17.5.14

A mulher que vivia num livro

Violeta Bubelyte





E quanto tempo pode um homem guardar o cheiro dessa mulher?
Quanto tempo quererá que esse aroma lhe perdure na pele?
Quantas memórias esse cheiro não lhe tem deixado morrer?


Naquele livro as palavras sussurravam-se
A história diluía-se em parágrafos vagos
As personagens não tinham tom

A capa amarelara-se com o tempo
As páginas amoleceram-se de humidade
A dedicatória visceral...
Esborratou

Perdeu-se a palavra manuscrita
Perdeu-se a paixão de quem a escreveu
Mas o cheiro 



gritava



Ainda aqui estou






16.5.14

A Poesia e a Ironia


«Poesia como forma de colocar a afectividade em modo de pensar e o pensamento em modo de afectividade.
Como se o sentir pudesse ser mansamente dimunuido (ou aumentado) de forma a que não chegue ao grito, mas sim à sensata observação. 
Sentir para perceber melhor, não para gritar melhor.
Ironia, portanto, como modo de diminuir o disforme que há no grito e na excitação; dor e prazer transformados em verso que, dois metros acima desse solo que dói e tem prazer, diz: ali em baixo dói-me e tenho prazer, porém eu, aqui, enquanto verso, estou dois metros acima (pelo menos). 
Eis a ironia: o verso está a uma distância segura dessa vida sempre inseguríssima e por vezes parva - outras vezes excelentíssima, mas sempre incontrolável. Ou talvez até isto: uma elegante forma de sobrevoar as palavras no exacto momento em que elas são ditas; o humano é, apesar de tudo, maior, mais alto e mais largo do que as palavras - eis o que diz a linguagem que utiliza a ironia.»


Gonçalo M. Tavares in Visão (n.º 1106) sobre a poesia de Vasco Graça Moura




Repetições # 1



Não sei se isto é começar alguma coisa mas ocorreu-me a ideia de republicar textos publicados, exactamente, no mesmo dia mas em anos anteriores.

Este que agora republico foi escrito no dia 16 de Maio de 2011.
Não escrevi nada em 16 de Maio em 2012, nem 2013.

Dá para perceber a ideia?

Não valerá a pena andar em modo repeat dia-sim-dia-sim mas sou rapariga para me lembrar de fazer isto uma vez por mês.

Nasce hoje o separador "Repetições".


[publicado em 16 de Maio de 2012]




Terminal de autocarros - Sete Rios - Lisboa - Dia 14 de Maio de 2011 - Das 20:30 às 22:00

. O sujeito de cabelos compridos anacronizados
. A rapariga do corpete de ganga com atilhos em fita de seda
. As crianças ciganas descalças
. O tipo que descasca um miúda com os olhos
. A sonsa que espera pelo namorado frick
. O japonês com cabelo de mulher
. A velha hippie com problemas de alcoolismo e com falta de dinheiro para a tinta do cabelo
. O tipo giro
. A tipa com estilo
. A miúda com calções pornograficamente curtos
. A preta que veste uns collants de padrão tigresse rosa-choque mas se esqueceu de vestir uma saia
. A loira que lê uma revista cor-de-rosa
. A tonta que já correu os autocarros todos mas ainda não acertou com o seu
. A excursão de adolescentes com problemas de identidade
. Os namorados que se lambuzam
. O rapaz que tem vergonha do beijo de despedida da mãe
. O chinês que quer parecer europeu
. O motorista engatatão
. O preto que ainda não tirou a mão da pila
. A mãe solteira que está farta da sua criança
. O emigrante de Leste que arrasta os sacos de plástico desde o fundo da gare
. O segurança que anda em círculos sem mexer uma palha
. A mulher que me observa porque não sabe porque escrevo
. Os passageiros impacientes dentro de um autocarro
. O velho sozinho com um boné da caça e um colete da pesca
. A dupla de polícias que exibem nádegas tesas dentro das calças apertadas
. A senhora de meia-idade que faz Sudoku
. O brasileiro com a camisola da selecção
. A introvertida que reza para ser ainda mais invisível
. O reformado que passa os dias a vaguear pela gare
. O casal que se odeia e se despede com alívio
. O casal que se beija à chegada e promete amor eterno
. Eu. Sozinha. Com o papel e a caneta.




