31.10.14

Encenações



Sabes uma coisa?

Eu sei.


[E não foste tu que me contaste]



30.10.14

Ao largo do Camões aprendi



Tenho saudades tuas.

Tenho saudades da tarde em que comemos um gelado no Camões.
Sentados aos pés da estátua, sem cruzar muito os nossos olhares, apenas a trocar palavras contidas.
Recordo muitas vezes aquele dia em que nos vimos pela primeira e última vez. Ainda sinto saudades daquele dia, dos tremores na barriga antes de chegar a ti, dos sorrisos nervosos e hesitantes quando te encontrei, das palavras que me faltavam pelo caminho. Apesar do embaraço, do desconforto, que senti por ser eu mesma e não alguém melhor, senti-me ser invadida, aos poucos, por uma tranquilidade que vinha de ti. Foste bom comigo. Agradeço-te por isso.

Não me recordo exactamente da despedia. Tê-la-ei apagado da memória. Mas recordo-me do caminho até casa, que fiz a pé para poder repetir dentro da minha cabeça cada minuto contigo, sem interferências. Lembro-me da temperatura amena. Lembro-me de caminhar de cabeça caída para trás. Lembro-me de ter desejado que o teu corpo se tivesse colado ao meu, em algum momento antes da despedida. Lembro-me de não me apetecer estar com mais ninguém para além de ti e de desejar muito que aquele momento cristalizasse e se prolongasse pela noite dentro. Mas não podia ter sido assim.

Depois de nos despedirmos voltei a casa. Despi-me e tomei um banho de água quente. Voltei a vestir-me de outra pessoa que não era, para ir ao encontro de alguém com quem não queria estar. Caminhei uma vez mais a pé, para pensar e me castigar por ter tomado duas decisões erradas no mesmo dia. Caminhei, cheguei junto dessa pessoa sem sentir nada, jantámos, trocámos palavras sem calor (lembro-me de ele não parar de se auto-elogiar, de falar apenas de si, de quão excepcional era e de como o mundo girava à sua volta, sem nunca, sequer, perguntar se eu estava bem) e saímos do restaurante comigo em silêncio, eu com a cabeça em ti, e ele a matraquear-me conversas sem interesse.
Queria levar-me a casa, tentar o que não tentámos os dois, para se elogiar no fim.
Eu não quis. Tomei, finalmente, a única decisão acertada do dia.

Nesse dia, em que a tarde se pôs no Camões ao sabor de gelados de limão e caramelo, aprendi que temos apenas uma oportunidade para tomar ou desfazer uma decisão.
Desde esse dia lamento não te ter beijado.
Desde esse dia que aprendi que só tenho de estar com quem quero.


Tenho saudades tuas T.
Sei que estás bem.



29.10.14

Nas horas do Tejo



No tempo em que nadávamos no Tejo,
Nus,
De alma e de pudores,
Os dedos tocavam a pele,
Na espera dos dias,
Na esperança de encontrar,
A terra desconhecida.

Naqueles dias de desejos,
De incautos olhares,
Tínhamos corpos ofegantes.
As pernas tremiam de insensatez,
As coxas apertavam-se
Desejavam-se,
Molhadas pelo Tejo,
Ardidas pelo amor.

Naquele dia em que nos deflorámos,
Com o Tejo a testemunhar,
Guardámos as horas nele amadas,
Escrevemos recordações,
Acabámos por nos apartar.
Perdoámos o desamor,
O amor que naquelas margens ficou,
As memórias que não foram guardadas.

O Tejo não mais o nosso amor testemunhou.


27.10.14

Ainda sobre o ballet



Nos 40 quilómetros que separam a minha casa das aulas de ballet, tive muito tempo para pensar nisto de ir para o ballet aos 33 anos, de andar tantos quilómetros para levar avante este desejo antigo, de não me importar de estar na aula das meninas de 20 anos e ainda pedir para fazer as aulas das meninas de 8, só porque acho que me ajudará a melhorar a técnica. E lá vinha eu pelo caminho cheia de ideias para escrever. Estava cheia de teorias apaixonadas. Estava, dizia eu. Estava. Porque isso foi antes de as dores me tomarem conta do corpo.

Agora, depois de descalçar as sapatilhas e despir o maillot e tomar um duche de água quente, já só tenho forças para dizer uma coisa: nunca senti tanto prazer em sofrer.



22.10.14

Top 5 de cenas que não lembram ao diabo




Sou completamente a favor da diversidade e da manifestação da personalidade através da moda - eu mesma não primo pela discrição e cinzentismo - mas existem coisas às quais sou absolutamente intolerante. Não são muitas por isso ainda estou tranquila comigo no que toca a aceitar os outros como são.

