23.3.15

Não pertenço a este lugar

Merve Ozaslan


Já não pertenço a este lugar.

Este lugar fica-me largo. Ou fica-me justo. Mas já não me serve.
Dias há que me sinto longe, mesmo estando cá dentro, e dias há que me sinto afundada nele, mesmo estando afastada.
Já não pertenço a este lugar.

Miro-me por dentro e não encontro esta paisagem nos meus vales. Vigio os meus pensamentos e já não me espelho neste povo.
Será que me tresmalhei deste lugar ou ter-se-á este lugar afastado de mim?
Já não pertenço a este lugar.

Nos dias de solidão recordo as caras e as vozes e os cheiros. Sinto-lhes a saudade de quem já não os voltará a ter. De quem faz um luto. Lamento as distâncias, de corpo e de alma. Castigo-me a inércia. Olho sobro um ombro de arrependimento.
Por vezes penso que se tivesse sido filha do lugar que me pariu, não me sentiria bastarda no sítio onde estou.
Já não pertenço a este lugar.

Perdida, entre saudosismos e pretensões, fiquei-me entre sítios.
Não pertenço mais a este lugar. Não cheguei ainda a qualquer outro. A estrada está a meio e eu sem conhecer o caminho.
Fico assim, no maior dos dramas. Não conhecer o tempo que se demora entre a partida e a chegada, do lugar onde não queremos estar para aquele que sempre devíamos ter conhecido.


Já não pertenço a este lugar.
Eu sei.


18.3.15

Singelo





                                                 [Fosse tudo tão singelo,
                                                 Como este poema que vou escrever,
                                                 E o mundo era mais belo,
                                                 Um bom lugar para se viver.]



                                                                         Os meus pensamentos são em verso.



16.3.15

Herbários



"A herbariologia, ramo da {Botânica} que tem como objectivo o estudo das plantas em herbário, visa contribuir para o conhecimento da biodiversidade vegetal mundial, fornecendo uma colecção de espécimes das populações naturais, que constituem referências científicas, ou que podem ter grande interesse para a preservação e conservação da biodiversidade. O papel desempenhado pelos herbários nos estudos de biodiversidade é cada vez mais reconhecido pelos investigadores. Através de uma enorme base de dados de onde se está constantemente a extrair, utilizar e adicionar informações sobre cada uma das populações e/ou espécies é possível aplicar essa informação nas mais variadas disciplinas, tais como fisiologia, ecologia, agronomia, farmacognosia, etnobotânica, com os mais diversos objectivos: recuperação de áreas degradadas, resistência a pragas, melhoramento vegetal, desenvolvimento de compostos com interesse farmacológico, etc. (...)"



A caminho da creche, sugavam-se azedas.

Entre o proibido e o permitido, cheirava a rebeldia arrancar da terra uma pequena flor e sorver-lhe a vida.
A azeda, muito azeda, não nunca me convenceu.
Era azeda, pois então!
Mas já em pequena idade urgia pertencer ao grupo dos meninos que gostava de azedas e, por isso, eu gostava também, mesmo não gostando.
Hoje penso em quantos de nós detestavam sugar as azedas mas que o faziam porque sim, porque tínhamos de ser todos iguais.


A caminho da escola, colhiam-se rosas de Santa Teresinha.

Num arbusto frondoso, que se escapulia por entre o gradeamento de uma casa, a caminho da escola, mesmo antes de lá chegar, eu colhia sempre uma pequena rosa.
Tão pequena que metia graça e lhe traçava a desgraça de ser colhida, dia-sim dia-sim, por mãozinhas curiosas.
Guardava-as nos bolsos do casaco ou dos calções mesmo antes de entrar na escola. 
Era uma coisa minha. Ainda hoje o é.


A caminho do ciclo, colhiam-se folhas e mais folhas, ervas e mais ervas.

Sem critério, sem gosto ou não gosto, sem olhar a cor, tamanho ou cheiro.
O herbário de ciências da natureza tinha de ser feito, com todo o rigor mas, mais ainda, com toda a variedade que me fizesse brilhar a sapiência.
"Herbário meu, herbário meu, terá havido alguém mais obcecado por ti do que eu?"
Tivesse a mania de coleccionar folhas ficado por ali e hoje não seria surpreendida pela quantidade de folhas que deixei secar entre páginas de livros.
A cada folha que cai, seca, por entre letras que alguém escreveu, renasce uma memória. Aviva-se uma vida. Viaja-se no tempo, até ao tempo em que eu ainda não sabia o que o tempo era.