14.5.14

21 gramas (Áudio)






Encostei o meu ouvido ao seu peito, naquele preciso momento em que suspirou. Senti a alma desprender-se do corpo. A pairar sobre o quarto. Sobre o seu corpo velho e sobre mim. Ali paradas. Sem saber o que se seguia. Sem saber a qual das duas cabia o passo seguinte. Aguardei, com cerimónia, uns minutos. Nunca me tinha passado a morte pelas mãos. Nem sabia se era aquilo a morte: simplesmente morrer. Largar o último quinhão de ar. Ficar inerte. Abandonar um corpo usado. Seguir com a alma para outras vidas. Juraria, se preciso fosse, que lhe vi a alma despedir-se do corpo, como uma neblina levantada com um sopro. Juro que aquela alma viveu além da morte. Eu vi.

Olhei-lhe o rosto antes da partida. Olhei depois. Não era a mesma pessoa. Mas eu tive-lhe o mesmo amor. Era o corpo da mulher velha, que deu vida à vida que me fez viver. Amei-a na despedida como nunca terei amado na chegada. Em todo o caminho. Amei-a mais depois de um adeus que ela nunca chegou a saber que lhe fiz.
Morrerei eu, um dia, e o arrependimento de um amor tardio não me salvará. Talvez, quando a minha alma chegar até à sua, lhe possa dizer o quão agradecida estou por me deixar assistir à sua morte. Por ter esperado por mim para a ver morrer.
Ela amou-me mais ali. E não me doeu. Agradeci-lhe a partilha deste momento comigo. A sós.

Depois vieram as outras pessoas. Foi-se o nosso momento, o nosso silêncio. Vieram os rituais em que, sei, não acreditava. Choraram pessoas que, sei, não a amavam. Naquele dia que entregámos o seu corpo velho e magro, foi-se a crença de um céu e de um Pai que nos acolhe. Perdeu-se a magia. A história passou a ser outra. Levaram-nos a alma e deixaram-nos cá o corpo sem significado. Deixaram cá aquilo de que não se conseguiram livrar. Deixaram-nos um corpo para mandarmos para a terra. Para o lixo. Mas a nós também nos custa, sabiam?


[Soube que tinha morrido quando lhe olhei o rosto e vi que já não era ela quem ali estava. Restou apenas um corpo. Foi-se a alma. Não se sabe para onde.]



Podem ler o texto original aqui!




Receita para a infelicidade




Mente sempre.
A ti aos outros e aos outros que vivem em ti.
Nunca sorrias.
Engole a felicidade que te invadir.
Nunca queiras sorrir ao ver a felicidade dos outros.
Ataca tudo e todos.
Mesmo os que não te atacaram, ataca-os também.
Não sirvas e não esperes ser servida.
Servir os outros traça um caminho de paz.
Ser servida demonstra gratidão.
Não sejas grata por uma paz que não tens.
Ignora o mundo.
Fecha-te em casa.
Não arrumes a casa.
Não se é feliz na desarrumação.
Grita e chora até sufocares.
Mas não o assumas.
Serás mais infeliz se o esconderes de todos.
Esconde-o de ti também.
Diz ao teu eu de fora que estás bem.
Repete que estás bem.
Mata o teu eu de dentro.
Deixa-o morrer.
Quando te estenderem uma mão recusa.
Sofre por teres recusado.
Isola-te.
Dorme sem conseguir dormir.
Quando o quarto estiver escuro não abras os olhos.
Escurece-o ainda mais.
Entrega-te à cama suja.
Aninha-te.
Pensa como chegaste aí.
Pensa como sairás.
Mas não descubras a solução.
Afinal,
Há alguma coisa que te dê mais felicidade,
Do que ser infeliz?




12.5.14

Tourette




[Este post também se podia chamar: "Coisas de que eu não me orgulho mas o meu cérebro não inibe"]

E o meu problema é este:
Porque raio, sempre que passo por um determinado colega meu, me vem à cabeça a palavra: "Punhetas".
"Punhetas"?
Assim, no plural.
Porquê, meu Deus?
Epá, punhetas não é propriamente uma linda palavra.

