terça-feira, 22 de novembro de 2016

Vícios. Recaídas. Paranóia. Rendição.



Às vezes sinto-me a viver com um grupo de alcoólicos anónimos dentro da minha cabeça. 
Sempre com putas de recaídas.

A questão é: mando-os vir para a próxima sessão a ver se continuamos a resolver o assunto, ou mando-os para casa e desistimos disto?


[É que mais estúpido que tentar converter um acontecimento que já se deu, é tentar convencer-me que isto um dia... passa.]



quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Da série: Volta a ser o que eras por favor - Parte III

Nestes 153 dias longe do mundo não perdi tudo tudo tudo. Sei que ele continuou a rolar, certo?


Apesar de tudo ainda percebi que:

- Sim eu sei que o Trump ganhou as eleições, e sim tenho uma opinião talvez mais improvável que aquela que imaginam mas vou guardar para mim porque neste contexto em que me movo nunca, jamais, em tempo algum, me ouvirão falar de política.

- A Lua ficou mais próxima da terra, e mais brilhante e mais coiso, no dia 14 de Novembro, não foi? Mais coiso, talvez, de resto... 

- Aquele rapaz, o Pedro Dias, que ao vigésimo nono dia - qual evangelho - se entregou às autoridades, não sabe, mas eu apostei as minhas fichas todas em como ele era inocente porque, para mim, já estava morto há que séculos. Aliás, eu apostava que ele tinha sido o primeiro a ser assassinado e que o estavam a usar como bote (não é bode, por amor de Deus, que já não se aguenta!) expiatório. Um Twin Peaks à portuguesa, não sei se estão a ver. Eu andava entusiasmada com a cena, até ao dia em que disseram que ele tinha sido visto num café em Espanha a pedir um bocadillo e um galão. Oh Pedro Dias, pá! A sério? Um galão?

- Também vi que o António Guterres é o novo secretário-geral da ONU (e arrepiei-me primeiro e só depois é que pensei sobre o que isso queria dizer, e depois senti-me estúpida por isso, e depois senti-me bem porque primeiro percebi que era estúpida mas ainda fui a tempo de deixar de o ser. António, espero que consigas fazer o mesmo com o resto do mundo).

- Vi que o nosso Presidente da República, em cumprimento do que já vem sendo uma tradição linguística nos nossos representantes de estado, tem um espanhol que upa upa com ele, e que o Durão Barroso... não devia ter ficado na minha memória de notícias sobre o país e o mundo.

- Constatei a morte de pessoas.

- Constatei o baby boom, pelo qual estou a passar ao lado.

- Tenho assistido atenta à questão do ordenado e declaração de rendimentos do futuro-ex-não-sabemos-o-que-te-fazer-administrador-da-CGD e gostava de saber do que é que andam a falar. É uma não-questão. Também ficariam surpreendidos sobre o que penso disto.

- Acho que houve muitas outras coisas que me terão despertado  interesse, discreto e escondido, nestes 153 dias em que congelei a minha vida mas houve, certamente, um assunto que me fez ressuscitar: o Forte de Peniche.
Não, não e não! Em algum momento os interesses políticos, económicos, narcísicos, têm de ser postos de lado e alguém tem de travar estas pessoas que, cegamente, não se conseguem travar a si mesmas.
Eu não era nascida no 25 de Abril, portanto, não o era antes disso, e não estava cá na época em que o Forte de Peniche serviu de prisão. Mas ele está lá. Para quem o quiser ir ver. "Visitar", se preferirem a palavra mais ligeira. O Forte de Peniche é duro, e encerra dentro dele histórias pessoais aterradoras que ainda hoje transparecem, mas encerra nele, sobretudo, uma parte da história do nosso país que, apesar de nos (me) envergonhar, nos representa e completa a história do que fomos. Sim, também fomos aquilo. 
Lembro-me de olhar para os fossos onde os prisioneiros eram colocados de castigo e imaginar que quando a maré subia eles ficavam ali... ali... no mar, em fossos, no frio. Porra. Eram homens a fazer isto a homens, há apenas sessenta anos. Aqui, em Portugal. Éramos nós, os nossos avós, a fazer isto uns aos outros. Julgamos que estamos longe de países de grandes ditaduras? Não estamos.
Ir até lá, estar lá, ver os documentos de identificação das pessoas que ali estiveram torna tudo demasiado real para pensarmos que já passou. Espero que não passe nunca. Somos todos nós ali.
Eu tinha 12 anos quando lá estive. Lembro-me de tudo.
Mais que enfiar um hotel de luxo que apague as torturas de que nos envergonhamos devemos usar o Forte de Peniche para ensinar todas as gerações porque é que hoje todos temos telefones, podemos comunicar livremente, temos dinheiro para ir ao cinema, andamos calçados e, sobretudo, podemos usar as palavras.
Caríssimos, houve gente que antes de nós fez por isso.
Alguns estiveram em Peniche, e não foi de férias, por isso dêem ao local e às pessoas a memória que eles merecem.


