12.2.15

"O Ofuscante Poder da Escrita"



O Ofuscante Poder da Escrita


O sentido da literatura, no meio dos muitos que tenha ou não tenha, é que ela mantém, purificadas das ameaças da confusão, as linhas de força que configuram a equação da consciência e do acto, com suas tensões e fracturas, suas ambivalências e ambiguidades, suas rudes trajectórias de choque e fuga. O autor é o criador de um símbolo heróico: a sua própria vida. 

Mas, quando cria esse símbolo, está a elaborar um sistema sensível e sensibilizador, convicto e convincente, de sinais e apelos destinados a colocar o símbolo à altura de uma presença ainda mais viva que aquela matéria desordenada onde teve origem. O valor da escrita reside no facto de, em si mesma, tecer-se ela como símbolo, urdir ela própria a sua dignidade de símbolo. A escrita representa-se a si, e a sua razão está em que dá razão às inspirações reais que evoca. E produz uma tensão muito mais fundamental do que a realidade. É nessa tensão real criada em escrita que a realidade se faz. O ofuscante poder da escrita é que ela possui uma capacidade de persuasão e violentação de que a coisa real se encontra subtraída. O talento de saber tornar verdadeira a verdade. 

Herberto Helder, in 'Photomaton & Vox' 


11.2.15

Repetições # 5


Hoje é dia de voltar à etiqueta "Repetições".
Hoje, uma ano passado, voltei a sentir-lhe a presença.







"Em 1907, para tentar provar que a alma existe e tem peso, o médico americano Duncan MacDougall, pesou seis pessoas antes e depois de morrerem e constatou que o ponteiro da balança quase sempre descia.
O instrumento de trabalho de MacDougall era como uma enorme balança de dois pratos. De um lado ficava o paciente em estado terminal, deitado numa cama, do outro lado o médico colocava pesos equivalentes.
A primeira cobaia foi um homem com tuberculose, que ficou sob observação durante 3 horas e 40 minutos. Nesse tempo, perdeu peso aos poucos, em média 28 gramas por hora e, de repente, morreu. Segundo o médico, o prato da balança subiu, registando a perda dos famosos 21 gramas. "No instante em que a vida parou, o lado oposto caiu tão rápido que foi assustador", disse o médico ao jornal The New York Times.
Mas o peso registado nos outros pacientes foi diferente. O segundo teria perdido 46 gramas. O terceiro, 14 gramas e, alguns minutos depois, mais 28. Com o outro, o ponteiro da balança desceu e depois subiu novamente. Segundo o médico, a diferença tinha a ver com o temperamento de cada um. "Um dos homens era apático, lento no pensamento e na acção. Nesse caso, acredito que a alma ficou suspensa no corpo, depois da morte, até se dar conta que estava livre."
Para comprovar a sua teoria, MacDougall fez o mesmo teste com quinze cães e nenhum deles teria perdido um grama sequer. Conclusão: homens têm alma, cães não. Será que existe alguma verdade nos estudos de MacDougall? 
"Não", afirma o autor do livro "Morte ao Pó: O que Acontece com os Cadáveres?", Kenneth V. Iserson, da Universidade do Arizona. Iserson chama a atenção para o fato de o ar ter peso, coisa que MacDougall não levou em conta, e diz que não existe "o" momento da morte. "O processo pode se esticar por dias ou semanas". Mesmo com todas essas contradições, MacDougall é conhecido até hoje pela sua teoria dos 21 gramas."

In Wikipédia [tradução livre]


Encostei o meu ouvido ao seu peito, naquele preciso momento em que suspirou. Senti a alma desprender-se do corpo. A pairar sobre o quarto. Sobre o seu corpo velho e sobre mim. Ali paradas. Sem saber o que se seguia. Sem saber a qual das duas cabia o passo seguinte. Aguardei, com cerimónia, uns minutos. Nunca me tinha passado a morte pelas mãos. Nem sabia se era aquilo a morte: simplesmente morrer. Largar o último quinhão de ar. Ficar inerte. Abandonar um corpo usado. Seguir com a alma para outras vidas. Juraria, se preciso fosse, que lhe vi a alma despedir-se do corpo, como uma neblina levantada com um sopro. Juro que aquela alma viveu além da morte. Eu vi.

