quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Baby Blues e Diet Blues

 


Recuperar rascunhos | 2016 #3

2 de Janeiro de 2016

Estou de dieta... mais uma vez.
E hoje, dei por mim tão deprimida que pensei: "porra, parece que acabei de parir e só me apetece fugir de casa e dar a cria para adoção".

E lembrei-me de como isto é parecido com os baby blues das minhas amigas que foram mães.
Eu já estou velha, por isso as minhas amigas já foram quase todas mães (enquanto elas passaram estes anos a ser mães eu passei-os a fazer dietas) e eu bem sei que todas, quase todas, tiveram os seus baby blues (isto para ser simpática) e depressões. Depressões pós-parto, durante-o-parto e antes-do-parto.
Não vale a pena esconder. Ou melhor, vale a pena esconder porque são dores que, por estranho que pareça, sabem bem ser sofridas sozinhas. Há muita gente que não compreende, sobretudo, a geração daquelas que são agora nossas mães. Acham que é tudo frescura (mas na verdade é amargura porque na altura também sofreram mas tiveram de se fazer mulheres à força e agora querem fazer o mesmo com as filhas. Adiante).

Estive aqui a analisar os pontos de contacto entre os Baby Blues (BB) e os Diet Blues (DB) e corrijam-me se eu estiver enganada porque, bem vistas as coisas, ainda só estive de um lado da barricada, mas parece-me que isto anda ela por ela em termos emocionais:

1º - Entras nisto porque queres (só que não)

BB - Não estarei longe da verdade se disser que para uma boa percentagem das mulheres ter um bebé ainda pertence à lista de coisas para fazer durante esta vida, porque pensamos que nos vão fazer felizes e completar como mulheres e seres humanos. Associamos um bebé ao amor por um homem, queremos saber o que é gerar vida e (quanto a mim aqui é que bate a questão) há toda uma expectativa da sociedade em que contribuamos para a continuidade da espécie e, se não o fizermos, seremos as filhas da puta que estragaram o jogo. Assim-como-assim, mais vale ter um filho, que até deve ser bonito, e garante-se a continuidade da vida e alguém que nos acompanhe na velhice (façam conta com isso façam).

DB - Todas as mulheres querem ser magras. As que já são querem continuar a ser, as que não são querem sê-lo. É mentira, MENTIRA, quando uma mulher gorda diz que gosta de ser assim, e que se aceita e ama o seu corpo como é. É tão mentira que é vê-las passado uns tempos, magras que nem alhos franceses, a meterem as culpas no acaso. E as que nunca chegam a ficar magras foi porque nunca conseguiram pelas mais variadíssimas razões. E podem mesmo ser milhões de razões. Por isso, Quando entramos num dieta de cabeça, é uma decisão tomada de forma consciente e firme. Não podemos culpar os outros ou dizer que fomos obrigadas. Iniciamos esta viagem, direitinhas ao fosso do Diet Blues, porque queremos muito alcançar algo mas nunca nos sai da cabeça que se estivéssemos sozinhas no mundo não precisávamos ser magras e que, na verdade, e mais uma vez, só o fazemos porque há uma sociedade (essa entidade anónima) que nos pressiona a ser perfeitas.

2º - Tens a primeira consulta pré-objetivo

BB - Se a coisa for programada o ideal é ir antes a uma consulta. Se não for, já percebi que vai dar ao mesmo porque os médicos não ligam ponta a um teste positivo de uma gravidez de meia-dúzia de dias. Por isso ainda estou para perceber a cena de preparar a gravidez. Anyway... A primeira consulta é aquele excitex. A pessoa pensa que vem aí o melhor do mundo. Foda-se! Espetacular. Um bebé! Um bebé para sempre!!!! (sim, a pessoa não se lembra que depois eles crescem) Um amor para sempre!!! Tudo para sempre... sempre... sempre... sempre... que bom que é o para sempre.

DB - A pessoa primeiro tenta sempre sem ajuda. Afinal de contas toda a boa gente sabe que a receita para o sucesso está em fechar a boca e dar ao rabo. Mas depois há aquelas que são conscientes e que já andam nisto há muitos carnavais e sabem que não vão lá sozinhas e precisam de um polícia para as meter na linha e, por isso, decidem ir a uma consulta com um nutricionista. A primeira consulta é aquele excitex. A pessoa pensa que vem aí o melhor do mundo. Foda-se! Espetacular. Diz-me que eu daqui a um mês já devo ter menos 4kg! Nem acredito. E daqui por dois meses já tenho menos 10 kg. Txiiiiii! Estou que nem posso, porque é que não vim antes. E é desta que eu vou ficar magra para sempre. Sempre... sempre... sempre... que bom que é o para sempre.

3º - A avaliação da primeira semana

BB - A criancinha já nasceu. Vamos fazer esse suponhamos uma vez que em princípio só há BB's quando a criancinha nasce. Ora a criança está cá fora. Que bom que alegria. Era mesmo isto que eu queria. É meu, só meu e do paizinho. É a minha cara, é a cara dele. É a alegria desta casa. Só que não. Eu não conheço este puto. Eu tinha uma barriga há uma semana que cresceu durante nove meses e agora querem vender-me que era isto que estava lá dentro? Nah, nah, nah... vamos lá com calma. Eu tinha uma barriga, não tinha um bebé. Podem dar-me tempo para eu me habituar? Para eu pensar no assunto? Para eu conhecer esta pessoa que me puseram nos braços e esperam que eu conheça há imenso tempo? Sabem, eu também nunca o tinha visto, tá??? Instinto maternal o quê? Ah, tá, sei... 
(Vou ali trancar-me na casa-de-banho a fingir que estou a fazer um cocó que demora cinco horas só para me deixarem em paz um bocado, ok?). Acabou-se o para sempre... sozinha... não foi? Já não quero brincar mais a isto, posso desistir?