E acabo com o apontamento em modo "chata-que-dói" mas andava com isto de Peniche atravessado.


Da série: Volta a ser o que eras por favor - Parte II

O mundo deu voltas nestes tempos em que eu desapareci e eu quero recuperar o que andei a perder


Comecei o blog há não sei quantos anos e isto trouxe-me de tudo um pouco. Vou entrar em saudosismos estéreis por isso, se não for de gosto, fico a advertência: vou fazer um "apanhado" mariconço (e já ando para dizer isto há algum tempo: eu escrevo imensas palavras que o meu corrector ortográfico não reconhece, como, por exemplo, mariconço ou, do texto anterior, a palavra pirilau, e não sei porquê).
Mas dizia eu, que lá atrás no blog, começou a escrever uma pessoa um bocado nhéca. E eu nem digo isto com desprimor, dou-me aliás um certo desconto porque se eu hoje escrevesse exactamente da mesma maneira e pensasse exactamente da mesma maneira que aquela pessoa de há não sei quantos anos é que era preocupante. Houve um evolução e isso parece-me que não pode ser mau. Mas custa-me a parte do parecer nhéca, confesso... e custa-me encontrar alguns textos com os quais hoje já não me identifico... e também acho parvo ter tido tantas opiniões sobre relações quando estive anos (anos! Ahahahahah...! O meu querido eufemismo! A irmã Lúcia ao pé de mim mandava-se para o chão a rir) num sequeiro de meter dó... 
Depois notei ali amarguras de outra natureza, arranques humorísticos e, até, comentários sobre a atualidade não tão desprovidos de sentido quanto eu tenho sempre tendência a pensar. Eu acho-me sempre um bocadinho mais parva do que aquilo que sou (constato isto ao ler-me anos depois como se fosse outra pessoa).
Depois, caio ali num chove-não-molha, ai-que-sou-tão-séria e só-escrevo-bem-se-estiver-deprê, que me torna na pessoa mais cinzenta do planeta e, quem sabe, da minha rua. E olhem que aquilo para a minha rua não anda bem ao nível de pessoas cinzentas. 
E pergunto-me agora, que me observo de outro lugar, fora do planeta, e consigo ver cá de cima lá para baixo: O que se passou contigo mesmo antes de se abater a tempestade na tua vida?

A vida é chata, já sabemos.
A vida enrola-nos, indromina-nos, já sabemos.
Como dizia um professor meu, acabamos a ter o trabalho que não queríamos, a ter a casa não queríamos, o carro que não queríamos e a casar com a mulher que não queríamos. É lixado. Também já devíamos saber. Basta ver o que nos antecedeu.
Mas haveria assim tantas razões para escrever como se estivesse sempre a cortar os pulsos com folhas de papel?
Estranhamente, não me lembro. Mas também já não importa.
A tempestade também tem destas coisas. Ironicamente, limpa tudo. Até as memórias. Neste caso talvez seja o que precisava para poder avançar e voltar a escrever sobre coisas sem sentido, com palavras que o corretor ortográfico e o dicionário não reconhecem, e viajar por imagens que, quase sempre, são o espelho exacto do estado de alma em que me encontro e falam mais de mim do que as próprias palavras que me saem dos dedos.
A tempestade não passou totalmente, há uma depressão atmosférica ali sobre o oceano das emoções que ainda teima em abanar umas palmeiras mas, nesta fase do campeonato, agarro ao que importa, e importa muito: começo a sentir-me um bocadinho livre.


