terça-feira, 26 de julho de 2011

Discípula de ninguém




Vieram homens e mulheres de corações encortiçados e palavras de vidro. Vociferavam enormidades sem saber da sua razão. Empeitavam princípios preconceituosos do topo de toda a sua arrogância. Julgavam-se intocáveis e detentores da toda a moral da humanidade por nunca ninguém lhes ter dito o contrário. Eram podres nas vísceras que vomitavam pela boca que revestiam de uma verdade apenas sua. 
Aquela mulher nunca se vira rodeada de tantos asnos, apesar de saber que a sua punição viria de um povo ignorante e néscio que, às portas de a ver ser julgada, não hesitaria em fermentar os ácidos do seu hebetismo. Ela sabia o que a esperava de espanto no rosto mas sem novidade na alma. Sabia que o povo que a havia posto no mundo, e criado da maneira que soube, não lhe havia de reconhecer a sua grandeza e distinção. Por isso a crucificavam agora. Por querer romper regras, viver sem amarras, não seguir leis nem religiões. Por acreditar no valor das pessoas mas não ceder à ideia de que há pessoas que têm mais valor que outras. Não respeitava hierarquias por não aceitar que entre humanos existam os que são deuses e os que são dejectos. Acreditou sempre na igualdade. Acreditou sempre na liberdade.
Por não se subjugar às ideias dos outros, não se encarneirar nos pensamentos e ideais que se propagam como vírus, não aceitou receber ordens de ninguém, não por falta de disciplina mas por lealdade aos seus princípios. Não baixou a cabeça a mandatos. Não se intimidou com chantagens. Não se calou às injustiças. Não se moveu com ingratidões. Lamentou a inveja. Riu-se da ignorância. Ensinou os mal-amados. Encarou os mentirosos.
Acima de tudo, respeitou e esperou respeito. Acima de tudo amou e esperou ser amada. Mais que tudo quis dar olhos a quem não os tinha e dar coração a quem o nunca teve.

Ataram-lhe as mãos. Cozeram-lhe a boca. Trocaram-lhe os olhos. Mataram-lhe a língua. 
Mas nunca se deixou disciplinar quando lhe quiseram arrancar a razão.



2 comentários:

  1. joaquim carrapato (al berto)27 de julho de 2011 às 23:34

    Mulher condenada por imbecis, simplesmente por se indignar. Não escolheu ser mulher, não se deixou intimidar nem subjugar e o homem não gostou! E ouve mulheres que sorriram finalmente porque já não suportava tanta audácia. Mas ouve também homens que choraram!!!

    ResponderEliminar
  2. Tem um nome.

    http://www.youtube.com/watch?v=iMtz1d0ruAk&ob=av2e

    ResponderEliminar