A caminho do liceu, tocava-se a erva coberta de geada.

Recordo, mais que um verão verdejante, todos os invernos rigorosos.
A morte das árvores e das flores, a geada que lhes tapava as folhas, o gelo que por hora de um raio de Sol lá deixava adivinhar o que tanto teimada em esconder.
Recordo o momento em que lhes era devolvida a vida. Em que eu as podia voltar a tocar. Recordo as horas, e o olhar parado, recordo, muitas vezes, de as colher e beijar.



12.3.15

(Bitches)





Pode parecer infantil mas decidi que a partir de hoje vou deixar de falar com duas ou três pessoas.
Para sempre.


(Bitches).


11.3.15

Ai as flores...

Vincent Van Gogh


Ai as flores,
A Primavera,
Ai ai...

No sossego,
Da soleira,
Os olhos fecham,
A sombra cai.

Ai as flores,
E os calores,
Ai ai...

Vieram quentes,
E de repente,
A paixão fica,
O amor se vai.

Ai as flores,
A alegria,
Ai ai...

Unem-se bocas,
A bochechas,
Dão-se abraços,
Até fartar.

Ai as flores,
E as noites,
Ai ai...

Na penumbra,
E no silêncio,
Fazem-se filhos,
Ama-se um pai.

Ai as flores,
E os amores,
Ai ai...

Volte o frio,
Cubra-se o Sol,
E o amor,
Lá se vai.



Dias Gatos?




Eu não sou uma pessoa de gatos, que não sou, de todo.

Mas estes bichos alergias friendly e com design contemporâneo, agradam-me imenso.
Palpita-me que têm um mau feitio dos diabos e, não sei explicar porquê, parece-me uma coisa atraente na personalidade de um animal de estimação... Apesar nos cães gostar de uma personalidade maricas e dependente...

'Tá decidido: Quero um destes.


24.2.15

I don´t give a shit...



Uma barbearia só de gajos.
E então?
Há barbearias de mulheres?
E há mulheres que queiram ir a barbearias?
Digam lá mulheres: quantas vezes foram à barbearia com os vossos homens?
Não, isso de os convencer a ir ao vosso cabeleireiro não conta.
E se eles vos pedissem com muito amor e carinho "vem lá comigo ali à barbearia para eu cortar o cabelo e aparar a barba", quantas de vocês iam? Quantas iam a achar que era um programa a dois que valia mesmo a pena o vosso tempo?
Vá lá senhoras!!! Deixem-se de sensibilidades.
Quando vão à depilação ou arranjar os pés gostam de estar ali, lado a lado, com um gajo?
Eu não.
Talvez eu seja segregária, ou lá o que é essa palavra que se lembraram de ir desenterrar desta vez.
Talvez seja.
E quantas de vocês já se recusaram ir a clubs de strip porque "isso é um horror, uma porcaria, não sei o que vocês vão lá ver".
Pois eu sei. E percebo que gostem. E percebo que gostem ainda mais sem as suas mulheres por lá. É um momento deles.
Em tempos (espero eu que idos e longínquos) era impensável haver homens nas reuniões de Tupperware. Segregação?
Ainda querem comparar quem é que se safa melhor nisto de arranjar tempo e espaço só para os do seu género?

Segundo um dos funcionários da barbearia "se entrar uma mulher, o ambiente imediatamente muda".
Mas alguém é capaz de contestar isto?
Só se for alguém que não conheça nenhuma, o que deve ser para aí 0% da população mundial.
Deixem lá os rapazes brincar com coisas de rapazes.
Deixem-nos lá naquele mundinho retro/vintage/snob, a brincarem às barbas e aos bigodes, com cortes de cabelos patetas, metidos numas batas de velhos, a brincar aos homens crescidos.
Faz parte. 
Só quem nunca teve um homem na sua vida é que pensa que eles algum dia crescem. Não crescem, mas também não tem mal. Eles são assim, nós somos assado e é nisso que está a graça disto tudo. Um dia ficam velhos (que é diferente de ficarem adultos), olham para trás, e percebem que eram parvos mas, até lá, deixem-nos brincar.

