4.9.14

Amores literários, quem os não tem?

(Deve ser a melhor foto de sempre... por tudo... ha ha ha...)



Apaixono-me muitas vezes pelos homens que leio. Admito, no entanto, que sejam mais as vezes que não simpatizo ou empatizo com um homem pelo que escreve (há coisas muito más por aí, não há?) do que aquelas pelas quais me perco de amores. É engraçado constatar como também há sexualidade e distinção de géneros nesta coisa da literatura, porque, pelas mulheres que leio sinto apenas uma imensa admiração e de algumas nem tanto. Pensando bem talvez a Florbela me tenha feito revirar os olhinhos. Ou, pensando ainda melhor, talvez a culpa seja mesmo minha e nem dê hipótese às mulheres. Tenho de rever estes preconceitos.

Mas acerca de me perder de amores pelos homens que leio. E apenas sobre eles:
No início vieram os amantes do costume: Eça de Queiroz e Fernando Pessoa. Tentei o Almada Negreiros mas não me senti correspondida. Talvez com a idade me venha a render. Todos sabemos que existem pessoas certas mas nas alturas erradas. Pode bem ser o caso.
Aconteceu-me também, há muitos e longos anos, ter-me apaixonado pelo Paulo Coelho. Mas prefiro não falar disso. Todos temos um amor que anos mais tarde recalcamos, neste caso por razões que me parecem óbvias. 
Depois, iluminadamente, descobri Kafka, e Sartre, e Daudet, e Italo Calvino, e Wilde. Anos a devorá-los a todos aos mesmo tempo. Confuso, muito confuso. Daqueles amores coletivos que quanto mais dúvidas nos levantam mais nos viciamos neles. Também me embeicei pelo Rimbaud, porque me parecia precisar de colo. Mas o amor maior de todos, ainda hoje intenso e carnal, encontrei nas lamurias de Sartre. Ainda conheci o Al Berto mas achei-o demasiado grande para mim. Grande, de grandioso. Não estava preparada para uma relação de tamanha maturidade. Mas penso nele como o amante de meia-idade, de ar sisudo, que se esconde dos pais, mas que não pára de nos assombrar os pensamentos. Aquele com quem desejamos passar noites inteiras num hotel, onde se esqueceram de pagar a conta da luz. Um dia, sei, voltarei a Al Berto, como uma mulher frágil que procura o calor de um homem vivido.

Entre os meus vinte e os meus trinta anos dormi com muito lixo e nunca me apaixonei. Nos livros como na vida.

Com a chegada dos trinta anos (a melhor década para amar, dizem), tive um pequeno arremesso de coração pelo José Saramago. Mas já era tarde. Para mim e para ele, que já estava morto há um tempo. E eu lá acabei por controlar as palpitações e agora revisito pontualmente a sua escrita, como uma namorada que relê as cartas de um amor já terminado. 
Entretanto, tinha uma declaração (quase amorosa) escrita à um ror de tempo para fazer ao Manuel António Pina, mas comecei a ver muito mulherio a fazer o mesmo e retraí-me. Faz muitas viagens de comboio comigo, temos relações rápidas e fugazes, por vezes de um só dia, mas eu fico sempre plenamente satisfeita com o que ele me dá. Cumpre. Por mim está bom.

E eis que... e agora é que começa o verdadeiro caso de amor, de perdição diria até: aquela paixão que andava a adiar.
Eu sei, eu sei, venho uns quinze anos atrasada.
"Mas só agora é que te apaixonaste por ele?"
Sim, só agora.
Porque, à semelhança do que se passava nos meus tempos de liceu, eu não queria seguir a carneirada e ter uma paixoneta pelo rapaz mais giro e a quem todas as mocinhas arrastavam um par de asas. Eu mantinha-me fria e inflexível por fora, mas secretamente perdida de amores por dentro. Mas carneirada é que nunca! Aliás, sinto-me ridícula hoje, como sentia naquela época, por parecer que não tenho opinião própria e por chegar à constatação que, afinal, gosto do que todas as outras gostam. Mas eu andei em negação ao inegável. Um amor que já se adivinhava inevitável há muitos anos, e eu sabia disso.