Olhei-lhe o rosto antes da partida. Olhei depois. Não era a mesma pessoa. Mas eu tive-lhe o mesmo amor. Era o corpo da mulher velha, que deu vida à vida que me fez viver. Amei-a na despedida como nunca terei amado na chegada. Em todo o caminho. Amei-a mais depois de um adeus que ela nunca chegou a saber que lhe fiz.
Morrerei eu, um dia, e o arrependimento de um amor tardio não me salvará. Talvez, quando a minha alma chegar até à sua, lhe possa dizer o quão agradecida estou por me deixar assistir à sua morte. Por ter esperado por mim para a ver morrer.
Ela amou-me mais ali. E não me doeu. Agradeci-lhe a partilha deste momento comigo. A sós.

Depois vieram as outras pessoas. Foi-se o nosso momento, o nosso silêncio. Vieram os rituais em que, sei, não acreditava. Choraram pessoas que, sei, não a amavam. Naquele dia que entregámos o seu corpo velho e magro, foi-se a crença de um céu e de um Pai que nos acolhe. Perdeu-se a magia. A história passou a ser outra. Levaram-nos a alma e deixaram-nos cá o corpo sem significado. Deixaram cá aquilo de que não se conseguiram livrar. Deixaram-nos um corpo para mandarmos para a terra. Para o lixo. Mas a nós também nos custa, sabiam?


[Soube que tinha morrido quando lhe olhei o rosto e vi que já não era ela quem ali estava. Restou apenas um corpo. Foi-se a alma. Não se sabe para onde.]


7.2.15

Je suis Dias Cães




O meu   Dias Cães   completa hoje 4 longos anos.


Já o disse uma vez e volto a dizer: este blog foi a melhor coisa que fiz acontecer na minha vida.




4.2.15

Porque é que o céu é azul?




Soubesse eu o que faz o céu azul,
E já me teria pintado.
A cara,
As mãos.
Este amor velado.
Na cor carmim não.
Seria pecado.
Pintaria,
Nos lábios,
O peito,
Talvez num amor,
Num passado.

Pintar de preto,
Seria a solução?
Não ousaria tal.
Pois não.
Pois não.
Não pintaria as artérias,
Nem mesmo o coração.
Esse azul precioso,
Não o gastaria, 
Tampouco em vão.
Pintaria-o de outra cor,
Da cor,
Da solidão.

E o branco,
Nalgum sítio seria pintado?
Talvez nos sonhos,
Talvez.
Não vês que o branco,
É a cor da sensatez?
O azul,
Rendida me entrego,
Guardarei na minha tez,
Nas recordações,
Na lucidez.
Porque o azul foi a cor da minha aura,
Quando me apaixonei,
Pela primeira,
Vez.



30.1.15

Esta coisa de se ser inteligente

Allan Grant


Quanto mais agarro em jornais, vejo televisão, vou à internet, e ouço outras pessoas a conversar, mais me convenço que sou uma incapacitada para falar de uma série de assuntos. De muitos assuntos até. De algum modo isso deixa-me constrangida e com aquele pequeno sentimento de que não sou suficientemente inteligente, suficientemente interessada, suficientemente culta, suficientemente integrada. E não vivo tranquila com isso. Não estou tranquila porque queria chegar a um maior número de pessoas dominando assuntos que lhes fossem caros e, sobretudo, ter conhecimento de todos os temas para saber como todas as pessoas cultas se sentem.
Há muito tempo que tenho esta consciência, há demasiado tempo que não consigo inverter isto. Por exemplo, em relação à música, se me perguntarem: "então pá, o que é que gostas de ouvir?" eu fico atrapalhada. Ou ficava. Nesta senda de ser cada vez mais eu, e de deixar de agradar aos outros, decidi que nunca mais iria falsear uma reacção minha e, por isso, actualmente reajo com um "não sei, não percebo nada de música". Noutras matérias não tenho mesmo receio de denunciar a minha ignorância e dizer que não conheço ou não percebi. A vida é mesmo assim, é impossível conhecer-se e saber-se tudo por mais que nos gostem de exigir isso.
Mas hoje, senti pontadas de aflição mais acentuadas por esta minha falta de conhecimentos sobre determinados assuntos relevantes.
Abri o jornal e lá estavam os assuntos do costume, acompanhados de quadros e tabelas e gráficos, tudo muito bem explicado, suponho, e eu, mesmo assim, continuava sem perceber nada.
Eu não me sinto confortável a falar de política. Ou de spreads e taxas de juros (nem sei se faz sentido juntar os dois na mesma frase). Não posso falar sobre os formulários do IRS porque não faço a mais pálida ideia de como são. 
Não percebo de gestão nem de economia e tenho sérias dificuldades em ler uma coluna de jornal que aborde o tema com gráficos e relatórios e opiniões de profissionais. Referências ao passado ou a outras situações análogas, são-me bastante difíceis de identificar e localizar.
Sinto-me, efetivamente, excluída do grupo de pessoas (que, suponho, seja enorme) que compreendem essas notícias.