Mas hoje voltei a ver a minha vizinha em leggings brancos ou bege (ou será que ia nua?) e com t-shirt curta, e fui até ao trabalho a pensar no meu limite em relação à imagem e ao que considero razoável vestir.
Aqui fica o meu Top 5, e sei que vão achar fraquinho, das coisas que me custam a engolir nisto das modas:

Leggings brancos e cor de pele
WTF!? Porque é que inventaram isto? Quem inventou?
E depois os tamanhos em que se admite que existam. Eu seria tolerante a um 36, um 38, no limite! Mas nunca, nunca, num 48 ou num 50 em branco ou bege, que os há! Não ignoro o conforto e a facilidade em adquirir e usar uns para quem vestes números maiores, mas o meu problema está na cor: branco ou bege, JAMAIS! Até pode ser o tamanho 100 mas em preto.
Sempre que vejo a minha vizinha a sair à porta de casa de leggings begezinho sinto, por um lado, constrangimento, vergonha alheia e vontade de desolhar e, por outro lado, sinto uma vontade incontrolável de ir a correr tapá-la com uma manta e enfiá-la dentro de casa outra vez, e dar-lhe uns tau-taus por ficar com um ar tão, propositadamente, slutty.

- Polares Quechua
Nunca tive e não é, sequer, coisa que eu considere vir a ter.
Creio que isto explica o que eu penso sobre polares.
Nos meus mil anos de escuteira não havia disso. Usávamos camisolas de lã. Mas admito que é um passo em frente nos agasalhos para campistas. E isto é o mais longe que consigo ir nos polares: acampamentos, noites de gelo, mato, sem ninguém por perto.
E um "Ai vou só ali meter o lixo no contentor": Não. Nunca me apanharão a envergar tal coisa.

- Art Naill
Arte quê?
A sério que isto mete a palavra "arte" e "unhas" numa mesma ideia?
Não contem comigo.
Kittys encavalitadas em unhas de plástico, padrões de tigres e cobras e zebras distribuídos de forma irracional, Sagradas Famílias construídas sobre garras, fotografias da família do Ronaldo em cada um dos dedinhos, e por aí fora... NÃO SÃO ARTE. A sério pessoas! Não ofendam a arte. Isso não é arte. E, mais parvo ainda, é que nem são naills: são pedacinhos de plástico colados aos dedos.
Uma vez no metro, sentei-me junto a três raparigas que tinham naills ornamentadas. Eu vinha, tão simplesmente, de unhas pintadas de vermelho. As minhas unhas, diga-se. E uma das mocinhas, a que trazia uma argola na unha (furada) com uma aranha de plástico pendurada, disse em alto e bom som - como se eu estivesse longe - que odiava unhas vermelhas lisas. Odiava! Disse ela às amigas que traziam o arco-íris e uma mesa de poker montada nos dedos. 
Tive vontade de lhe mandar uma gargalhada na cara (mas elas eram três).

- Sombra de olhos azul
Nem na década de 90 era aceitável, quanto mais hoje.
R.I.P.... Pequenas Sereias.

- Não-cabelos
Pode não ser imediatamente perceptível este conceito mas todas as pessoas conhecem alguém com não-cabelos.
São aqueles cabelos que não-têm corte definido; não-têm uma cor mas várias; não-é curto nem comprido nem coisa nenhuma; não-têm personalidade; não-mostra orgulho; não-é profissional; não-é fodível; não-é invejável;... Enfim, acho que já deu para perceber.


E eu já vi, mais vezes do que desejaria, a combinação disto tudo. Mulheres que se vestem como se fossem fazer limpezas depois de terem sido exposta a uma explosão nuclear, mas que investem numas unhas quitadas e maquilhagem da época do Grease, tudo isto, não raras vezes, acompanhado de um desleixo inigualável pela saúde oral.
As prioridades, analisando bem, são o que me lixam isto de ser tolerante com as escolhas dos outros: porque não percebo as prioridades. Vou morrer sem perceber.




16.10.14

Nunca é tarde... o tanas!






Na minha vida as coisas têm acontecido tardiamente:

- Comecei a trabalhar aos 23 anos.
- Tirei a carta aos 24.
- Decidi aprender piano aos 25.
- Entrei pela primeira vez num ginásio aos 26.
- Assinei o meu primeiro contrato de trabalho aos 27.
- Comprei casa aos 28.
- Entrei para um coro aos 29.
- Voltei à universidade aos 30.
- Arranjei namorado aos 31.
- Aprendi a jogar ténis aos 32.
- E agora?
  Agora, não me lembrei de nada melhor que ir aprender ballet aos 33.
- Sabe Deus o que me irá apetecer fazer aos 34...


