27.8.14
25.8.14
A Grande Casa
Havia uma grande casa onde morava muita gente. Uns conheciam-se, outros não. Havia casos de pessoas que eram familiares entre si, de amigos que eram bons amigos e de outros amigos que eram apenas conhecidos. Mas também havia os que não simpatizavam com este ou aquele, e havia também aqueles que não gostavam de ninguém. Também habitavam na grande casa os que diziam que gostavam de toda gente mas o "toda a gente" eram apenas eles próprios. Havia os altruístas e os egoístas mas os egoístas eram mais. Depois havia os porreiros, para quem estava sempre tudo bem, e havia os paranóicos, para quem havia sempre alguma coisa mal. Também habitava na casa uma ou outra pessoa invisível: "Quem?", "Faz o quê?", "Chama-se como?"... "Ah, pois. Não estou a ver quem é". E havia os distraídos.
Na grande casa, uns diziam, com orgulho, que eram todos uma grande família. Outros, mais conscientes, fugiam do convívio e recusavam afinidades. Eram os surdos, os cegos e os mudos. Mas não eram burros. Mas também os havia, os burros. Estavam na parte da alta da casa. Eram arrumados na parte mais alta da casa para não incomodarem os outros, ainda que eles pensassem que estavam na parte alta da casa por serem muito importantes. Mas não eram. Eram burros e ninguém os queria aturar.
Depois, havia aquele punhado de gente que arrumava, limpava, organizava, que mandava na casa, que a punha a funcionar, mas cujo nome ninguém sabia. Só sabiam, e era consensual, que eram necessários à casa. Como formigas obreiras. São precisas mas se alguma morrer depressa se substitui. Afinal, são todas iguais.
Depois, havia aquele punhado de gente que arrumava, limpava, organizava, que mandava na casa, que a punha a funcionar, mas cujo nome ninguém sabia. Só sabiam, e era consensual, que eram necessários à casa. Como formigas obreiras. São precisas mas se alguma morrer depressa se substitui. Afinal, são todas iguais.
Na casa grande onde morava muita gente, podiam não saber os nomes uns dos outros, nem o que faziam, mas os habitantes da grande casa conheciam as muitas regras que ao longo dos anos se instituíram. Mas havia um problema: uns cumpriam-nas e outros não. A primeira regra, por exemplo, sabiam-na na ponta da língua: não era permitido entrar mais ninguém na grande casa. Recebiam-se visitas à porta, aceitavam-se cartas, de quando em vez até se admitia um presente, de uma alma mais misantropa, mas nunca, nunca, as regras admitiram que estranhos se instalassem na grande casa. Mas era sabido que esta regra há muito que demorava a vingar e que nem sempre havia sido cumprida. Pelos mais velhos. Os mais velhos da casa, antes da casa grande ter muita gente lá dentro, gostavam de receber visitas, de lhes aceitar os favores e de retribuir com favores também. Faziam-se festas e arraiais, fizeram-se negócios, compraram-se segredos, e venderam-se almas. Tudo dentro das muitas paredes da grande casa.
Os velhos estavam tão habituados a fazer tudo dentro da casa, que acabaram por se esquecer que as muitas paredes que os escondiam também tinham muitos recantos que os expunham. Muitas esquinas pontiagudas que juntavam sujidade que se acumulou por anos, e anos... Estavam tão confortáveis que nem repararam que os mais novos da casa, avessos a velhos hábitos, começaram aos poucos a limpar o pó. A arrumar os móveis. A sacudir os cortinados. E a encontrar os segredos, debaixo dos tapetes.
Um dia, quando os mais novos já estavam cansados de limpar o que os mais velhos continuavam a sujar, gerou-se um motim. E os mais velhos não compreendiam. Não percebiam o que tinha de mal. Quiseram convencer os novos que as vendas da alma tinham de se perpetuar. Como uma herança. Como um ritual.