DB - O para sempre acaba quando? Só me apetece comer uma lasanha do LIDL e acabar com uma taça de Cérelac. A sério que só passou uma semana? Um mês? Perdi quanto??? 100 gr? Mas não me tinha dito que perdia 4 kg no primeiro mês? Não fiz nada de errado, juro! Só comi saladas e sopas, evitei os hidratos depois da 5 da tarde, e bebi 3 litros de água todos os dias. Quê? Coca-Cola? Nunca! (a zero não conta pois não?).
O melhor é ir comprar um comprimidos de CLA à Parafarmácia que isto assim não vai lá. É preciso ajudar com exercício físico? Subo imensas escadas no trabalho, juro que me mexo imenso.
Já não quero brincar mais a isto [fui ao LIDL].


4º - Passou a segunda semana, mas já queres estar no sexto mês

5º - O médico dá-te na corneta e não fazes birra

6º - Voltas a entrar na linha

7º - Finalmente o dia D

8º - Foda-se... e agora?

9º - Posso desistir?


(E isto tornou-se tão extenso e chato que até eu me fartei. Era aquele post impossível de acabar. 
Deixo ainda a nota, que julgo necessária,  sobre a data em que foi escrito.  À data,  eu ainda não estava grávida (mas não havia de tardar) e por essa razão escrevi na ótica de uma mulher que nunca o tinha estado.  Dêem por isso,  se assim o entenderem,  o devido desconto). 



Império dos sentidos



Recuperar rascunhos |2016 #2
Março 2016



Um destes dias, numa daquelas sessões de zapping irracionais quando se tem duzentos canais à escolha mas não se gosta de nada, lá acabei por assentar arraiais no óbvio, e nunca decepcionante, canal 2 (ou RTP 2 ou II, já nem sei...).
Ora bem, na informação da programação dizia-me que tinha começado há coisa de quinze minutos o filme "Império dos Sentidos", e eu pensei cá para comigo, entusiasmada, "que cena porreira, vou aqui ver um filmezinho para me entreter o resto da noite e ainda por cima um clássico daqueles imperdíveis mas que nunca vi! Que sorte!".
Bom, na realidade, isto foi depois de eu perceber que não era o "Império do Sol", coisa que demorou uns dois minutos (eu sei, eu sei...) mas que também não me estava a cair mal porque também era um clássico que precisava arrumar na minha prateleira. Enfim, não foi nesse dia, será noutro.

Mas dizia eu que, finalmente, vi esse grande, gigante, e incontornável clássico do cinema mundial que é o "Império dos Sentidos".
Pois que vi, não mais que vinte minutos.
E pergunto: senhores, mas o que é aquilo?
Que selvajaria fora de época é aquela?

Vamos a ver se me consigo fazer explicar.
O meu cérebro, que estava calmo e sereno naquela noite, ao ver na programação um filme que imediatamente reconheceu como um clássico que, inexplicavelmente, ainda não tinha visto, posicionou-se para ver qualquer coisa entre o "E tudo o vento levou" e o "Hiroshima meu amor", porém, não foi isso que aconteceu.
Em menos de nada, sem avisos prévios, estava o fulano montado na miúda franzina e quando esta se levantou ainda papou a velha que estava a lavar o chão como se andasse por ali a ver montras, numa do "disfarça que eu assobio", e foi tudo de empreitada. Era novas, velhas, cães e gatos e o que mais houvesse.
Entretanto a franzina, de seu nome Sada, que também não é boa das ideias senão não alinhava naquilo tudo e, se eu ainda tive alguma pena da rapariga nos dois primeiros minutos de jogo, a pena passou-me logo quando vi que ela batia o meio-dia às onze, ainda vende o corpinho a um velho rico que, valha-nos o Deus das gueixas, nem às múmias fazia inveja.

E no que mais é que este filme me atarantou?
É que aquilo às tantas mete pipis e pilinhas à descarada no meio de kimonos, mas com uma imagem antiga, típica de uma película dos anos 60 mas com pornografia barata dos anos 90. E isto é confuso, caramba!
Ou se bem que é um filme antigo, um clássico, ou se bem que é um filme porno. As duas coisas misturadas dá mais confusão que uma salada russa envolvida em leite condensado.
Alguma coisa, ou muitas coisas, não estavam a bater certo naquele filme. Cheguei, então, àquele ponto em que comecei a abrir a mente, a reposicionar-me e a tentar arrumar o filme numa categoria entre o erótico, o porno, a banda desenhada, o drama, e qualquer coisa do Hitchcock (há sempre um momento nos filmes do Hitchcock em que meto a mão à frente dos olhos) mas tive muitas dificuldades em organizar-me e desprender-me da ideia de que afinal já não ia ver um clássico nipo-naïf e que as mãos à frente dos olhos só se fosse para não ver as partes pudibundas do amante velho da Sada e da criada que gostava de festa da grossa.


(Isto era para continuar mas faltou-me o fôlego naquele dia e hoje falta-me o talento para o acabar...)



Foi tão bom, não foi? Não. Não foi.




Recuperar rascunhos | 2016 #1
11 de Fevereiro 2013


Ontem fui ao teatro.

Eu já vi muito teatro: bom, mau, assim-assim.
Depois há outros sub-níveis: "Uau, foi o melhor que já vi na minha vida", "Cortem-me os pulsos, porque é que é que eu vim, porque é que eu nasci?" e o "Hmmm, está bem.... mal empregado dinheiro..."


Mas como dizia, ontem fui ao teatro.

