segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O tempo e a cura



Envelheci dez anos.
Deve ser essa a cura que o tempo faz.
A cura de que todos falam.
A pele a contar as histórias que já se sabem.
Aquelas que se falaram nas costas.
E agora se notam pela frente.
É mentira o que nos contam.
O que nos dizem para nos consolar.
Que o tempo cura.
O tempo não cura.
Não cura nem faz esquecer.
O tempo marca.
Marca no rosto e na memória.
Marca na pele.
Nos cabelos que se acinzentam.
Nos olhos que se embaçam.
Marca-nos na relação com os outros.
Connosco.
Com o nosso passado.
O tempo, o que passou, trama-nos aquele que lhe há-de dar lugar.
Agoira o lugar das histórias que hão-de vir.
O tempo não cura o que não tem cura.
O tempo é apenas tempo.
E tempo só anda em frente.
A fazer-nos envelhecer.
Deve ser essa a cura que o tempo faz.
Envelhecer-nos.
E é na velhice que está a cura, não no tempo.
Porque só a velhice pode dar-nos a sabedoria para o saber aceitar.



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