segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Os cães do ano 2014





À semelhança do ano passado, estive a rever todos os cães e, organizei aqui os posts mais vistos de 2014.
Mas, desta vez, fiz um mix, e escolhi os meus 20 preferidos por entre os 40 mais lidos. Pode ser?
Gostei de escrever outras coisas que ficaram na lista das menos lidas e, se assim foi, não vale a pena maçar-vos com repetições.

Não posso deixar de mostrar a minha perplexidade pela preferência que tiveram pelos Áudio Textos (gostam de ouvir a minha voz e a do anónimo benfeitor, é isso?). 

Por este ano está fechado o canil. Encontramo-nos em 2015!


Os 20 posts mais lidos de 2014 :



terça-feira, 23 de dezembro de 2014

E é isto...



Chove. É dia de Natal. 
Lá para o Norte é melhor: 
Há a neve que faz mal, 
E o frio que ainda é pior. 

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés. 




“Chove. É Dia de Natal”
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 



quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Alegoria das ilhas

Hugi Hlynsson



I
As ilhas
O mar, estendido como um lençol, denunciava protuberâncias aqui e ali. Semeadas sem regra. Separadas por uns metros ou por milhares de quilómetros. No espaço, e no tempo, sem referências nem escalas, não se sabia onde começavam e acabavam os montes de pedra poisados sobre o mar. Não se lhes conhecia o tamanho ou a hierarquia. Talvez nem fosse importante. 
O mar regia as pedras. As pedras amontoavam-se em ilhas. As ilhas não eram mais que duas: a que foi semeada aqui e a que foi semeada ali. Quando se olhava da ilha grande, não se via a ilha pequena. E da ilha pequena não se sabia o que se via porque ainda ninguém da ilha grande lá tinha estado para poder contar.


II
A ilha grande
A ilha grande, vista de perfil, parecia um chapéu de coco. Ou talvez se parecesse mais com uma cartola. A ilha elevava-se da base que tocava o mar, para além do que seria gracioso ou razoável. Não fossem os contornos rochosos e a sua cor negra, e pensar-se-ia estar antes perante um toque blanche. A sua aba tinha um quinto da altura do cone e o cone teria metade do diâmetro da coroa. Um portento. Caso não existissem outras ilhas esta seria, certamente, a maior. Caso existissem, não se sabe que proporção teria.
Na ilha grande olhava-se sempre de cima para baixo, os olhos não procuravam outras ilhas para não se confrontarem, e a realidade conhecida era apenas uma: a sua. Que motivos haveriam para olhar para o lado? Ali havia tudo o que era preciso. Na ilha grande fazia sempre bom tempo. Havia chuva apenas quando era preciso, nevava quando se desejava, e fazia sol na maioria dos dias. As noites eram amenas e duravam doze horas. Havia comida, água doce, trilhos, abrigos e areia fina, em toda a ilha. Podia passear-se, correr e descansar tranquilamente, sem preocupações.
Na ilha grande vivia apenas um homem. E esse homem tinha tudo o que precisava para ali viver. Assim o pensava.


III
A ilha pequena
A ilha pequena, se um chapéu fosse, não passaria de um boné. De fraco perfil e carácter. De tão baixa e insignificante que era, havia dias que nem era avistada da ilha grande. Talvez fosse notada de outras ilhas, se as houvessem, mas ainda assim era pouco provável pela sua falta de relevo e de enlevo. Era como se uma folha de papel tivesse pousado em cima de outra. Nem a rebentação suave do mar na sua orla faziam a ilha ver-se de ponto algum.
Apesar dessa infeliz constatação, percorrida a passo, de ponta a ponta, a ilha pequena adquiria outra importância. Outra dimensão que não podia ser vista de perfil mas apenas de cima, se isso fosse possível. Para percorrer a ilha eram necessários setenta e cinco milhões, trezentos e cinquenta e oito mil passos. O que, traduzindo em dias, somariam dois mil e quinhentos dias, sempre a andar. O que em anos seriam, praticamente, sete.
Na ilha pequena, que tinha uma superfície muito grande, o terreno era árido e pobre. Quase uma superfície lunar. Não tinha árvores nem plantas, nem água, nem construções ou estradas porque não havia espaço para as ter. Toda a sua superfície estava coberta, absolutamente coberta, mas de outras coisas, que não essas, fundamentais à vida. A Ilha pequena estava lotada: de pessoas. Todas amontoadas, tão amontoadas que nem se conseguiam olhar de cima para baixo. Como a ilha não tinha relevo, ninguém se podia elevar para ver os outros de cima. E como os seus habitantes tinham todos a mesma altura, ninguém conseguia fugir dos olhares alheios. Olhavam-se, por isso, todos olhos-nos-olhos. Havia indivíduos bonitos e feios. Maus e bons. Os que trabalhavam e os que nada faziam. Havia homens justos e os que estavam sempre a ser julgados pelas suas injustiças. Mas tinham todos a mesma estatura.
Na ilha pequena não havia nada para além destes homens e da igualdade que reinava entre eles.