E apeteceu-me acabar com a própria vida.
Desculpem meter isto assim à bruta mas o desespero  não conhece horas nem momentos oportunos.
Curiosamente (e há um ponto positivo nisto) não me apeteceu acabar com a vida dos atores mas sim com a minha.
O ponto positivo é, portanto, ainda haver qualquer coisa que me faz respeitar quem trabalha nisto do teatro e das artes em geral. (Viram? Até lhe chamei arte).


Algo já me fazia adivinhar que o público a que se destinava era pouco eclético mas nada me preparou para mais de duas horas de monólogos. 

Nem a mim, nem a ninguém, a ver pela reação do público no final.
Duas horas de espetáculo? Ou é muito bom, e nem em bom creio ter aguentado mais de duas horas num teatro ou, então, quaisquer quinze minutos são uma tortura.
Cinco pessoas, cinco monólogos.
Não, não eram cinco pessoas a conversar ou a contracenar. 
Eram cinco pessoas num palco, sempre em permanência, mas em que quatro assistiam sempre ao monólogo do outro.
Revezavam-se de monólogo em monólogo, de tiro no pé, em tiro no pé.

Dramaturgia e encenação à parte, que não sendo brilhantes tiveram os seus momentos que nos podiam agarrar se, em algum momento nos quiséssemos deixar agarrar, o que não ajudou absolutamente nada mas contribui, p'raí, em 90% para o sucesso de uma peça foi a representação. E a representação, valham-nos os deuses, a representação foi do mais medíocre que se tem visto neste planeta. Com um acréscimo grave: os atores acharem-se a última bolacha do pacote sem se darem conta que o pacote já passou do prazo e está tudo rançoso. 

Isto do teatro, como tantas outras áreas da arte, não é para todos e não basta montar uma coisa qualquer,  de preferência muito grande para parecer que envolveu muito trabalho intelectual,  espalhar uns cartazes e cobrar uns bilhetes. 
Nisto do teatro,  como em tantas outras coisas da vida, ou se tem ou não se tem.

Agora vou ali picotar os pulsos com pioneses e enfrascar-me em valiuns e já venho.
(vou sonhar com esta porra.  merda.)



Rascunhos 2016




E a vontade que me deu de limpar a caixa de "rascunhos" de 2016 e publicar tudo até ao final do dia...



Sobre as desilusões e a morte de golfinhos no Rio Ancão




Este título surgiu-me na cabeça quando andava nas lides domésticas, mas com um twist: "Sobre as desilusões e a morte de golfinhos no Pacífico".
Surgiu como metáfora, irónica, do que se passou e passa na minha vida, e naquele momento em particular. Sobre como não ter desilusões e existirem golfinhos no Pacífico é tão improvável como conseguir comer um gelado dentro de um vulcão. Mas afinal não é. Apesar de ser um bocado tonta, não sou totalmente estúpida, e tem vezes que gosto (ou prefiro ou acho mais seguro para não fazer más figuras) estudar as matérias antes de escrever sobre elas.
Pois bem, descobri que o título não podia conter "golfinhos no Pacífico" se me queria referir a uma impossibilidade porque, para grande espanto meu, existem golfinhos no Pacífico. Pronto, vá, não fiquei espantada, mas o "Pacífico" soava melhor no título e eu sabia que não podia ser e lá tive de ir procurar no globo um local com água onde não existissem golfinhos. Comecei pelos oceanos e não tive sucesso: existem golfinhos em todos os oceanos do planeta. Tive de passar para os mares. Nos mares também não me safei (ainda que a pesquisa não fosse exaustiva) e, bem sei, estarão a pensar no Mar Morto mas, a palavra "morto" não caía bem num título onde já consta a palavra "morte". Preciosismos, talvez. Falta de rigor, mais provavelmente, porque primeiro deviam estar os factos. Mas o blog é meu e eu faço o que quiser. E o cérebro também é meu e eu meto-o nos labirintos que me apetecer. Apeteceu-me prescindir do Mar Morto em favor de um título mais escorreito. Depois virei-me para os lagos, poças, riachos e lá cheguei aos rios. Só uma pequena nota: extinção dos golfinhos? Nunca vi tantos num momento em que precisava imenso não os encontrar em algum lugar.
E pronto, voltamos ao que interessa - a mim, pelo menos - que era a questão da metáfora entre as desilusões serem uma inevitabilidade na mesma medida em que é impossível existirem golfinhos onde? No Rio Ancão. Confesso que não fui confirmar esta informação de não existirem golfinhos no Rio Ancão. Estou a lançar-me sem rede, à maluca, completamente crente que desta vez acertei. Pensei no Rio Ganges mas, os Deuses sabem melhor que eu e talvez me tenham sussurrado ao ouvido que, naquele Ganges há muita vida para além da morte e, existirem golfinhos, talvez não seja assim tão impossível.
Ah, a parte da metáfora, que me está sempre a escorregar:
"Não há golfinhos no Rio Ancão como não há vida sem desilusões".
É só isto.
Não, não era mais que isto.

Pronto, já levaram uma seca sobre golfinhos, hein?!
Que legal!
Vamos então ficar por aqui.


[E este post também se podia chamar "Pensa lá numa coisa que não interesse a ninguém mas onde percas muito tempo".]


Mas para mim, isto nunca foi sobre golfinhos.


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Adenda ao post anterior




Fui ler o post de final de ano de 2015 "Um ano. Mil choros.".

E encontrei isto:

"(...) Sei, porque sei, porque a arrogância me deixa ter a certeza de o saber, que o ano que vem vai doer mais.
Que o ano que vem vou finalmente saber o que é chorar demais."


Cumpriu-se a profecia.
Às vezes tenho medo de mim.



O que eu aprendi em 2016




[Para começar, aprendi que, apesar deste GIF ser horroroso, há coisas horrorosas das quais, não só, não conseguimos fugir, como até parece sermos atraídos por elas. É o caso.]