Sim, é esse mesmo, houve o dia na minha vida em que me apaixonei pelo Miguel Esteves Cardoso (eu sei, pensavam que eu ia dizer Paulo Portas). Assim mesmo, depois de já todos os outros quinhentos mil milhões de mulheres se terem apaixonado. Fui a última a chegar. E então? E então vai-se passar o mesmo que no liceu: nada.

O Miguel Esteves Cardoso deve ser o homem mais feio que me lembro de ver. Também não creio que a idade lhe tenha feito bem, pelo contrário, mas pelo menos arranjou-lhe a desculpa que durante anos não teve.
No entanto (e tinha de haver um mas), é incrivelmente interessante por dentro. Ou naquilo que tem por dentro que deita publicamente cá para fora. É caso para dizer que, na modernidade dos tempos que correm, se safaria lindamente nas redes sociais de engate, em que não há fotografias de caras (ou, pelo menos, não das terrivelmente verdadeiras) e onde as pessoas têm oportunidade de mostrar tudo o que valem apenas pelo que escrevem. Verdade, pode haver pouca paciência para tamanha erudição e virtuosismo num ambiente tão, digamos, pragmático, mas, certamente, colheria o interesse de muitas almas.
Provavelmente, e já que assumi a minha mundanidade literária, à semelhança de todas as outras mulheres e homens, eu também não consigo dizer concretamente o que me apaixona no Miguel Esteves Cardoso. Será o sentido de humor? A visão do mundo? A escrita irrepreensível? A criatividade? A genica? A sua comum mortalidade?
Pode ser tudo. Podem ser todas estas coisas juntas e mais aquelas que não se vêem mas, tenho para mim, que se ele fosse um homem bonito eu não me apaixonaria tanto.
Como diria um amigo meu, ser-se feio, arrogante e burro é contra-natura porque contraria todos os instintos de sobrevivência. Um feio precisa, necessariamente, de ser amoroso ou inteligente. Creio que o contrário também será verdade. Se o Miguel Esteves Cardoso fosse bonito, afável e inteligente, dispararia um alarme de perigo, porque sabemos, instintivamente, que não existem homens assim.

Por tudo isto, meu caro Miguel Esteves Cardoso, acho que descobri porque é que, realmente, te amo.
Porque és um feio que escreve bonito.
E disso, já não há.



3.9.14

Filho de P.. Rorschach. Walter Kovacs.



E as coisas incríveis que eu descubro e aprendo com este blog?
Quando procurei uma imagem para o texto anterior "O filho de P.", não demorei muito a encontrá-la. Aquela fotografia encaixa na perfeição no texto que tinha feito há umas semanas. O que eu não esperava foi encontrar a história por trás.

Já me questionaram sobre as escolhas das imagens que acompanham os textos do blog. Mas pouco. Talvez para a maioria das pessoas passe completamente despercebida a importância da imagem ou da música que acompanha os textos mas numa grande maioria dos casos demoro mais tempo a pesquisar e a escolher a imagem do que a escrever um texto.
E existem duas razões para isto (talvez existam mais):
- Por um lado porque, quando escrevo um texto crio uma imagem, um ambiente, na minha cabeça e depois não descanso enquanto não encontro uma imagem correspondente ou semelhante. E isto pode demorar muito tempo. Também é verdade que nem sempre o consegui e, por essa razão, haverão por este blog fora imagens menos felizes.
- Por outro lado porque, quando finalmente encontro alguma(s) imagem(s) que me agrade(m) demoro algum tempo a tentar encontrar a fonte, que nem sempre encontro por já se tratarem de coisas perdidas pela net. Em todo o caso, fico por ali a deambular e acabo por encontrar outras coisas que me interessam, temas que desconhecia e histórias curiosas.