Mas os mais novos recusaram vender-se e a sentença ficou lida: "A grande casa ficou pequena para vocês. Não são mais bem-vindos aqui".
Os mais novos não choraram.
Encheram o peito de orgulho e seguiram o seu caminho.
Com a alma, intacta, que não venderam.
Os velhos estavam tão habituados a fazer tudo dentro da casa, que acabaram por se esquecer que as muitas paredes que os escondiam também tinham muitos recantos que os expunham. Muitas esquinas pontiagudas que juntavam sujidade que se acumulou por anos, e anos... Estavam tão confortáveis que nem repararam que os mais novos da casa, avessos a velhos hábitos, começaram aos poucos a limpar o pó. A arrumar os móveis. A sacudir os cortinados. E a encontrar os segredos, debaixo dos tapetes.
Um dia, quando os mais novos já estavam cansados de limpar o que os mais velhos continuavam a sujar, gerou-se um motim. E os mais velhos não compreendiam. Não percebiam o que tinha de mal. Quiseram convencer os novos que as vendas da alma tinham de se perpetuar. Como uma herança. Como um ritual.
Mas os mais novos recusaram vender-se e a sentença ficou lida: "A grande casa ficou pequena para vocês. Não são mais bem-vindos aqui".
Os mais novos não choraram.
Encheram o peito de orgulho e seguiram o seu caminho.
Com a alma, intacta, que não venderam.
21.8.14
Letargia
substantivo feminino
1. Sono profundo em que a circulação e a respiração parecem estar suspensas.
2. [Figurado] Apatia, indolência extrema.
2. [Figurado] Apatia, indolência extrema.
Que não se ressuscita.
Como podes viver de olhos no chão entregue ao nada?
Como te suportas ao fim de um dia, dos longos dias, a viver só dentro de ti?
Consegues respirar?
Queres respirar?
Porque não te entregas de braços abertos ao mundo?
Porque não experimentas o amor?
Porque te condenas a não viver?
Gostas do silêncio.
Gostas da escuridão.
Gostas da solidão.
Gostas só de ti.
Porquê?
Porquê?
Porquê?
Porquê?
Não vês que a vida está aí?
Nessas coisas que matas com o olhar.
Nos livros que não queres ler.
Na música que não queres ouvir.
No ritmo que não queres dançar.
Nas notas que não queres entoar.
No toque que não queres tocar.
No beijo que não queres dar.
No ar que não queres respirar.
Que compaixão é essa que tens por ti?
Que desapego é esse que cultivas?
Que complacência é essa que alimentas na tua casa?
Tens orgulho em ti?
Nessa inércia?
Nessa vida que não tens?
Como podes deixar-te entregue a esse corpo que não vive?
Que não se ressuscita.
Não vês que mesmo que morras, ninguém quererá saber de ti?
Ou pensas que alguém te virá salvar?
Que alguém perguntará se já acordaste hoje?
Que alguém te virá ler ao ouvido, cantar-te uma música, e beijar-te os lábios?
Que alguém te vai dar a conhecer o mundo, a correr estradas, a cair num poço de ar?
Achas mesmo que alguém te vai despertar?
Achas mesmo que alguém te irá resgatar ?
Que sono profundo é esse onde cegaste e de onde já não mais queres acordar?
18.8.14
Estranhezas dos pensamentos de Verão
Tantos pensamentos, tantas conclusões e tão pouco papel e caneta para ir apontado coisas que acabaram por se desvanecer com o tempo.
De facto, a realidade há-de ser sempre o maior motor para a inspiração. E há sítios mais reais que outros. Por estes dias estive num desses lugares em que a realidade é, parolamente, mais dolorosa que no resto do mundo. Estou em crer que sim. E até pode ser divertido mas, depois de tantos dias, qual roda de hamster, começa a ser repetitivo e o cérebro começa a pensar em coisas sobre as quais nunca se tinha debruçado e, às tantas, já não sabemos se são alucinações dos olhos ou rasteiras do cérebro.
