29.5.17

metamórṗhosis

Carolina Madruga



O meu corpo evade-se.
De tempos em tempos.
Sinto-o.
E cedo-lhe.
Observo o fenómeno.
Se nos permitirmos ver-lhe a beleza,
A mutação é assombrosa.


Quando o corpo sai do corpo,
Não sobra nada.
Sobra apenas a beleza de sermos nós.
De termos o raro momento de ficarmos a sós.
Connosco.
Com a nossa mente.
Num vazio.
Muitas vezes num vazio.
Quando o corpo sai do corpo,
Não há horizonte.
Nem passado.
Somos nós.
Naquele instante.
Sem intermitências.
Porque não há um corpo.
Porque não há pensamento.
Nem consciência.
É a mente a despegar-se.
A libertar-se do seu papel.
É um corpo a não querer ser corpo.
Uma mente que não quer ser mente.

Somos nós a não querermos ser nós.


[Não é inquietante não querermos ser nós. É fascinante.]



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