domingo, 10 de julho de 2011

Três breves histórias de África

Moçambique


Na solidão da selva e do mato, um homem de bata branca ajudava a natureza dos homens a sobreviver. Um dia após o outro o único enfermeiro da região dava mais sentido à palavra “Deus” e aquietava mulheres em prantos e homens em desespero contido. Numa das suas missões, umas mais possíveis que outras, deparou-se com a enfermidade de um homem rico que se empalidecia a cada instante por falta de esperança numa cura. Esse homem era visitado vezes sem conta por outros enfermeiros, médicos e curandeiros mas ninguém lhe conhecia a doença. No dia em que se cruzou com o pai de Mina, o homem teve a cura nas suas mãos. Afinal tratava-se de Paludismo. Sarou-se, viveu muito e soube agradecer a quem o salvou. Como retribuição enviou um marceneiro a casa do enfermeiro e ordenou-lhe que realizasse duas arcas em Umbila. Um trabalho rico e exemplar saiu das mãos daquele homem, num replicado padrão de beleza invulgar. As duas arcas, daquelas mãos nascidas, tinham ainda a particularidade de terem escalas distintas: uma havia de servir de arrumação às roupas de cama, a outra de caixa de costura. Mais tarde, com a saída do país, a maior das arcas havia de ficar para trás mas a pequena caixa de costura veio atracada a Mina, como se dela dependessem todas as recordações de Moçambique. 


Cabo Verde

Em 1952 a família chegara a São Vicente. Nem as longas semanas entregues ao mar lhes tirou o espanto da cara ao ver aquele mar turquesa. À medida que os olhos se acomodavam ao reflexo do Sol, apercebiam-se da inexistência da linha que marca o fim do mar e o início do céu. Estava tudo pintado do mesmo azul.
Lembraram-se do Sol de Lisboa, e das paredes brancas que o faziam brilhar e perceberam, como nunca antes haviam equacionado, que aquele momento era irrepetível nas suas vidas, mesmo que antes não o tivessem desejado.
Com a chegada a terra firme, a brisa fresca misturava-se com os seus corpos quentes e melados pela humidade, preparando-os a todos para o exotismo do clima e das gentes que os aguardavam. E foi esse momento, quando os pés tocaram o cais, que havia de ficar marcado e registado para sempre, por um qualquer desconhecido que, oportunamente, tirou este retrato.
Quando os pais e os seus três filhos se ajeitaram, conforme podiam, entre a beira-mar e a rudeza do cais foram surpreendidos por retratista inusitado naquelas paragens. O homem gostava das novidades da ilha e foi o único, durante largos anos, a captar os momentos mais marcantes em São Vicente.
Aquela família ganhou, assim, um retrato que haveria de guardar o resto da vida, de geração em geração, como um episódio fulcral na sua chegada a Cabo Verde.


Angola

Perdera os anos a que estava em Angola. Sabia que chegara ainda criança, mas não havia registo de datas, que esses pormenores eram perda de tempo. Não conhecia outra vida que não fosse a de Luanda.
Entre brancos e pretos, sabia bem as diferença para além da cor da pele: sabia que era privilegiada. Sabia que uns mandavam e os outros serviam. Aprendeu depressa que as sua vontades eram satisfeitas porque alguém estava lá para a servir. Durante a sua vida em Luanda havia de ter quatro empregados devotos. Daqueles que com o tempo se deixa de distinguir as suas fronteiras. Daqueles com quem, além da casa, se partilha a vida e os segredos.
Talvez por reconhecimento a essa dedicação, os seus pais pediam a um artista amigo que, de tempos em tempos, retratasse esses fieis empregados. Esses quatros empregados de excepção.
Assim surgiram as máscaras, que guarda religiosamente, como se de retratos se tratassem. Com o passar dos anos, e com a sua abstracção aumentando, o seu valor também se enfatiza. O valor sentimental, inestimável, das recordações de infância da sua terra natal, que não voltou a pisar.



3 comentários:

  1. Histórias de vida muito interessantes.

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  2. Olá!
    Esse São Vicente não é em Cabo Verde, mas sim no Brasil, em São Paulo.
    Se repares bem na foto está escrito
    beijocas
    ps: já cá estou e não consegui te ligar para beber um café!

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  3. Além de pitosga estou maluca :)
    De facto a imagem não era aquela mas esta que já lá está. Obrigada por avisares!
    Liga-me. Liga-me. Liga-me. Bjs :*

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