E foi precisamente quando Googlei "Son with his whor mother" para procurar uma imagem que se adequasse ao texto "O filho de P.", que dei de caras de imediato com a fotografia que pretendia mas, mais curioso ainda, encontrei uma história interessantíssima e que eu desconhecia por completo. No fundo, aquela fotografia já era um registo real de uma história fictícia, a de Walter Kovacs.
E quem raio é Walter Kovacs?
Parece que é o nome do super-herói (e agora vou entrar por terrenos pantanosos porque não domino minimamente a cena dos super-heróis e da banda desenhada e eu sei que há um mundo muito próprio e profundo...) cujo alter-ego se chama Rorschach (ninguém sabe dizer isto), "O Vigilante".


Quão fixe é descobrir coisas novas que não servem para nada aos 33 anos?
Muito.
(Desculpem-me o excitex).

Deixo uns links para quem quiser saber mais sobre o assunto:


O filho de P.




O filho de P. não gostava nada do nome da mãe.
Raramente se via uma criança ter uma opinião tão vincada sobre o nome dos progenitores mas o pequeno P. sabia bem o que o desagradava. É que o nome da sua mãe mais lhe parecia escrito na testa, de tão óbvio que era. A sua mãe parecia ter um grande "P" escrito na fronte e não era só ele que o via mas, também, todos os outros meninos e todos os pais desses meninos. Alguns pais até gostavam, o que lhe era muito desagradável.
Na sua escola havia um menino que também não gostava do nome da mãe mas não era gozado pelos outros. Era só um desconforto dele: não gostava que a mãe se chamasse Gertrudes. Um dia  até perguntou à mãe se quando ela nasceu já se chamava Gertrudes, tal era o peso do nome. Achava que só as mulheres velhas poderiam ter um nome daqueles. Mas este menino não era gozado pelos outros porque, mesmo que tivesse Gertrudes escrito na testa, ninguém se iria apoquentar. Era só um nome muito feio.
No entanto, o pequeno P., pouco confortado pelo desgosto do outro rapaz, continuava a levantar-se todos os dias a desejar que o nome da sua mãe fosse antes Gertrudes, e que tudo não passasse de um sonho terrível. Mas, mal pousava os pés no chão, desempenava um olho e depois o outro, e abria os ouvidos para o mundo, começava a ouvir os sons da casa e era logo confrontado com a realidade. A sua mãe tinha mesmo aquele nome. Ah, quão P. poderia mais ser sua mãe? Que desgosto! Que desgosto!!!
E todos os dias, e mais dias que passassem, na esperança que um dia a mãe se chamasse Gertrudes, ou Efigénia, ou Geraldina, qualquer coisa menos P., ele pedia a todos os santos, todos os dias a caminho da escola, para que um dia os seus colegas escarneassem bem alto: "FILHO DE UMA GRANDE GERTRUDES!!!!!. Ele não se iria importar.
Mas não.
Acabava e começava sempre os dias na escola a ouvir as mesmas crueldades dos seus colegas: "FILHO DE UMA GRANDE P.!!!!!
E o pior é que era mesmo verdade.
A sua mãe P. era mesmo muito grande. Muito, muito, grande. Era tão alta que, por vezes, nem se via a cabeça. Só se via o seu grande "P" ao peito. Um pendente que usava com orgulho. Dizia que tinha sido a sua mãezinha que lhe tinha deixado. "Grande presente para se deixar a uma filha", pensava o pequeno P., já a adivinhar a sua sorte, "quantos mais P.'s terei eu de herdar?"
Estava cansado de se debater e não encontrar um solução para acabar com tamanha agonia. Precisava de uma solução urgente.
E um dia, o pequeno P., lá parou para pensar.
Sabia que o nome da mãe nunca iria mudar, imaginava que a vida deles também não, já tinha percebido que há muito que estava condenado a ser conhecido como o filho de P., e pensou, seriamente, nas virtudes da mãe e não nos defeitos. Então, contra o quê estava a lutar? Contra a mãe? Contra os outros? Ou contra si?
Um dia, o pequeno P., lá parou de pensar e concluiu:
A única coisa que sempre esteve errada na sua vida, era a sua mãe não se chamar Gertrudes.




