terça-feira, 17 de junho de 2014

Repetições # 2




Hoje é dia de voltar à etiqueta "Repetições".

Exactamente no dia 17 de Junho de 2012, estava assim. Hoje não estou melhor mas por outras razões. Razões muito distintas até. Afinal, de quantas formas podemos ser abandonados?



Da tua Janela dói-me o peito





Um dia decidiste dizer que ias embora. E foste. De uma maneira fugida. Não como quem foge de alguém, mas como quem foge de si. E isso ainda me doeu mais. Isso ainda me dói.

Agora, que te revejo as ideias, imagino as deambulações dessa alma atormentada para manter um segredo assim. Vejo-te nessa situação hesitante. Acordando um dia de peito feito mas escondendo as ideias que em ti nasciam. Aprofundando sem fim a vontade de partir, mas ocultando no rosto e nas palavras os avanços dos teus planos. Partiste um dia, quase em segredo, ainda mal tinhas pavoneado a novidade. Ainda mal tinhas arrumado as ideias e a vida. Ainda mal tinhas olhado o que deixavas para trás. Mas um dia decidiste dizer que ias embora. E foste.
Saíste um dia de casa, deixando os móveis assombrados pelo despejo dos teus bens. Deixaste as gavetas vazias e as janelas cerradas. Abandonaste tudo em ti e roubaste o significado à palavra lar. A luz, que entrava generosa pela janela, não mais aqueceu o quarto onde dormias. Sentiu-se traída, a janela velha e agora teima em não funcionar. Diz que lhe fazes falta. Diz que só tu a fazes chiar. O soalho, esse, morreu pela falta dos teus passos. Secou de desgosto e não consegue mais brilhar. Inerte , como me encontro, nem o consigo consolar. Os meus passos não lhe iludem a tua presença.

De vez em quando consigo entrar no teu quarto. Primeiro olho-o de longe. Espreito-lhe o espírito. Sinto-lhe a ausência. E ele, de vez em quando, lá me deixa entrar. De passos sorrateiros para não perturbar o soalho, passo as mãos pelos móveis vazios que ali deixaste. E eles nem mexem. Morreram de desgosto e solidão. E eu deixo-os. Não apoquento os seus vazios. Também não gosto que apoquentem os meus.
De pé em pé, lá vagueio pelo quarto para ir poisar na janela. De todas as vezes, dirigi-me sempre à janela. Ela não reclama nem  resiste e, por vezes, noto-lhe a generosidade do peitoril. Sente falta que alguém por ali espreite, e eu faço-lhe a vontade. Penduro-me nela e perco o olhar. Perco as horas no pensar. Finco bem os pés no pequeno banco de madeira, agarro o peitoril com tremores, e espreito. Penduro-me nela e perco o olhar na esperança de te ver voltar. Mas um dia decidiste dizer que ias embora. E foste.

Aquele banco, ali abandonado, resiste sozinho naquele soalho mal-tratado. Como tu. Sozinho em cima das pernas a aguentar o peso do desconhecido. A lutar por ser atingido por um clarão. Por vezes, também eu fico assim. Apenas suspensa nas pernas, a olhar para o longe, como se o longe fosse logo ali. Mas não é. Como se o tal clarão te trouxesse de volta, mas não traz.

Espero que te aguentes nas tuas pernas, mas se não aguentares volta, porque tens outras tantas em casa à tua espera. Tantas quantas as pernas que tem o banco. E ele, bem o vês, continua firme à tua espera.




3 comentários:

  1. Respostas
    1. Podia fingir que isto não aconteceu mas mais vale ser honesta: é um erro que cometo com frequência. Tal como o "trás" e o "traz". Isto deve ter um nome mas prefiro não saber qual é :)
      Obrigada.

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