19.7.14

18.7.14

A caixa verde



[Nota prévia: Conheci o André da Loba vai para cima de 12 anos, na época, precisamente, em que mantinha a relação de que falarei no texto em baixo. Por ter recuado até essa altura, lembrei-me do André e do seu incrível trabalho. O André já não faz puto de ideia de quem eu sou mas eu achei piada reencontrá-lo através do seu trabalho.
André, pá, se por acaso fores um dos vinte que vem aqui ler isto, deixa-me dizer-te que, na altura em que namorava com o outro, ainda te pisquei o olho. Mas, já se sabe... a farda dos escuteiros nunca deu pica a ninguém ;)
Agora, metam lá um semblante sério porque o que se segue também o é, mais ou menos.]



Deixamos sempre coisas para trás quando mudamos de casa. E por vezes, inexplicavelmente, arrastamos connosco coisas que não nos fazem falta para seguir em frente.

Há muitos anos, quando saí de casa dos meus pais, tinha todos os meus bens, os meus objectos, enfiados no meu quarto com a certeza que nunca os tiraria de lá mas que eu, isso sim, seria devolvida ao lugar dos meus objectos.
Isso nunca veio a acontecer. Não voltei definitivamente àquele quarto. Segui a vida por outros quartos até chegar àquela que é hoje a minha casa. Só minha. Quando regresso ao meu quarto de adolescente encontro os mesmos velhos objetos no mesmo lugar, sem sentido, inertes, por vezes sem história. Os que tinham importância foram sendo levados por mim. Mereceram um lugar no sítio que habito. Os outros, os que ficaram no quarto da pessoa que já não sou, não sei que lhes faça ou se, sequer, é obrigatório que lhes faça alguma coisa.
De quando em vez, lá espreito para dentro do armário grande para perceber o que poderei resgatar. Qual das coisas merece ser levada comigo. Evito ao limite esse exercício por o saber penoso. Não por desencadear más memórias mas por, de algum modo, sentir que as estou a arrancar do sítio onde elas pertencem, onde as quero, onde sei que as irei encontrar. De certo modo tenho medo de as perder. Mas, num dia de tédio puro, lá me lancei ao armário grande.
Bonecas de porcelana, dossiers da faculdade, trabalhos do liceu, uma flauta, uma caixa dourada. Uma caixa verde.
Fiquei parada a pensar.
Conhecia a caixa dourada. Guarda as memórias dos tempos de escutismo. Fotografias, emblemas, umas meias velhas, a boina...
Também conhecia a caixa verde. Senti um pulo no peito.

A caixa verde esperava, há quase uma década, para ser redescoberta.
Sabia bem o que ela continha. Talvez por isso ela tenha ficado ali, tanto tempo, sem que a vontade de a abrir me assaltasse.
Dentro daquela caixa estão sete anos de duas vidas. A minha e a de um amor de adolescência. Estão bilhetes de amor; cartas trocadas durante as férias num tempo (tão recente) onde não existiam telemóveis nem internet; de objectos sem valor mas cheios de significado; de flores, agora secas, que foram colhidas a caminho de um encontro comigo; de cadernos recheados de poemas e também de letras de músicas, desenhos e aspirações ingénuas; estão fotografias; estão cheiros; estão memórias. Estão muitas coisas que eu já tinha esquecido.
Felizmente, depois de abrir a caixa verde, o que me invadiu foi a nostalgia e a tranquilidade de quem tem o fim de uma relação bem resolvido. Sem esqueletos no armário. Ressentimentos. Também não senti saudade. Senti ternura, graça, felicidade por ter vivido momentos que devem ser vividos na idade certa. Senti-me bem comigo por a vida me ter dado a oportunidade de, ainda adolescente, poder viver um amor sem compromissos, obrigações ou rotinas. De viver um amor na simplicidade com que ele se deve viver.

Não sei se algum dia conseguirei desprender-me daquela caixa verde, daquelas recordações que me invadem quando lhe levanto a tampa mas, disso sei, não preciso de a tirar do seu sítio e de a trazer para minha casa. Em vez de uma memória transformá-la-ia numa imagem viva, presente, e não é assim que quero cristalizar aqueles anos.
Quero que se mantenham, precisamente, lá atrás, para me lembrar como foi tão melhor o caminho que percorri depois, para poder chegar até aqui.