IV
O homem da ilha grande
Na ilha grande, vivia um só homem. Um homem só. Nunca se cruzou com outros homens e por essa razão não sabia se existiriam mais iguais a si. Não conhecia conceitos de beleza por não ter com quem se comparar e não sabia o que era o medo por nunca ninguém o ter assustado. Não sabia o que era a fome porque teve sempre o que comer. Não sabia o que era o frio porque sempre teve roupas para se cobrir. Não sabia de onde tinha vindo, ou como tinha ido ali parar, e não sabia nem tinha como garantir que do sítio de onde veio, não teriam vindo, ou ainda viriam mais, homens iguais a si. Mas não se questionava. Não se questiona algo que não se sabe existir.
A vida na ilha grande, sozinho, tinha-lhe ensinado que as perguntas morriam órfãs, assim como ele nasceu. Que as perguntas não faziam eco, se não na sua cabeça atarantada de tão vazia. Percebera também, desde cedo, que questionar-se sobre a existência de outros, ainda que secretamente, lhe causava ansiedade. Fazia-o questionar-se a si e à sua existência e isso é assunto para inquietar um só homem. Sobretudo, um homem só.


V
A descoberta e a viagem do homem da ilha grande para a ilha pequena
Num dos mais comuns dias na ilha grande, caiu uma cana. Uma cana vinda do céu. Tão grande, tão forte, que o homem, momentaneamente, cegou. De medo. Não sabia a origem daquela cana, nem para que servia, e o desconhecido fazia-o tremer como não sabia ser possível. Questionou-se se haveria alguma coisa para além da ilha grande, para além de si.
Nesse dia, tirou-se do medo, e olhou de frente o horizonte. Empurrou os olhos para além do mar. Não via nada. Estava cego ainda. Um nevoeiro na vista impedia-o de ver para além dos olhos. Abriu um pouco mais o peito e os olhos começaram a funcionar.
Apesar do nevoeiro lá se ia denunciando uma existência além da sua. Uma pequena, pequeníssima, ilha. Não sabia se lá vivia alguém mas não esperava que assim fosse. Quando olhava melhor o perfil da ilha pequena imaginava não ser possível alguém ali viver. Era tão pequena. Tão plana. Tão monótona. Tão cinzenta. Tão estéril. Como poderia alguma coisa ter vindo dali?
Com medo, afrontado pela curiosidade, precisou fazer-se ao mar, sair da ilha, conhecer o sítio de onde veio a cana que quase o cegou. O homem meteu-se numa jangada e remou. Remou dia e noite fora. "Onde estaria a ilha pequena que parecia tão perto?" - Pensou. A viagem fez-se longa, muito mais que aquilo que havia estimado. A ilha pequena, que lhe parecia-lhe logo ali, estava agora cada vez mais longe e o homem nada via para além duma imensidão de mar.
Quando a manhã ameaçava pôr-se, a jangada embateu na crosta firme da ilha pequena. A ilha era, afinal, gigante. Tão gigante. Não se apercebera, nem pensara sobre isso antes mas, a distância a que estava da ilha faziam-na parecer mais pequena que a realidade. Agora, diante daquela imensidão, e ao olhar para trás para a sua ilha, apercebera-se de como ela era, afinal, tão menor que a ilha pequena. Surgiu nos seus pensamentos, o quão pequeno era perante a nova realidade. Como o facto de estar num lado ou noutro mudava tanto a perspectiva que tinha do tamanho das ilhas.
Desembarcado na ilha, posou os pés e não viu a areia fina. Quis beber água mas esta era salgada. Quis sentar-se para descansar mas o frio apossou-se do seu corpo. Quis dormir e não tinha onde se deitar. Amargurou-se de arrependimento e adormeceu num choro que não sabia ter, num chão que afinal não queria pisar.