Acho que quem inventou a frase "nunca é tarde para concretizarmos os nossos sonhos" nunca imaginou o quão mal eu poderia ficar, nesta altura da vida, enfiada num maillot (pareço o Gerard Depardieu metido num fato-de-banho XS). 


[Encontrei a resposta para o destino me ter empurrado para o interior desertificado deste país: para ninguém me ver nestes preparos.]




15.10.14

O que nos salva não é o medo






O que me trava a vida é o medo.
Acabei de ter essa certeza.
Quem me pode salvar?


Deitei-me há uns vinte minutos e não consegui adormecer por sentir um tremor dentro de mim. Nada de novo, portanto. Nunca fico tranquila quando me deito. 
Comecei a procurar dentro dos meus pensamentos a razão para esta impaciência - exercício de máxima importância que faço há anos e que me ajuda em 90% dos casos - depois passei para o coração, fui vasculhar no estômago e lá pesquisei a garganta. 
Este exercício de pergunta-resposta tem-me mantido mental e emocionalmente estável. Tranquila, pelo menos. Quando me surgem os tremores no peito, sei sempre que tenho de fazer este exercício e só o terminar quando encontrar o local, a razão e a resolução para esses tremores. Prometi a mim mesma que só fecho a casa depois de a arrumar. Não me tenho dado mal com isso.
E não preciso procurar em muitos sítios dentro de mim para saber onde se dá a desarrumação. Há muito tempo que sei onde se acumulam as minhas angustias. Nunca é nos pés, nunca é nos olhos, nunca é boca. As minhas palpitações vêm sempre da cabeça, do coração, do estômago ou da garganta.
Durante muitos anos procurava a resposta ao meu desconforto interior no coração, porque era o peito que me doía. Tudo parecia vir do coração e, nalguns casos, talvez viesse mesmo. Hoje, quando encontro o problema no coração, sei que se trata de uma dor emocional e não de um problema ou de um conflito por resolver. Quando a razão para as minhas inquietações está alojada no coração, sei que só conseguirei encontrar tranquilidade conversando com alguém sobre o assunto. É o meu órgão da verbalização.
Depois tornou-se evidente que era no estômago que residiam todos os meus problemas. Dava-me aquele friozinho na barriga, vindo sabe-se lá de onde, e comecei, aos poucos, a compreender que frios na barriga são sinónimo de embaraços que não sei resolver ou que já é tarde para resolver. São muitas vezes situações constrangedoras ou mentirinhas de circunstância que sei serem inofensivas mas que me deixam um desconforto. Passa a ser um problema só meu. No fundo é isso: quando o problema está no estômago, quer dizer que já está apenas numa esfera privada e que, do mal o menos, nada há a resolver com terceiros. Quando encaixo isto sei que é tempo de os passar para a garganta e engolir. E basta-me detectar o motivo de me sentir incomodada para me sentir logo tranquilizada: fica o caso encerrado.
Ao realizar esta viagem ao meu interior, se diagnostico o problema na minha garganta, sei que o problema foi falar de menos ou de mais. Sobretudo falar de menos. Deixar coisas por dizer transtorna-me. Mais do que dizer muitas coisas erradas, não dizer algo quando devia gera-me desconforto. E fico a matutar naquilo. A inventar conversas na minha cabeça que não servem para nada a não ser massacrar-me: "E se eu tivesse dito...", "E se eu tivesse respondido...". Apenas quando concluo que não posso voltar atrás no tempo e dizer ou calar o que queria ou, em alternativa, que ainda está nas minhas mãos retomar as conversas passadas e acrescentar-lhes ou corrigir-lhes o que gostaria, é que encontro o equilíbrio. O pior é não encontrar a solução. Andar num labirinto sem encontrar uma saída é sinónimo de nós na garganta para sempre. Para me acalmar e me resolver comigo mesma ou encontro a saída ou desisto e assumo a derrota, mas tenho, necessariamente, de arquivar o caso.
Então e a cabeça? Quando é que os problemas estão na cabeça? E como é que se resolvem?
Quando me vasculho e chego à conclusão que o problema está preso na cabeça... sinto que não há solução. Ou melhor, poderá haver, mas a custo de muito sofrimento, de muitas mentiras dadas a mim mesma, de muitos compromissos anulados, e de muitas palavras-de-honra atiradas ao chão. É a luta que não quero ter: brigar contra mim mesma.
Se o problema já está na minha cabeça sei que foi o medo que o colocou lá. Quando sinto medo quebro. A pior coisa na minha vida é sentir medo. Porque este se instala na mente e a lógica é combatida por milhões de argumentos falaciosos mas pungentes. Daqueles que nos fazem questionar de nós próprios. 
Talvez seja a única pessoa que tem um inimigo dentro da sua própria cabeça mas pelo menos conheço-lhe o nome: chama-se medo. 