17.7.14

O Senhor Tédio





O Senhor Tédio entediava-se,
Só de ter de respirar,
Aborrecia-o o bocejo,
Odiava trabalhar. 

Pousava a cabeça nos cotovelos,
E pensava para si:
"Estarei eu entediado,
Ou ter-se-á o tédio apoderado de mim?"

Não entendia o Senhor Tédio,
Esta coisa de ser feliz,
De viver uma vida tranquila,
Estando tudo por um triz.

Mas o tédio instalava-se,
Sempre que se queria animar.
Entediava-se com a alegria,
E fartava-se por não festejar.

Reconhecia o senhor Tédio,
Que ser entediado não o deixava viver,
Mas lutava um par de dias,
E voltava-se a aborrecer.

Mas um dia o Senhor Tédio,
Muito cansado de se amuar,
Convenceu-se a si mesmo:
"Nunca mais vou entediar!".

Foi então para a rua,
De sorriso no rosto estampado,
Mas cansou-se de tanto sorrir.
E chegou ao trabalho entediado.



16.7.14

Voltei. Vazia.




Gostava de dizer que voltei cheia de mundo, mas nestes dias apenas cavei um vazio maior dentro de mim. 


Dias antes de partir aconteceram coisas que se prolongaram no tempo dentro da minha cabeça. Depois passaram pelo coração, pelo estômago e, de vez em quando, voltavam à cabeça. Algumas feridas tinham de ser mexidas mas outras preferia-as intactas. Vejo agora que só as aprofundei mais. Desorganizei-me todinha. Já não sei quem sou.

Há uns dias, desamiguei-me de pessoas pouco amigas e deveria sentir-me tranquila com isso, mas não sinto. Também por elas prescindi de algumas coisas e agora sinto que me traí só para lhes fazer a vontade. Só para as libertar. Eu não fui eu. Fui o que quiseram que eu fosse. Agora sinto vergonha de mim.

Também por estes dias senti que, quem um dia disse que tinha um amor incondicional por mim, me mentiu. Que, afinal, o que sente por mim é um ódio vestido de indiferença, que eu não compreendo, e que não me foi explicado. Estou perdida porque as minhas vísceras foram mandadas ao mar, sem compaixão. Sem lágrimas. Mas a mim continuou-me a doer. A mim matou-me.

Não senti saudades de algumas pessoas de quem deveria ter sentido, e não me sinto bem com isso. Questiono-me porquê. Porque não lhes senti a falta e porque não me sinto bem. Terei perdido a alma, ou as outras almas é que se afastaram de mim? E se afastaram, que lhes fiz eu que a minha consciência não me alertou?

Pensei mais e mais no que me faz feliz e no que me tem alimentado a infelicidade, e questiono-me acerca das decisões que tenho tomado na minha vida. Se as tenho tomado ou as tenho deixado tomarem-se sozinhas. A resposta é tão óbvia que me custa até ouvi-la dentro da minha cabeça. O que é isso, afinal, de tomar as rédeas da vida? Qual é o sentido da vida de cada um se acabamos a viver uma vida que não queremos nossa?

Pensei, porque penso sempre, e voltei a pensar, nos bens que terei nos próximos 365 dias. Naqueles que não terei e gostaria. No dinheiro que os outros têm. No dinheiro que eu merecia ter e não tenho. E sinto-me um lixinho por isto. Porque sei que está errado ser-se assim. Porque me odeio por pensar em dinheiro. Porque sempre detestei quem o fazia e acabei por me tornar nessa pessoa. Tornaram-me nessa pessoa. E agora é mais fácil culpar os outros que agir. E também me odeio por isso.

Dei voltas à cabeça sobre o que fazer da minha vida. O que poderia eu fazer para mudar o que me incomoda. Mudar de cidade, mudar de emprego, mudar de corpo, mudar de cara, mudar de casa, mudar de amigos, mudar de religião, mudar de cheiro, mudar tudo o que faz de mim esta pessoa em que me tornei mas da qual já estou farta.

