17.6.17

17.06.2017



O mundo acabou.
Naquele dia pôs-se tudo negro e o céu uniu-se ao chão.



14.6.17

Serei só eu?





Aquela sensação de que passas a vida no trabalho...

... mas depois recebes uma carta dos Recursos Humanos para justificares horas em falta...



[e saberes que quando sais às 18:00 já não está ninguém a trabalhar, mas ninguém parece estar tão em falta como tu... dassss...]


13.6.17

Tamanho da noite




Se a noite fosse tão vasta como o amor que te tenho, 
Não se contariam os dias,
E as noites não teriam nome.
Porque não conheceriamos mundo para além delas.

9.6.17

Os meus dias




- Acordo cansada
- Muito cansada
- Arrasto-me numa valsa desconcertada entre o quarto e a casa-de-banho
- Acordo novamente
- Agora a sério
- Vou para o trabalho
- Bebo café
- Devia beber mais
- Começo a pensar nas horas a que quero sair trabalho para ir para casa dormir
- Começo a pensar nas horas a que tenho de ir almoçar
- Almoço
- Arrasto-me entre o gabinete e o corredor com sono
- Sinto sono
- Muito
- Começo a pensar nas horas a que quero sair do trabalho para ir para casa dormir
- Ainda faltam muitas horas para sair
- Aguento...
- Aguento...
- Aguento...
- Já posso sair
- Vou a correr para casa
- Fuck me... ainda lá tenho um pedreiro
- E um pintor
- Porra, tudo sujo
- Porra, tenho de fazer limpezas
- Não. 
- Olha o sofá
- Deita-te no sofá
- Não.
- Devia ir fazer uma caminhada
- Devia ir ao supermercado
- Devia fazer o jantar
- Acorda Inês!
- Devia pôr roupa a lavar
- Devia estender roupa
- Devia passar roupa
- Devia meter louça a lavar
- Acorda Inês!
- Devia ler
- Devia escrever
- Devia tomar banho
- Tenho tanto sono
- São só dez minutinhos
- Depois é que vai ser
- Tenho tanto sono
- Pronto, vá, dez minutos
- Ahhhhhh... que bom.
- Dez minutos

- Porra...
- 1:00 da manhã!!??!!??


Vá Inês, agora a sério: amanhã é que é!

3.6.17

T-shirts: esse flagelo



Considerando que a minha vida toda nunca foi propriamente uma loucura mas que, sobretudo,  ultimamente tem sido mesmo bastante aborrecida,  permiti-me esse grande sacrilégio que foi vir ao Colombo a um sábado e passar cá um dia in-tei-ro.
Chupem lá isto, pessoas que passaram o dia no maat a ver coisa nenhuma.

Mas dizia eu, que decidi arriscar algo de surpreendente na minha vida que foi vir para uma grande superfície de consumo, totalmente fechada, com um cartão de crédito e com um grande "que se foda na cabeça".  Estava numa de vir fazer o investimento que fosse necessário em t-shirts, porque cheguei à conclusão que tenho as gavetas cheias não sei de quê, e nos cabides tenho muitas camisas e blusas que já não se compadecem com estes calores VS a pouca paciência que tenho para me vestir de manhã.
Bom, e cá vim eu nesta missão.
Pois que daqui,  em direto do CC Colombo, vos digo: RIP t-shirts.
Pergunto: o que é que aconteceu com as t-shirts?  Faleceram? Extinguiram-se? Deu-se a Era glaciar das t-shirts?
A t-shirt está em vias de extinção e é difícil pra caramba de encontrar - dentro dos meus padrões,  obviamente - uma camisola normal.  Ou normal-gira. Normal-tchanan. Normal-Inês. Quem me conhece há-de perceber o que quero dizer com isto.
Agora vemos tops.  Ou blusas.  Ou sweats. Ou camisas. Ou coisas que nem sei o nome.  Mas coisas que,  invariavelmente,  quando são giras,  são curtas de tecido (partem do princípio que só as magras é que gostam de arrasar),  ou quando têm tecido que chegue,  também têm censura que chegue e são chatas, chatas, chatas.
Isto está quase ao mesmo nível da missão impossível que é comprar umas calças de ganga normais.