Esta noite, em que me deitei para não conseguir dormir, comecei o exercício de perceber o que se passava para me poder tranquilizar.
A conclusão foi simples, muito simples, e até pouco surpreendente.  Eu apenas não tinha querido ir ainda ao fundo da questão mas hoje decidi deixar de fugir. Não vou continuar a esconder que tenho um medo: tenho medo de dormir sozinha. De habitar uma casa sozinha. E isto faz-me de ter medo de, praticamente, tudo.
Faz-me ter medo dos barulhos, das luzes, das sombras, do silêncio, dos cheiros. Tenho medo de não conseguir escrever. De me expôr. de me relacionar. E tenho, sobretudo, medo de viver como uma mulher de trinta anos sozinha, presa a uma mente de vinte, com um corpo de quarenta a viver a vida de uma mulher de sessenta. E tenho medo que a vida seja só isto. Tenho medo de não conseguir reagir ou de, pelo menos, aceitar e arquivar o assunto.

Quando o medo se instala na cabeça dita-se apenas uma sentença de morte: a das nossas certezas.

E quem é que nos vem salvar de nós próprios?
Não será o medo, com certeza.
O que nos salva nunca pode ser o medo. O que nos salva é encontrarmos as respostas para os nossos desassossegos e encontrar a paz, algures, dentro de nós.

Lá consegui perceber o que se passava. E adormecer.


8.10.14

Minha cabeça estremece




Não há como não amar tudo isto.
O poema.
A música.
A voz.
O tom.
O sentimento.
O entrelaçar das almas.
Não há como não sentir a vida.
Espreitar a morte.
Reflectir a existência.

Conseguirá alguém não se render?
Conseguirá alguém apenas ouvir as palavras sem fechar os olhos e se entregar a esta viagem?


[Caí dentro de mim e senti um tremor que há muito não sentia.
Estremeci.]



26.9.14

Post Mortem (Áudio)





Post Mortem

Lembro-me, estranhamente, do teu cheiro.
Uma mistura de madeiras quente e doce, com tabaco e Whisky.
Parecias trazer sempre o Verão.
Cheiravas bem.
Lembro-me da tua camisa rosa, de mangas arregaçadas.
Sempre engomada.
Denunciava o brio das mãos de uma empregada devota.
Lembro-me do teu cabelo. Claro que sim.
Todas as pessoas te conheciam o cabelo.
Ruivo, como as tuas sardas.
Temperamental, como o teu feitio.
Lembro-me do teu riso engraçado.
Cheio de humor inteligente.
Cheio de alegria.
Assim julgava eu.
Lembro-me de seres um homem maior que tu mesmo.
Megalómano. Inesquecível. Gigante.
Lembro-me do teu à vontade.
Dos teus cumprimentos honestos.
De como me juntavas dois beijos à face como se eu fosse uma filha.
Lembro-me do teu nome. Completo.
Da tua assinatura.
E de como ela deixou de se reproduzir.
De como o quiseste apagar.
Dessa maneira tão triste e fatal.
Tão definitiva e dramática.
Lembro-me das últimas palavras que me disseste.
Sem que soubesse que seriam as últimas.
Lembro-me da manhã seguinte.
Das palavras atropeladas.
Lembro-me de me perguntarem se eu já sabia.
Se eu já sabia que tinhas ditado o teu fim.
E não, eu não sabia.
Nem sequer esperava.

O que me lembro, muito bem,
Muito tempo antes dessa decisão,
É que os teus olhos tristes,
Há muito,
gritavam:

Solidão.




Publicação original aqui!



Being John Malkovich?