1.9.14

Ainda sobre o 25 de coiso



No mesmo dia em que tive a breve constatação de que "os meus 25 de Abril" não dão em nada, ainda aprendi umas quantas lições sobre o que pode ser isso de cada um fazer o seu 25 de Abril.

Logo depois de me ter lamuriado, saí do trabalho cedo - empenada pela falta de motivação - e peguei no carro convicta de que iria imediatamente para casa. Mas, pelo caminho, lá me lembrei daquele exame que ando para marcar há meses e que, por mera preguiça andava a adiar. E por isso lá me arrastei até à clinica para o marcar. Quando entrei vi a senhora do costume, com a sobranceria do costume, com a simpatia do costume, com os óculos na ponta do nariz como de costume. E esperei pela minha vez, como de costume, porque se há coisa que existe naquela casa são regras para os pacientes cumprirem. Mas nisto, sem tempo sequer de ver que lugar havia disponível, ouço uma voz detrás do balcão a chamar-me. E nem sequer estava na minha vez. Pensei, como mulher extremamente optimista na humanidade que sou, que já ia levar uma ripada. Mas não. Um jovem funcionário chamou-me de sorriso no rosto, perguntou-me em que podia ser útil, eu expliquei ao que ia, e o rapaz teve a amabilidade de me chamar a atenção para um erro na credencial que me faria pagar 1100% mais pelo exame. A colega, aquela que tem a atitude do costume, fitava-o pelo canto do olho. E a mim também. Certamente recordará o dia em que lhe pedi o livro de reclamações.
Eu agradeci a atenção, e prometi voltar com a credencial corrigida.
Já que estava numa de tratar do assunto, dirigi-me de imediato ao centro de saúde para auferir a possibilidade de alterar a dita credencial. Quando entrei, ao contrário da clinica privada, a sala de espera estava vazia e num silêncio absoluto. Talvez o facto de no privado se pagar 3,90€ por uma consulta em vez dos 5€ do público tenha influência, digo eu... 
Atrás do balcão, estava apenas uma senhora gorda, entalada entre os dois braços de uma cadeira, e com o olhar fixo mas perdido no ecrã do computador. O meu "boa tarde" não a fez pestanejar. Insisti: "boa tarde!".
- "Oh, boa tarde, desculpe, estava distraída".
- "boa tarde".
- "Em que posso ajudá-la?"
E a partir daqui não foi outra coisa que não extremamente simpática, atenciosa, disponível e útil. O problema foi resolvido em cinco minutos e eu vim, efetivamente, satisfeita.
Imbuída de tanta boa-disposição, de tanta alegria, perdi a vontade de ir logo para casa amargurar a cabeça na almofada e enfardar um pacote de aperitivos salgados. Decidi ainda parar no supermercado do bairro para comprar um queijinho fresco "que bem que me vai saber comer antes um queijinho fresco!". E lá fui, de andar leve e solto, em busca do dito queijo. E quando eu estava de mão esticada para resgatar um dos queijos da estante, passou-me nada mais, nada menos, que uma osga pelos pés. E eu pensei "fod*-s*...".
E não comprei o queijo.
Ao sair pela caixa do supermercado de mãos a abanar e de constrangimento na cara, a funcionária, que nunca me viu nem eu a ela, exclamou entusiasmada: "obrigada na mesma e até à próxima!". E eu pensei para comigo, que aquela miúda simpática já me tinha feito valer a ida àquele sítio.
Como se isto não me fizesse já pensar na vida e na atitude que decidimos ter perante ela, e nas lutas que decidimos travar, por vezes apenas contra nós, não resultando daí nenhum efeito positivo para o colectivo, eis que na manhã seguinte ainda me são abertos os olhos, só mais um bocadinho.
Uma cliente pergunta-me:
- "Em vez do livro de reclamações à vista posso ter antes o livro de elogios?"
Ao que eu ainda perguntei:
- "Mas existe livro de elogios?"
(E ouvi na minha cabeça: "Pumba, vai buscar! sua atrasada mental que nem sabias que existe livro de elogios e pensas que são todos uns deprimidos como tu. Always LOok on the bright side of life...")
O que há a reter disto? Que eu me foco nas coisas erradas mas há quem se foque nas coisas certas. Que há quem faça os 25 de Abril todos os dias, de forma consciente ou não, apenas para si ou envolvendo os outros mas usando sempre os cravos como arma. Esta pessoa, sem saber, fez uma revolução dentro de mim sem tiros (que era o que eu instintivamente faria): deu-me paz interior.

