26.9.14

Post Mortem (Áudio)





Post Mortem

Lembro-me, estranhamente, do teu cheiro.
Uma mistura de madeiras quente e doce, com tabaco e Whisky.
Parecias trazer sempre o Verão.
Cheiravas bem.
Lembro-me da tua camisa rosa, de mangas arregaçadas.
Sempre engomada.
Denunciava o brio das mãos de uma empregada devota.
Lembro-me do teu cabelo. Claro que sim.
Todas as pessoas te conheciam o cabelo.
Ruivo, como as tuas sardas.
Temperamental, como o teu feitio.
Lembro-me do teu riso engraçado.
Cheio de humor inteligente.
Cheio de alegria.
Assim julgava eu.
Lembro-me de seres um homem maior que tu mesmo.
Megalómano. Inesquecível. Gigante.
Lembro-me do teu à vontade.
Dos teus cumprimentos honestos.
De como me juntavas dois beijos à face como se eu fosse uma filha.
Lembro-me do teu nome. Completo.
Da tua assinatura.
E de como ela deixou de se reproduzir.
De como o quiseste apagar.
Dessa maneira tão triste e fatal.
Tão definitiva e dramática.
Lembro-me das últimas palavras que me disseste.
Sem que soubesse que seriam as últimas.
Lembro-me da manhã seguinte.
Das palavras atropeladas.
Lembro-me de me perguntarem se eu já sabia.
Se eu já sabia que tinhas ditado o teu fim.
E não, eu não sabia.
Nem sequer esperava.

O que me lembro, muito bem,
Muito tempo antes dessa decisão,
É que os teus olhos tristes,
Há muito,
gritavam:

Solidão.




Publicação original aqui!



Being John Malkovich?





Por estes dias todos estamos apaixonados pelo Malkovich, eu sei, eu sei.
Vamos todos dizer que afinal esta paixão era antiga e que não, não seguimos a carneirada, e que não, não foi uma surpresa este Malkovich reinventar-se. Também não seremos, certamente, influenciados pelos vídeos que recentemente começaram a circular na net e na comunicação social, onde Malkovich fala de Lisboa. Onde, apenas, fala de Lisboa. Não se enamora, não enaltece, não expecionaliza Lisboa. Só fala de Lisboa. Nós, vaidosos, é que abrilhantamos um vídeo de um homem, um actor americano (e isto é importante. Gostava de saber o impacto se fosse turco, indiano ou até mesmo português) que fala sobre uma cidade onde está a ser entrevistado e que, naturalmente, por cortesia, não iria fazer outra coisa que não fosse falar bem. Também é sabido pelo público que não se trata de um homem de emoções frondosas e, portanto, poderia estar apenas a ser contido, como sempre costuma ser. Em todo o caso não vi nada de apaixonado entre o homem e a cidade naquela entrevista. Apesar de achar ambos alvos óbvios e evidentes de amores de perdição, onde me incluo.
Mas adiante.

Malkovich aparece, entretanto, nesta sessão fotográfica de Sandro Miller onde protagoniza retratos icónicos e, em muitos casos, deixa-nos com pele de galinha. É o cérebro a enviar-nos a mensagem. De facto, ao olhar para o Hitchcock, fotografia que por alguma razão mais me impressionou, percebo a euforia: é um trabalho muito bem feito. Estão a dizer-nos que, o que (ou quem) estava aqui mas já não está, pode regressar quase num passe de mágica. Apenas temos de reproduzir a imagem, estática, em alguém, vivo. Ora, esta possibilidade, aos olhos da efemeridade do ser humano, transmite-nos uma ideia fortíssima: a da imortalidade. E da morte da saudade. O fim da saudade. E, afinal, se pudéssemos reproduzir todos aqueles que já partiram, que sentido daríamos à saudade?
Pois esta sessão fotográfica põe em causa muitos conceitos pré-estabelecidos na nossa mente e sobre os quais não nos debruçamos ou tentamos entender. Não são apenas réplicas inócuas, são exercícios mentais e testes de compreensão do universo e do sentido da vida. Do ciclo natural da vida.