- Que vamos dos cem aos zero num minuto. A vida muda, e muda-nos, num minuto.

- Que é possível chorar, sofrer e fingir que está tudo bem, todos os dias. Só para conforto dos outros.

- Que é sempre possível descer mais. Nos níveis de infelicidade e nos valores morais. Por razões diferentes.

- Que fui deixada para trás.

- Que Deus não existe (já desconfiava).

- Que preciso de um padre. Quando mais de seis pessoas te o dizem deves começar a questionar-te.

- Que essa coisa do amor incondicional também não existe. As pessoas fazem as escolhas mais impensáveis e dolorosas quando estão cegas.

- Que as pessoas dizem "eu compreendo" mas não compreendem nada. Nem querem compreender. O que compreendem é uma dor qualquer que procuram dentro de si e querem comparar com a nossa. Ou seja, compreendem a dor delas em algum momento das suas vidas. Não a nossa.

- Que recebemos exactamente na medida em que damos. Podemos pensar que não, que damos tanto e recebemos tão pouco, mas é mentira. O que não atingimos no nosso cérebro é a razão porque não recebemos. É um exame de consciência - mais ainda - a fazer em 2017.

- Que podem ter morrido cento e vinte cinco pessoas notáveis este ano, mas, para mim, morreu apenas uma... ou duas.

- Porque nesse dia também morreu uma Inês que não vai regressar. E eu nem me despedi dela.

- Que, apesar de tudo, nunca me alimentei de ódio. E que, apesar de tudo, gosto de mim por isso.



quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Cubo de espelhos




Meti-me numa caixa - podia dizer a vida mas, porra, não posso culpar a vida de tudo - e mal consigo mexer os ombros. Estou de cócoras e braços arrumados ao longo do corpo. Inertes. A caixa lembra-me muitas vezes uma ideia dos tempos das aulas de projeto: o cubo de espelhos invertidos. Um cubo feito com espelhos virados para dentro cria um efeito de infinito. Em teoria sim, se tivermos luz. Por outro lado, se estivermos na escuridão não há como comprovar esta teoria porque não há condutor para a criação da imagem. A ideia do cubo infinito é inquietante. Um cubo - finito - que é infinito.
Tão limitado e tão potencialmente libertador.
Estou numa caixa que podia ser um cubo de espelhos invertidos, mas não é. Porque eu ainda não acendi a luz. 

E há qualquer coisa de doloroso e gostoso ao mesmo tempo em ter-me apertada entre seis planos, a conviver comigo, dentro de mim, exausta, claustrofóbica, e, ainda assim, resistir em acender a luz.

[Porque ainda me questiono se o botão por esta altura será um interruptor ou um gatilho.]



terça-feira, 20 de dezembro de 2016

É tudo uma questão de electricidade



Este ano houve uma pessoa que me disse que eu tenho más energias.
Estranhamente,  e nunca pensei vir a dizer isto,  não posso concordar mais... darling.

Se não vejamos:
- O eletricista esteve três meses para vir instalar os focos do corredor e afinal a coisa morreu na praia;
- A máquina de lavar loiça avariou,  foi ao médico,  e ainda não voltou (RIP);
- A rede elétrica da cozinha foi-se e não estou a ver jeitos de se vir por sua iniciativa;
- E isto podia acabar aqui mas, ai as ironias, a EDP foi uma fofinha e mandou uma conta que upa upa... cheia de energia.

E é isto.
Sim, sou uma pessoa cheia de más energias.
Sou a primeira a dizer.
Mas são só minhas, fiquem descansados, que isto não gangrena.


Rapidinhas



Coisas rápidas que tenho a apontar sobre o mundo antes que chegue o Natal e eu tenha coisas ainda menos felizes a dizer:


Sobre a cerimónia de juramento de António Guterres como secretário Geral da ONU, li muitas coisas nas redes sociais escritas por tugas como "Bravo Portugal!", "Parabéns ao povo Português" e por aí adiante.
Corrijam-me se estiver a ver a coisa mais curta que devia mas, "Bravo Portugal" porquê?
O que é que nós fizémos?
O mérito não é todo do próprio António Guterres?
E sou eu que sou esquecida e nova demais, ou andámos muitos anos sem saber, nem querer saber, do António Guterres e do que ele andava a fazer fora de Portugal?
Somos um bocadinho parvos nisto de querer colher louros que os outros fizeram por ter, só porque somos todos portugueses. Somos todos muito patriotas nestas alturas em que o mundo nos vê com as lentes cor-de-rosa mas, e não gostava de ser portadora de más notícias, é provável que metade do mundo não saiba ou que António Guterres é português ou onde fica Portugal. Desculpem.



Fuck me... Chiano Ronaldo ganhou uma bola de ouro e eleva o nome de Portugal no mesmo dia.

Isto faz-me lembrar o dia em que a Madre Teresa de Calcutá morreu. 
Coitada, não teve a culpa, mas foi logo morrer ao mesmo tempo que a princesa Diana e está-se mesmo a ver que não havia espaço nesse dia para duas pessoas nas notícias do país  e do mundo. 
Muito menos do mundo... que é tão pequenino e coiso... coisinho...



"Bob Dylan estava ocupado".

Alguém me explique o que será que há de mais importante para fazer que isso de ir receber um Nobel que não possa ficar para depois?
Porra Dylan, vai-te encher de moscas.
Eu ainda nem tinha exprimido a minha opinião sobre o Bob Dylan receber o Nobel da literatura porque, em boa verdade, a coisa resume-se a isto: eu nunca curti Bob Dylan. Não é a minha cena. Eu é mais Beyoncé. E por essa razão, assumindo que sou eu que ando contra o mundo, nunca me interessei por Bob Dylan e, consequentemente, perdi a legitimidade de falar nele, também não podia vir dizer que achei a maior barbárie entregar-se um Nobel da literatura a um músico (sim chamem-lhe autor, escritor, letrista. No The Big Picture queria ver se não respondiam que o homem é músico, quanto muito, vá, cantor).