No meio deste desalinho todo também não encontrei o caminho onde seria suposto. Não procurei, sequer, onde costumava procurar. Nem sei se ache grave não ter sentido falta de escrever, nem de ler, nem de ouvir música, nem de sonhar. Não senti falta e não sinto. A receita esgotou-se, eu esgotei-me. De repente parece que nada faz sentido. Eu deixei de fazer sentido. 
Para que servem as férias afinal?



27.6.14

Os piores dos melhores III




À semelhança do ano passado irei ausentar-me para gozar umas pequenas férias.
Por isso deixo uma selecção de textos, para o caso de precisarem entreter-se durante estes dias (apesar de existirem coisas melhores para fazer, ouçam o que eu vos digo).

O único senão, tal como no ano passado, é que estes textos não são os mais lidos, mas sim, os menos lidos de 2013 mas que muito gostei de escrever.

E quando digo menos lidos, estou a falar de menos lidos MESMO, com visitas abaixo das cinquenta espreitadelas onde trinta devem ter sido minhas.

E alguém consegue adivinhar qual foi o texto com menos visitas?

Fica ainda uma nota final: Espantoso como os textos de baboseiras foram os mais lidos (vocês gostam é de macacada e eu alinho).




Até já.



Habemus resoluções

Das Estações

O mocho

As urnas

A tua pele. A tua mortalha.

O prisioneiro

O motim

Seremos velhos

O Padre da minha aldeia

Pelo mar adentro





24.6.14

As andorinhas voltam sempre a casa






Eu conheci a Sónia assim...

Eu falei da amizade pela Sónia assim...

A Sónia responde-me assim...

E depois querem que uma pessoa ande bem. Não dá, né?


Somos, masé uma cambada de choronas, pá! :)





23.6.14

Dos três aos trinta e três



"Still Loving You" é uma canção da banda alemã de hard rock e heavy metal Scorpions. Foi escrita por Rudolf Schenker com Klaus Meine, para seu nono álbum de estúdio, Love at First Sting, lançado em 1984. Em julho do mesmo ano, foi lançado como o segundo single do álbum. Sua letra tem sido vista como uma metáfora da divisão daAlemanha Oriental e Alemanha Ocidental , mas o significado real é sobre a história de um amor desesperado. Em uma entrevista com a Songfacts, Rudolf Schenker explicou: "É uma história sobre um caso de amor, onde reconhecem que pode ter acabado, mas irão tentar de novo".
O videoclipe foi lançado em julho de 1984, e foi filmado em Dallas, Texas no Reunion Arena.
É considerada uma das baladas clássicas do grupo alemão, além de ser ícone do estilo power ballad. Ingressou no Top 10 em alguns países europeus, incluindo na França, onde obteve em poucos meses, o certificado de platina ao superar um milhão de cópias vendidas. Até o momento, apenas na França, o single já vendeu mais de 1,7 milhões cópias.
Em 1992, foi lançada em uma versão remasterizada em uma compilação homónima, que em alguns países foi lançado como um single.

in Wikipédia


Pelos vistos estávamos apenas em 1984.
Lembro-me tão bem de ver semanas a fio esta música no primeiro lugar do Top + e de ter uma opinião tão formada sobre esta música, que ia jurar que tinha nessa altura treze anos e não três.
Eu tinha apenas três anos quando esta música passava vezes sem conta e eu recordo-me de tantos momentos dessa época.

Mas desengane-se quem pensa que eu tenho boas memórias sobre esta música. Porque eu odiava esta música.
Pior: tinha medo.
Medo da negritude da música (mesmo sem saber ler nem escrever, quanto mais perceber inglês), e do homem do videoclip.
Naquela altura a música parecia-me ter uma hora e meia... De tanto que a odiava. Mas ela lá continuava, semana após semana, como um sucesso de vendas, sempre em primeiro lugar.
Graças a Deus, ao fim de umas semanas já nem davam o videoclip inteiro.

Hoje, evoco esta música muitas vezes.