Por estes dias todos estamos apaixonados pelo Malkovich, eu sei, eu sei.
Vamos todos dizer que afinal esta paixão era antiga e que não, não seguimos a carneirada, e que não, não foi uma surpresa este Malkovich reinventar-se. Também não seremos, certamente, influenciados pelos vídeos que recentemente começaram a circular na net e na comunicação social, onde Malkovich fala de Lisboa. Onde, apenas, fala de Lisboa. Não se enamora, não enaltece, não expecionaliza Lisboa. Só fala de Lisboa. Nós, vaidosos, é que abrilhantamos um vídeo de um homem, um actor americano (e isto é importante. Gostava de saber o impacto se fosse turco, indiano ou até mesmo português) que fala sobre uma cidade onde está a ser entrevistado e que, naturalmente, por cortesia, não iria fazer outra coisa que não fosse falar bem. Também é sabido pelo público que não se trata de um homem de emoções frondosas e, portanto, poderia estar apenas a ser contido, como sempre costuma ser. Em todo o caso não vi nada de apaixonado entre o homem e a cidade naquela entrevista. Apesar de achar ambos alvos óbvios e evidentes de amores de perdição, onde me incluo.
Mas adiante.

Malkovich aparece, entretanto, nesta sessão fotográfica de Sandro Miller onde protagoniza retratos icónicos e, em muitos casos, deixa-nos com pele de galinha. É o cérebro a enviar-nos a mensagem. De facto, ao olhar para o Hitchcock, fotografia que por alguma razão mais me impressionou, percebo a euforia: é um trabalho muito bem feito. Estão a dizer-nos que, o que (ou quem) estava aqui mas já não está, pode regressar quase num passe de mágica. Apenas temos de reproduzir a imagem, estática, em alguém, vivo. Ora, esta possibilidade, aos olhos da efemeridade do ser humano, transmite-nos uma ideia fortíssima: a da imortalidade. E da morte da saudade. O fim da saudade. E, afinal, se pudéssemos reproduzir todos aqueles que já partiram, que sentido daríamos à saudade?
Pois esta sessão fotográfica põe em causa muitos conceitos pré-estabelecidos na nossa mente e sobre os quais não nos debruçamos ou tentamos entender. Não são apenas réplicas inócuas, são exercícios mentais e testes de compreensão do universo e do sentido da vida. Do ciclo natural da vida.

Por outro lado, e por razões diferentes, senti uma comunhão especial com a fotografia das gémeas. Porquê? Porque a original de Diane Arbus já tinha esbarrado comigo aqui no Dias Cães para ilustrar um momento poético de Gonçalo M. Tavarese eu estava longe de saber da popularidade desta fotografia até hoje. "Afinal, gosto do mesmo que toda a gente" - foi a conclusão que me assomou. E depois precisei procurar mais sobre o assunto. Quem era a Diane, quem eram as gémeas, quem é o John Malkovich (acham mesmo que sabemos tudo?), quem é o Sandro Miller?
E a mais interessante descoberta chegou sobre as gémeas. Encontrei uma fotografia dos tempos de hoje. E isto mudou tudo.
Pensei: "Que importância tem chamar a poesia ao barulho, se a poesia acontece aqui mesmo, aos olhos de todos?"
Pois reparem como as gémeas, elas próprias, estão tão diferentes. Em como os olhos foram a única coisa que lhes restou. E reparem como a única coisa que o Malkovich transporta, de fotografia em fotografia, são também os olhos.
Ou seja, não precisávamos do Malkovich para estas transformações, porque elas se podem dar na própria pessoa. Através da própria pessoa. As gémeas, fossem elas actrizes, poder-se-iam ter submetido àquele extraordinário trabalho de caracterização e voltarem a ser elas próprias na infância. Mas se nem elas próprias já se parecem com elas, que sentido faz voltar a fazê-las parecer?
E que sentido faz, fazer reviver as crianças que já não o são, num homem que nunca o foi?
E eis que a morte e a saudade ganham aqui outra dimensão. Não podemos sentir saudade de morte, por alguém que nem morreu, mas sentimos, certamente, saudade do que já fomos, das crianças que nos contaram termos sido, ou das crianças que nos lembramos que os outros foram. Sentimos saudade do que já foi e já não volta. Independentemente dos personagens, dos protagonistas, sentimos saudade da saudade que iremos sentir quando nos apercebermos da perda.

E as duvidas irão, assim, acumular-se e persistir.
Afinal, o Malkovich vestiu a imagem das gémeas da fotografia de Diane Arbus, ou as personagens que ambas representavam?
Se se trata de uma representação da representação, onde fica a realidade? Nele, nas gémeas crianças, ou nas gémeas adultas?
Se tanto as gémeas adultas como Malkovich encarnaram as mesmas personagens das gémeas crianças, porque sentimos que a encenação das gémeas adultas traz mais verdade que a encenação de Malkovich?
Interessará a verdade quando falamos de arte, quando sabemos que tudo não passa de uma encenação?

Confuso?