Porra oh Bob Dylan, a sério, é caso para perguntar, onde estavas tu no 25 de Abril?




quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Amar viver triste

HMB |  Peito


Há algo de perturbador em querer voltar a sofrer a ausência de amor.
De me sentir avassalada pela falta de amor.
A tristeza em que me sentia mergulhada quando dormia e acordava na solidão, quando caminhava e falava no vazio, era uma parte de mim muito maior que a minha própria existência.
Ser triste ultrapassava-me.
Ultrapassa-me.
Sinto falta dessa ausência de dor.
Que digo?
Fará sentido isto para a restante humanidade?
Querer voltar a sentir os pulsos a quebrarem-se quando se lutou a maior parte do tempo por ter alguém que os fortalecesse?

A dor de gostar não ter amor é viciosa.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Vícios. Recaídas. Paranóia. Rendição.




Às vezes sinto-me a viver com um grupo de alcoólicos anónimos dentro da minha cabeça. 
Sempre com as putas das recaídas.

A questão é: mando-os vir para a próxima sessão a ver se continuamos a resolver o assunto, ou mando-os para casa e desistimos disto?


[É que mais estúpido que tentar converter um acontecimento que já se deu, é tentar convencer-me que isto um dia... passa.]



quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Da série: Volta a ser o que eras por favor - Parte III

Nestes 153 dias longe do mundo não perdi tudo tudo tudo. Sei que ele continuou a rolar, certo?


Apesar de tudo ainda percebi que:

- Sim eu sei que o Trump ganhou as eleições, e sim tenho uma opinião talvez mais improvável que aquela que imaginam mas vou guardar para mim porque neste contexto em que me movo nunca, jamais, em tempo algum, me ouvirão falar de política.

- A Lua ficou mais próxima da terra, e mais brilhante e mais coiso, no dia 14 de Novembro, não foi? Mais coiso, talvez, de resto... 

- Aquele rapaz, o Pedro Dias, que ao vigésimo nono dia - qual evangelho - se entregou às autoridades, não sabe, mas eu apostei as minhas fichas todas em como ele era inocente porque, para mim, já estava morto há que séculos. Aliás, eu apostava que ele tinha sido o primeiro a ser assassinado e que o estavam a usar como bote (não é bode, por amor de Deus, que já não se aguenta!) expiatório. Um Twin Peaks à portuguesa, não sei se estão a ver. Eu andava entusiasmada com a cena, até ao dia em que disseram que ele tinha sido visto num café em Espanha a pedir um bocadillo e um galão. Oh Pedro Dias, pá! A sério? Um galão?

- Também vi que o António Guterres é o novo secretário-geral da ONU (e arrepiei-me primeiro e só depois é que pensei sobre o que isso queria dizer, e depois senti-me estúpida por isso, e depois senti-me bem porque primeiro percebi que era estúpida mas ainda fui a tempo de deixar de o ser. António, espero que consigas fazer o mesmo com o resto do mundo).

- Vi que o nosso Presidente da República, em cumprimento do que já vem sendo uma tradição linguística nos nossos representantes de estado, tem um espanhol que upa upa com ele, e que o Durão Barroso... não devia ter ficado na minha memória de notícias sobre o país e o mundo.

- Constatei a morte de pessoas.

- Constatei o baby boom, pelo qual estou a passar ao lado.

- Tenho assistido atenta à questão do ordenado e declaração de rendimentos do futuro-ex-não-sabemos-o-que-te-fazer-administrador-da-CGD e gostava de saber do que é que andam a falar. É uma não-questão. Também ficariam surpreendidos sobre o que penso disto.

- Acho que houve muitas outras coisas que me terão despertado  interesse, discreto e escondido, nestes 153 dias em que congelei a minha vida mas houve, certamente, um assunto que me fez ressuscitar: o Forte de Peniche.
Não, não e não! Em algum momento os interesses políticos, económicos, narcísicos, têm de ser postos de lado e alguém tem de travar estas pessoas que, cegamente, não se conseguem travar a si mesmas.
Eu não era nascida no 25 de Abril, portanto, não o era antes disso, e não estava cá na época em que o Forte de Peniche serviu de prisão. Mas ele está lá. Para quem o quiser ir ver. "Visitar", se preferirem a palavra mais ligeira. O Forte de Peniche é duro, e encerra dentro dele histórias pessoais aterradoras que ainda hoje transparecem, mas encerra nele, sobretudo, uma parte da história do nosso país que, apesar de nos (me) envergonhar, nos representa e completa a história do que fomos. Sim, também fomos aquilo. 
Lembro-me de olhar para os fossos onde os prisioneiros eram colocados de castigo e imaginar que quando a maré subia eles ficavam ali... ali... no mar, em fossos, no frio. Porra. Eram homens a fazer isto a homens, há apenas sessenta anos. Aqui, em Portugal. Éramos nós, os nossos avós, a fazer isto uns aos outros. Julgamos que estamos longe de países de grandes ditaduras? Não estamos.
Ir até lá, estar lá, ver os documentos de identificação das pessoas que ali estiveram torna tudo demasiado real para pensarmos que já passou. Espero que não passe nunca. Somos todos nós ali.
Eu tinha 12 anos quando lá estive. Lembro-me de tudo.
Mais que enfiar um hotel de luxo que apague as torturas de que nos envergonhamos devemos usar o Forte de Peniche para ensinar todas as gerações porque é que hoje todos temos telefones, podemos comunicar livremente, temos dinheiro para ir ao cinema, andamos calçados e, sobretudo, podemos usar as palavras.
Caríssimos, houve gente que antes de nós fez por isso.
Alguns estiveram em Peniche, e não foi de férias, por isso dêem ao local e às pessoas a memória que eles merecem.