Quando vejo a quantidade de temas que não domino e que, por força da minha curiosidade por querer conhecer todos os assuntos do mundo, sinto que não podia ser uma só pessoa. Estou tão longe de alcançar alguma perfeição intelectual que chego a pensar que seriam precisas muitas de mim para apreender tudo.

Onde é que esta conversa tinha começado mesmo?
Nisso... hoje sinto-me burra.


29.1.15

O céu podia esperar



O céu podia esperar
Por ti
Num dia de solenidade
Para as honras
Que merecias
Pela glória 
E pela saudade

O céu podia esperar
Muitas almas
desconcertadas
Mas um dia viu-te 
Chegar
E renegou 
As almas penadas

O céu podia esperar
Muitos choros
E Avés
Mas sentiu o que era
O orgulho
De quem te abraçou
E amou quem és

O céu podia esperar
Que se juntasse a ti
Quem ficou
Mas quis levar-te
Mais cedo
Deixou-me sem ti
Fiquei tão só



27.1.15

Encontros Emergentes




Quando nos cruzamos com um rosto do passado, qual é a primeira coisa em que pensamos?
No sentimento que lhe tínhamos?
Na companhia que agora temos?
De quão bem aparentados estamos?
Ou de quão bem parecido o outro está?
Pensamos em falar ou em desviar os olhos?

Não há saídas de emergência em encontros emergentes.
Não existem instruções nem regras de reacção.
Entre o olhar e desolhar, entre o embaraço e a excitação, onde fica a atitude correcta?

Creio que a história e o passado traçarão os impulsos.
Um amor mal resolvido fará evitar olhares.
Sangrará rancores dentro do peito.
Uma paixão não consumada fará os pés andarem em frente.
Procurando o que não tiveram.
Um amor que nos trouxe arrependimento far-nos-á fugir.
Fugir de nós, do passado e do reencontro.
E não é esse, precisamente, que queremos sempre reviver?
Não é esse que, nunca encontro inesperado, nos faz o peito arder?

Quando nos cruzamos com um rosto por quem nos apaixonámos no passado será possível fugirmos de nos apaixonarmos outra vez?

[por instantes, não.]

26.1.15

Monstros


Jumius Wong and Jack Wang


Dentro de ti está um monstro.
Mas não o vês.
Nasceu contigo mas dormiu este tempo todo.
No quente, dentro dessa moral intocável, dentro desse carácter vertical.
Dessa inquestionável atitude democrática.
Mas o monstro, que nasceu pequenino, sempre esteve aí.
Um dia, não se sabe quando, começou a crescer.
Talvez o tenhas soltado num dia de guerrilha genética.
Num daqueles dias em que chovia muito fora de ti e não sabias como te resguardar.
Esse monstro que guardavas dentro de ti terá sentido vontade de vir cá fora para te agasalhar.
E agasalhou.
Soube-te tão bem sentir esse escudo que nunca mais escondeste o monstro dentro de ti.
Ficou acordado, em sentinela, a ver quando te voltavam a atacar.
Mas o monstro, que não tinha sido amestrado, não sabia distinguir os alarmes.
Ora reagia a um soluço de palavras como a uma tempestade de poderes. 
Ora empunhava a retórica a um elogio como a um desaforo.
O monstro não sabia que existiam coisas que se diziam por bem e outras que se faziam por mal. E tu nunca o ensinaste.
Ocupado a olhar para o teu reflexo no espelho, sempre cheio de ti mesmo, nunca percebeste que o monstro que alimentavas se estava a virar contra ti. Nunca reparaste nas sombras que arrastavas.
As guerras travadas pelo monstro em teu nome começaram a crescer, a ser cada vez mais duras, mas tu, tu nunca paraste para o ensinar que há adversários com quem não se luta. 
Nunca lhe disseste que quem nos dá a razão à vida nunca pode ser dilacerado.
Ele lutava com o teu rosto, no teu corpo, ao comando da tua voz e tu, tão perdido a olhar para ti mesmo, nunca viste a dimensão das garras desse monstro a ferirem quem não devia.
A reagir a um sinal de alerta que não existia.

Um dia, num insuspeito dia, quando te dirigiste ao espelho para veres o que havia mudado em ti, não encontraste o que querias.
Tu já não eras tu, e o monstro que, até então, apenas tinha vivido dentro de ti, sugou-te o reflexo. Sugou-te as memórias, as lembranças boas, as pessoas que eram tuas. 
Tu já não existias nesse reflexo, mas apenas aquele monstro que começou pequenino dentro de ti e agora, afinal, eras tu.
Dentro de ti está um monstro.
E cá fora também.




