Nestes oito anos de e-mails, vi o primeiro contrato de trabalho, os dramas da primeira declaração de IRS, a procura da primeira casa para arrendar. O contrato da primeira casa que comprei. Encontrei fotografias de amigos que estão longe, mensagens de saudade, cartões de Natal e frases em maiúsculas, cheias de entusiasmo, a dizer "AMIGOS, ESTOU QUASE A CHEGAR A PORTUGAL!!!!".
Vi o drama de quem teve de sair do país sem querer, e relativizei a emigração de que se fala de agora, porque compreendi que há muito que acontece. Felizmente, também assisti ao regresso de alguns. Pelo meio, vi as minhas fugas daqui, porque teimei em guardar os bilhetes electrónicos das viagens que fiz. Logo depois deliciei-me com as fotografias reveladas no regresso.
Encontrei-me em fotografias, com meia-dúzia de anos, com menos preocupações mas muitas mais inquietações interiores. Vi-me sorrir com honestidade na companhia de pessoas de quem verdadeiramente gosto. Reli e-mails de amor profundo. Encontrei os que traziam boas notícias: "Amiga, estou grávida!"; "Amiga, vou casar!"; "Amiga, arranjei trabalho!"...
Vi o drama de quem teve de sair do país sem querer, e relativizei a emigração de que se fala de agora, porque compreendi que há muito que acontece. Felizmente, também assisti ao regresso de alguns. Pelo meio, vi as minhas fugas daqui, porque teimei em guardar os bilhetes electrónicos das viagens que fiz. Logo depois deliciei-me com as fotografias reveladas no regresso.
Encontrei-me em fotografias, com meia-dúzia de anos, com menos preocupações mas muitas mais inquietações interiores. Vi-me sorrir com honestidade na companhia de pessoas de quem verdadeiramente gosto. Reli e-mails de amor profundo. Encontrei os que traziam boas notícias: "Amiga, estou grávida!"; "Amiga, vou casar!"; "Amiga, arranjei trabalho!"...
Vi a vida dos meus amigos ser partilhada comigo.
Vi todos os meus sobrinhos e afilhados nascer de novo. Renasceram-me lágrimas nos olhos. Recebi os convites de batizado e fotografias que parecem ter cem anos. Mas foi tudo ontem.
Encontrei convites para inaugurações de negócios próprios. Vi nascerem projetos que, hoje sei, vingaram. Recordei projetos nos quais me envolvi que, já não me lembrava, mas não vingaram.
Encontrei a matrícula do regresso à faculdade e todos os trabalhos e e-mails trocados com colegas, como se tivesse, novamente, dezoito anos. Voltei a sentir-me jovem naquelas dezenas de mensagens. Recordei nomes de pessoas que sei que não voltarei a ver. Senti saudades de todos.
Também passei por mensagens, pouco católicas, trocadas com pessoas que não tiveram mais de um par de horas na minha vida. Encontros fugazes. Reencontrei os rostos dessas pessoas que não hesitei em apagar, como se, assim, também os apagasse de mim. Mas percebi que a pele não a posso arrancar. Percebi que me arrependi de poucas coisas na vida, mas que, ainda assim, me arrependi.
Finalmente, encontrei aquele amor que encontro todos os dias e que sei que vai durar para sempre. Aquele que faz redimir todos os outros de que me arrependi. Olhei para as fotografias, tão recentes, e que um dia me irão trazer tanta nostalgia, e vi que, o caminho que me trouxe até aqui foi decente e até feliz. Acabei por me surpreender com essa conclusão. Por vezes precisamos de fazer uma retrospectiva num minuto, para percebermos como, afinal, as coisas não foram bem como passámos anos a imaginar.
Foi uma viagem emocionante, é o que posso dizer.
Mais que as imagens, que poderia ver apenas num álbum, compreendi que foram sempre as palavras que mais me fizeram chorar.
Finalmente, encontrei aquele amor que encontro todos os dias e que sei que vai durar para sempre. Aquele que faz redimir todos os outros de que me arrependi. Olhei para as fotografias, tão recentes, e que um dia me irão trazer tanta nostalgia, e vi que, o caminho que me trouxe até aqui foi decente e até feliz. Acabei por me surpreender com essa conclusão. Por vezes precisamos de fazer uma retrospectiva num minuto, para percebermos como, afinal, as coisas não foram bem como passámos anos a imaginar.
Foi uma viagem emocionante, é o que posso dizer.
Mais que as imagens, que poderia ver apenas num álbum, compreendi que foram sempre as palavras que mais me fizeram chorar.
31.1.14
O preto e o fascista
pre·to |ê|
adjectivo
adjectivo e substantivo masculino
Ultimamente (e apenas ultimamente) tenho-me apercebido que nos Estados Unidos há um grande problema em dizer-se a palavra "preto" como adjectivo qualificativo de um individuo, claro está, de raça negra.