E acabo com o apontamento em modo "chata-que-dói" mas andava com isto de Peniche atravessado.


Da série: Volta a ser o que eras por favor - Parte II

O mundo deu voltas nestes tempos em que eu desapareci e eu quero recuperar o que andei a perder



Comecei o blog há não sei quantos anos e isto trouxe-me de tudo um pouco. Vou entrar em saudosismos estéreis por isso, se não for de gosto, fico a advertência: vou fazer um "apanhado" mariconço (e já ando para dizer isto há algum tempo: eu escrevo imensas palavras que o meu corrector ortográfico não reconhece, como, por exemplo, mariconço ou, do texto anterior, a palavra pirilau, e não sei porquê).
Mas dizia eu que, lá atrás no blog, começou a escrever uma pessoa um bocado nhéca. E eu nem digo isto com desprimor, dou-me aliás um certo desconto porque se eu hoje escrevesse exactamente da mesma maneira e pensasse exactamente da mesma maneira que aquela pessoa de há não sei quantos anos é que era preocupante. Houve um evolução e isso parece-me que não pode ser mau. Mas custa-me a parte do parecer nhéca, confesso... e custa-me encontrar alguns textos com os quais hoje já não me identifico... e também acho parvo ter tido tantas opiniões sobre relações quando estive anos (anos! Ahahahahah...! O meu querido eufemismo! A irmã Lúcia ao pé de mim mandava-se para o chão a rir) num sequeiro de meter dó... 
Depois notei ali amarguras de outra natureza, arranques humorísticos e, até, comentários sobre a atualidade não tão desprovidos de sentido quanto eu tenho sempre tendência a pensar. Eu acho-me sempre um bocadinho mais parva do que aquilo que sou (constato isto ao ler-me anos depois como se fosse outra pessoa).
Depois, caio ali num chove-não-molha, ai-que-sou-tão-séria e só-escrevo-bem-se-estiver-deprê, que me torna na pessoa mais cinzenta do planeta e, quem sabe, da minha rua. E olhem que aquilo para a minha rua não anda bem ao nível de pessoas cinzentas. 
E pergunto-me agora, que me observo de outro lugar, fora do planeta, e consigo ver cá de cima lá para baixo: O que se passou contigo mesmo antes de se abater a tempestade na tua vida?

A vida é chata, já sabemos.
A vida enrola-nos, indromina-nos, já sabemos.
Como dizia um professor meu, acabamos a ter o trabalho que não queríamos, a ter a casa não queríamos, o carro que não queríamos e a casar com a mulher que não queríamos. É lixado. Também já devíamos saber. Basta ver o que nos antecedeu.
Mas haveria assim tantas razões para escrever como se estivesse sempre a cortar os pulsos com folhas de papel?
Estranhamente, não me lembro. Mas também já não importa.
A tempestade também tem destas coisas. Ironicamente, limpa tudo. Até as memórias. Neste caso talvez seja o que precisava para poder avançar e voltar a escrever sobre coisas sem sentido, com palavras que o corretor ortográfico e o dicionário não reconhecem, e viajar por imagens que, quase sempre, são o espelho exacto do estado de alma em que me encontro e falam mais de mim do que as próprias palavras que me saem dos dedos.
A tempestade não passou totalmente, há uma depressão atmosférica ali sobre o oceano das emoções que ainda teima em abanar umas palmeiras mas, nesta fase do campeonato, agarro ao que importa, e importa muito: começo a sentir-me um bocadinho livre.


Da série: Volta a ser o que eras por favor - Parte I

Não há uma razão muito óbvia para esta babe estar aqui, para além de hoje ser este o meu estado de espírito.



Ontem andei aqui pelo blog a reler umas coisas antigas como terapia para me trazer ao mundo novamente - porque os níveis de senilidade e falhas de memória já vão muito acima do número de bananas por metro quadrado na Ilha da Madeira -  e encontrei e constatei coisas interessantes.
Tenho coisas muito más, más de francamente mal escritas, e outras muito boas, de francamente surpreendentes. E foi a estas que me agarrei com um orgulho velado e pensei "porra Inês (sim eu chamo-me Inês) tu tinhas uma vida dentro de ti rapariga, uma genica porreira, um sentido de humor que dera a muitos e agora morreste de dentro para fora e estás à espera que te venham salvar... mas ninguém vem filha, ninguém vem, e tu até sabes disso e mesmo assim pareces um saguim morto com a língua de fora a ver se alguém tem pena e te passa a mão pelo pêlo e te tira da valeta pelo cachaço".
Não vai acontecer. Capacita-te. 
É verdade que me aconteceram demasiadas merdas este ano - não têm outro nome - que não deviam acontecer a ninguém. Verdade que pensei que aguentava tudo, que era a super-mulher, que tinha um arcaboiço do tamanho do pirilau do Éder,  que tinha estrutura mental e maturidade para lidar com as adversidades que a vida me quisesse dar e, num golpe que ninguém compreende e para o qual já não procuro explicações, percebi da pior maneira que não tinha. Não tenho. Não tenho nada. As perninhas e a cabeça falharam e falham com uma grande pintarola e dói menos aceitar e seguir em frente.
Vou ser fraca muitas vezes pela vida fora. Até aos meus 35 anos pensei que não. Afinal são só 35. 
35... bem... nalguma coisa isto tem de parecer pouco.