E só continuamos a pensar cada vez mais e mais...
De facto, a realidade há-de ser sempre o maior motor para a inspiração. E há sítios mais reais que outros. Por estes dias estive num desses lugares em que a realidade é, parolamente, mais dolorosa que no resto do mundo. Estou em crer que sim. E até pode ser divertido mas, depois de tantos dias, qual roda de hamster, começa a ser repetitivo e o cérebro começa a pensar em coisas sobre as quais nunca se tinha debruçado e, às tantas, já não sabemos se são alucinações dos olhos ou rasteiras do cérebro.
E só continuamos a pensar cada vez mais e mais...
Pensei, para começar, mais uma vez nisto da solidão (claro!... boring...) mesmo estando-se rodeado de gente (aquele velho tema que, em algum momento da vida, todos conheceremos), e no sentido que faz entregarmo-nos à dor da solidão estando mal acompanhados, resignarmo-nos, quando podemos ser mais felizes sozinhos. Questionei que tipo de penitência é esta a que as pessoas se impõem? Mas, depois, também vi muitas pessoas sozinhas, e que me pareciam imensamente infelizes com isso. Pensei: haverá um ponto de equilíbrio?
Pensei, também, no Miguel Esteves Cardoso (e eu até lhe pedia perdão por isto mas haverão, certamente, coisas que o ralem mais do que pensar no facto de eu ter pensado em si), e nas coisas que escreve e porque é que umas são tão clarividentes e aconchegantes, por serem tão próximas da mortalidade de qualquer um, e porque é que depois se espalha ao comprido em coisas sem sentido nenhum e que não interessam, verdadeiramente, a ninguém. E eu perco-me ali naquela esquizofrenia e depois, estranhamente, isso faz-me sentir bem e volto a gostar do Miguel Esteves Cardoso e do que escreve e do que vai naquela cabeça contaminada de mundo.
Pensei, depois, nas dietas e em como tanta propaganda a sementes, batidos e cenas Detox não anda, claramente, a chegar a um público assim tão alargado como se pensa, e basta ir à praia para confirmar isto. Pensei na democracia dos biquínis, e em como não há nada a esconder com um biquíni vestido e em como, supostamente, somos todos iguais, ali, expostos sem roupa, e também sem classe social, sem educação ou formação, sem religião, sem nacionalidade, sem clubes nem partidos. Somos todos iguais para o bem e para o mal. A única coisa que nos distingue quando nos expomos num biquíni é o bom-senso, ou falta dele. E isto levou-me a pensar em como, estranhamente, as mulheres parecem não querer esconder nada quando chega a hora de ir para a praia. Pensei: somos fodidas. Durante um ano inteiro, queixamo-nos que estamos gordas e que não podemos comer isto e aquilo. Andamos um ano a queixar-nos que não podemos usar leggings indiscriminadamente porque se vê isto e aquilo, que não podemos usar blusas sem soutien porque se nota isto e aquilo, que não podemos comer uma dúzia de lasanhas por semana porque se vai notar isto e aquilo, e depois... Depois chegamos à praia e vestimos um biquíni (que nalguns casos parece ser engolido pelo próprio corpo), malhamos todos os dias, orgulhosamente, uma bola-de-berlim (ou berlinde, como ouvi ao balcão de um café - priceless!) como se por estarmos na praia elas não engordassem, e ainda nos damos ao desplante de dar uma caminhada pela beira-mar (coisas que nos recusamos a fazer durante o ano porque cansa muito) para nos verem bem o corpo de hibernação que conseguimos durante um inverno rigoroso. E é, também, por isto que cada vez compreendo menos as pessoas, e muito menos as mulheres. Também descobri que os fatos-de-banho foram peças que caíram em desgraça nas graças de muitas senhoras que deveriam reconsiderar o seu regresso.