Por outro lado, e por razões diferentes, senti uma comunhão especial com a fotografia das gémeas. Porquê? Porque a original de Diane Arbus já tinha esbarrado comigo aqui no Dias Cães para ilustrar um momento poético de Gonçalo M. Tavarese eu estava longe de saber da popularidade desta fotografia até hoje. "Afinal, gosto do mesmo que toda a gente" - foi a conclusão que me assomou. E depois precisei procurar mais sobre o assunto. Quem era a Diane, quem eram as gémeas, quem é o John Malkovich (acham mesmo que sabemos tudo?), quem é o Sandro Miller?
E a mais interessante descoberta chegou sobre as gémeas. Encontrei uma fotografia dos tempos de hoje. E isto mudou tudo.
Pensei: "Que importância tem chamar a poesia ao barulho, se a poesia acontece aqui mesmo, aos olhos de todos?"
Pois reparem como as gémeas, elas próprias, estão tão diferentes. Em como os olhos foram a única coisa que lhes restou. E reparem como a única coisa que o Malkovich transporta, de fotografia em fotografia, são também os olhos.
Ou seja, não precisávamos do Malkovich para estas transformações, porque elas se podem dar na própria pessoa. Através da própria pessoa. As gémeas, fossem elas actrizes, poder-se-iam ter submetido àquele extraordinário trabalho de caracterização e voltarem a ser elas próprias na infância. Mas se nem elas próprias já se parecem com elas, que sentido faz voltar a fazê-las parecer?
E que sentido faz, fazer reviver as crianças que já não o são, num homem que nunca o foi?
E eis que a morte e a saudade ganham aqui outra dimensão. Não podemos sentir saudade de morte, por alguém que nem morreu, mas sentimos, certamente, saudade do que já fomos, das crianças que nos contaram termos sido, ou das crianças que nos lembramos que os outros foram. Sentimos saudade do que já foi e já não volta. Independentemente dos personagens, dos protagonistas, sentimos saudade da saudade que iremos sentir quando nos apercebermos da perda.

E as duvidas irão, assim, acumular-se e persistir.
Afinal, o Malkovich vestiu a imagem das gémeas da fotografia de Diane Arbus, ou as personagens que ambas representavam?
Se se trata de uma representação da representação, onde fica a realidade? Nele, nas gémeas crianças, ou nas gémeas adultas?
Se tanto as gémeas adultas como Malkovich encarnaram as mesmas personagens das gémeas crianças, porque sentimos que a encenação das gémeas adultas traz mais verdade que a encenação de Malkovich?
Interessará a verdade quando falamos de arte, quando sabemos que tudo não passa de uma encenação?

Confuso?




24.9.14

Do sofrimento






O sofrimento que me espera,
Não é aquele que pensei ter.
Será mais duro.
Sofrido com dor.
E a dor mortificar-me-á.
As lágrimas serão dilúvios.

Descerei os degraus da vida,
E terei o que não queria dela:
A morte.
O silêncio da saudade.
As perguntas sem interrogação.
As dores em cadilhos.

A boca chorará,
Não mais que um par de dias.
Mas os olhos,
Este coração,
Sentirão dores agoniantes.
Render-se-ão às pantominas.


21.9.14

Anónima






O que te fez voltar agora, sua ingrata?
Que forças foram essas que te empurraram do sítio onde estás para este sítio onde estamos todos?
Terás perguntado a ti própria se te queríamos de volta?
Se nos fazias falta?
Claro que não.
Julgas-te imprescindível na vida de todos nós, salvadora do mundo.
Não o és.
Terás, porventura, reparado que continuámos todos a viver sem ti?
Que o mundo continuou a girar mesmo sem estares aqui?
Um dia houve em que a respiração se suspendeu de desgosto mas, logo depois, as vidas seguiram. 
Tínhamos todos de seguir.

Responde-me:
O que te fez voltar agora, sua ingrata?
A vaidade?
Tinhas saudades de ver alimentada a tua vaidade?
Que todos se vergassem em teu redor, te fizessem vénias à retórica arrogante?
Era isso?
Sentiste falta do nosso amor, mesmo que invisível, por ser o único que ainda te restava nesta vida?
E quando foi que isso aconteceu?
Num dia de chuva, acompanhada pela solidão de uma banheira cheia de água, enquanto ouvias os cães a ladrar na noite?
Quando caíste em ti e percebeste, finalmente, o quão sozinha estavas?