Da série: Volta a ser o que eras por favor - Parte I

Não há uma razão muito óbvia para esta babe estar aqui, para além de hoje ser este o meu estado de espírito.



Ontem andei aqui pelo blog a reler umas coisas antigas como terapia para me trazer ao mundo novamente - porque os níveis de senilidade e falhas de memória já vão muito acima do número de bananas por metro quadrado na Ilha da Madeira -  e encontrei e constatei coisas interessantes.
Tenho coisas muito más, más de francamente mal escritas, e outras muito boas, de francamente surpreendentes. E foi a estas que me agarrei com um orgulho velado e pensei "porra Inês (sim eu chamo-me Inês) tu tinhas uma vida dentro de ti rapariga, uma genica porreira, um sentido de humor que dera a muitos e agora morreste de dentro para fora e estás à espera que te venham salvar... mas ninguém vem filha, ninguém vem, e tu até sabes disso e mesmo assim pareces um saguim morto com a língua de fora a ver se alguém tem pena e te passa a mão pelo pêlo e te tira da valeta pelo cachaço".
Não vai acontecer. Capacita-te. 
É verdade que me aconteceram demasiadas merdas este ano - não têm outro nome - que não deviam acontecer a ninguém. Verdade que pensei que aguentava tudo, que era a super-mulher, que tinha um arcaboiço do tamanho do pirilau do Éder,  que tinha estrutura mental e maturidade para lidar com as adversidades que a vida me quisesse dar e, num golpe que ninguém compreende e para o qual já não procuro explicações, percebi da pior maneira que não tinha. Não tenho. Não tenho nada. As perninhas e a cabeça falharam e falham com uma grande pintarola e dói menos aceitar e seguir em frente.
Vou ser fraca muitas vezes pela vida fora. Até aos meus 35 anos pensei que não. Afinal são só 35. 
35... bem... nalguma coisa isto tem de parecer pouco.

Não sei se me vai apetecer, daqui em diante, escrever sempre com o sentido de humor com que me li lá para trás, mas sei que aquela Inês ainda existe algures. Não sou a mesma, já o disse. Mas aquela Inês que ontem me fez rir (eu não digo que fiquei senil) tem de voltar a entrar em minha casa porque a fulana tem piada. E eu preciso de gente assim perto de mim (ou de um marido que me diz: "tens um sentido de humor à gajo" ... e eu ainda estou para perceber se isto é bom se é mau... mas tendo em conta que ele continua a dormir comigo, vá... tenhamos fé...).




terça-feira, 15 de novembro de 2016

[recomeçar]




A soltura deu-se.
Algures entre uma parte e outra do corpo.
Ainda não o sabes.
Ainda não o disse.
Nem a mim o ousei anunciar.
Mas a soltura deu-se.

[Quero recomeçar.]




sexta-feira, 11 de novembro de 2016

D.O.R.






Hoje dói.
Sinto as saudades que, diz-se, não devia sentir.
As saudades do que não se chegou a ter.
Mas elas existem.
Cegam-me.



[Hoje sinto-te comigo.
Hoje...
Eufemismos.]



A. M. O. R.






                                                                       Mais que ódio e rancor,
                                                                       Sinto tudo,
                                                                       Sim.
                                                                       Sinto amor.



terça-feira, 18 de outubro de 2016

Ao acertar do violino



Quando o violino nos tocar aos ouvidos

A última nota afinada,

Conheceremos todas as outras que lhe seguirão.

Serão tortas.

Guinadas.

Serão agulhas afiadas,

A cantarem-nos o último hino.

Desejaremos que tudo termine,

Nos empurrem por fim para a cova.

Que a terra nos tape os ouvidos,

E nos acabe com o sofrimento.