Depois parei para pensar nos homens, e não precisei de dois minutos para concluir que usam o que lhes apetece, podem engordar que nem uns ursos, e usar tangas ridículas (não sungas) tiradas da arca do enxoval de 1984, que ninguém quer saber. Está tudo bem. Menos os olhinhos das pessoas.
Pensei, finalmente, no quão fartos os pais estão de ser pais. Ou no quão infelizes os pais descobriram que podiam ser depois do sonho que idealizaram que seria a paternidade. A falta de paciência e a agressividade latente no vocabulário, na linguagem não verbal, nos movimentos do corpo. Vê-se: a maioria da pessoas com que me cruzei, odeia ser pai, está farto dos filhos, odeia as obrigações e já não vê prazer nenhum na rotina e na vida com crianças. A educação passou a ser sinónimo de repreensão e ninguém se dá ao trabalho de dar um beijo nos filhos, um abraço, de rir com as crianças, de as elogiar, de dizer "a mamã e o papá gostam muito de ti". Não se incentiva, minimamente, o amor, os afectos, e só vi semearem um futuro muito incerto no que às relações pais/filhos diz respeito. Só vi pais a criarem filhos inseguros, com medos, ou desprovidos da noção de afecto. E um dia a factura vai ser cobrada e depois ninguém vai perceber porque é que o valor é tão alto. Estou só a dizer... Fiquei preocupada e ao mesmo tempo fez-me pensar que, se um dia for mãe, terei de regressar mentalmente muitas vezes a estes dias e reflectir sobre que mãe quero ser e que filhos quero criar. Se vou querer passar o dia a repreendê-los, a chatear-me e a criar um fosso emocional entre nós, ou se, em vez disso, me encho de paciência, conto até dez, pego nos putos pela mão, levo-os à beira-mar, e finjo que gosto muito de brincar aos castelos de areia, de ganhar um Kilimanjaro de areia no pipi, e de apanhar escaldões nas costas por andar sempre vergada a agarrá-los. Metáfora parva que espero me sirva para muitas coisas na vida. E espero nunca me esquecer disto. Nunca.
Não pude deixar de pensar, também, em como muitos destes pais se queixam o ano inteiro que não têm tempo para os miúdos. Que se lamentam que o tempo que lhes resta depois do trabalho é para lhes dar banho e de comer e que no dia a seguir volta tudo ao mesmo e que os anos passam-se e os miúdos crescem e nunca tiveram tempo de qualidade para os mimar.
As conclusões estão na minha cabeça mas prefiro nem verbalizar porque acho que todos chegamos lá.
Pensei, também, no Miguel Esteves Cardoso (e eu até lhe pedia perdão por isto mas haverão, certamente, coisas que o ralem mais do que pensar no facto de eu ter pensado em si), e nas coisas que escreve e porque é que umas são tão clarividentes e aconchegantes, por serem tão próximas da mortalidade de qualquer um, e porque é que depois se espalha ao comprido em coisas sem sentido nenhum e que não interessam, verdadeiramente, a ninguém. E eu perco-me ali naquela esquizofrenia e depois, estranhamente, isso faz-me sentir bem e volto a gostar do Miguel Esteves Cardoso e do que escreve e do que vai naquela cabeça contaminada de mundo.