Não sei se me vai apetecer, daqui em diante, escrever sempre com o sentido de humor com que me li lá para trás, mas sei que aquela Inês ainda existe algures. Não sou a mesma, já o disse. Mas aquela Inês que ontem me fez rir (eu não digo que fiquei senil) tem de voltar a entrar em minha casa porque a fulana tem piada. E eu preciso de gente assim perto de mim (ou de um marido que me diz: "tens um sentido de humor à gajo" ... e eu ainda estou para perceber se isto é bom se é mau... mas tendo em conta que ele continua a dormir comigo, vá... tenhamos fé...).




terça-feira, 15 de novembro de 2016

[recomeçar]




A soltura deu-se.
Algures entre uma parte e outra do corpo.
Ainda não o sabes.
Ainda não o disse.
Nem a mim o ousei anunciar.
Mas a soltura deu-se.

[Quero recomeçar.]




sexta-feira, 11 de novembro de 2016

D.O.R.






Hoje dói.
Sinto as saudades que, diz-se, não devia sentir.
As saudades do que não se chegou a ter.
Mas elas existem.
Cegam-me.



[Hoje sinto-te comigo.
Hoje...
Eufemismos.]



A. M. O. R.






                                                                       Mais que ódio e rancor,
                                                                       Sinto tudo,
                                                                       Sim.
                                                                       Sinto amor.



terça-feira, 18 de outubro de 2016

Ao acertar do violino



Quando o violino nos tocar aos ouvidos

A última nota afinada,

Conheceremos todas as outras que lhe seguirão.

Serão tortas.

Guinadas.

Serão agulhas afiadas,

A cantarem-nos o último hino.

Desejaremos que tudo termine,

Nos empurrem por fim para a cova.

Que a terra nos tape os ouvidos,

E nos acabe com o sofrimento.

Que a agonia das notas agudas,

Nos silencie por fim,

A dor,

Dos pensamentos.




[Vou buscar-te. Prometo-te.]



sexta-feira, 14 de outubro de 2016

"Sou tão feliz"

Sou tão feliz



Não, acalmem-se, não sou eu que "sou tão feliz", assim de um momento para o outro. Quem dera.
É o Marco Paulo.
Ontem, nas minhas Googlices e Youtubices, de vídeo em vídeo, (comecei pelo "Anita" e sugiro que vejam um menos conhecido "Cá se faz cá se paga") deparei-me com a participação do Marco Paulo no Festival da Canção em 1967. 
Ora, eu nem sabia que o Marco Paulo tinha participado num Festival da Canção (evento que eu tanto, mas tanto, prezava - vejam o tempo verbal), quanto mais em vários, e que aqui tinha apenas 22 anos e... não se façam de sonsos, não me digam que aqui não parecia o Cristiano Ronaldo.

Chaladices à parte, o que me impressionou nisto, para quem já viu o vídeo, é esta brilhante interpretação, é a classe da época e é o ponto de interrogação crescente e inevitável do: "e se?".
E se o Marco Paulo não fosse de cá, e tivesse tido alguém que o conduzisse numa carreira menos romântica e popular e o tivesse encaminhado para uma carreira mais ambiciosa, profissional, glamourosa, internacional? Algo mais classy. Não queria cair na comparação fácil com um Sinatra mas o nosso Marco Paulo bem que podia ter estado lá. Vejam-lhe bem a postura. A voz, nem vamos falar. Ainda hoje há que reconhecer que tem um dom: o de cantar.
Talvez o Marco Paulo tenha feito exactamente o percurso que queria e tenha exactamente a carreira que ambicionada mas, depois de ter visto este momento singular, fico com a sensação que as opções dos 22 anos nos deixam sempre ficar mal e, que se soubéssemos naquela idade o que sabemos aos 62, seria tudo diferente. Mas também aquele brilho nos olhos o seria com certeza, porque já saberia que o que vem a seguir não são só rosas.

No ano de 1967 quem venceu o Festival da Canção foi Eduardo Nascimento com a mítica música "O vento mudou" cujo refrão conheço desde miúda porque, ao que consta, a coisa foi polémica por questões políticas e a minha mãe, de quando em vez, em modo de gozo, cantarolava isto lá por casa. Não é bom, nem é mau, marca uma época. Ninguém sabe que é feito do Eduardo Nascimento, bom cantor, por certo, todos concordamos que não seria, e também não será culpado do Marco Paulo não ter vencido, porque o Marco Paulo ficou lá para o sexto lugar.

Um dia crio aqui a etiqueta só dedicada ao Festival da Canção porque isto tem sumo que nunca mais acaba.
No ano em que nasci ganhou das mais emblemáticas músicas de sempre e, a minha preferida, foi a de Maria Guinot que, apesar de ser um tiro ao lado neste tipo de concursos, é de uma extraordinária beleza.
Quem não se perder com a frase "troco a minha vida por um dia de ilusão..." não anda cá a fazer nada.



terça-feira, 11 de outubro de 2016

Do lado direito bate o coração




O teu coração é que estava certo.
A bater do lado direito.
Os nossos, esquerdinos,
Como todos os outros,
São só mais uns,
Entre tantos.
Iguais entre iguais.
A baterem do lado errado,
Pensando que batem do lado certo.
A viverem de viés,
Numa existência já de si torta.
O teu coração,
Que ousou romper do peito,
Escolher outro caminho,
Sabia que o amor se sentia mais,
Se nascesse do lado improvável.
Sabia que num abraço,
Entre duas pessoas,
Que se amam,
Ou se odeiam,
Um coração do lado direito,
Bate colado ao coração do lado esquerdo.
E há lá poder maior!
Haverá magia maior!?
Sentir dois corações colados,
A bater a compasso,
Ou descompassadamente,
Mas sempre,
Sempre,
Num momento único.
Como tu.
E o teu coração.
Haverá lá maior poder,
Que poder mandar,
No próprio coração?


