17.11.14

Viajo porque preciso. Volto porque te amo.



Título do filme de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz - Brasil 2009 ... O filme com o melhor nome de sempre...



Andamos há demasiado tempo na estrada.
A contar traços brancos no asfalto negro.
A descontar dias aos longos anos.
A fazer uma viagem juntos em sentidos diferentes.
Quando chegas a partida já está marcada.
Quando parto tenho o regresso no horizonte.
É esse desencontro que nos une.
Aquele intervalo entre a ida e o regresso.
Aquele momento entre a tua partida e a minha chegada.
Entre o nosso encontro e a nossa despedida.
São aquelas escassas horas que se consomem em minutos.
E que nos desconcertam os abraços.

Quando conheceremos nós a estrada que encurta as distâncias?
Aquela a que as pessoas chamam de atalho.
Quantas mais estradas ainda teremos de conhecer?
Quando iremos nós percorrer o mesmo caminho no mesmo sentido?
Aquele que nos leva a casa.

Nada sabemos sobre o futuro.
Sobre as viagens e os quilómetros por fazer.
Não adivinharemos qual a noite em que entraremos juntos em casa.
Mas chegaremos um dia ao nosso destino sabendo o mesmo que sabemos desde a partida:
Viajamos porque nos precisamos.
Voltamos sempre porque nos temos amor.


12.11.14

Aquele que não queria




Nas delongas das noites,
Em que te beijei as faces do bem,
Julgava-te um homem completo,
De carácter aprumado,
Julguei que fosses alguém.

Cantava as horas dos dias,

De pescoço quebrado sorrindo,
De queixo, mãos, a tremer,
Embevecida pela tua pessoa,
Ceguei! Não vi quem devia ver.

Ao raiar de cada manhã,

Impelida pelo amor que te tinha,
Rodeava-te a cama, a vida,
Exigia-te o que não ousavas dar,
Não vi a harmonia perdida.

As ilusões dos sonhos projectados,
Na névoa dos pensamentos vividos,
Fantasiava um romance perfeito,
Tão distante do que sentias no peito,
Tão longe do que eu havia querido.


Reli a nossa história e percebi:
Os teus sentimentos nunca foram sentidos.


11.11.14

Chama-lhe Blue



Perguntaram-me se ando tristonha.




5.11.14

Repetições # 4




Hoje é dia da etiqueta "Repetições".


E deixo um à parte: que saudades das pessoas que aqui vinham e deixavam os seus comentários.
Que saudades de mim, e deste tempo em que escrevia. Em que vos movia a comentar porque escrevia.
Não sei se sinto mais a vossa falta ou a minha.


Relembro, assim, um dos textos mais lidos e, certamente, o que mais comentários mereceu dos leitores.