Onde é que eu acho que esta gente meteu os pés pelas mãos?
Quando se quiserem armar em heróis e elevaram os cães a uma condição superior à das mulheres.
E a malta é sensível.
Se têm metido um letreiro com letras garrafais a dizer "NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A MULHERES", tirando meia-dúzia de feministas que por ali passassem, ninguém ia dar por aquilo.
Convenhamos: é uma barbearia, nós queremos lá saber. 
Até podem dar beijinhos no cu uns dos outros que nós nem vamos olhar.
Mas agora isso de dizer que os cães podem entrar mas nós não, é que fodeu o encanto todo à coisa.
Ponho-me aqui a pensar se, tirando a junção de palavras "cães" e "mulheres", existe alguma outra fórmula que levantasse esta onda de indignação, e tenho as minhas duvidas. Se a coisa não descambar para o racismo e para a xenofobia - que são coisas completamente diferentes e, para mim, condenáveis - não vejo mal em quererem um cena só para eles. Para esfregarem aquelas barbichas uns nos outros. A verdade, e isso é que nos dói, é que eles sabem divertir-se muito mais que nós. Sabem muito melhor como ganhar tempo e espaço para passarem só com eles próprios.

Só para finalizar, porque estou a sentir que tinha muito para dizer sobre o assunto, e quanto mais falo, regra geral, mais me enterro, deixo aqui uma pequena reflexão.
Qual das frases vos deixaria verdadeiramente chocadas, se vissem um letreiro à porta do vosso cabeleireiro, de gajas, entenda-se:
"NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A CÃES"
"NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A HOMENS"
"NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A CRIANÇAS"
"NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A CARECAS"
- "NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A PESSOAS COM PERTURBAÇÕES PSICOLÓGICAS"
"NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A PESSOAS QUE SE APRESENTEM ALCOOLIZADAS"
"NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A LADRÕES"
- ...

Aceitam-se sugestões para meter ali no (...).



Cinco Mulheres





Um,
Dois,
Três, quatro...
Cinco.

Cinco mulheres à beira da solidão, precipitaram-se na tristeza e mataram-se.
Matou-se uma de cada vez.
Cada uma por uma razão.

A primeira mulher sofria de amor.
Mal comum esse, de ser destratada por quem se ama.
Não aguentava olhar o outro nos olhos e, de volta, receber um olhar baço e vazio.
Passou quinhentos e setenta e dois dias num desamor tão profundo que questionava a razão de viver?
Se não havendo amor na sua vida, continuaria a existir vida?
O que era isso da vida sem amor?
Será que o amor que dá sentido à vida era apenas este, o amor entre um homem e uma mulher?
A primeira mulher a sofrer, matou-se de tiro no peito.
Um recado que deixou, a quem não lhe soube amarrar o coração.

A segunda mulher sofria de solidão.
Um dia fora jovem e vivia rodeada de mundo.
De pessoas, de trabalho, de horários para cumprir, de chatices e azedices que, sabia-o agora, eram melhores companheiros que a solidão.
Tantas vezes maldisse a sua vida pelo tempo que não tinha e agora olhava para trás com toda a saudade. Com um desejo quase doloroso de querer retroceder no tempo.
Passava agora os dias vazios, com a cabeça cheia a questionar: o tempo só nos faz falta em novos e sobra-nos em velhos? Ou o que perdemos com o tempo são as pessoas e as coisas que o preenchem e não contrário?
A segunda mulher a sofrer, matou-se por electrocussão. Meteu os dedos molhados na tomada eléctrica e deixou-se ir.
Quis sentir-se viva, cheia de energia. Deu aos que a encontraram um grande choque e uma grande lição.

A terceira mulher sofria de nada.
Tantas mulheres desgraçadas que sofrem de nada. 
Umas com dinheiro, amor, carreira, saúde e alegria, queixam-se que não têm nada na vida. Que nada as faz felizes.
Que não há nada que as faça sorrir, viver, respirar, arfar. 
Quando lhe perguntavam o que afinal a poderia fazer feliz, respondia: nada!
Que nada a faria mais feliz que ser feliz mas que essa felicidade não se alcança do nada. Apesar de nada conseguir fazer.
A terceira mulher a sofrer matou-se por asfixia.
Simplesmente fechou a boca, o nariz, e não mais respirou.
Morreu como viveu: sem ser preciso fazer nada.

