2.6.14

Em nome de Samael (Áudio)





Em nome de Samael

Diz-se que vou morrer.
Que alguém me procurará.
Essa coisa da morte.
Esses anjos que são demónios.
De sorrisos cândidos e fingidores.
Estupores.
Julgam que eu não sei o que os traz.
Mas sei-o bem.
Trazem a dor.
O silêncio.
A agonia.
As promessas que se quebrarão.
As palavras enganadas.
Trazem provas de resistência.
De desistência.
Trazem decisões impossíveis.
Obrigações que todos quererão negligenciar.
Esses bastardos desses anjos virão vergar-me.
Dizer-me o meu lugar.
As minhas limitações.
A minha humanidade.
A minha grandiosa insignificância.
Vão dizer-me que sou atacável.
Vão mostrar-me que sou derrubável.
E assim irão derrubar.
Conseguirão que todos tenham pena de mim.
Que lamentem o meu findar.
Esses anjos assistirão aos choros dos vencidos.
Daqueles que não me conseguiram fazer viver.
Desses que contavam comigo para primeiro os ver morrer.

Não morro tranquila.
Julgava a morte longe do sítio onde me encontro agora.
Julgava que todos morreriam antes de mim.




publicação original aqui!




30.5.14

Bacalhau à Brás





Receita de Bacalhau à Brás



Ingredientes

Bacalhau
Azeite
Batatas fritas palha
Ovos
Cebolas
Alho
Salsa
Sal
Pimenta
Azeitonas


Preparação

Demolhe o bacalhau. Retire a pele e as espinhas e desfie com as mãos. Corte as cebolas em rodelas finas. Pique o alho. Leve um tacho ao lume brando com o azeite, a cebola e o alho e deixe refogar lentamente até cozer a cebola. Junte, nesta altura, o bacalhau desfiado e mexa com uma colher para que fique bem impregnado com o azeite. Junte as batatas palha finas ao bacalhau e, com o tacho sobre o lume brando, deite os ovos ligeiramente batidos e temperados com sal e pimenta. Mexa com o garfo e, logo que os ovos estejam em creme, mas cozinhados, retire imediatamente do lume. Deite o bacalhau numa travessa. Polvilhe com salsa picada e sirva bem quente, acompanhado com azeitonas.



Receita desconstruída de Bacalhau à Brás


Ingredientes

Eu
Tu
Mãos
Sexo
Desejo
Amor
Sonhos
Tesão
Esperança
Felicidade


Preparação

Molha-me os lábios. Rouba-me a pele e os beijos, desfia-me com as tuas mãos. Corta-me o desejo em rodelas finas. Pica-me com esse amor. Dá-me num abraço teu, ainda num calor brando, mas com todo o desejo e amor. Deixa-nos pois, aquecer lentamente até esse desejo ferver. Dá-me, nesse preciso momento, mais desses teus beijos e mexe-me no corpo para que fique impregnada de ti. Une as tuas mãos com as minhas e, então, com os nossos corpos já aquecidos, dá-me todo o sexo que consigas dar, temperado de felicidade e tesão. Agita bem a nossa vida e, logo que o sexo tenha arrefecido, mas ainda haja amor, coloca-o imediatamente ao lume. Deitar-nos-emos juntos numa cama, polvilharemo-nos esse amor com sonhos e servi-lo-emos bem quente, acompanhado desta imensa felicidade.



[Honey, eu já sabia fazer Bacalhau à Brás, ainda tu nem eras nascido (vá, mais ou menos...). Ainda assim, arranjei uma nova versão só para ti. Uma daquelas modernices a que vocês, cozinheiros, gostam de chamar de desconstrução.]



26.5.14

Peónias





O cheiro a peónias,
Já não sei onde o senti.
Terá nascido nas tuas mãos,
Nesse pescoço que beijei,
Ou foi nos lábios que mordi?

O cheiro a peónias,
Sei eu bem onde o vi.
Foi na frescura desse amor,
Foi no calor do teu arfar,
Foi nas palavras ditas por ti.



23.5.14

WHITE-NEON




Bem sei que a imagem sóbria que cultivo neste blog não se compadece com neons. Mas o que eu gosto de neons. Aliás, há um botão do prazer que dispara em mim quando vejo um neon.

Gosto tanto que tenho um só meu e hoje apetece-me mostrá-lo (e cheira-me que amanhã já me arrependi de o fazer).











22.5.14

Eu conheço essa dor




Eu sei o que se passa contigo.
A tua vida continuou sem ti.
E agora segues sozinho, perdido.