Bom, mas na dúvida sobre esta coisa de não haver t-shirts à altura,  comprei umas sandálias.

Talvez ainda volte para fazer um capítulo sobre os habitantes do Colombo,  que é coisa que também gosto muito de observar. Pelas roupas que envergam ainda não percebi se aqui dentro está inverno ou está verão.
Até já.



Um dia sou despedida





Estou pelas pontas dos cornos com as pessoas, mais à conversa sobre a incompetência dos funcionários públicos.

É sempre a mesma puta da ladainha que os funcionários públicos é que arruinam com a vida das pessoas.
Que os funcionários públicos são umas putas de borda de estrada que se vendem por meia-dúzia de tostões. Que são corruptíveis por um par de meias de descanso. Ou, então, que os funcionários públicos são uns inflexíveis do caralho. Depende daquilo que der muito jeito ao requerente. Pronto, aqui vá, já é uma questão de conversarmos, não é suas pêgas?
Também adoro quando começa a conversa que os funcionários públicos só vivem de regalias. Se há porra de regalia a invejar (além do esplendoroso ordenado, upa, upa! progressão na carreira, motivação, avaliação, colegas a cheirar a refugado...) é pagar o seguro de saúde mais caro do país. Aquela coisa chamada ADSE e que custa pouco mais de 50 paus/mês. Querem?
Mas, talvez a melhor, é a ideia generalizada de que os funcionários públicos não trabalham. Foi assim uma merda de um boato que surgiu tipo "O Markl tem graça", e às tantas as pessoas começaram mesmo a achar que sim e a espalhar a palavra. E o que não era bem verdade, tornou-se numa verdade indiscutível.
E eu pergunto: ai não trabalham? Então andam todos a fazer o quê? Ai esperem, estou-me a fazer de sonsa, eu sei:
Passam a vida no café a coçar a rata, a conversar sobre o Love on Top, a rir em voz alta e a ver a Nova Gente, enquanto uma fila de malta por atender se acumula no guiché.
E também têm outra tarefa, aquela que os fez reencarnar neste mundo e que é a sua missão na terra: infernizar a vida às pessoas. Por nada. Assim racionalmente, não há razão nenhuma, mas o deuses, há milénios atrás, acharam que tinham de se criar grupos de pessoas que só soubessem dizer que não a tudo, a outros que só queriam que se lhes dissesse que sim a tudo. 

Na década de noventa havia uma publicidade institucional, de carácter pedagógico e cívico (foi quando deixámos de cuspir para o chão. regredimos entretanto), que dizia:
PORTUGAL NÃO É SÓ TEU!

Devia ser recuperada.
Estamos cada vez mais egoístas e estúpidos. Bestas. Para com os funcionários que trabalham para nós, público.
Respect!


Pronto minha gente.
Fica este leve apontamento de fim-de-semana.
A bem da nação, e talvez do meu contrato de trabalho, chegou a sexta-feira.

[Deixo um agradecimento especial ao meu colega do lado que me deixou exprimir livremente nestes últimos dias recorrendo a vocabulário pouco próprio, e que ainda sorria como se estivesse a achar a alguma graça quando ambos sabemos que já nem me estava a ver.]


1.6.17

1 de Junho de 2016




No dia 1 de Junho de 2016, para mim, não existiu Dia Mundial da Criança.

No dia 1 de Junho de 2016, num exame pré-natal de rotina, foi diagnosticada uma malformação congénita grave, incompatível com a vida, no meu bebé.
Estava nas 22 semanas de gestação.

No consultório às escuras, ouvia-se "Bed of Roses" dos Bon Jovi. A médica marcava o ritmo da música com a ponta do pé e tinha os olhos colados ao ecrã. Apesar do Jon Bon Jovi se esforçar nas notas, senti um profundo silêncio.
Percebi que não ia sair dali a mesma Inês que entrou. E não saí. 