23.1.15

Do arrependimento






Arrependo-me de tantas coisas que disse nesta vida.
Das coisas que falei nas horas certas.
Das coisas que não disse nos silêncios errados.
Tivesse eu falado as coisas erradas nos momentos devidos,
E o perdão ser-me-ia dado com compreensão.
Tivesse eu rompido os silêncios com as palavras erradas,
E poder-se-iam ter salvo mal-entendidos.

Arrependo-me de tantas coisas que fiz.
De ter feito o que tinha de fazer.
De ter deixado de fazer o que era o correcto.
Tivesse eu feito o que não devia,
E a sorte havia de estar do meu lado. 
Tivesse eu enfrentado os risco de fazer o errado,
E a razão haveria de encontrar outro culpado.

Arrependo-me de tantas coisas que vi.
De ter visto assombros sem ter intervindo.
De ter aceitado amor e não ter retribuído.
Tivesse eu combatido os actos reprováveis que vi,
E não seria a cúmplice miserável que sou.
Tivesse eu multiplicado o amor que me foi oferecido,
E a não ser um ser humano melhor a vida me condenou.

De vergonha e humilhação reconheço:
Só não me arrependo,
Do arrependimento que me assaltou. 

20.1.15

Quem é Deus?




Crises de fé internacionais à parte, eu tenho vivido uma grande crise de fé por razões pessoais.
Tinha apostado todas as minhas fichas no ano que terminou e perdi-as. Todas. Como é que se recupera disso? Como é que se recomeça sem fichas para jogar?
Eu acredito em Deus e isto é logo um grande problema. Quando nos educam a acreditar em Deus, ensinam-nos a depositar esperanças numa coisa abstracta, em terceiros, e a confiarmos que as coisas se hão-de resolver de alguma maneira sem que tenhamos de interferir. O que não nos ensinam, é a aceitar o fracasso, a aceitar as falhas dos outros e a incapacidade de os outros nos resolverem os problemas.
Ora se eu acredito em Deus, e que Ele há-de saber tomar melhores e mais sábias decisões que eu, como é que poderei lidar depois com a Sua inoperacionalidade?
E dá-se a quebra de fé. De confiança, porque no fundo é isso, uma questão de confiança em algo que não se vê, não se conhece. Continuo a creditar em Deus, a acreditar que existe ali qualquer coisa que comanda isto tudo, mas, em perdendo-Lhe o sentido, não Lhe reconheço verdade ou utilidade. Ou seja, não consigo acreditar nas Suas boas intenções. Eu, que tendo a ver um propósito em tudo, mesmo nas coisas más que acontecem (aquela história da lição de vida para nos fazer aprender e crescer), ultimamente não consigo ver o propósito em Deus insistir numa mesma lição, vezes e vezes sem conta. Anos e anos a fio. Hei! Oh Deus, se me estás a ler ou a ouvir os pensamentos, só te quero dizer que cá em baixo a malta já percebeu a mensagem. Over and Out!
É o mesmo que meter um filho na escola e ao fim de quatro anos a professora só ter ensinado a letra A para ter a certeza que o menino aprendeu mesmo. Para garantir que ele sabe mesmo, mesmo, mesmo, o que é a letra A. Assim, de repente, não me faz sentido.
Neste momento, sem as tais fichas para jogar num momento de falta de fé, já não sei que jogo fazer. Se faço bluff, se roubo fichas aos outros para poder continuar, se desisto ou se demonstro um grande fair play e salto fora de sorriso no rosto e a dizer, "fica para a próxima".
Mas na vida há poucas coisas de que se possa desistir, muito menos coisas que aquelas que pensamos. E no meu caso nem há nada para desistir. Só se for de Deus que eu possa desistir. Será possível desistir de uma parte de nós? De uma parte que nos foi cosida na alma e nas entranhas? Ele estará assim tão acima de nós, e da fé que Lhe depositamos, que nem se digna a vir cá abaixo, fazer-nos acreditar, fazer algo de bom pelas pessoas que O inventaram e veneram, e mostrar de uma vez por todas que existe?

Se afinal Deus não é aquela entidade abstracta que nos acode nas horas incertas e não nos dá as respostas que precisamos, se não é a figura que me ensinaram que me amaria incondicionalmente e me viria sempre auxiliar em todos os momentos, pergunto eu: Afinal, quem é Deus?