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

10.10.2016

 

Obrigada Tobias
Por teres feito de mim mãe.

Hoje seria o nosso dia.
Será sempre.




sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O post mais repetido de sempre... que também se podia chamar "Gina Lollobrigida"



Eu, estou farta de ser eu.
Sim, já disse isto tantas e tantas vezes.

[Há dias em que me apetecia ser assim, sei lá, a Gina Lollobrigida. Quando era da minha idade claro. Que era boa p'ra cacete, só lhe olhavam para as mamas e não precisava de dizer pão com queijo porque de qualquer maneira ninguém a estava a ouvir. Não precisavam dela para salvar o mundo e, caso ela própria precisasse de ser salva, aparecia meia-dúzia (ou dúzia e meia) de marujos prontos a ajudar. Labirintos psicológicos imagino que também não os tivesse que aquilo deve ser uma linha recta de cérebro que, valha-nos Deus, até deve dar sono, e não digo isto com desprimor, é mesmo com pena de não sofrer do mesmo mal, porque, neste momento, tudo o que eu mais queria, era ter um cérebro em linha recta em vez de parecer um intestino de um porco vietnamita. Estou cansada. A Gina Lollobrigida por esta altura também estará, mas, com a minha idade não estava. Estava viçosa que nem uma alface. E eu hoje, só queria ser a Gina Lollobrigida. Não para parecer uma alface, que já estou lá perto, mas para estar viçosa e, claro está, para não ter de ser eu. Porque ser eu, meus amigos, ser eu, é pior que ser a cama onde a Gina Lollobrigida deu puns a vida toda depois de comer fois gras com espargos braseados (experimentem que vão ver). E é nestes dias, em que não consigo fugir da minha vida mas dou por mim a evadir-me de mim mesma, que penso nestas coisas e penso noutras ainda mais desconcertantes, como o conhecer uma Gina, uma Lolla e uma Brígida. E o mundo é assim. Divertido. Irónico. Redondo. E eu é que ando sintonizada no canal errado ou menos medicada do que devia.]


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O tempo e a vida




O mais difícil nisto de vivermos juntos

É não ter mais tempo dentro dos dias

Para usufruir de todas as horas contigo




segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O tempo e a cura



Envelheci dez anos.
Deve ser essa a cura que o tempo faz.
A cura de que todos falam.
A pele a contar as histórias que já se sabem.
Aquelas que se falaram nas costas.
E agora se notam pela frente.
É mentira o que nos contam.
O que nos dizem para nos consolar.
Que o tempo cura.
O tempo não cura.
Não cura nem faz esquecer.
O tempo marca.
Marca no rosto e na memória.
Marca na pele.
Nos cabelos que se acinzentam.
Nos olhos que se embaçam.
Marca-nos na relação com os outros.
Connosco.
Com o nosso passado.
O tempo, o que passou, trama-nos aquele que lhe há-de dar lugar.
Agoira o lugar das histórias que hão-de vir.
O tempo não cura o que não tem cura.
O tempo é apenas tempo.
E tempo só anda em frente.
A fazer-nos envelhecer.
Deve ser essa a cura que o tempo faz.
Envelhecer-nos.
E é na velhice que está a cura, não no tempo.
Porque só a velhice pode dar-nos a sabedoria para o saber aceitar.



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Homem por instantes

Esta imagem só porque me diverte
[e para a minha amiga Elsa que diz que vai ter pesadelos]




A comida demora sete segundos a passar da boca ao estômago. O cabelo consegue aguentar até 3 kg. O comprimento do pénis é  três vezes o comprimento do polegar. O fémur é tão duro como o cimento. O coração das mulheres bate mais depressa. As mulheres piscam duas vezes mais os olhos. Usamos trezentos músculos para manter o equilíbrio. As mulheres leram o texto inteiro... O homem continua olhando para o seu polegar.


[Encontrei isto entre umas coisas antigas. Não sei porquê hoje achei graça. Quer dizer, eu sei porquê: porque também fiquei a fazer contas ao polegar... gaita...]




quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Eu já não sou eu




Todos os dias, quando me olho ao espelho pela manhã, vejo outra pessoa. Deixei de ser quem era. Perdi-me de mim. Abandonei-me.
Vejo a mãe que perdeu um filho, vejo a mulher que sofre todos os dias em silêncio, vejo a mulher que perdeu a força, vejo a mulher que tem de fingir ser o que já não é, vejo a mulher que tem pena de si mesma. Vejo o que mais ninguém vê.
Todos os dias, depois de passar a água pela rosto, ao regressar com os olhos ao espelho, inspiro e lamento a pele que tenho de vestir a partir daquele momento. Lamento-o e lamento-me.
Dali em diante, tenho de ser a pessoa que era antes. Tenho de ser a colega de trabalho de sempre, a amiga animada e disponível de sempre, a filha presente como sempre, a mulher de sempre.
Mas já não o sou. Apenas vou fingindo ser. Para que não hajam perguntas. Para descanso dos outros. De todos aqueles com quem cruzo os meus dias e que me julgam regressada ao que era, sem histórias nem passado e presente por resolver.
Todos os dias, ao sair de casa, arrasto estes olhos, agora lamacentos, e esta alma estilhaçada. Com os vértices afiados a infligirem-me dor, sempre. Mas vou. A normalidade lá fora obriga-me a ir. A encenar mais um dia. E a esperar que as horas corram, para que eu possa voltar a casa, tirar a máscara da normalidade, e dar ao espelho a pessoa que não sou.
Em troca, aguardo que o espelho me devolva a mim mesma.
Àquela pessoa que agora, tão distante e estranhamente, sou.