1. Da cor do ébano. = NEGRO
2. [Brasil, Informal] Perigoso; arriscado.
3. Diz-se de ou indivíduo de pele negra. = NEGRO
substantivo masculino
5. [Física ] Ausência de todas as cores (por oposição a branco que é a reunião de todas).
6. Indumentária dessa cor (ex.: foi à ópera de preto).
fas·cis·mo
(italiano fascismo)
(italiano fascismo)
substantivo masculino
1. [História ] Partido e movimento político em Itália que tinha por emblema os fasces, e terminou após a Segunda Grande Guerra depois de vários incidentes, num dos quais foi morto o seu chefe Mussolini (1883-1945).
2. [Política ] Tendência para o excesso de autoritarismo ou para o controlo ditatorial.
in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, http://www.priberam.pt/
Ultimamente (e apenas ultimamente) tenho-me apercebido que nos Estados Unidos há um grande problema em dizer-se a palavra "preto" como adjectivo qualificativo de um individuo, claro está, de raça negra.
Nos Estados Unidos chamam-lhes "negro", mas o adjectivo é tão mal visto que, para evitar a palavra negro, dizem "the "N" word": a palavra "N". Nem sequer a proferem!
É evidente que não têm problemas em dizer "black". Acho que ninguém diz: "the "B" word", mas a palavra "preto" não pode ser verbalizada.
"I'm the first black woman winning so many music awards", dizia a Beyoncé até com algum orgulho. Para mim, na minha minuscula visão do mundo, ele própria é que se catalogou e pelos vistos sem problemas nenhuns. Se eu tenho dito "sou a primeira branca a ver um concerto do Eminem" estava-se tudo pouco borrifando. Que raio de adjectivo qualificativo seria a palavra "branca"?
"I'm the first black woman winning so many music awards", dizia a Beyoncé até com algum orgulho. Para mim, na minha minuscula visão do mundo, ele própria é que se catalogou e pelos vistos sem problemas nenhuns. Se eu tenho dito "sou a primeira branca a ver um concerto do Eminem" estava-se tudo pouco borrifando. Que raio de adjectivo qualificativo seria a palavra "branca"?
De facto, o preconceito está mesmo na cabeça das pessoas, e isso não tem cor nem credo.
Entretanto, pus-me a pensar que adjectivo equivalente teríamos nós em Portugal, que fosse igualmente ofensivo. "Preto", pode não ser lindo, mas a meu ver é o que é. Há pretos, há brancos. Espero que ninguém me venha dizer que sou cor de "salmão da Noruega apanhado no mês da desova". Como não acho lógico que se chame "escuro" ou "cor-de-chocolate" a uma pessoa de raça negra. Somos pretos, somos brancos. É igual.
Pronto, e lá fiquei a pensar que éramos os melhores do mundo e que os americanos são uns patetas que inventam coisas onde não há. Estava quase a concluir, e a fechar esta história na minha cabeça, que não existia um equivalente em português para a ""N" word", até que...
[muda a linha que isto agora é outra conversa...]
Hoje, depois de um episódio de despotismo (coisa insignificante mas que me fez pensar no que andamos aqui a fazer e quem manda em quem) veio-me à ideia a palavra "fascista". Porque entretanto escrevi a palavra "fascista" e a coisa não me pareceu bonita. Dei até por mim a pensar o quão ofensivo seria eu chamar, de viva voz, fascista a alguém. Tentei redimir este pensamento fazendo o paralelo com a palavra "negro", contextualizá-la, ver que pode nem ser assim tão mau mas, chamar "fascista" a alguém, é mesmo ofensivo. Retorci mais um bocadinho o cérebro e conclui que, realmente a palavra "fascista" é muito feia mas, mais feio ainda, é sê-lo.
Será que tal como ser-se preto ou branco, é o que é, ser-se fascista, também é o que é?
Então, porque não chamá-lo a quem, realmente, o é?
Enfim, se quisermos ver isto de um modo mais sério, chegamos à conclusão de que estamos neste ponto, porque é a história que temos. É o passado que herdamos.
Os americanos não lidam bem com os tempos da escravatura e com a descriminação que criaram, e nós não vivemos bem com o tempo em que um mandava e os outros baixavam as orelhas, mesmo que isso custasse a ignorância, a fome, a miséria e a falta de liberdade de um povo inteiro.
Há-de haver outro país onde não se podem fazer piadas com a palavra "gás", hão-de haver outros onde não se pode dizer "Cristiano Ronaldo". As coisas são como são.
Há-de haver outro país onde não se podem fazer piadas com a palavra "gás", hão-de haver outros onde não se pode dizer "Cristiano Ronaldo". As coisas são como são.
Cada um vive com os seus fantasmas e pensamos que, apenas por proferirmos palavras, estamos a evocar o regresso deles.
29.1.14
A outra que te fugiu
Verdade.