Será que sofro de uma espécie de síndrome de Tourette interno?
Será que um dia destes o meu cérebro deixa de ser contido e passa a verbalizar palavrões impróprios, em situações impróprias, em alto e bom som?
Será que um dia destes em vez de lhe dizer um "bom dia" lhe solto um profundo "punhetas para ti também!"?

Meus caros, estou com receio disto.

Se eu escalpelizar este fenómeno, posso atribuir de imediato as responsabilidades a esse meu colega que não curto. E não, não são sentimentos recalcados, nem um desejo íntimo por cumprir. Eu não gosto mesmo do fulano.
Mas caramba, também não é nenhum imbecil com o qual eu considere impossível dividir o meu oxigénio. Há outros piores e mais perigosos à sobrevivência da nossa espécie.
O homem não é nenhum atentado à humanidade que mereça que eu ponha em causa a minha saúde mental, o meu discernimento e que me faça duvidar do meu equilíbrio intelectual, só para salvar os outros do seu convívio.
É apenas estúpido e, que eu saiba, as pessoas estúpidas não provocam ataques, convulsões, de Tourette a ninguém.
Mas se a culpa não é da pessoa em questão, de onde virá o problema?
Estava aqui a tentar recordar-me de mais alguma vez que isto me tenha acontecido e, infelizmente... tenho de reconhecer aqui um padrão.
Há outra pessoa que me provoca isto.
E quando a vejo digo sempre dentro da minha cabeça: "Foda-se".
E "foda-se" também não é bom mas é menos pessoal, o que me tranquiliza quanto ao alvo mas, ainda assim, não me tranquiliza quanto ao gatilho.
O "foda-se" pode quase ser um "olá" entre amigos mas, tendo em consideração que eu não gosto da pessoa em questão, nem que viesse toda untadinha em Nutella, também não encontro razão para pensar num "foda-se" quando a vejo, como forma de amizade.

Então porque é que o meu cérebro dispara palavras pouco simpáticas quando se cruza com pessoas de quem não gosto?
Qual é o gatilho afinal?

Hmmm...
Escalpeliza....
Escalpeliza....
Hmmm, talvez comece a entender porquê.

Acho que a razão poderá ser, tão simplesmente, porque não os respeito.
É isso mesmo: o respeito.

E o que distingue as relações de amizade das de ódio, podem ser muitas coisas mas há apenas uma que cria um fosso intransponível: o respeito.
No amor e nos ciúmes a mesma coisa.
No carinho e na repulsa, também.
Tudo se resume ao respeito que sentimos pelos outros ou ao respeito a que os outros se dão.
Porque, pensando bem, até há pessoas de quem não gosto mas respeito e até há pessoas por quem daria a vida mas insistem em não se dar ao respeito.

[E caramba, que comecei a pensar nisto de forma tão divertida e afinal isto afundou-se numa conclusão tão drástica.
Mas pelo menos não é síndrome de Tourette].



9.5.14

7.5.14

Fracturas expostas



Hoje abri o jornal e o meu coração expulsou-se do peito.
As minhas pernas vergaram-se e as mãos encheram-se de suor.
Os olhos tremeram. Ainda tremem.