VI
Os homens da ilha pequena
Ao alvorecer sentiu um homem perto de si. Muitos homens. Todos iguais. Eram muitos mais do que supunha existir e muitos mais do que os que habitavam na grande ilha, onde só habitava ele. Eram tantos, que não sobravam espaços entre eles. Apesar da multidão, abismou-se com a tranquilidade com que o olhava. Com o silêncio daquela massa de gente. Estenderam-lhe a mão, levantaram-no e comunicaram com ele em tom de submissão. Eram humildes os habitantes da ilha pequena que, afinal, era tão grande. Olharam-no nos olhos e o homem percebeu que tinham todos o mesmo tamanho: o seu.
Passaram horas, talvez dias, a conversar. A aprender a comunicar numa língua diferente. Falaram das duas ilhas, da vida em ambas e das imensas dificuldades de viver na ilha pequena. Falaram de exclusão e inclusão. Dos medos e das poucas certezas. Da fome e da ignorância. Daquilo que une todos os homens da ilha pequena e do que os separa do único homem da ilha grande. A cana que dias antes tinha caído na superfície da ilha grande foi apenas uma das muitas que os homens da ilha pequena enviavam regularmente. Procuravam alguém além deles próprios. Procuravam ajuda. 
Até àquele dia definhavam na sua insignificância e confrontavam-se com a sua invisibilidade naquele mar. Dali, era possível ver muitas outras ilhas mas nenhuma delas os parecia ver. Antes do homem da ilha grande chegar, há muito que tinham dado o caso por perdido. Há muito que as canas lhes pareciam vãs.
No dia em que o homem da ilha grande atracou na crosta dura e estéril da ilha pequena, algo importante se salvou.


VII
A descoberta da Humanidade
O homem da ilha grande, que tinha tudo o que precisava para lá viver, descobriu na viagem à ilha pequena que tudo o que tinha na sua ilha de nada lhe valia ou valia apenas a si. Perguntou-se de que serviria ter tantas e tantas coisas se não tinha um par de olhos com quem as partilhar. Questionou-se sobre a justiça que havia naquele mundo de ilhas, onde um homem tinha tudo e os outros não tinham nada. Rendeu-se à realidade, à verdade que o fez acordar, sobre a vida dos homens da ilha pequena que era, afinal, tão maior que a sua.
Percebeu, nesse dia, que não havia mais nenhum sítio onde quisesse estar que não aquele. O sítio de onde conseguiu ver toda a humanidade. O sítio onde se viu a si.



[E é isto que me inquieta]



terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Mandrágora




"Segundo uma lenda medieval a raiz da mandrágora era como um pequeno homem dormindo dentro da terra e, ao ser retirado de seu descanso, dava um grito tão agudo que era capaz de deixar surdo, enlouquecer e até mesmo levar alguns homens à morte. 
Com base nessa crença, foram sendo criadas várias técnicas para se retirar a mandrágora do solo sem sofrer com o grito da planta. Alguns tapavam os ouvidos, afofavam a terra ao redor da mandrágora, amarravam a planta ao pescoço de um cachorro e faziam com que o mesmo corresse, arrancando a raiz do solo. 
Escritos medievais afirmam que é mais seguro colher mandrágora durante uma sexta-feira à noite, pouco antes do nascer do sol. Depois de ser colhida alguns lavavam a raiz com vinho e a guardavam embrulhada em seda vermelha ou branca. Aos olhos dos caçadores de mandrágora, tanto trabalho para conseguir a raiz valia a pena, pois a planta possuia variados usos, tanto mágicos como medicinais.
A raiz é a parte mais curiosa dessa planta, pois cresce como uma batata, muitas vezes bifurcada, ganhando traços semelhantes ao de um pequeno homem. Por conta do curioso formato humano é que a fama "mágica" das mandrágoras se difundiu rapidamente. Pitágoras se referiu a mandrágora como "antropomorfa". O agrônomo romano Lúcio Columela a definiu como "semi-homem"."