Ela fugiu-te das mãos, dos braços, da pele, da vida, de um futuro, de um livro por escrever, de um animal de estimação por ter, de um filho que não queria. Fugiu-te da casa, do pó, da louça, das escadas sem fim, do fôlego por recuperar. Queria respirar. Fugiu-te das lembranças que não quis levar, fugiu-te aos jogos e ao amor. Fugiu-te da pessoa que és. Fugiu-te da vida que lhe podias dar. Fugiu dela própria para se encontrar num outro lugar. Fugiu-te das palavras, dos actos, das omissões e de tudo o que lhes davas e que só ocupavam o tempo que não tinha. Fugiu-te do ar que lhe tiravas. Do amor frenético que duplicavas pelos dois. Fugiu-te porque estava cansada de vos olhar.
Pois não, não compreendeste, nunca compreendeste. Nem a ela, nem às outras, nem a todas as que um dia terás. Que te fugiram dessa imensidão de coisas que sentes e as obrigas a multiplicar.
Nunca precisaste evadir-te de ti para te voltares a encontrar? Noutra forma? Com outra mente? Com outra alma? Num outro lugar? Nunca precisaste de te voltar a encontrar?
Não consegues olhar para trás, ver o mesmo filme vezes sem conta a passar, e conseguir prever como é que o filme irá acabar?
Mais uma que te fugiu. Pois fugiu. Fugiu-te.
Mais uma que te fugiu. Pois fugiu. Fugiu-te.
Escapou daquilo que não queria, do que sabia que iria ter. Do que sabia que tu tinhas para lhe dar.
Fugiu-te.
Verdade: Não irá voltar.
Fugiu-te.
Verdade: Não irá voltar.
28.1.14
O homem das calças curtas
O homem das calças curtas, era altivo, sobranceiro e arrogante.
Olhava as mulheres de cima, porque as mulheres não lhe mereciam elevação. Talvez se permitisse ter pensamentos subtis, mas pouco honestos, sobre aquelas que apresentavam andar confiante e nariz afiado. Pelo confronto. Pelo desafio. Por serem as mulheres que a mulher dele nunca haveria de ser.
Com os homens, tornava-se estranhamente submisso, como um cão, porque tinha as calças curtas (e dentro de si sabia-o). Elogiava sempre as calças dos outros, mesmo sabendo que os outros não lhe poderiam retribuir o elogio. Aparentava não se importar mas definhava por dentro. Não se sentia confiante perto dos outros homens que usavam calças à medida, e a culpa morria-lhe em cima por saber que nada fez para isso mudar. Preferia o servilismo à afirmação, mesmo não se dando conta disso. Nunca haveria de passar de um fraco de calças curtas que apenas em saias sabia mandar. Era o que se dava por contente de ser. Era uma triste falta de ambição.
Pontualmente, os mais atentos, bem viam como se movimentava, falsamente, de coluna hirta mas deixando germinar, dentro de si, uma semente de incertezas. Andar firme, palavra assertiva, mas calças curtas e alma desconcertada. A insegurança que se espalhava dentro de si, como um lamaçal sobre campos empapados, teimava em invadir-lhe a mente e a encurtar-lhe as pernas. E havia mesmo quem reparasse, apesar de ele jurar em pensamentos, que não.
O homem das calças curtas estava tão longe de entender que tinha as calças demasiado curtas que, no dia em que se decidiu a olhar ao espelho, já não se encontra em si, nem nas calças, nem a si dentro das calças. Perdera-se tanto na contemplação dos outros que, no dia em que se olhou, é que entendeu que as calças, que em tempo lhe estiveram boas, agora lhe começavam a escassear. Sobravam-lhe os lados, fugiam-lhe as bainhas. Aquelas calças já não eram suas ou, pelo menos, já não eram para si. Há momentos em que um homem o deveria perceber sem que alguém lho tenha de dizer. Maldito o tempo que esgotou a olhar para os outros em vez de olhar para si e de perceber que aquelas calças há muito que estavam curtas.
Assombrado com a descoberta, a contorcer-se contra as suas próprias memórias e crenças, confrontou-se uma vez mais com a sua imagem no espelho. Estupefacto viu: As calças já não eram mais que uns meros calções. Ainda se debateu, mentalizando-se que, o que via, eram apenas umas calças muito, muito, curtas. Demorou a aceitar que não passavam de uns calções e que há muito que, o que tentava esconder, estava já exposto aos olhos de todos. Há muito que aqueles calções estavam longe daqueles tempos áureos em que soube usar umas calças decentes.
Num fugaz momento de lucidez, questionou-se: "Nunca terei sentido o frio a fustigar-me as pernas ou terei preferido viver na ilusão de um conforto que há muito deixou de existir?".
Este pensamento ocorreu-lhe tarde demais.
Quando, finalmente, se deu conta, já nem a dignidade tinha para se cobrir.
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