segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

"O Encouraçado Potemkin"


Para o Gonçalo F., o visitante n.º 10 000, que escolheu como tema: “O cinema... através de uma imagem”.


Pedirem-me que fale de cinema é, mais ou menos, o mesmo que me pedirem que fale de sushi: gosto, consumo, vicio-me, não prescindo por nada deste mundo mas... (sim, há sempre um mas), eu não faço a mínima ideia de como se faz. Não domino a técnica. Não conheço todos os ingredientes.
Nesta perspectiva sou completamente sedentária a nível mental. Sedentária, para não dizer preguiçosa. Vem-me até à ideia aqueles homens barrigudos que passam os serões sentados no sofá a ver lutas de wrestling enquanto escravizam as mulheres com pedidos de latas de cerveja enquanto devoram  cornichons em pickle. Sinto-me um homenzinho acomodado à poltrona em pele dos anos 80, cuidadosamente revestida com uma manta de xadrez, que não se esforça por um segundo.
Resumidamente: sirvam-me, que eu consumo. Se gostar continuo. Se não gostar rejeito. Claro que apenas falo da parte de criticar cinema de modo coerente, eloquente e inteligente. Não falo de ver cinema ou saber do que gosto, porque disso sei eu bem. 
Justificado que está que não saberei falar decentemente de cinema, quem quiser abandonar o blog neste momento, que se sinta à vontade para o fazer. Eu sou a primeira a compreender! Até porque o texto ficou longo que sei lá...


Vamos então a isto:
Ainda que estabeleça alguns critérios sobre os filmes que me interessam ver (não pago para ver comédias românticas ou os chamados filmes de acção (?) – Não são todos?), na verdade já me desapontei muito com filmes amplamente aclamados pela crítica mundial – o que me fez sentir bastante estúpida e ignorante – como também já passei pela desagradável sensação de gostar de filmes que não era suposto gostar – senti-me igualmente estúpida por gostar de coisas estúpidas e ainda tive de mentir quando me perguntaram o que tinha achado. Por isso suponho que mais vale ver sempre cinema de qualidade. Do mal o menos não poluo o cérebro.
E o caso mais paradigmático em que me senti, não estúpida mas vazia, como uma gruta por onde passa uma enorme corrente de ar, foi mesmo com o filme “O Encouraçado Potemkin”. Vi-o há cerca de 10 anos na faculdade. Numa qualquer aula de projecto, lá nos esperava “O Encouraçado Potemkin”. O ambiente estava escuro. Havia agitação na sala. Roda o filme...
"A sério? A sério que nos vão meter a ver um filme a preto e branco de mil novecentos e troca-o-passo?" Nem podia acreditar... Preferia falar do projecto que não tinha.

O filme começou. O filme continuou. O filme terminou. Honestamente, não me lembro do filme.

Ainda hoje não sei o que se passou comigo. Se um transe de estupefacção,  ou uma amnésia de salvação. Não sei que mecanismo o meu cérebro desencadeou mas não me recordo de nada há excepção de duas coisas (afinal de contas não podia ser assim tão estúpida). Lembro-me do som. Lembro-me da escadaria de Odessa.
Por incrível que pareça também nunca esqueci o nome do filme. E lá vão três coisas...
Quando me foi pedido que falasse de cinema, pegando numa imagem, foi o primeiro filme de que me lembrei, o que também não poderá ser mau sinal. Não me lembrei do “Dirty Dancing”, nem do “Rambo”, nem do “Sozinho em Casa”. Vá lá, dêem-me crédito! Lembrei-me daquela escadaria alucinante por onde se precipitava um carrinho de bebé. Dos desesperos nos rostos. Do som agudo, acelerado e dramático.
Por isso, não podia ignorar que tinha de falar deste filme, e apressei-me a correr para o Google. Para meu espanto sei de caras com a imagem que registei na minha memória durante todos estes anos, sem tirar nem pôr.



Posso tirar daqui várias elações sobre o efeito do cinema, e em particular deste filme, sobre mim:


1 - O título é importante. Se não me lembrar do nome do filme, então é porque este não foi memorável sob qualquer aspecto.

2 - Se não me recordar dos sons, é porque o filme podia ser mudo. Se podia ser mudo, mas não o era, então tinha excesso de informação. Se não era mudo e não me lembro dos sons então a banda sonora e a envolvência das personagens no filme falharam redondamente.

3 - Se me lembro apenas de uma imagem do filme e, quando procuro por ele, é precisamente essa imagem que aparece, então o sacana do realizador é um génio, porque conseguiu perpetuar apenas uma imagem num bilião de pessoas, e ainda conseguiu que numa imagem resumisse a natureza de todo o filme. Levanto-me e bato palmas!

4 - Se o filme é bom, não precisa de ser a cores. Um bom filme trás-nos todas as cores aos olhos.

5 - A ideia de que os últimos 10 minutos podem salvar um filme aqui caem por terra, uma vez que nem me lembro como acabou a trama. Por isso, e pelo sim pelo não, mais vale fazerem-se filmes com qualidade do princípio ao fim, porque nunca se sabe o que o público lembrará.

6 - Finalmente, aprendi ainda que não vale a pena rever apenas os filmes de que gostei. Aqueles que em algum momento considerei detestáveis, possivelmente, só o eram à luz de um contexto, de uma tenra idade, de uma fase da vida imatura. Como as coisas mudam e as opiniões também, uma coisa eu sei, em breve irei rever “O Encouraçado Potemkin”.


Boas críticas... e de pessoas que sabem do que falam... aqui e aqui.


Ao Gonçalo, peço perdão por não ter sabido escrever sobre cinema. 






5 comentários:

  1. Obrigado por ter citado minha crítica no final de seu post, me sinto honrado por isso! parabéns pelo blog e pelo excelente texto, me identifiquei com uma coisa, sua forma de "degustar" o cinema, meu conhecimento sobre a técnica é muito limitado, por isso sempre foco em meus textos a minha percepção sobre o filme e os efeitos que ele provocou em mim... Estarei lhe seguindo!

    ResponderEliminar
  2. Meu Deus! Quanta honra tê-lo por aqui! Agora sinto vergonha por ser apanhada com um texto tão ... simples ... quando comparado com o seu. De certo nos cruzaremos por aqui, ou pelo seu blog, que tão atentamente sigo.
    Muito obrigada pela visita.... estou babando ;)

    ResponderEliminar
  3. Não vi o filme (se calhar não tivemos o mesmo professor na faculdade). Gostei do apontamento do facto de, sem perceberes o filme, elogiares a mestria do realizador pela forma como algumas imagens queimaram a retina e marcaram o teu subconsciente.

    Semelhante caso: lembra-me Bjork em "Dancer in The Dark" de Lars Von Trier, em que ela dizia "Prefiro sair do cinema antes do filme acabar, para assim poder imaginar um final feliz, sem drama e sem dor"

    ResponderEliminar
  4. Ou então tivemos exactamente o mesmo professor... e tu só eras ainda mais distraído que eu :)
    Já viste quem nos veio visitar? - neste post que é um pouco meu e teu - E que, tão simpaticamente, comentou?
    Hoje temos casa cheia!

    ResponderEliminar
  5. Sim, muito distraído, e hoje estou um bocadinho bera. Filmes ligados directamente a arquitectura são forçados. É preferível colar assuntos mais distantes, puxar mais pela imaginação.

    ResponderEliminar