segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Estranhezas dos pensamentos de Verão





Tantas coisas para dizer durante esta minha ausência...
Tantos pensamentos, tantas conclusões e tão pouco papel e caneta para ir apontado coisas que acabaram por se desvanecer com o tempo.
De facto, a realidade há-de ser sempre o maior motor para a inspiração. E há sítios mais reais que outros. Por estes dias estive num desses lugares em que a realidade é, parolamente, mais dolorosa que no resto do mundo. Estou em crer que sim. E até pode ser divertido mas, depois de tantos dias, qual roda de hamster, começa a ser repetitivo e o cérebro começa a pensar em coisas sobre as quais nunca se tinha debruçado e, às tantas, já não sabemos se são alucinações  dos olhos ou rasteiras do cérebro.
E só continuamos a pensar cada vez mais e mais...

Pensei, para começar, mais uma vez nisto da solidão (claro!... boring...) mesmo estando-se rodeado de gente (aquele velho tema que, em algum momento da vida, todos conheceremos), e no sentido que faz entregarmo-nos à dor da solidão estando mal acompanhados, resignarmo-nos, quando podemos ser mais felizes sozinhos. Questionei que tipo de penitência é esta a que as pessoas se impõem? Mas, depois, também vi muitas pessoas sozinhas, e que me pareciam imensamente infelizes com isso. Pensei: haverá um ponto de equilíbrio?

Pensei, também, no Miguel Esteves Cardoso (e eu até lhe pedia perdão por isto mas haverão, certamente, coisas que o ralem mais do que pensar no facto de eu ter pensado em si), e nas coisas que escreve e porque é que umas são tão clarividentes e aconchegantes, por serem tão próximas da mortalidade de qualquer um, e porque é que depois se espalha ao comprido em coisas sem sentido nenhum e que não interessam, verdadeiramente, a ninguém. E eu perco-me ali naquela esquizofrenia e depois, estranhamente, isso faz-me sentir bem e volto a gostar do Miguel Esteves Cardoso e do que escreve e do que vai naquela cabeça contaminada de mundo.

Pensei, depois, nas dietas e em como tanta propaganda a sementes, batidos e cenas Detox não anda, claramente, a chegar a um público assim tão alargado como se pensa, e basta ir à praia para confirmar isto. Pensei na democracia dos biquínis, e em como não há nada a esconder com um biquíni vestido e em como, supostamente, somos todos iguais, ali, expostos sem roupa, e também sem classe social, sem educação ou formação, sem religião, sem nacionalidade, sem clubes nem partidos. Somos todos iguais para o bem e para o mal. A única coisa que nos distingue quando nos expomos num biquíni é o bom-senso, ou falta dele. E isto levou-me a pensar em como, estranhamente, as mulheres parecem não querer esconder nada quando chega a hora de ir para a praia. Pensei: somos fodidas. Durante um ano inteiro, queixamo-nos que estamos gordas e que não podemos comer isto e aquilo. Andamos um ano a queixar-nos que não podemos usar leggings indiscriminadamente porque se vê isto e aquilo, que não podemos usar blusas sem soutien porque se nota isto e aquilo, que não podemos comer uma dúzia de lasanhas por semana porque se vai notar isto e aquilo, e depois... Depois chegamos à praia e vestimos um biquíni (que nalguns casos parece ser engolido pelo próprio corpo), malhamos todos os dias, orgulhosamente, uma bola-de-berlim (ou berlinde, como ouvi ao balcão de um café - priceless!) como se por estarmos na praia elas não engordassem, e ainda nos damos ao desplante de dar uma caminhada pela beira-mar (coisas que nos recusamos a fazer durante o ano porque cansa muito) para nos verem bem o corpo de hibernação que conseguimos durante um inverno rigoroso. E é, também, por isto que cada vez compreendo menos as pessoas, e muito menos as mulheres. Também descobri que os fatos-de-banho foram peças que caíram em desgraça nas graças de muitas senhoras que deveriam reconsiderar o seu regresso.

Depois parei para pensar nos homens, e não precisei de dois minutos para concluir que usam o que lhes apetece, podem engordar que nem uns ursos, e usar tangas ridículas (não sungas) tiradas da arca do enxoval de 1984, que ninguém quer saber. Está tudo bem. Menos os olhinhos das pessoas.

Pensei, finalmente, no quão fartos os pais estão de ser pais. Ou no quão infelizes os pais descobriram que podiam ser depois do sonho que idealizaram que seria a paternidade. A falta de paciência e a agressividade latente no vocabulário, na linguagem não verbal, nos movimentos do corpo. Vê-se: a maioria da pessoas com que me cruzei, odeia ser pai, está farto dos filhos, odeia as obrigações e já não vê prazer nenhum na rotina e na vida com crianças. A educação passou a ser sinónimo de repreensão e ninguém se dá ao trabalho de dar um beijo nos filhos, um abraço, de rir com as crianças, de as elogiar, de dizer "a mamã e o papá gostam muito de ti". Não se incentiva, minimamente, o amor, os afectos, e só vi semearem um futuro muito incerto no que às relações pais/filhos diz respeito. Só vi pais a criarem filhos inseguros, com medos, ou desprovidos da noção de afecto. E um dia a factura vai ser cobrada e depois ninguém vai perceber porque é que o valor é tão alto. Estou só a dizer... Fiquei preocupada e ao mesmo tempo fez-me pensar que, se um dia for mãe, terei de regressar mentalmente muitas vezes a estes dias e reflectir sobre que mãe quero ser e que filhos quero criar.  Se vou querer passar o dia a repreendê-los, a chatear-me e a criar um fosso emocional entre nós, ou se, em vez disso, me encho de paciência, conto até dez, pego nos putos pela mão, levo-os à beira-mar, e finjo que gosto muito de brincar aos castelos de areia, de ganhar um Kilimanjaro de areia no pipi, e de apanhar escaldões nas costas por andar sempre vergada a agarrá-los. Metáfora parva que espero me sirva para muitas coisas na vida. E espero nunca me esquecer disto. Nunca.
Não pude deixar de pensar, também, em como muitos destes pais se queixam o ano inteiro que não têm tempo para os miúdos. Que se lamentam que o tempo que lhes resta depois do trabalho é para lhes dar banho e de comer e que no dia a seguir volta tudo ao mesmo e que os anos passam-se e os miúdos crescem e nunca tiveram tempo de qualidade para os mimar.
As conclusões estão na minha cabeça mas prefiro nem verbalizar porque acho que todos chegamos lá.


E pronto, mais coisa menos coisa foi isto. Houve, portanto, todo um alinhamento de pensamentos muito coerente e também isso me dá que pensar.


(E, foda-se, que vim mais disléxica que nunca das férias e este texto demorou mais horas a escrever e a corrigir que a bíblia a ser lida em mandarim por um gago).


2 comentários:

  1. muita coisa gira te passa pela cabeça.
    E... eu comprei um fato de banho este verão. apesar das minhas amigas me chamarem de maluca!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E não há mal nenhum em usar um fato-de-banho que, por sinal, pode ficar bem elegante numa mulher, bem mais que um biquini.

      Eliminar