Uma mulher, nascida de um buraco na terra, veio ao mundo nua.
Matou o primeiro homem que viu. E depois o segundo.
Tinha sangue nas mãos, no rosto.
Não na alma.
Mas não encontrou o que procurava.
Chamavam-lhe filha do diabo mas o diabo repudiou-a.
Disseram ser parida por um cão mas o cão mordeu-a.
A mulher, nascida de um buraco na terra, veio ao mundo para retribuir o mal.
Matou a primeira criança que viu sorrir. E depois matou a que viu chorar.
Comeu-lhes as vísceras que fez soltar com as unhas cravadas na carne.
Não conseguiu o que queria.
Calcorreou ruas, sem roupas ou pudor, envergando apenas o sangue de quem foi matando e comendo. 
Com medo, as mulheres da aldeia recolhiam-se a elas e às crianças. Mas não tinham mão nos maridos.
Com curiosidade, os homens arriscavam-se olhar por entre frestas e postigos.
A mulher, nascida de um buraco na terra, não falava, não respirava, não pensava, não chorava, não sorria, não torcia a cabeça para olhar.
Esperava apenas a noite cair-lhe sobre a vontade de matar.
Um dia, numa noite, um homem, tolo de inocência e bom de coração, atravessou-se no seu caminho sem se aperceber.
Viu de perto a morte quando as mãos da mulher lhe abriram o peito e lhe roubaram o que tinha de bom.
Finou-se quando a boca dela se colou à sua e lhe sugou a alma.
O grito, curto, agudo, durou cem anos a desaparecer.
Ainda há quem na aldeia o ouça gritar ao nascer dos dias.
A mulher, essa, sumiu-se poucos passos depois.

Tinha, finalmente, o que lhe faltava:
Uma alma. Um coração.


[Quantas mulheres não se tornam assassinas, inimigas delas próprias, apenas porque lhes falta quem lhes entregue o mais importante de si?]



terça-feira, 25 de novembro de 2014

A queda de Sócrates... outra vez






Não é dia da etiqueta Repetições mas pareceu-me apropriado voltar a ler "A queda de Sócrates".
No dia 23 de Março de 2011, tinha caído pela primeira vez.

http://diascaes.blogspot.pt/2011/03/queda-de-socrates.html


"O filho do escultor Sofronisco e de sua mulher, Fenareta, foi um pomo de discórdia em todo o estado ateniense. O incómodo da sua presença avolumou-se, não se sabe desde quando, até aos últimos dias de vida - quando já atingira setenta e um anos. A cidade tolerou-o enquanto lhe foi possível. A figura mental de Sócrates, o espectro de perplexidade que ele fazia tombar sobre uma sociedade em crise moral e política, tornavam-no configurado à imagem de algo de sagrado, de que as sociedades carecem, para si mesmas se purificarem - o "bode expiatório", o cordeiro inocente. Os dias de catárse demoravam, envolvida Atenas nos pesadelos da guerra peloponésica, nos sobressaltos dos jogos da tirania e da democracia. Chegando o tempo da colheita, a cidade pediria um exorcismo mortal. E Sócrates foi o signo vital do exorcismo."

in "Platão - Apologia de Sócrates"


Como chegámos nós a isto, povo de Atenas? Como pudemos nós assistir rezingando, em vez de erguer os braços e lutar? Que caminho trilharemos nós até aos calabouços do inferno? Que luz encontraremos para nos guiarmos à razão?
Hoje choro de vergonha. Hoje envergonho-me de mim por não ter lutado quando devia. Como Ateniense sou a lástima reflectida de todo o povo. Como Ateniense, hoje baixo a cabeça de rendida, mas sobretudo de embaraço, por não me ter colocado ao lado de quem se ergueu. Não condeno os carismáticos por o serem. Não violentarei os reis surdos que governaram um reino de incapacitados. Não atirarei pedras a quem perdeu o sono para fazer o que ninguém queria. Baixo-me antes a seus pés, agradecendo as suas vidas entregues ao diabo, em troca de lutas vãs com Deus. Não me posso considerar alguém no meio de uma ceara seca que não reclamou por água e não posso cobrar ao Sol o dourado que não lhe dei, mas como Ateniense me questiono: "como é que nos entregámos a isto?".


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Caminhos apertados





Não sei se é o passado que está a vir atrás de mim ou se sou eu que não consigo esquecer o passado.




quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O Preto. O Branco.




Por vezes fico assim:
Encravada entre um plano branco e um momento negro.
Fico muitas vezes assim, parada, a tentar entender se o plano branco valia a pena ou se o momento negro apenas existe para que eu valorize mais o branco.
Quem não sentiu vontade de ir pelo lado negro mesmo sabendo que o acidente poderá estar ali, prestes a acontecer?
Quem não seguiu pelo plano branco e não se arrependeu, logo depois, por nunca ter arriscado?
Complexo este dilema entre escolher o certo ou errado.
Neste meio caminho de vida em que me encontro, não encontrei ainda a resposta nem o sítio certo para estar: na obscuridade ou na claridade. Não percebi ainda todas as vantagens de ter um plano branco, segui-lo, e recolher satisfação disso mas reconheço a falta de cor e a perpetuação da melancolia numa vida em tons de preto. 
O dilema resolvia-se com a existência de matizes. De gradações. De saturações. Mas, a nossa insatisfação humana, não fará com que olhemos um preto esbatido e vago, antes, como um branco sujo em vez de um cinza firme?
Não serão as gamas de cinzento, um branco ou um preto que correram mal?
Não serão os cinzentos uma antevisão do que estará para vir? Ou então uma reminiscência daquilo que já partiu?
Não quereremos nós borrar o branco de preto quando caímos na monotonia? E não gostávamos de pintar tudo de branco quando o cenário se põe negro?