Não se regressa a casa de braços abertos à espera que os outros também o estejam.
Não se pode voltar cheia de alegria no peito quando os outros ainda limpam a devastação.
Não se pode abrir com um sorriso a mesma porta que se fechou com amargura, quando alguém ficou lá dentro.
Quem ficou trancado guardou a imagem da chuva que caía lá fora.
Como se pode depois chegar, abrir a porta, e anunciar que nunca o sol deixou de se iluminar?
Quem acreditará em tal coisa?
E se acreditar, como poderá não cobrar no minuto seguinte uma clausura que não merecia?

A tua alegria não é a nossa.
Não vês que há partidas que se dão por um tempo tão infinito, que já não se espera que alguém possa de lá voltar?





19.9.14

O foragido

Hoje vou andar entre o Dias Cães e o Black Velvet.
À meia-noite, apareçam pelo Facebook do BV para a apresentação do EBOOK e para meter conversa, se assim vos apetecer.
Para já, deixo-vos um texto e uma fotografia inéditos, com a assinatura Black Velvet.






*


02:45.

Eram 02:45 da madrugada de Sábado quando foi, finalmente encontrado pela polícia. 
Mal tratado, mal nutrido, mal encarado. Um caco de homem. Amedrontado, cheio de tremores no corpo frágil pelas noites a fugir sem comida no estômago e sem roupa no corpo. Não se deixava apanhar, ou tocar, como um animal selvagem que recusa a presença de humanos.
Os olhos gritavam medo, mas nem precisavam. Quando foi encontrado todo o seu corpo gritava pânico. Horror. Quem o olhou pela primeira vez naquela madrugada, mato adentro, sabia bem a razão dos medos daquele homem: tinha medo de ele próprio. Daquilo em que se tornou. Daquilo em que se deixou tornar.

*

O corpo dorido. Mais uma vez. Ela não sabia como era humanamente possível aguentar tanta dor. Mas ali, diante dos seus olhos, confirmava todos os dias os limites irrazoáveis da dor. O modo como o nosso corpo primeiro reage e depois se retrai, grita e depois cede, volta a reerguer-se e, finalmente, se rende ao chão. Impressionava-a a resistência. Olhava milimetricamente cada marca no corpo, cada mancha negra, cada rasgão, cada desenho feito de sangue pisado. Cada momento de agressão impresso na pele, como um livro que conta uma história. Já não sabia se as feridas eram de ontem ou de hoje, ou se seriam aquelas que há dois meses tanto sofrimento tinham causado.
Só sabia, sem consternações, o imenso prazer que lhes tinham dado fazer.

*

"O meu marido desapareceu de casa. Há dois dias que não o vejo, que não sei dele, que lhe perdi o contacto. Por favor ajudem-me!"

Dizia a mulher preocupada aos polícias que a receberam na esquadra. Quando questionada sobre os eventuais motivos ou inimigos do seu marido que justificassem o desaparecimento, disse não existirem quaisquer motivos para tal.
A polícia colocou a hipótese de rapto ou de acidente. A mulher chorava e o seu desespero alimentou mais as certezas de que não se trataria de um desaparecimento por vontade própria. Para além disso, pensavam os polícias, que marido seria louco o suficiente para querer fugir de uma mulher tão sensual? 
A polícia accionou todos os meios de procura do homem e durante uma semana pensou-se o pior. A mulher não parava de carpir as virtudes do marido e a dedicação que lhe tinha. Mas não tardaria muito a perceber-se as razões da fuga. As verdadeiras razões para um homem querer fugir da sua mulher dedicada, de corpo escultural, e sensualidade gritante.


*

De manta por cima do corpo, resguardado no banco de trás do carro com o corpo curvado sobre os joelhos, o homem seguia calado num silêncio ruidoso. Os polícias olhavam-no com suspeita e não paravam de se questionar e imaginar histórias em volta daquele homem. Todos tinham mulheres em casa, esposas, filhas, mães, e não compreendiam como poderia aquele infeliz ter-se envolvido daquela maneira com a sua própria mulher. Como teriam eles chegado àquilo? Em que momento se passa do amor e do respeito para uma situação de possessão, controlo, e violência?