Há cerca de quinze anos fui catequista. Por ordem natural no meu percurso religioso e porque quis passar por essa experiência.
Nessa altura completamente despreparada da minha vida, foi-me atribuído um grupo de dez crianças com idades entre os sete e oito anos. Era o seu segundo ano de catequese e o meu primeiro e único ano como catequista.
Apesar da minha imaturidade e de não ter dado continuidade à experiência de catequizar, creio que cumpri com o que me foi pedido e com aquilo a que me propus. Foi muito positivo sob diversos aspectos e recordo cada momento, cada miúdo, e a personalidade de cada um. Tenho uma foto de grupo, tirada no último dia, que guardo com carinho. Sempre que a vejo sou transportada para um sítio bom. E ainda bem que fechamos ciclos com esse sentimento de tranquilidade.
Apesar de me recordar de muitos momentos e dos miúdos, um destes dias, quando voltei à minha terra natal, deparei-me com uma cara conhecida mas muito diferente: A Joaninha. E a Joaninha já tem vinte e dois anos no corpo (e que corpo) e um namorado atrelado à mão (e sabe Deus a mais o quê). E caramba! A miúda já tem mais anos que aqueles que eu tinha quando lhe dei catequese. Será que olhou para mim como a velha que lhe deu catequese?
Adiante.
Também me lembro bem do João, que era de Ponte de Lima e foi ali parar por força do trabalho dos pais, e no ano seguinte foi para outro lado qualquer. O João era uma criança amorosa, mas muito tímido, deslocado diria. Mas lembro-me muitas vezes do João, que já terá vinte e dois ou vinte e três anos e terá uma vida longe das minhas memórias da catequese. Mas imagino-o bom, com bom carácter e amigo. Assim espero que seja.
A Marisa, que também foi ali parar naquele ano por causa do trabalho do pai, tinha voz de desenho animado e tinha sempre a desculpa do chichi para estar o mínimo de tempo possível na sala. Eu percebia, piscava-lhe o olho e deixava-a ir. A cumplicidade e a confiança que quis fomentar entre adulto-criança foi sempre mais importante para mim, do que lhes dizer que Jesus foi o tipo mais espectacular que passou pela face da terra. Até porque havia dias em que própria tinha as minhas dúvidas. Creio que a Marisa não terá ido longe na vida (pressentimentos) e acredito que aqueles olhos triste só o estão ainda mais.
E heis que depois...
Depois, havia o Gonçalo.
O Gonçalo, esse caso especial de falta de educação, foi a criança que desenhou Jesus a snifar um risco de coca e escreveu isso mesmo no desenho, foi aquele que me apalpou as mamas, foi aquele que me mandou à merda e foi aquele - o único - que teve de levar um estalo na cara. Os pais do Gonçalo eram pessoas conscientes do filho que tinham e apoiaram a repreensão que lhe dei. Sempre houve um entendimento muito cordial entre nós.
A avó do Gonçalo, soube-o mais tarde, também foi minha catequista em criança e era a mulher que eu admirava na igreja porque cantava o salmo como um anjo. Eu dizia que quando fosse grande queria ser cantora do salmo, por causa dela. Lembro-me bem de o dizer à minha mãe.

Pois hoje, quando abri o jornal, o coração recuou quinze anos e morreu por quinze segundos.
O Gonçalo teve um acidente de viação grave, antes de completar os vinte anos. Não teve a culpa mas é ele que carrega o fardo de ter perdido a vida como a conhecia. Ficou paraplégico, em estado vegetativo, e agarrado a uma vida que não existe mais. Os pais, a avó, lutam como só eles poderiam lutar mas os recursos esgotam-se e a recuperação, ainda que lenta, pode estar comprometida.
Doem-me todas as partes do corpo e da alma por ver o Gonçalo e a família a passar por isto porque, para mim, o Gonçalo ainda tem sete anos. Ainda corre pela igreja, rouba hóstias e goza com as perucas dos santos. O Gonçalo ainda é a criança cheia de vida, de sangue na guelra e com um futuro cheio de promessas. Ainda o vejo com aquela cara malandra de quem prepara o próximo golpe contra a sua catequista.

Hoje, a fotografia do Gonçalo no jornal, lembrou-me que a imprevisibilidade da vida pode ser uma merda.
Apeteceu-me recuar quinze anos, dar o mesmo estalo ao Gonçalo e dizer-lhe que a vida vai ser curta e que ele devia continuar sempre a viver a mil à hora e aproveitar todas as chances da vida. As boas, as más. Porque, ao fim ao cabo, a dele foi interrompida quando não fez nada por isso, quando não teve culpa nenhuma.
Espero que a fractura que sinto em mim se recupere como sinónimo de que o Gonçalo também se recuperou. Que as ajudas cheguem depressa e que a esperança que tem movido os pais nunca, mas nunca, vacile.

Gonçalo, hoje vou beber um copo por ti, vou sorrir por dentro e por fora na esperança que o sintas, e vou pedir a Deus e a Jesus que olhem por ti. Eras criança. Com certeza se riram muito contigo. Com certeza que os fizeste felizes. 
E haverá lá recompensa maior que ter um filho que corre pela nossa casa, enquanto brinca e ri.