Aquele lado nostálgico, mais que assustador, leva-me a sítios dentro de mim a que, nalguns dias, é bom voltar. Não pela felicidade. Mas pela realidade. Porque, por vezes, preciso de me encontrar com aquela criança que já tinha sentimentos de adulto, para saber como reagir agora. Porque aquela criança velha que fui soube resolver problemas que hoje me fazem ser muito mais ligeira na maneira de encarar a vida. Não há nenhuma metáfora por trás disto, nem um moral, nem uma conclusão muito elaborada sobre a relação entre odiar e gostar desta música aos três e aos trinta e três anos. É apenas uma memória que guardo que não quero largar.  

E, voltando trinta anos atrás, à criança que se sentava no chão da sala, com a televisão de imagem a preto e branco, a ver o Top +, chego à conclusão que aquela miúda de três anos só podia mesmo ser uma fixe.





21.6.14

Qu4tro Segundos







Uma vez, um homem, disse-me que eu devia ter vergonha do meu corpo. Mas não assim, desta maneira contida. Disse-o com outras palavras que nunca mais consegui repetir mas que não paro de ouvir na minha cabeça.

Nunca consegui ultrapassar aquela frase. De apenas quatro segundos.

Nem aquele momento, aquele dia. Nunca consegui ultrapassar a repulsa que passei a sentir pelo meu corpo. E é isso que não lhe perdoo. Ter-me roubado de mim mesma.
Não o amava e por isso não fiquei ferida por o perder. O que ficou ferido foi o amor próprio. Passei a viver num enorme embaraço dentro da minha própria cabeça. Na vergonha, como ele mesmo disse. Na humilhação das palavras.
E, desde então, não me sinto tão mulher.
E como é que se pode aceitar que alguém nos faça isto?
Que nos humilhe ao ponto de não querermos mais existir no nosso próprio corpo?

Um par de anos depois, rodeada de amor, de sentimentos genuínos, de pessoas boas, não consegui apagar aqueles quatro segundos. Não houve, depois disso, um momento que revertesse aqueles quatro segundos.
E não sei porque consigo falar disto hoje, mais de dois anos volvidos, mas talvez precise de o fazer como parte desse processo de reversão. De cura. Porque eu preciso curar-me daquele momento. Preciso voltar a mim, fazer as pazes com o meu corpo, e deixar que o meu corpo se deixe amar por quem me ama. Independentemente da forma que ele tiver. Porque naqueles quatro segundos foi-me tirada a alegria a mim e a quem agora me tem. E que por isso me tem partida em cacos.

Ainda acredito que um dia me voltarei a cruzar com o homem que me disse que devia ter vergonha do meu corpo. Mas não assim, desta maneira contida. E nesse dia acho que não lhe vou dizer nada. Porque ainda hei-de sentir vergonha de mim e ele há-de continuar a sentir-se bem consigo. Vergonha e medo. Porque, apesar desse homem nunca me ter tocado, senti-me, profundamente, violada. Senti-me ainda pior por nunca o ter conseguido contar a ninguém.

E hoje, na minha cabeça, não importa se o abuso durou apenas quatro segundos ou uma vida. Porque soube-o, nesse dia, que quatro segundos é todo o tempo que precisamos para morrer.



19.6.14

Statement




Só hoje me apercebi que adoro, profundamente, o meu blog.




18.6.14

Sobre a amizade e o tempo




A amizade, talvez como a paixão e o amor, tem maneiras de nascer, crescer, de ser vivida e de se alimentar, completamente distintas ao longo das várias fases da nossa vida. Tem a ver com a maturidade. O crescimento. Porque os sentimentos também se maturam e fazem crescem.
Na infância, os primeiros amigos são os filhos dos amigos dos nossos pais, os amigos da creche, que hão-de ser os da escola, da catequese, do grupo de desporto... e crescemos com eles, com as afinidades que se desenharam ao sabor do tempo e das parcas rotinas que nos estão destinadas e decididas pelos progenitores. Não pensamos muito nisso. 
Ao crescermos, ao sermos empurrados para a vida, sobretudo se fizermos mudanças radicais como mudar de cidade, sair de casa dos pais, ir estudar ou trabalhar para fora, começamos a criar a nossa rede de amigos de uma maneira mais consciente e madura. Também são amizades mais emocionais porque, na verdade, metemos a empatia a trabalhar e os relacionamentos dão-se com quem, efectivamente, sentimos uma ligação. De certo modo, passamos a ser nós que "escolhemos" os nossos amigos.