Apesar da sentença que levava nas mãos, as pernas bambas ainda conseguiram providenciar uma série de diligências que importavam antecipar, a cabeça ainda conseguiu não correr para o telemóvel a gritar por ajuda, e os olhos aguentaram estoicamente, devo dizer, o que pensava ser apenas um par de lágrimas. 

Aquele dia da criança ficou cristalizado no tempo. Lembro-me de cada minuto. E isto é de uma estranheza indescritível. Recordo-me das horas antes de ir para o consultório, das pessoas com quem me cruzei, do que disse, dos locais onde entrei, do que almocei, do que levava vestido, do que a médica tinha vestido... E lembro-me de todos os minutos depois. Do imenso calor que estava. Da dor que senti no peito. De ter de dar a notícia ao meu grande amor. De ter de ser a portadora de mais esse sofrimento. De ter de mentir ao telefone à minha mãe. De a minha mãe me felicitar pelo dia da criança mais especial de sempre a partir de então, e eu ali, acabada de saber que era o fim e sem coragem para lhe dizer. Cortou-me o coração em mil bocadinhos.

Desde o dia 1 de Junho até ao dia do seu nascimento a 16 de Junho, perdi e recuperei muitas vezes o meu filho. Tive fé e perdi-a várias vezes, no mesmo dia. Num dia chorava a perda, no dia seguinte sentia-me a mãe mais forte do mundo, porque num dia me davam um prognóstico e noutro dia me davam outro. 
Porque num dia me diziam a verdade e, noutro dia, me diziam mentiras porque erraram na procura da verdade. 
Uma coisa sei e tenho como definitiva na minha vida: perdi a ingenuidade e a criança que tinha em mim.
Isso foi-me roubado para sempre.  É irreversível e irreparável. Deixei de ser criança. 

Agora,  todos os dias envelheço a pensar no meu bebé. Todos os dias choro por ele. Choro por nós os três. Ainda choro, sim. De uma maneira, de outra, mas choro todos os dias. E choro pelas coisas mais parvas.
Choro por dentro, e este é apenas um exemplo, quando ouço pais a queixarem-se das birras dos filhos. Ou quando lamentam que deixaram de ser donos dos seus próprios horários,  ou que nunca mais conseguiram ter a sala sempre arrumada (shame!) ou, e esta está entre as minha preferidas, que os filhos não os deixaram dormir naquela noite, ou que não dormem em condições desde que os putos nasceram (não colocando em causa que possa ser verdade mas, porra, não se queixem). 

Curiosamente, eu também não tenho dormido bem neste último ano e a minha vontade de arrumar a sala também não aumentou. 

Sejam gratos. 
Amem as vossas crianças.


29.5.17

Meias verdades




Não é verdade.
O Herman ainda está vivo.

E é isto...




metamórṗhosis

Carolina Madruga



O meu corpo evade-se.
De tempos em tempos.
Sinto-o.
E cedo-lhe.
Observo o fenómeno.
Se nos permitirmos ver-lhe a beleza,
A mutação é assombrosa.


Quando o corpo sai do corpo,
Não sobra nada.
Sobra apenas a beleza de sermos nós.
De termos o raro momento de ficarmos a sós.
Connosco.
Com a nossa mente.
Num vazio.
Muitas vezes num vazio.
Quando o corpo sai do corpo,
Não há horizonte.
Nem passado.
Somos nós.
Naquele instante.
Sem intermitências.
Porque não há um corpo.
Porque não há pensamento.
Nem consciência.
É a mente a despegar-se.
A libertar-se do seu papel.
É um corpo a não querer ser corpo.
Uma mente que não quer ser mente.

Somos nós a não querermos ser nós.


[Não é inquietante não querermos ser nós. É fascinante.]



11.5.17

Coisas novas para pensar



Não sei se me apoquenta mais a minha vida se a morte dos outros?

Ou se me apoquenta mais a minha morte do que a vida dos outros?


Ora aqui está uma daquelas chachadas que de vez em quando me vem à cabeça e me faz pensar.