Como é que gostamos de viver, afinal?
Na quietude dos cinzas, no desinteresse do branco ou na crueldade do preto?

Hoje passei o dia a pensar nisto, em como a vida se tem desenhado a cinzento, muitas vezes sobre um fundo branco.
Hoje pensei nisto porque tive uma imensa vontade de pintar um fundo preto.
De magoar alguém, de me magoar a mim, só para me sentir viva. Só para saber se ainda existe alguma coisa que eu possa controlar.




segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Viajo porque preciso. Volto porque te amo.



Título do filme de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz - Brasil 2009 ... O filme com o melhor nome de sempre...



Andamos há demasiado tempo na estrada.
A contar traços brancos no asfalto negro.
A descontar dias aos longos anos.
A fazer uma viagem juntos em sentidos diferentes.
Quando chegas a partida já está marcada.
Quando parto tenho o regresso no horizonte.
É esse desencontro que nos une.
Aquele intervalo entre a ida e o regresso.
Aquele momento entre a tua partida e a minha chegada.
Entre o nosso encontro e a nossa despedida.
São aquelas escassas horas que se consomem em minutos.
E que nos desconcertam os abraços.

Quando conheceremos nós a estrada que encurta as distâncias?
Aquela a que as pessoas chamam de atalho.
Quantas mais estradas ainda teremos de conhecer?
Quando iremos nós percorrer o mesmo caminho no mesmo sentido?
Aquele que nos leva a casa.

Nada sabemos sobre o futuro.
Sobre as viagens e os quilómetros por fazer.
Não adivinharemos qual a noite em que entraremos juntos em casa.
Mas chegaremos um dia ao nosso destino sabendo o mesmo que sabemos desde a partida:
Viajamos porque nos precisamos.
Voltamos sempre porque nos temos amor.


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Aquele que não queria




Nas delongas das noites,
Em que te beijei as faces do bem,
Julgava-te um homem completo,
De carácter aprumado,
Julguei que fosses alguém.

Cantava as horas dos dias,

De pescoço quebrado sorrindo,
De queixo, mãos, a tremer,
Embevecida pela tua pessoa,
Ceguei! Não vi quem devia ver.

Ao raiar de cada manhã,

Impelida pelo amor que te tinha,
Rodeava-te a cama, a vida,
Exigia-te o que não ousavas dar,
Não vi a harmonia perdida.

As ilusões dos sonhos projectados,
Na névoa dos pensamentos vividos,
Fantasiava um romance perfeito,
Tão distante do que sentias no peito,
Tão longe do que eu havia querido.


Reli a nossa história e percebi:
Os teus sentimentos nunca foram sentidos.


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Repetições # 4




Hoje é dia da etiqueta "Repetições".


E deixo um à parte: que saudades das pessoas que aqui vinham e deixavam os seus comentários.
Que saudades de mim, e deste tempo em que escrevia. Em que vos movia a comentar porque escrevia.
Não sei se sinto mais a vossa falta ou a minha.


Relembro, assim, um dos textos mais lidos e, certamente, o que mais comentários mereceu dos leitores.