Olhando, e comparando, as amizades de infância com as amizades formadas em idade adulta, acho que me identifico mais com as últimas. Costumo até dizer que, se conhecesse hoje alguns dos amigos que mantenho desde a infância, não haveria a mínima chance de sermos amigos. Porque seguimos vidas diferentes. Temos ideologias, opiniões, ambições diferentes. E não há mal nenhum nisto. As coisas são mesmo assim: crescemos e tornamo-nos no que queremos tornar e, o que é um facto, é que não queremos todos o mesmo. Mas que raio se faz ao amor de infância que alimentou essas amizades? Nada, claro. E por isso deixamo-las, ali, no coração.
Apesar de acreditar que com a maturidade surgem as amizades para a vida, tenho um núcleo de amigas de infância (desde os três meses de vida, ali, lado-a-lado nos berços) sem as quais não me imagino. É bom sabê-las ali, na nossa terra, e saber exactamente onde as posso encontrar. E sinto muito conforto por elas se manterem todas juntas no mesmo sítio e que apenas eu me tresmalhei. É tão bom imaginá-las a uns passos umas das outras como quando tínhamos uns cinco anos.
Ter amigos também é isto: cristalizar o tempo. Reencontrarmo-nos numa história que aconteceu há vinte anos, ou não nos reconhecermos num momento que aconteceu há dez anos. Podemos voltar atrás no tempo, usando os amigos como referências, e vermos quem éramos antes do que somos agora. Põe-nos em perspectiva. 
Com os novos amigos a vida parece dividir-se num antes e num depois: antes deles e depois deles. Um antes e depois na formação do meu carácter.
Eu acredito que os amigos, as amizades, nos moldam. Nos moldam a vida, a personalidade, o carácter, o tempo. A vida passa a fatiar-se por grupos de amigos, lugares e momentos e nunca mais a vimos como um todo, homogéneo, sem sal.
E eu sou das que prefiro a vida assim: diversos amigos em muitos lugares diferentes, com interesses diferentes e, sobretudo, com maneiras de me olhar diferentes.


[E assim me deixei ficar a pensar nesta coisa da amizade, do amor entre amigos (porque acredito que o há), nas amizades de longa data e nas amizades recentes. Fiquei assim porque de vez em quando me vejo ficar sem as pessoas de quem gosto por perto. E fiquei a pensar em qual nos dói mais uma partida? Naquelas que tivemos tempo para sedimentar uma relação ou naquela onde ainda se vive a descoberta do outro? Questiono-me, também, se será aceitável sofrer mais com uns do que com outros? E se não for aceitável, isso fará de mim pior pessoa, pior amiga dos meus amigos? Ou tornar-me-á apenas numa pessoa que tem um coração generoso e se identifica com as preocupações dos outros, independentemente, da origem da amizade e do tempo?

E no fundo todo este raciocínio começou por aqui:

Apesar de já ter aprendido que de nada vale sofrer com uma partida porque haverá sempre um regresso, desta vez, com a partida de duas amigas, sinto uma amargura diferente. Porque não é bem dor. É tristeza. É impotência.
Vão-se embora porque aqui não há trabalho. Não vale a pena dissertar sobre o assunto: aqui não encontram trabalho. Simples assim.
Quando tentei encontrar respostas dentro de mim, para a pergunta: "Mas porque é que me custa tanto que, logo estas duas pessoas recentes na minha vida, se vão embora?", fiquei ali num vai-não-vai entre motivos egoísta e motivos altruístas. Afinal de contas, antes de pensar na saudade que vou sentir, tenho de pensar no bem que isto fará às suas vidas.
Estas minhas amigas, foram escolhidas por mim. Não são amigas de infância, não são colegas/amigas, não são amigas comuns com outros amigos. São só minhas amigas porque assim quisemos ser. Porque nos escolhemos. E eu vou sentir a falta delas.]



À R. e à S.