Não sei se já perceberam onde quero chegar com isto.

Cada uma destas pessoas teve a capacidade de revolucionar, à sua maneira, o meu dia. Não interessa se era o meu dia, poderia ter sido de outra pessoa qualquer. Conseguiram fazer a diferença na vida, ou num pequeno momento do dia, vá, de alguém. Quando eu estava convencidíssma que isto de andar a travar lutas sem balas já não estava a dar nada, cruzo-me com estas quatro pessoas, que me provam que as lutas se travam com bons estados de alma. É a tal teoria do copo meio-cheio ou meio-vazio. 
Levei ali uma lição de todo o tamanho, foi o que foi.
E ainda bem que estava desperta, aceitei os sinais, compreendi o que se estava a passar e, em vez de me convencer de que sou sempre eu que estou certa, abri o peito e a mente e deixei que Deus brincasse comigo e mostrasse que há outros meninos no parque com brincadeiras mais giras que a minha. 

E talvez sim, talvez, o 25 de Abril se faça todos os dias nas pequenas coisas, coletivamente ou pela vontade individual de cada um. Mas tenho a certeza que se faz.
A minha grande questão é: Que tenho feito eu de útil, e com impacto positivo na vida dos outros e na minha, com os meus 25 de Abril?



E pronto... fica um apontamento de humor... para amainar a cena.
[E não, fiquem descansados, que eu não vou dizer que o 25 de Abril é como o Natal, e que é quando um homem quiser, mas apetece-me.]


27.8.14

25 de Abril... às vezes



Todos os dias tento fazer um 25 de Abril.




Questiono-me, sempre, ao final de cada dia: Para quê?




