quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Repetições # 4




Hoje é dia da etiqueta "Repetições".


E deixo um à parte: que saudades das pessoas que aqui vinham e deixavam os seus comentários.
Que saudades de mim, e deste tempo em que escrevia. Em que vos movia a comentar porque escrevia.
Não sei se sinto mais a vossa falta ou a minha.


Relembro, assim, um dos textos mais lidos e, certamente, o que mais comentários mereceu dos leitores.




Ser puta


Isto de ser puta, nunca foi fácil.
Uma puta tem que estar sempre disponível para tudo e para todos. O telefone está sempre ligado, toda a gente sabe a sua morada, toda a gente lhe conhece o carro e toda a gente sabe que pode aparecer quando precisar e bem lhe apetecer.
Puta que é puta, abre a porta de casa ou do carro a toda a gente. Boas ou más pessoas. Puta das boas deixa que toda a gente lhe entre pela vida. E nem precisa de mordomias. Abre a porta sozinha, está sempre de sorriso na cara, nunca diz que não a nada e no fim ainda agradece que a tivessem fodido.
Puta, com muitos anos disto, é aquela que atura os trastes e as pessoas porreiras. É aquela que não discrimina. É aquela gaja que aceita as diferenças dos outros. Que aceita a vida dos outros. Que aceita o passado dos outros. Que aceita estar no presente e no futuro da vida dos outros apenas quando estes precisarem dela e não por gostarem dela. 
Puta profissional é aquela que não chateia ninguém ao telemóvel, que não procura os seus clientes, mas espera a toda a hora chamadas de socorro para um consolo rápido. E vai. Vai, trabalha bem e deixa a pessoa satisfeita. Depois volta para casa arruinada, cheia dos problemas dos outros, minada de doenças que se propagam até ao inconsciente, com dores no corpo todo e sobretudo na cabeça. Ocasionalmente sujeita-se a voltar para casa com dores nos maxilares de tantos murros que levou nas trombas e de tantos broches que teve de fazer. Mas uma puta tem sempre de sorrir. 
Amanhã é outro dia, a malta que a fodeu ontem já se esqueceu e, portanto, não irá compreender porque é que, apesar de lhe terem ido às trombas, mesmo assim não ri.
Porque se há uma vaca que ri, uma puta tem de rir muito mais.
Uma puta como deve ser, fala pouco e trabalha muito. Os filhos da puta (não desta em questão!) lá se podem aliviar como bem entenderem que a puta resolve tudo. Alguns deles usam as putas para desabafar sobre os monos que têm em casa, no trabalho, no ginásio. Por vezes até fazem confidências sobre a sua intimidante e a puta nunca pode desviar a sua atenção da conversa ao mesmo tempo que percebe que está a ser enrabada. Tem de ser multifacetada e estar preparada para todo o tipo de encavadelas, broches e enrabanços. Falam lá da vidinha deles, até chamam putas às mulheres que escolheram, e depois do serviço feito voltam para as suas casas mais aliviados.
Puta que é puta diz sempre que gostou muito, dá sempre um desconto a tudo e sai a sorrir sem aceitar boleia. E puta que também tem sentimentos deixa a pessoa seguir a sua vida sem exigir que alguém lhe pergunte um dia se está tudo bem. Uma puta aguenta!
Puta à séria, está cravada de sentimentos para aguentar a choradeira dos virgens mas nunca se queixa de quem a viola. A puta só pode ter sentimentos para os outros mas nunca pode pensar que alguém se lembra dela.
Isto de ser puta tem muito que se lhe diga porque um dia a puta vai querer deixar de o ser, e já não vai conseguir sair dessa vida. Às tantas, dá por si a gostar de ser puta e a pensar que toda a gente devia ser puta de vez em quando. Só para saberem que há um lado de desfrute para quem é puta. Mas as putas não são bem vistas, porque ser puta dá muito trabalho e poucas alegrias.
O dia em que a puta quiser deixar de ser encavada por todos, todos irão achar muito estranho e atirar-lhe à cara que é uma ingrata. Que teve sempre quem a sustentasse e agora já não o quer. Vão pensar que tem a mania das grandezas e que já não quer ser puta mas sim, ser apenas mais um deles.

Hoje vieram ao cu a esta puta e doeu.
Mas amanhã, como já ninguém se vai lembrar, convém continuar a sorrir para não pensarem que eu tenho a mania que ninguém me pode foder e que afinal já não quero ser puta.




5 comentários:

  1. Quem disse que as putas eram felizes?

    Beijinhos Marianos, DC! :)

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  2. Precisamos de um 1º Ministro com o perfil que descreveste! Haja putas na nossa vida!

    Bj

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  3. Quem disse que ser puta é vida fácil...
    Adorei o texto.

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  4. Este foi um dos melhores texto (entre tanta palavra bem escrita) que li por aqui... Obrigado pela repetição e que as palavras continuem a sair desta forma maravilhosa.

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