Ser puta


Isto de ser puta, nunca foi fácil.
Uma puta tem que estar sempre disponível para tudo e para todos. O telefone está sempre ligado, toda a gente sabe a sua morada, toda a gente lhe conhece o carro e toda a gente sabe que pode aparecer quando precisar e bem lhe apetecer.
Puta que é puta, abre a porta de casa ou do carro a toda a gente. Boas ou más pessoas. Puta das boas deixa que toda a gente lhe entre pela vida. E nem precisa de mordomias. Abre a porta sozinha, está sempre de sorriso na cara, nunca diz que não a nada e no fim ainda agradece que a tivessem fodido.
Puta, com muitos anos disto, é aquela que atura os trastes e as pessoas porreiras. É aquela que não discrimina. É aquela gaja que aceita as diferenças dos outros. Que aceita a vida dos outros. Que aceita o passado dos outros. Que aceita estar no presente e no futuro da vida dos outros apenas quando estes precisarem dela e não por gostarem dela. 
Puta profissional é aquela que não chateia ninguém ao telemóvel, que não procura os seus clientes, mas espera a toda a hora chamadas de socorro para um consolo rápido. E vai. Vai, trabalha bem e deixa a pessoa satisfeita. Depois volta para casa arruinada, cheia dos problemas dos outros, minada de doenças que se propagam até ao inconsciente, com dores no corpo todo e sobretudo na cabeça. Ocasionalmente sujeita-se a voltar para casa com dores nos maxilares de tantos murros que levou nas trombas e de tantos broches que teve de fazer. Mas uma puta tem sempre de sorrir. 
Amanhã é outro dia, a malta que a fodeu ontem já se esqueceu e, portanto, não irá compreender porque é que, apesar de lhe terem ido às trombas, mesmo assim não ri.
Porque se há uma vaca que ri, uma puta tem de rir muito mais.
Uma puta como deve ser, fala pouco e trabalha muito. Os filhos da puta (não desta em questão!) lá se podem aliviar como bem entenderem que a puta resolve tudo. Alguns deles usam as putas para desabafar sobre os monos que têm em casa, no trabalho, no ginásio. Por vezes até fazem confidências sobre a sua intimidante e a puta nunca pode desviar a sua atenção da conversa ao mesmo tempo que percebe que está a ser enrabada. Tem de ser multifacetada e estar preparada para todo o tipo de encavadelas, broches e enrabanços. Falam lá da vidinha deles, até chamam putas às mulheres que escolheram, e depois do serviço feito voltam para as suas casas mais aliviados.
Puta que é puta diz sempre que gostou muito, dá sempre um desconto a tudo e sai a sorrir sem aceitar boleia. E puta que também tem sentimentos deixa a pessoa seguir a sua vida sem exigir que alguém lhe pergunte um dia se está tudo bem. Uma puta aguenta!
Puta à séria, está cravada de sentimentos para aguentar a choradeira dos virgens mas nunca se queixa de quem a viola. A puta só pode ter sentimentos para os outros mas nunca pode pensar que alguém se lembra dela.
Isto de ser puta tem muito que se lhe diga porque um dia a puta vai querer deixar de o ser, e já não vai conseguir sair dessa vida. Às tantas, dá por si a gostar de ser puta e a pensar que toda a gente devia ser puta de vez em quando. Só para saberem que há um lado de desfrute para quem é puta. Mas as putas não são bem vistas, porque ser puta dá muito trabalho e poucas alegrias.
O dia em que a puta quiser deixar de ser encavada por todos, todos irão achar muito estranho e atirar-lhe à cara que é uma ingrata. Que teve sempre quem a sustentasse e agora já não o quer. Vão pensar que tem a mania das grandezas e que já não quer ser puta mas sim, ser apenas mais um deles.

Hoje vieram ao cu a esta puta e doeu.
Mas amanhã, como já ninguém se vai lembrar, convém continuar a sorrir para não pensarem que eu tenho a mania que ninguém me pode foder e que afinal já não quero ser puta.




4.11.14

S. O. S. ( a sério... socorro! )




Parei hoje para pensar, saudosamente, na última viagem que fiz.
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Foi:
há 3 anos, 
9 meses e
16 dias...
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Foda-se.





3.11.14

"Outra coisa"



"Outra coisa" do livro "Estilhaços e Cesariny"
Poema de Mário Cesariny
Voz de Adolfo Luxúria Canibal
Musica de Jorge Coelho




Depois de algumas tentativas falhadas em contribuir para uma mundialmente famosa playlist, (não tenho efectivamente uma cultura musical de que me possa orgulhar, muito menos uma que sirva os outros), foi-me dada a oportunidade de escolher, então, um poema para incluir nessa lista (foi fantástica a capacidade de contornar uma incompetência minha para me incluir de uma maneira mais digna nessa playlist. Se não és o maior, não sei quem será).

Depois de muito ler e reler, e ouvir e declamar, lá consegui resumir o resultado a dois poemas.
Um deles acabei por partilhar aqui e o outro, este poema de Cesariny, acabou por ser o escolhido para constar da melhor banda sonora da blogosfera para os dias em que nos apetece despejar a cabeça.

Foi um prazer.


31.10.14

Encenações



Sabes uma coisa?

Eu sei.


[E não foste tu que me contaste]



30.10.14

Ao largo do Camões aprendi



Tenho saudades tuas.

