domingo, 10 de abril de 2011

A carne humana



Acordei nauseada. Suada de alucinações. Desiludida de respirar. Dorida de nojo.
Não queria abrir os olhos para não recordar as imagens da noite que passou, mas também não consegui prosseguir o sono por repetir na cabeça todos os gestos. Todas as frases. Todos os sons. Todos os cheiros.
Ontem os corpos estavam possuídos. As bocas balbuciavam silêncios idiotas porque apenas sorriam sexo. A música... tão alta... sufocava-me o raciocínio e toldava-me as percepções. Os perfumes melados, misturados com o álcool exalado pelas bocas pecadoras, eram insuportáveis.
Queria apagar a história de ontem. Queria apagar a história da humanidade que nos trouxe até aqui. Apagar os comportamentos selvagens que herdámos. Cunhar os Homens de evolução. Lembrar-lhes o longo caminho até aqui. Gritar-lhes que há muito não somos símios descontrolados pelos impulsos sexuais. Para quê tanta sofisticação se, por baixo de vestes luxuosas, os corpos não passam de carnes impetuosas desorientadas por cérebros primitivos. Não aguento tanta promiscuidade. Sinto-me vomitar. Estou embriagada pelas cenas ordinárias, estupidamente vulgares, que as pessoas propagandeiam. Vulgaridades que as pessoas vendem sem ser a troco de dinheiro. Puras exibições hormonais. Rituais de acasalamento. Sexo porco. Perversões. Micróbios. Pele. Mucos. Desfaleço de nojo, como se tivesse sido o meu corpo  o  possuído. 
Percebo tão bruscamente que o decoro morreu. Ou, simplesmente, deixámos de o fingir.  Ninguém mais se esconde por trás de regras. Ninguém mais recorda o poder das imagens a preto e branco, que impunham candura à pior das orgias. Envergonha-me olhar para os outros animais nesta selva e ver os seus comportamentos pouco dignos. Só buscam carne. Caça pura. Instintos errados para um objecto delineado. Caçar. Comer. Lamber os beiços.
Apetecia-me morrer por saber que fugir dali não seria suficiente para me esquecer das cenas repugnantes. O amor dedicado, sofrido pelas horas sem conquista, desapareceu. Morreu por homicídio. Mataram-no. E o meu doce jeito de amar antes de acasalar não encontrará parceiro para esse desafio. Acabaram-se os romances de janela. Acabaram-se os olhares que acabam em amor. Acabaram-se as conquistas demoradas. Acabaram-se as notas musicais.
Agora, neste mercado fácil para talhantes, os bifes conquistam-se em segundos. Sem jogos. Sem sonho. Sem desejo do coração. Apenas desejo entre as pernas.
Caminhamos para isto. Voltámos a ser símios. E envergonho-me por isso.





5 comentários:

  1. ... mas no fundo no fundo, mesmo se tirarmos a festa do Mar de Ar (e ar de talho), até foi uma noite divertida.

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  2. Sodoma e Gomorra ao tempo povoada pelos Cananeus foi destruída porque os seus habitantes se dedicavam à prática de actos imorais! Quem foi que nos criou – se alguém foi – apercebeu-se logo que se o sexo não desse prazer punha em risco a continuidade da espécie, sim, porque esta espécie só faz alguma coisa por prazer ou por dinheiro.
    Make Love – slogan anti-guerra - não é exactamente a mesma coisa que “Fazer amor” porque em português significa ter relações sexuais, foder!
    Como é que se pode fazer amor? De que é feito o amor?
    O cérebro tem diminuído de tamanho, e já não se situa na caixa craniana, desceu até à virilha e em alguns espécime ficou muito perto do ânus o que prejudica fortemente as ideias emanadas.
    É verdade,Por debaixo das vestes andamos todos nus...

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  3. Fantástico texto! Muito bem escrito! temos escritora!:-)

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  4. minha cara!!!! ainda não descobris-te o sexo! como começas-te "acordei..." não julgues os teus sonhos e desejos!!! quando descobrires o sexo, não vais escrever assim!!!!!

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  5. Se "descobrir o sexo" me fizer dar assim tantos erros ortográficos... então prefiro não descobrir nada, "Anonimozinho" do meu coração :)

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