Que a agonia das notas agudas,

Nos silencie por fim,

A dor,

Dos pensamentos.




[Vou buscar-te. Prometo-te.]



sexta-feira, 14 de outubro de 2016

"Sou tão feliz"

Sou tão feliz


Não, acalmem-se, não sou eu que "sou tão feliz", assim de um momento para o outro. Quem dera.
É o Marco Paulo.
Ontem, nas minhas Googlices e Youtubices, de vídeo em vídeo, (comecei pelo "Anita" e sugiro que vejam um menos conhecido "Cá se faz cá se paga") deparei-me com a participação do Marco Paulo no Festival da Canção em 1967. 
Ora, eu nem sabia que o Marco Paulo tinha participado num Festival da Canção (evento que eu tanto, mas tanto, prezava - vejam o tempo verbal), quanto mais em vários, e que aqui tinha apenas 22 anos e... não se façam de sonsos, não me digam que aqui não parecia o Cristiano Ronaldo.

Chaladices à parte, o que me impressionou nisto, para quem já viu o vídeo, é esta brilhante interpretação, é a classe da época e é o ponto de interrogação crescente e inevitável do: "e se?".
E se o Marco Paulo não fosse de cá, e tivesse tido alguém que o conduzisse numa carreira menos romântica e popular e o tivesse encaminhado para uma carreira mais ambiciosa, profissional, glamourosa, internacional? Algo mais classy. Não queria cair na comparação fácil com um Sinatra mas o nosso Marco Paulo bem que podia ter estado lá. Vejam-lhe bem a postura. A voz, nem vamos falar. Ainda hoje há que reconhecer que tem um dom: o de cantar.
Talvez o Marco Paulo tenha feito exactamente o percurso que queria e tenha exactamente a carreira que ambicionada mas, depois de ter visto este momento singular, fico com a sensação que as opções dos 22 anos nos deixam sempre ficar mal e, que se soubéssemos naquela idade o que sabemos aos 62, seria tudo diferente. Mas também aquele brilho nos olhos o seria com certeza, porque já saberia que o que vem a seguir não são só rosas.

No ano de 1967 quem venceu o Festival da Canção foi Eduardo Nascimento com a mítica música "O vento mudou" cujo refrão conheço desde miúda porque, ao que consta, a coisa foi polémica por questões políticas e a minha mãe, de quando em vez, em modo de gozo, cantarolava isto lá por casa. Não é bom, nem é mau, marca uma época. Ninguém sabe que é feito do Eduardo Nascimento, bom cantor, por certo, todos concordamos que não seria, e também não será culpado do Marco Paulo não ter vencido, porque o Marco Paulo ficou lá para o sexto lugar.

Um dia crio aqui a etiqueta só dedicada ao Festival da Canção porque isto tem sumo que nunca mais acaba.
No ano em que nasci ganhou das mais emblemáticas músicas de sempre e, a minha preferida, foi a de Maria Guinot que, apesar de ser um tiro ao lado neste tipo de concursos, é de uma extraordinária beleza.
Quem não se perder com a frase "troco a minha vida por um dia de ilusão..." não anda cá a fazer nada.



terça-feira, 11 de outubro de 2016

Do lado direito bate o coração




O teu coração é que estava certo.
A bater do lado direito.
Os nossos, esquerdinos,
Como todos os outros,
São só mais uns,
Entre tantos.
Iguais entre iguais.
A baterem do lado errado,
Pensando que batem do lado certo.
A viverem de viés,
Numa existência já de si torta.
O teu coração,
Que ousou romper do peito,
Escolher outro caminho,
Sabia que o amor se sentia mais,
Se nascesse do lado improvável.
Sabia que num abraço,
Entre duas pessoas,
Que se amam,
Ou se odeiam,
Um coração do lado direito,
Bate colado ao coração do lado esquerdo.
E há lá poder maior!
Haverá magia maior!?
Sentir dois corações colados,
A bater a compasso,
Ou descompassadamente,
Mas sempre,
Sempre,
Num momento único.
Como tu.
E o teu coração.
Haverá lá maior poder,
Que poder mandar,
No próprio coração?