25.8.14

A Grande Casa





Havia uma grande casa onde morava muita gente. Uns conheciam-se, outros não. Havia casos de pessoas que eram familiares entre si, de amigos que eram bons amigos e de outros amigos que eram apenas conhecidos. Mas também havia os que não simpatizavam com este ou aquele, e havia também aqueles que não gostavam de ninguém. Também habitavam na grande casa os que diziam que gostavam de toda  gente mas o "toda a gente" eram apenas eles próprios. Havia os altruístas e os egoístas mas os egoístas eram mais. Depois havia os porreiros, para quem estava sempre tudo bem, e havia os paranóicos, para quem havia sempre alguma coisa mal. Também habitava na casa uma ou outra pessoa invisível: "Quem?", "Faz o quê?", "Chama-se como?"... "Ah, pois. Não estou a ver quem é". E havia os distraídos.
Na grande casa, uns diziam, com orgulho, que eram todos uma grande família. Outros, mais conscientes, fugiam do convívio e recusavam afinidades. Eram os surdos, os cegos e os mudos. Mas não eram burros. Mas também os havia, os burros. Estavam na parte da alta da casa. Eram arrumados na parte mais alta da casa para não incomodarem os outros, ainda que eles pensassem que estavam na parte alta da casa por serem muito importantes. Mas não eram. Eram burros e ninguém os queria aturar.
Depois, havia aquele punhado de gente que arrumava, limpava, organizava, que mandava na casa, que a punha a funcionar, mas cujo nome ninguém sabia. Só sabiam, e era consensual, que eram necessários à casa. Como formigas obreiras. São precisas mas se alguma morrer depressa se substitui. Afinal, são todas iguais.
Na casa grande onde morava muita gente, podiam não saber os nomes uns dos outros, nem o que faziam, mas os habitantes da grande casa conheciam as muitas regras que ao longo dos anos se instituíram. Mas havia um problema: uns cumpriam-nas e outros não. A primeira regra, por exemplo, sabiam-na na ponta da língua: não era permitido entrar mais ninguém na grande casa. Recebiam-se visitas à porta, aceitavam-se cartas, de quando em vez até se admitia um presente, de uma alma mais misantropa, mas nunca, nunca, as regras admitiram que estranhos se instalassem na grande casa. Mas era sabido que esta regra há muito que demorava a vingar e que nem sempre havia sido cumprida. Pelos mais velhos. Os mais velhos da casa, antes da casa grande ter muita gente lá dentro, gostavam de receber visitas, de lhes aceitar os favores e de retribuir com favores também. Faziam-se festas e arraiais, fizeram-se negócios, compraram-se segredos, e venderam-se almas. Tudo dentro das muitas paredes da grande casa.
Os velhos estavam tão habituados a fazer tudo dentro da casa, que acabaram por se esquecer que as muitas paredes que os escondiam também tinham muitos recantos que os expunham. Muitas esquinas pontiagudas que juntavam sujidade que se acumulou por anos, e anos... Estavam tão confortáveis que nem repararam que os mais novos da casa, avessos a velhos hábitos, começaram aos poucos a limpar o pó. A arrumar os móveis. A sacudir os cortinados. E a encontrar os segredos, debaixo dos tapetes.
Um dia, quando os mais novos já estavam cansados de limpar o que os mais velhos continuavam a sujar, gerou-se um motim. E os mais velhos não compreendiam. Não percebiam o que tinha de mal. Quiseram convencer os novos que as vendas da alma tinham de se perpetuar. Como uma herança. Como um ritual.
Mas os mais novos recusaram vender-se e a sentença ficou lida: "A grande casa ficou pequena para vocês. Não são mais bem-vindos aqui".

Os mais novos não choraram.
Encheram o peito de orgulho e seguiram o seu caminho.
Com a alma, intacta, que não venderam.



21.8.14

Letargia



le·tar·gi·a 
substantivo feminino

1. Sono profundo em que a circulação e a respiração parecem estar suspensas.
2. [Figurado]  Apatiaindolência extrema.



Como podes deixar-te entregue a esse corpo que não vive?
Que não se ressuscita.
Como podes viver de olhos no chão entregue ao nada?
Como te suportas ao fim de um dia, dos longos dias, a viver só dentro de ti?
Consegues respirar?
Queres respirar?
Porque não te entregas de braços abertos ao mundo?
Porque não experimentas o amor?
Porque te condenas a não viver?
Gostas do silêncio.
Gostas da escuridão.
Gostas da solidão.
Gostas só de ti.
Porquê?
Porquê?
Porquê?
Porquê?
Não vês que a vida está aí?
Nessas coisas que matas com o olhar.
Nos livros que não queres ler.
Na música que não queres ouvir.
No ritmo que não queres dançar.
Nas notas que não queres entoar.
No toque que não queres tocar.
No beijo que não queres dar.
No ar que não queres respirar.
Que compaixão é essa que tens por ti?
Que desapego é esse que cultivas?
Que complacência é essa que alimentas na tua casa?
Tens orgulho em ti?
Nessa inércia?
Nessa vida que não tens?
Como podes deixar-te entregue a esse corpo que não vive?
Que não se ressuscita.
Não vês que mesmo que morras, ninguém quererá saber de ti?
Ou pensas que alguém te virá salvar?
Que alguém perguntará se já acordaste hoje?
Que alguém te virá ler ao ouvido, cantar-te uma música, e beijar-te os lábios?
Que alguém te vai dar a conhecer o mundo, a correr estradas, a cair num poço de ar?
Achas mesmo que alguém te vai despertar?
Achas mesmo que alguém te irá resgatar ?