Pensei, depois, nas dietas e em como tanta propaganda a sementes, batidos e cenas Detox não anda, claramente, a chegar a um público assim tão alargado como se pensa, e basta ir à praia para confirmar isto. Pensei na democracia dos biquínis, e em como não há nada a esconder com um biquíni vestido e em como, supostamente, somos todos iguais, ali, expostos sem roupa, e também sem classe social, sem educação ou formação, sem religião, sem nacionalidade, sem clubes nem partidos. Somos todos iguais para o bem e para o mal. A única coisa que nos distingue quando nos expomos num biquíni é o bom-senso, ou falta dele. E isto levou-me a pensar em como, estranhamente, as mulheres parecem não querer esconder nada quando chega a hora de ir para a praia. Pensei: somos fodidas. Durante um ano inteiro, queixamo-nos que estamos gordas e que não podemos comer isto e aquilo. Andamos um ano a queixar-nos que não podemos usar leggings indiscriminadamente porque se vê isto e aquilo, que não podemos usar blusas sem soutien porque se nota isto e aquilo, que não podemos comer uma dúzia de lasanhas por semana porque se vai notar isto e aquilo, e depois... Depois chegamos à praia e vestimos um biquíni (que nalguns casos parece ser engolido pelo próprio corpo), malhamos todos os dias, orgulhosamente, uma bola-de-berlim (ou berlinde, como ouvi ao balcão de um café - priceless!) como se por estarmos na praia elas não engordassem, e ainda nos damos ao desplante de dar uma caminhada pela beira-mar (coisas que nos recusamos a fazer durante o ano porque cansa muito) para nos verem bem o corpo de hibernação que conseguimos durante um inverno rigoroso. E é, também, por isto que cada vez compreendo menos as pessoas, e muito menos as mulheres. Também descobri que os fatos-de-banho foram peças que caíram em desgraça nas graças de muitas senhoras que deveriam reconsiderar o seu regresso.
Depois parei para pensar nos homens, e não precisei de dois minutos para concluir que usam o que lhes apetece, podem engordar que nem uns ursos, e usar tangas ridículas (não sungas) tiradas da arca do enxoval de 1984, que ninguém quer saber. Está tudo bem. Menos os olhinhos das pessoas.
Pensei, finalmente, no quão fartos os pais estão de ser pais. Ou no quão infelizes os pais descobriram que podiam ser depois do sonho que idealizaram que seria a paternidade. A falta de paciência e a agressividade latente no vocabulário, na linguagem não verbal, nos movimentos do corpo. Vê-se: a maioria da pessoas com que me cruzei, odeia ser pai, está farto dos filhos, odeia as obrigações e já não vê prazer nenhum na rotina e na vida com crianças. A educação passou a ser sinónimo de repreensão e ninguém se dá ao trabalho de dar um beijo nos filhos, um abraço, de rir com as crianças, de as elogiar, de dizer "a mamã e o papá gostam muito de ti". Não se incentiva, minimamente, o amor, os afectos, e só vi semearem um futuro muito incerto no que às relações pais/filhos diz respeito. Só vi pais a criarem filhos inseguros, com medos, ou desprovidos da noção de afecto. E um dia a factura vai ser cobrada e depois ninguém vai perceber porque é que o valor é tão alto. Estou só a dizer... Fiquei preocupada e ao mesmo tempo fez-me pensar que, se um dia for mãe, terei de regressar mentalmente muitas vezes a estes dias e reflectir sobre que mãe quero ser e que filhos quero criar. Se vou querer passar o dia a repreendê-los, a chatear-me e a criar um fosso emocional entre nós, ou se, em vez disso, me encho de paciência, conto até dez, pego nos putos pela mão, levo-os à beira-mar, e finjo que gosto muito de brincar aos castelos de areia, de ganhar um Kilimanjaro de areia no pipi, e de apanhar escaldões nas costas por andar sempre vergada a agarrá-los. Metáfora parva que espero me sirva para muitas coisas na vida. E espero nunca me esquecer disto. Nunca.
Não pude deixar de pensar, também, em como muitos destes pais se queixam o ano inteiro que não têm tempo para os miúdos. Que se lamentam que o tempo que lhes resta depois do trabalho é para lhes dar banho e de comer e que no dia a seguir volta tudo ao mesmo e que os anos passam-se e os miúdos crescem e nunca tiveram tempo de qualidade para os mimar.
As conclusões estão na minha cabeça mas prefiro nem verbalizar porque acho que todos chegamos lá.