Tenho saudades da tarde em que comemos um gelado no Camões.
Sentados aos pés da estátua, sem cruzar muito os nossos olhares, apenas a trocar palavras contidas.
Recordo muitas vezes aquele dia em que nos vimos pela primeira e última vez. Ainda sinto saudades daquele dia, dos tremores na barriga antes de chegar a ti, dos sorrisos nervosos e hesitantes quando te encontrei, das palavras que me faltavam pelo caminho. Apesar do embaraço, do desconforto, que senti por ser eu mesma e não alguém melhor, senti-me ser invadida, aos poucos, por uma tranquilidade que vinha de ti. Foste bom comigo. Agradeço-te por isso.

Não me recordo exactamente da despedia. Tê-la-ei apagado da memória. Mas recordo-me do caminho até casa, que fiz a pé para poder repetir dentro da minha cabeça cada minuto contigo, sem interferências. Lembro-me da temperatura amena. Lembro-me de caminhar de cabeça caída para trás. Lembro-me de ter desejado que o teu corpo se tivesse colado ao meu, em algum momento antes da despedida. Lembro-me de não me apetecer estar com mais ninguém para além de ti e de desejar muito que aquele momento cristalizasse e se prolongasse pela noite dentro. Mas não podia ter sido assim.

Depois de nos despedirmos voltei a casa. Despi-me e tomei um banho de água quente. Voltei a vestir-me de outra pessoa que não era, para ir ao encontro de alguém com quem não queria estar. Caminhei uma vez mais a pé, para pensar e me castigar por ter tomado duas decisões erradas no mesmo dia. Caminhei, cheguei junto dessa pessoa sem sentir nada, jantámos, trocámos palavras sem calor (lembro-me de ele não parar de se auto-elogiar, de falar apenas de si, de quão excepcional era e de como o mundo girava à sua volta, sem nunca, sequer, perguntar se eu estava bem) e saímos do restaurante comigo em silêncio, eu com a cabeça em ti, e ele a matraquear-me conversas sem interesse.
Queria levar-me a casa, tentar o que não tentámos os dois, para se elogiar no fim.
Eu não quis. Tomei, finalmente, a única decisão acertada do dia.

Nesse dia, em que a tarde se pôs no Camões ao sabor de gelados de limão e caramelo, aprendi que temos apenas uma oportunidade para tomar ou desfazer uma decisão.
Desde esse dia lamento não te ter beijado.
Desde esse dia que aprendi que só tenho de estar com quem quero.


Tenho saudades tuas T.
Sei que estás bem.



29.10.14

Nas horas do Tejo



No tempo em que nadávamos no Tejo,
Nus,
De alma e de pudores,
Os dedos tocavam a pele,
Na espera dos dias,
Na esperança de encontrar,
A terra desconhecida.

Naqueles dias de desejos,
De incautos olhares,
Tínhamos corpos ofegantes.
As pernas tremiam de insensatez,
As coxas apertavam-se
Desejavam-se,
Molhadas pelo Tejo,
Ardidas pelo amor.

Naquele dia em que nos deflorámos,
Com o Tejo a testemunhar,
Guardámos as horas nele amadas,
Escrevemos recordações,
Acabámos por nos apartar.
Perdoámos o desamor,
O amor que naquelas margens ficou,
As memórias que não foram guardadas.

O Tejo não mais o nosso amor testemunhou.


27.10.14

Ainda sobre o ballet



Nos 40 quilómetros que separam a minha casa das aulas de ballet, tive muito tempo para pensar nisto de ir para o ballet aos 33 anos, de andar tantos quilómetros para levar avante este desejo antigo, de não me importar de estar na aula das meninas de 20 anos e ainda pedir para fazer as aulas das meninas de 8, só porque acho que me ajudará a melhorar a técnica. E lá vinha eu pelo caminho cheia de ideias para escrever. Estava cheia de teorias apaixonadas. Estava, dizia eu. Estava. Porque isso foi antes de as dores me tomarem conta do corpo.

Agora, depois de descalçar as sapatilhas e despir o maillot e tomar um duche de água quente, já só tenho forças para dizer uma coisa: nunca senti tanto prazer em sofrer.