*

- Porque razão fugiu? Sabe quantos homens e a quantidade meios envolvidos na sua procura? Não se brinca assim com as forças da autoridade, meu amigo!
- Mas eu... eu não podia não fugir. Estava sem saída. 
- Como assim? Explique-se homem? Que razões o levaram a fugir? A viver como um animal, escondido no mato, praticamente nu e cheio de fome?
- Eu... eu... não sei bem como explicar...
- Não temos tempo a perder, explique-se!
- No dia em que fugi, acordei com o corpo dorido. Mais uma vez. Eu não sabia como era humanamente possível aguentar tanta dor. Mas ali, diante dos meus olhos, confirmava todos os dias os limites irrazoáveis da minha dor. O modo como o meu corpo reagia e depois se retraia, como gritava e depois cedia, como voltava a reerguer-se e, finalmente, a render-se ao chão. Impressionava-me a minha resistência. Olhava milimetricamente cada marca no meu corpo, cada mancha negra, cada rasgão, cada desenho feito de sangue pisado. Cada momento de agressão impresso na pele, como um livro que conta uma história. A minha história. Já não sabia se as feridas eram de ontem ou de hoje, ou se seriam aquelas que há dois meses tanto sofrimento me tinham causado.
Só sabia, porque lhe via nos olhos, o imenso prazer que lhes tinham dado fazer.
- O que é que nos está a dizer? Que essas marcas no seu corpo lhe foram infligidas antes de fugir? Que alguém lhe fez isso? Quem? Conte-nos quem?!!

- A minha adorada mulher. Aquela que vêem ali fora chorosa. Essa mesma que olharam com desejo quando a viram entrar na esquadra pela primeira vez. Esta mulher, mantém-me preso há anos no nosso quarto. Alimenta-me, dá-me banho, e ama-me, mas nunca me deixou sair do quarto. 
Todos os dias, ao sair do trabalho, chegava a casa enlouquecida de desejo. Só aí me tirava as algemas e me deixava alimentar e fazer as necessidades sob sua vigilância. Logo depois voltava a algemar-me à cama e a consumir-me até ela se esgotar. Quando eu desfalecia de dor e de cansaço, batia-me. Chicoteava-me. Gritava-me. 
Há anos que sou o seu prisioneiro. O seu escravo sexual. Nunca me sentiu, verdadeiramente, amor. Para ela sou apenas um objecto. E foi apenas por esse objeto que a terão visto chorar.


*

Os outros homens olhavam-no com dúvidas. 
Mas, perante aquele cenário de sofrimento, tomaram uma decisão: prenderam-no nesse mesmo dia, sem pena para cumprir.
Apenas para o proteger.




Black Velvet




Hoje, lá pela meia-noite, eu e o Jon Gavin, iremos ressuscitar um blog que fizemos nascer em conjunto num tempo de loucuras sem fim nas nossas vidas e que rapidamente considerámos esgotado e abandonámos.
Passado um ano desde a sua criação bateu a saudade e a nostalgia e decidimos dar mais qualquer coisa ao blog e aos nossos leitores que, mesmo um ano depois, continuaram a chegar até nós.
Surgiu assim a ideia de fazer um ebook com todas as fotografias e textos do Black Velvet e, quem sabe, isso se venha a traduzir nalguns exemplares em papel para oferecer aos leitores.


Estaremos, então, online  para vos receber e saber a vossa opinião, no blog ou na página do Black Velvet no Facebook.


Encontramo-nos à meia-noite?



10.9.14

Espelho meu, espelho meu...




Não encontro uma razão imediata para ler blogs ou sites com os quais não me identifico, ou que nem têm nada a ver com os meus interesses, mas a verdade é que tenho a rotina diária de ver alguns.

Hoje, ao ler um post de um desses blogs, um tanto nada presunçoso e egocêntrico, parei para pensar na visão que temos de nós próprios. Nada de novo, amiúde todos o fazemos, mas voltei a pensar nisso. O que é que nos faz vermo-nos de uma maneira tão distorcida em relação à realidade? Conheceremos a realidade, sequer? A realidade é o que nós vemos, o que os outros vêem, ou o que o espelho mostra? Seremos todos iguais: ver-nos-emos todos piores do que realmente somos? Ou ver-nos-emos, apenas, de maneira diferente? Isto parece-me, e apenas esta última questão, que será inevitável que assim seja.