E pronto, mais coisa menos coisa foi isto. Houve, portanto, todo um alinhamento de pensamentos muito coerente e também isso me dá que pensar.
(E, foda-se, que vim mais disléxica que nunca das férias e este texto demorou mais horas a escrever e a corrigir que a bíblia a ser lida em mandarim por um gago).
7.8.14
5.8.14
Maria
David Bellemère
Bela serias sem o senão,
Maria, filha de pais bentos,
Irmã de um pouco santo irmão,
Desconcertas olhares,
Sabendo-os olhares de descontento.
Fosses tu ó Maria,
Mulher de triste envergadura,
Ninguém de frente te olharia,
À tua passagem ondulante,
Não despertarias invejas e amargura.
Se outras mulheres te enxergassem,
Bem sabes tu no que daria.
Os seus homens andariam tortos,
De olhos vesgos entesados,
Sonhariam seres tu, ó Maria!
Perde-te pelos pecados escabrosos,
Não te quedes a quem te maldizer.
Aproveita os homens das outras,
Não tenhas pressas em ter um teu,
Um só homem na vida só nos faz sofrer.
Pelas mãos do pecado nasceste,
Nas terras sujas hás-de morrer.
Aproveita o calor dos corpos Maria,
Enquanto a vida tem o que viver.
31.7.14
Repetições # 3
Hoje é dia da etiqueta "Repetições".
É caso para dizer que, há exactamente um ano, acabou-se um sofrimento e aprendeu-se uma lição.
Quando era muito pequena, ainda não sabia ler nem escrever, preconizei aquele que havia de ser o meu maior exercício de humildade. Ou pelo menos o mais emblemático e que me viria a servir, no futuro, de termo de comparação com outros momentos idênticos. Tive consciência dele apenas uns anos mais tarde mas sei que foi nessa idade, em que os dentes de leite ainda estavam para ficar, que comecei um percurso de auto-análise. De tomada de consciência. De uma das muitas lições de vida que viria a ter.
Nesse tempo, em que era ginasta, tinha muita vaidade em ser a menina que era escolhida para a linha da frente da formação. Aquela que todos conseguiriam ver a fazer as cambalhotas, os pinos e as espargatas. Um orgulho. Gostava do aprumo do maillot azul com a gola de marinheiro. Do pequeno apanhado no cabelo. Da pose de pequena diva da ginástica, com as costas rigorosamente direitas e rígidas.
Até que um dia, passados meia-dúzia de anos, descobri em casa da minha prima, que também tinha pertencido ao mesmo grupo de ginástica rítmica, uma cassete de vídeo que o meu tio tinha guardado, religiosamente, com uma autocolante a anunciar "Sarau de ginástica 1985".
Eu e a minha prima lá fomos ver a cassete e eu, como é óbvio, transparecia uma evidente segurança de que iríamos assistir apenas a mais um grande momento da minha infância, cheia de genialidade. Mas o que acabei a ver foi uma menina, perdida no meio de outras meninas. Com um maillot azul com gola de marinheiro, igual ao de todas as outras meninas, agarrada a uma boia, a uma bola, a um arco e a tentar encontrar o X no chão que indicava a minha posição e completamente interessada em chamar a atenção do público em vez de cumprir a minha rotina.
Nesse dia vi a menina que não conseguiu fazer o pino depois de três tentativas esforçadas, apesar de, nas minhas felizes memórias, apenas recordar um sarau fora de série em que eu tinha cumprido o que esperavam de mim, com grande sucesso.
Foi preciso meia-dúzia de anos depois para ter o meu exercício de humildade.
Foi preciso meia-dúzia de anos depois para ter o meu exercício de humildade.
Coloquei em perspectiva aquela nova consciência e soube, a partir daí, que o que achamos de nós nem sempre é o que realmente somos. Aprendi, a partir desse dia, que afinal prometo muito e realizo pouco. Que sou uma fraude.