Ser puta


Isto de ser puta, nunca foi fácil.
Uma puta tem que estar sempre disponível para tudo e para todos. O telefone está sempre ligado, toda a gente sabe a sua morada, toda a gente lhe conhece o carro e toda a gente sabe que pode aparecer quando precisar e bem lhe apetecer.
Puta que é puta, abre a porta de casa ou do carro a toda a gente. Boas ou más pessoas. Puta das boas deixa que toda a gente lhe entre pela vida. E nem precisa de mordomias. Abre a porta sozinha, está sempre de sorriso na cara, nunca diz que não a nada e no fim ainda agradece que a tivessem fodido.
Puta, com muitos anos disto, é aquela que atura os trastes e as pessoas porreiras. É aquela que não discrimina. É aquela gaja que aceita as diferenças dos outros. Que aceita a vida dos outros. Que aceita o passado dos outros. Que aceita estar no presente e no futuro da vida dos outros apenas quando estes precisarem dela e não por gostarem dela. 
Puta profissional é aquela que não chateia ninguém ao telemóvel, que não procura os seus clientes, mas espera a toda a hora chamadas de socorro para um consolo rápido. E vai. Vai, trabalha bem e deixa a pessoa satisfeita. Depois volta para casa arruinada, cheia dos problemas dos outros, minada de doenças que se propagam até ao inconsciente, com dores no corpo todo e sobretudo na cabeça. Ocasionalmente sujeita-se a voltar para casa com dores nos maxilares de tantos murros que levou nas trombas e de tantos broches que teve de fazer. Mas uma puta tem sempre de sorrir. 
Amanhã é outro dia, a malta que a fodeu ontem já se esqueceu e, portanto, não irá compreender porque é que, apesar de lhe terem ido às trombas, mesmo assim não ri.
Porque se há uma vaca que ri, uma puta tem de rir muito mais.
Uma puta como deve ser, fala pouco e trabalha muito. Os filhos da puta (não desta em questão!) lá se podem aliviar como bem entenderem que a puta resolve tudo. Alguns deles usam as putas para desabafar sobre os monos que têm em casa, no trabalho, no ginásio. Por vezes até fazem confidências sobre a sua intimidante e a puta nunca pode desviar a sua atenção da conversa ao mesmo tempo que percebe que está a ser enrabada. Tem de ser multifacetada e estar preparada para todo o tipo de encavadelas, broches e enrabanços. Falam lá da vidinha deles, até chamam putas às mulheres que escolheram, e depois do serviço feito voltam para as suas casas mais aliviados.
Puta que é puta diz sempre que gostou muito, dá sempre um desconto a tudo e sai a sorrir sem aceitar boleia. E puta que também tem sentimentos deixa a pessoa seguir a sua vida sem exigir que alguém lhe pergunte um dia se está tudo bem. Uma puta aguenta!
Puta à séria, está cravada de sentimentos para aguentar a choradeira dos virgens mas nunca se queixa de quem a viola. A puta só pode ter sentimentos para os outros mas nunca pode pensar que alguém se lembra dela.
Isto de ser puta tem muito que se lhe diga porque um dia a puta vai querer deixar de o ser, e já não vai conseguir sair dessa vida. Às tantas, dá por si a gostar de ser puta e a pensar que toda a gente devia ser puta de vez em quando. Só para saberem que há um lado de desfrute para quem é puta. Mas as putas não são bem vistas, porque ser puta dá muito trabalho e poucas alegrias.
O dia em que a puta quiser deixar de ser encavada por todos, todos irão achar muito estranho e atirar-lhe à cara que é uma ingrata. Que teve sempre quem a sustentasse e agora já não o quer. Vão pensar que tem a mania das grandezas e que já não quer ser puta mas sim, ser apenas mais um deles.

Hoje vieram ao cu a esta puta e doeu.
Mas amanhã, como já ninguém se vai lembrar, convém continuar a sorrir para não pensarem que eu tenho a mania que ninguém me pode foder e que afinal já não quero ser puta.




terça-feira, 4 de novembro de 2014

S. O. S. ( a sério... socorro! )




Parei hoje para pensar, saudosamente, na última viagem que fiz.
.
.
Foi:
há 3 anos, 
9 meses e
16 dias...
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.

Foda-se.





segunda-feira, 3 de novembro de 2014

"Outra coisa"



"Outra coisa" do livro "Estilhaços e Cesariny"
Poema de Mário Cesariny
Voz de Adolfo Luxúria Canibal
Musica de Jorge Coelho




Depois de algumas tentativas falhadas em contribuir para uma mundialmente famosa playlist, (não tenho efectivamente uma cultura musical de que me possa orgulhar, muito menos uma que sirva os outros), foi-me dada a oportunidade de escolher, então, um poema para incluir nessa lista (foi fantástica a capacidade de contornar uma incompetência minha para me incluir de uma maneira mais digna nessa playlist. Se não és o maior, não sei quem será).

Depois de muito ler e reler, e ouvir e declamar, lá consegui resumir o resultado a dois poemas.
Um deles acabei por partilhar aqui e o outro, este poema de Cesariny, acabou por ser o escolhido para constar da melhor banda sonora da blogosfera para os dias em que nos apetece despejar a cabeça.

Foi um prazer.