A minha realidade é a maneira como me vejo no espelho. A imagem que ele me devolve. Mas sei que é diferente da imagem que os outros têm de mim (ou então estão só a ser simpáticos, seus filhos da mãe). E essa imagem que eu vejo não é simpática ou, pelo menos, não era aquela que eu gostaria de ver. Há dias - muitos - em que acho que nem sou eu que estou no espelho porque a maneira como me vejo, ou imagino, é mesmo diferente da verdade. Só posso acreditar que há muitas pessoas na mesma situação. No entanto, tenho cá a minha vaidade e não deixo que o corpo seja o meu maior inimigo. Mas também sei que não me ficava nada bem exibi-lo. Dava assim uma ar de quem não se enxerga. E eu enxergo-me.

Mas dizia eu que, ao ler esse blog, pensei na maneira como olhamos para nós e como é bom vermo-nos de uma maneira bonita. Que tranquilizador é. Mesmo que não seja isso que os outros vêem. Porque a autora desse blog, mesmo dizendo que não, que é um horror, que ainda não é o que gostaria de ser, tem de ter uma imagem de si própria muito positiva para se mostrar da maneira que mostra. Também acho que pode ser uma forma de pedir validação e de saber que é aceite pelos outros mas, aos meus olhos, não passa de um exercício de autobajulação. Um polimento de ego. Ao contrário do que deveria, eu só lhe vejo insegurança. Não é uma crítica, é a minha perspectiva.

Depois perdi logo os meus pensamentos para várias pessoas que conheço também com problemas de segurança mas que trilham um caminho oposto: as "invisíveis da sociedade".
As "invisíveis da sociedade" são aquelas pessoas que ninguém sabe que existem porque elas próprias se escondem. Que são umas tristes (de todas as formas que se pode emocionalmente ser), que se escondem por trás de corpos-muito-pouco-danone, e de roupas de tons bege e cinza, que rezam para que o cabelo as escondas e que vêem nos óculos o seu muro de protecção. São pessoas em quem ninguém repara. Elas próprias contribuem para isso. E porque será? É o seu espelho que é diferente dos outros? Será que não têm daqueles espelhos bonitos, que só devolve imagens tranquilizadoras?

Sabemos todos a resposta: é uma questão de auto-estima.

Alguns de nós só vêem o espelho. Outros, como eu, admitindo que o espelho está certo mesmo sem ser muito animador, ainda tenta salvar a coisa, no último minuto, com um batôn, porque a auto-estima não está lá nos píncaros mas também não tem razões para andar deprimida. Também há os que se vêem muito melhores do que realmente são: os ignorantes e felizes e com uma auto-estima do catano. Depois temos os que vêem além do espelho e seguem com a sua vida: os realistas, equilibrados, bem-resolvidos a quem lhes foi ensinado que devemos aceitar o que temos e que, o que temos, é sempre o melhor que poderíamos ter.
E, finalmente, lá estão os "invisíveis da sociedade", de auto-estima agastada, perdida, sem capacidade de ressurreição. E não poderiam estas pessoas, mesmo que se tratem de trambolhos, olhar-se no espelho e verem-se no seu melhor? Verem uma realidade qualquer que não a do espelho e a dos outros? Podiam, claro que podiam, à semelhança dos ignorantes e felizes. Dos que, tão simplesmente, têm auto-estima. Porque no início e no fim de cada dia, quando nos olhamos ao espelho, é apenas disso que se trata: ter auto-estima.





9.9.14

O Mar (Áudio)



O mar


Mar calmo.
Chão morto.
Ondas que se arrastam sobre si,
Como num namoro condescendente.
Calmas onde que se beijam,
Se almejam sem fulgor.

Horizonte cristalino,
Sobre o mar azul parado.
Sobre jade envidraçado.
Calmo amor entre ondas e mar.
Arrebatado abraço entre horizonte a deslumbrar.
Vida viva, inerte.
Batimentos de arrebatar.


Ao Rui.




5.9.14

Dear Joan Rivers...





... Então, quinaste minha malandra?
Pois não se faz, não se faz...


Espero que no sítio onde estás haja aquilo a que nós por cá, em Portugal, carinhosamente chamamos de "putas e vinho verde". 

É que tu não és pessoa de se ficar por contemplações em prados verdes com querubins a azucrinarem-te o cérebro. Eu sei que não. Sabemos todos.

Entretanto, e apesar de assumidamente ir sentir a tua falta, espero que nos voltemos a encontrar daqui por muitos e longos anos mas, até lá, espero que por aí tenhas muita ramboia e Martini do bom.