Aprendi que era escolhida para a linha da frente pela conveniência de ser a mais pequena e não por ser a melhor. Aprendi que só temos uma oportunidade para fazer o nosso melhor e que as restantes tentativas são apenas o aumentar do número de falhas.
Trinta anos volvidos e fui obrigada a lembrar-me do meu maillot azul com gola de marinheiro.
Relembrei, com a dor de quem se viu humilhado, que as expectativas sobre mim não se cumpriram e que, ainda assim, havia uma lição a reter daquele momento: a lição de humildade.
Hoje, perante um júri de mulheres e homens adultos, em que me defendi, defendi um trabalho suado e sofrido, e em que fiz o pino à primeira e sem quaisquer ajudas, voltei a ter a minha lição de humildade.
Erradamente, defendi que o papel de um arquitecto, quando passa por intervir num edifício histórico, deve ser mais modesto e menos centrado em si e que, resumidamente, se trata de um exercício de humildade para um arquitecto assumir a responsabilidade de intervir num edifício sem impor a sua marca.
A referência a "um exercício de humildade" foi mal acolhido por uma troika de divas que, naturalmente, adoram tudo nesta vida menos o conceito de humildade.
Erro o meu.
Para mostrar interesse em esclarecer todas as questões, a menina do maillot azul que nunca concretizava o pino à primeira, ainda tentou explicar que "humildade", naquele contexto, significava respeito. Respeito pela pré-existência, pelo edifício, pela sua história.
Segundo erro.
Dois conceitos, altamente desconhecidos para os jurados num dia só: Humildade e Respeito.
Admito que foi puxar pela minha sorte, esquecer a minha sina e gozar com o meu karma, mas ninguém me iria defender a não ser eu própria. E preferi arriscar a ficar parada a ver os outros brilharem com as piruetas. Mas voltei a ser colocada na primeira fila.
Admito que foi puxar pela minha sorte, esquecer a minha sina e gozar com o meu karma, mas ninguém me iria defender a não ser eu própria. E preferi arriscar a ficar parada a ver os outros brilharem com as piruetas. Mas voltei a ser colocada na primeira fila.
Naquele momento senti-me pequenina. A fazer investidas contra a esteira, uma e outra vez, sem nunca conseguir fazer o pino.
Tive o meu exercício de humildade.
Pelo menos hoje, alguém o teve.
29.7.14
O Twin Peaks é para meninos
Muito medo.
É o que me lembro do Twin Peaks.
Sei que, numa época em que só existiam dois canais, não havia grande filtro naquilo que se via na televisão lá de casa. Por essa razão vi coisas tão didáticas para uma criança de dez anos como o Twin Peaks.
Na realidade, não me lembro de imagens em particular ou, até, da trama, mas aquela musiquinha diabólica... por céus... aquilo mete-se no cérebro e, por isso, mantive sempre uma memória muito sombria desta série. Digamos que o nome Laura nunca seria uma hipótese para meter a uma filha minha. Há uma imagem de carnes retalhadas de tom azulado que associo ao nome Laura, e que não me apetece nada perpetuar.
Mas ontem, tantos anos depois de meter o Twin Peaks e a Laura Palmer arrecadados num canto qualquer empoeirado da minha memória, li uma notícia que veio ressuscitar aquilo tudo.
Ontem, ao ler n'O Público que o David Lynch se preparava para revelar algumas imagens inéditas da Laura Palmer, senti o mesmo calafrio a subir-me pela coluna. Verdade: a imagem que acompanhava o artigo, da Laura Palmer meia-morta meia-viva, também não ajudava. Mas depois fiquei a contorcer-me com aquela curiosidade sinistra e lá fui procurar uns resumos de uns episódios, o trailer, e umas imagens que me avivassem a memória (para quê, pergunto eu?) e tive, exactamente, a mesma sensação de desconforto. É alucinação a mais para a minha fraca resistência cardíaca.
Por isso, David Lynch, não tenhas pressa rapaz.