Que sono profundo é esse onde cegaste e de onde já não mais queres acordar?



18.8.14

Estranhezas dos pensamentos de Verão





Tantas coisas para dizer durante esta minha ausência...
Tantos pensamentos, tantas conclusões e tão pouco papel e caneta para ir apontado coisas que acabaram por se desvanecer com o tempo.
De facto, a realidade há-de ser sempre o maior motor para a inspiração. E há sítios mais reais que outros. Por estes dias estive num desses lugares em que a realidade é, parolamente, mais dolorosa que no resto do mundo. Estou em crer que sim. E até pode ser divertido mas, depois de tantos dias, qual roda de hamster, começa a ser repetitivo e o cérebro começa a pensar em coisas sobre as quais nunca se tinha debruçado e, às tantas, já não sabemos se são alucinações  dos olhos ou rasteiras do cérebro.
E só continuamos a pensar cada vez mais e mais...

Pensei, para começar, mais uma vez nisto da solidão (claro!... boring...) mesmo estando-se rodeado de gente (aquele velho tema que, em algum momento da vida, todos conheceremos), e no sentido que faz entregarmo-nos à dor da solidão estando mal acompanhados, resignarmo-nos, quando podemos ser mais felizes sozinhos. Questionei que tipo de penitência é esta a que as pessoas se impõem? Mas, depois, também vi muitas pessoas sozinhas, e que me pareciam imensamente infelizes com isso. Pensei: haverá um ponto de equilíbrio?

Pensei, também, no Miguel Esteves Cardoso (e eu até lhe pedia perdão por isto mas haverão, certamente, coisas que o ralem mais do que pensar no facto de eu ter pensado em si), e nas coisas que escreve e porque é que umas são tão clarividentes e aconchegantes, por serem tão próximas da mortalidade de qualquer um, e porque é que depois se espalha ao comprido em coisas sem sentido nenhum e que não interessam, verdadeiramente, a ninguém. E eu perco-me ali naquela esquizofrenia e depois, estranhamente, isso faz-me sentir bem e volto a gostar do Miguel Esteves Cardoso e do que escreve e do que vai naquela cabeça contaminada de mundo.

Pensei, depois, nas dietas e em como tanta propaganda a sementes, batidos e cenas Detox não anda, claramente, a chegar a um público assim tão alargado como se pensa, e basta ir à praia para confirmar isto. Pensei na democracia dos biquínis, e em como não há nada a esconder com um biquíni vestido e em como, supostamente, somos todos iguais, ali, expostos sem roupa, e também sem classe social, sem educação ou formação, sem religião, sem nacionalidade, sem clubes nem partidos. Somos todos iguais para o bem e para o mal. A única coisa que nos distingue quando nos expomos num biquíni é o bom-senso, ou falta dele. E isto levou-me a pensar em como, estranhamente, as mulheres parecem não querer esconder nada quando chega a hora de ir para a praia. Pensei: somos fodidas. Durante um ano inteiro, queixamo-nos que estamos gordas e que não podemos comer isto e aquilo. Andamos um ano a queixar-nos que não podemos usar leggings indiscriminadamente porque se vê isto e aquilo, que não podemos usar blusas sem soutien porque se nota isto e aquilo, que não podemos comer uma dúzia de lasanhas por semana porque se vai notar isto e aquilo, e depois... Depois chegamos à praia e vestimos um biquíni (que nalguns casos parece ser engolido pelo próprio corpo), malhamos todos os dias, orgulhosamente, uma bola-de-berlim (ou berlinde, como ouvi ao balcão de um café - priceless!) como se por estarmos na praia elas não engordassem, e ainda nos damos ao desplante de dar uma caminhada pela beira-mar (coisas que nos recusamos a fazer durante o ano porque cansa muito) para nos verem bem o corpo de hibernação que conseguimos durante um inverno rigoroso. E é, também, por isto que cada vez compreendo menos as pessoas, e muito menos as mulheres. Também descobri que os fatos-de-banho foram peças que caíram em desgraça nas graças de muitas senhoras que deveriam reconsiderar o seu regresso.