Eu sei bem o que se passa contigo.
Amaste e eras amado e perdeste isso.
Tinhas uma casa e um lar e ficaste sem ambos.
Tinhas conhecidos, amigos e família mas ficaste só.
Tinhas um título e um estatuto e isso foi-te retirado.
Tinhas um carro e dinheiro para viajar e restaram-te memórias.
Tinhas o respeito e a reverência dos outros e agora és apenas mais um.
Tinhas projectos para um futuro tranquilo e agora nem enxergas a linha do horizonte.
Tinhas a palavra pronta para julgar e agora nem te consegues proteger daquelas que te atiram.
Julgavas-te forte e descobriste em ti o fraco.
Subestimavas as mulheres e agora precisas delas.
Juraste muitas coisas a ti próprio que agora não consegues entender.
Lutavas com os outros e agora lutas apenas contra ti.
Tratavas com superioridade o meu carácter e agora não suportas a minha indiferença.
Julgavas-me dominada por ti e descobriste que afinal nunca te respeitei.


[Já vos aconteceu conhecer uma pessoa que vos odeia tanto que mais parece que vos ama?]



Aconteceu







17.5.14

A mulher que vivia num livro

Violeta Bubelyte





E quanto tempo pode um homem guardar o cheiro dessa mulher?
Quanto tempo quererá que esse aroma lhe perdure na pele?
Quantas memórias esse cheiro não lhe tem deixado morrer?


Naquele livro as palavras sussurravam-se
A história diluía-se em parágrafos vagos
As personagens não tinham tom

A capa amarelara-se com o tempo
As páginas amoleceram-se de humidade
A dedicatória visceral...
Esborratou

Perdeu-se a palavra manuscrita
Perdeu-se a paixão de quem a escreveu
Mas o cheiro 



gritava



Ainda aqui estou






16.5.14

A Poesia e a Ironia


«Poesia como forma de colocar a afectividade em modo de pensar e o pensamento em modo de afectividade.
Como se o sentir pudesse ser mansamente dimunuido (ou aumentado) de forma a que não chegue ao grito, mas sim à sensata observação. 
Sentir para perceber melhor, não para gritar melhor.
Ironia, portanto, como modo de diminuir o disforme que há no grito e na excitação; dor e prazer transformados em verso que, dois metros acima desse solo que dói e tem prazer, diz: ali em baixo dói-me e tenho prazer, porém eu, aqui, enquanto verso, estou dois metros acima (pelo menos). 
Eis a ironia: o verso está a uma distância segura dessa vida sempre inseguríssima e por vezes parva - outras vezes excelentíssima, mas sempre incontrolável. Ou talvez até isto: uma elegante forma de sobrevoar as palavras no exacto momento em que elas são ditas; o humano é, apesar de tudo, maior, mais alto e mais largo do que as palavras - eis o que diz a linguagem que utiliza a ironia.»


Gonçalo M. Tavares in Visão (n.º 1106) sobre a poesia de Vasco Graça Moura




Repetições # 1



Não sei se isto é começar alguma coisa mas ocorreu-me a ideia de republicar textos publicados, exactamente, no mesmo dia mas em anos anteriores.

Este que agora republico foi escrito no dia 16 de Maio de 2011.
Não escrevi nada em 16 de Maio em 2012, nem 2013.

Dá para perceber a ideia?

Não valerá a pena andar em modo repeat dia-sim-dia-sim mas sou rapariga para me lembrar de fazer isto uma vez por mês.

Nasce hoje o separador "Repetições".


[publicado em 16 de Maio de 2012]




Terminal de autocarros - Sete Rios - Lisboa - Dia 14 de Maio de 2011 - Das 20:30 às 22:00

. O sujeito de cabelos compridos anacronizados
. A rapariga do corpete de ganga com atilhos em fita de seda
. As crianças ciganas descalças
. O tipo que descasca um miúda com os olhos
. A sonsa que espera pelo namorado frick
. O japonês com cabelo de mulher
. A velha hippie com problemas de alcoolismo e com falta de dinheiro para a tinta do cabelo
. O tipo giro
. A tipa com estilo
. A miúda com calções pornograficamente curtos
. A preta que veste uns collants de padrão tigresse rosa-choque mas se esqueceu de vestir uma saia
. A loira que lê uma revista cor-de-rosa
. A tonta que já correu os autocarros todos mas ainda não acertou com o seu
. A excursão de adolescentes com problemas de identidade
. Os namorados que se lambuzam
. O rapaz que tem vergonha do beijo de despedida da mãe
. O chinês que quer parecer europeu
. O motorista engatatão
. O preto que ainda não tirou a mão da pila
. A mãe solteira que está farta da sua criança
. O emigrante de Leste que arrasta os sacos de plástico desde o fundo da gare
. O segurança que anda em círculos sem mexer uma palha
. A mulher que me observa porque não sabe porque escrevo
. Os passageiros impacientes dentro de um autocarro
. O velho sozinho com um boné da caça e um colete da pesca
. A dupla de polícias que exibem nádegas tesas dentro das calças apertadas
. A senhora de meia-idade que faz Sudoku
. O brasileiro com a camisola da selecção
. A introvertida que reza para ser ainda mais invisível
. O reformado que passa os dias a vaguear pela gare
. O casal que se odeia e se despede com alívio
. O casal que se beija à chegada e promete amor eterno
. Eu. Sozinha. Com o papel e a caneta.