Nos "entretantos", enquanto eu me mentalizava que aquela séria, na verdade, não exibia nada que não tivesse já acontecido na realidade e que até se aproximava de alguns homicídios que de vez em quando aparecem nos noticiários, eis que ando umas páginas à frente e lá estava isto...
http://www.publico.pt/mundo/noticia/adolescente-japonesa-detida-por-suspeita-de-decapitacao-de-colega-de-escola-1664526
E pensei para comigo: "Não. Nunca haverá imaginação nem enredo de telenovela que supere a realidade".
http://www.publico.pt/mundo/noticia/adolescente-japonesa-detida-por-suspeita-de-decapitacao-de-colega-de-escola-1664526
E pensei para comigo: "Não. Nunca haverá imaginação nem enredo de telenovela que supere a realidade".
O mundo está mesmo para a acabar, não está?
Muito medo devo eu ter mas do que se anda a passar nas ruas e não na televisão.
Afinal, vai-se a ver, e o Twin Peaks era para meninos não era?
Muito medo devo eu ter mas do que se anda a passar nas ruas e não na televisão.
Afinal, vai-se a ver, e o Twin Peaks era para meninos não era?
28.7.14
Post mortem
Lembro-me, estranhamente, do teu cheiro.
Uma mistura de madeiras quente e doce, com tabaco e Whisky.
Parecias trazer sempre o Verão.
Cheiravas bem.
Lembro-me da tua camisa rosa, de mangas arregaçadas.
Sempre engomada.
Denunciava o brio das mãos de uma empregada devota.
Lembro-me do teu cabelo. Claro que sim.
Todas as pessoas te conheciam o cabelo.
Ruivo, como as tuas sardas.
Temperamental, como o teu feitio.
Lembro-me do teu riso engraçado.
Cheio de humor inteligente.
Cheio de alegria.
Assim julgava eu.
Lembro-me de seres um homem maior que tu mesmo.
Megalómano. Inesquecível. Gigante.
Lembro-me do teu à vontade.
Dos teus cumprimentos honestos.
De como me juntavas dois beijos à face como se eu fosse uma filha.
Lembro-me do teu nome. Completo.
Da tua assinatura.
E de como ela deixou de se reproduzir.
De como o quiseste apagar.
Dessa maneira tão triste e fatal.
Tão definitiva e dramática.
Lembro-me das últimas palavras que me disseste.
Sem que soubesse que seriam as últimas.
Lembro-me da manhã seguinte.
Das palavras atropeladas.
Lembro-me de me perguntarem se eu já sabia.
Se eu já sabia que tinhas ditado o teu fim.
E não, eu não sabia.
Nem sequer esperava.
O que me lembro, muito bem,
Muito tempo antes dessa decisão,
É que os teus olhos tristes,
Há muito,
gritavam:
Solidão.
22.7.14
Da podridão
Quando o coração apodrece,
Morre-se o sangue.
Matam-se todas as vidas dentro da vida de um corpo.
As vísceras mirram-se, lentamente, de fora para dentro.
Como as emoções. Qual desamor.
O baço escurece-se.
Falece em primeiro.
Desiste dentro de nós.
Os fígados e as entranhas misturam-se como lamas,
Ficam negros.
Como a dor.
Os rins, esses silos de emoções,
Despedaçam-se de tristeza.
Perguntam-se pela generosidade do coração.
O coração ironiza-se. De mau.
Quando se apodrecem as artérias,
Não mais se irrigam os canais.
Os nossos. Os que nos levam aos outros.
Matamo-nos a nós.
Matamos a viagem dos outros até nós.
Quando apodrecemos por dentro,
Mesmo com a pele imaculada por fora,
A sepultura já está cavada.
Metemos lá os sentimentos.
Quando o coração apodrece.
Nada mais há para salvar.
Morremos sós.
Morremos tão sós.
Subscrever:
Mensagens (Atom)