Depois parei para pensar nos homens, e não precisei de dois minutos para concluir que usam o que lhes apetece, podem engordar que nem uns ursos, e usar tangas ridículas (não sungas) tiradas da arca do enxoval de 1984, que ninguém quer saber. Está tudo bem. Menos os olhinhos das pessoas.

Pensei, finalmente, no quão fartos os pais estão de ser pais. Ou no quão infelizes os pais descobriram que podiam ser depois do sonho que idealizaram que seria a paternidade. A falta de paciência e a agressividade latente no vocabulário, na linguagem não verbal, nos movimentos do corpo. Vê-se: a maioria da pessoas com que me cruzei, odeia ser pai, está farto dos filhos, odeia as obrigações e já não vê prazer nenhum na rotina e na vida com crianças. A educação passou a ser sinónimo de repreensão e ninguém se dá ao trabalho de dar um beijo nos filhos, um abraço, de rir com as crianças, de as elogiar, de dizer "a mamã e o papá gostam muito de ti". Não se incentiva, minimamente, o amor, os afectos, e só vi semearem um futuro muito incerto no que às relações pais/filhos diz respeito. Só vi pais a criarem filhos inseguros, com medos, ou desprovidos da noção de afecto. E um dia a factura vai ser cobrada e depois ninguém vai perceber porque é que o valor é tão alto. Estou só a dizer... Fiquei preocupada e ao mesmo tempo fez-me pensar que, se um dia for mãe, terei de regressar mentalmente muitas vezes a estes dias e reflectir sobre que mãe quero ser e que filhos quero criar.  Se vou querer passar o dia a repreendê-los, a chatear-me e a criar um fosso emocional entre nós, ou se, em vez disso, me encho de paciência, conto até dez, pego nos putos pela mão, levo-os à beira-mar, e finjo que gosto muito de brincar aos castelos de areia, de ganhar um Kilimanjaro de areia no pipi, e de apanhar escaldões nas costas por andar sempre vergada a agarrá-los. Metáfora parva que espero me sirva para muitas coisas na vida. E espero nunca me esquecer disto. Nunca.
Não pude deixar de pensar, também, em como muitos destes pais se queixam o ano inteiro que não têm tempo para os miúdos. Que se lamentam que o tempo que lhes resta depois do trabalho é para lhes dar banho e de comer e que no dia a seguir volta tudo ao mesmo e que os anos passam-se e os miúdos crescem e nunca tiveram tempo de qualidade para os mimar.
As conclusões estão na minha cabeça mas prefiro nem verbalizar porque acho que todos chegamos lá.


E pronto, mais coisa menos coisa foi isto. Houve, portanto, todo um alinhamento de pensamentos muito coerente e também isso me dá que pensar.


(E, foda-se, que vim mais disléxica que nunca das férias e este texto demorou mais horas a escrever e a corrigir que a bíblia a ser lida em mandarim por um gago).


7.8.14

Duas versões. A mesma história.





Não será sempre assim?




5.8.14

Maria


David Bellemère


Bela serias sem o senão,
Maria, filha de pais bentos,
Irmã de um pouco santo irmão,
Desconcertas olhares,
Sabendo-os olhares de descontento.

Fosses tu ó Maria,
Mulher de triste envergadura,
Ninguém de frente te olharia,
À tua passagem ondulante,
Não despertarias invejas e amargura.

Se outras mulheres te enxergassem,
Bem sabes tu no que daria.
Os seus homens andariam tortos,
De olhos vesgos entesados,
Sonhariam seres tu, ó Maria!

Perde-te pelos pecados escabrosos,
Não te quedes a quem te maldizer.
Aproveita os homens das outras,
Não tenhas pressas em ter um teu,
Um só homem na vida só nos faz sofrer.

Pelas mãos do pecado nasceste,
Nas terras sujas hás-de morrer.
Aproveita o calor dos corpos Maria,
Enquanto a vida tem o que viver.