A quarta mulher sofria de incompreensão.
Entre ser incompreendida e não compreender os outros, esta mulher sofria de ambos os males.
Sentia-se isolada do mundo ou com um mundo só seu.
Nunca sabia se era ela que estava mal ou se eram os outros que não faziam um esforço para ver que ela estava bem.
Sentia-se tão incompreendida que chegava a questionar-se a si mesma sobre se ela teria alguma vez razão.
Mas lá compreendia que nada no mundo tinha compreensão e resignava-se à sua condição.
A quarta mulher a sofrer, matou-se, atirou-se a um poço.
Procurou o consolo para as suas inquietações no lugar mais fundo que conhecia. Quando chegou lá abaixo não entendeu nada.

A quinta mulher sofria de soberba.
Nasceu com tudo ainda nem o significado de tudo conhecia.
Ensinaram-na a gostar de si, a desdenhar os outros, e a tratar o mundo como se este fosse seu.
Não perdoava ninguém, deviam-lhe todos reverência e manipulava todos como marionetas.
Estava tão cheia de si que nunca viu como os outros também estavam cheios dela. Nunca percebeu que apenas falou e nunca ouviu.
Um dia, quando sem querer caiu do pedestal, ouviu finalmente um murmúrio à sua volta. De ódio, de rancor e de indignação.
Foi vítima das suas próprias convicções: olhou tanto para si que nunca compreendeu os outros.
A quinta mulher a sofrer, matou-se com um pedaço de espelho espetado entre as veias dos seus pulsos.
Morreu a olhar para si mesma, como, de resto, sempre viveu.


Há mulheres que dentro de si são cinco.
Ou serão mais?


22.2.15

Sejam mazé felizes, pá!






Dieta dos 7 Dias
Dieta dos 5 Dias
Dieta dos 3 Dias
Dieta Detox 7 Dias
Dieta Paleolítica
Dieta Macrobiótica
Dieta Vegetariana
Dieta Vegan
Dieta dos Alimentos Crus
Dieta do Leite
Dieta do Vinagre
Dieta do Ovo
Dieta da Aveia
Dieta da Beringela
Dieta do Limão
Dieta do Chá Verde
Dieta da Sopa de Repolho
Dieta da Banana Matinal
Dieta sem Glúten
Dieta da Proteína
Dieta da Seiva
Dieta Líquida
Dieta Seca Barriga
Dieta Vigilantes do Peso
Dieta da Restrição Calórica
Dieta das Calorias Negativas
Dieta do Carboidrato
Dieta dos Pontos
Dieta do Tipo Sanguíneo
Dieta Mediterrânea
Dieta Japonesa
Dieta Dukan
Dieta do Dr. Atkins
Dieta South Beach
Dieta da Lua
Dieta Fat Flush
Dieta da USP
Dieta da Zona
Dieta Gracie

A sério.
Não estão já fartas de comer sementes?
E de comer aveia?
E de beber sumo de limão?
E de mamar colheradas de óleo de coco?
E de fazer hamburgueres de coisas que não são de hamburgueres?


Melhor ainda, não estão já fartas de não ser felizes  mas também não verem resultados nenhuns?

A sério, sejam mazé felizes, pá!


20.2.15

Há homens que nos deixam


Frida Stenmark



Há homens que nos deixam
Loucas,
Desvairadas de tesão.
Deixam-nos perdidas por eles,
De corpos possuídos,
Ideias turvas,
Suadas de escravidão.

Há homens que nos deixam
Mudas,
Porque as palavras serão poucas.
Para agradecer-lhes a vida,
A comunhão,
Escasseiam-nos as palavras,
Quando o desejo une as bocas.

Há homens que nos deixam
Estúpidas.
De tão sábios que são.
Ficamos embriagadas,
De tão frondosa sapiência,
Olhamo-los nos olhos,
Ficamos sem chão.

Há homens que nos deixam,
Nas bermas,
Do nosso amor próprio.
Fazem-nos crer que nada somos,
Que lhes devemos a vida,
Destroem-nos a alma,
Consomem-nos os sonhos.

Há homens que nos deixam,
No passado.
Presas a nós mesmas,
A desejos irreais.
Agarrando-nos pelos ovários,
Por intenções que não tinham,
Iludindo-nos com desejos carnais.

Há homens que nos deixam,
A comer-lhes na palma da mão.
E nós, tontas,
O que fazemos?
Sucumbimos ao desejo,
Rebolamos de,
Tesão.