terça-feira, 12 de maio de 2015

Onde mora a arte?


Wolfgang Beltracchi

Wolfgang Beltracchi é um falsificador de arte. O maior de todos eles.


Wolfgang é odiado por meio-mundo, que o considera um impostor e um mentiroso que se aproveitou das suas capacidades persuasivas e da sua inquestionável habilidade artística para enriquecer e enganar profissionais da arte.
Porém, para a outra metade do mundo, Wolfgang é muito mais que isso, aliás, será tudo menos isso. Para metade do mundo ele é um artista. É, ele próprio, o maior de todos os artistas.


Wolfgang não se limitou a "copiar" quadros de pintores consagrados e intocáveis, ele foi mais além e criou novos quadros recorrendo às técnicas e estéticas desses pintores, fazendo-os aparecer no mercado como se se tratassem de novas descobertas, levando-as a leilão e fazendo-as render, nalguns casos, milhões de dólares. Ainda hoje se desconhece onde param algumas delas, acreditando-se que algumas figurarão em museus sendo apreciadas por visitantes e especialistas como sendo genuínas.
Reza a história que, inclusivamente, a viúva de Max Ernest ao olhar para um dos quadros, supostamente, de autoria do seu marido, mas na realidade pintado por Wolfgang, comentou tratar-se "da mais bela floresta de sempre" pintada pelo seu marido.
O facto de ter sido, afinal, outra pessoa não conceituada no mundo artístico - até então - altera a qualidade da obra?
É disso que se trata, de um nome?


Este Dartagnan da pintura encerra sobre ele o maior dos mistérios da arte, e volta a fazer-nos lembrar qual a maior das interrogações que temos ainda hoje sobre ela: o que é, afinal, a arte?
Onde mora a arte?
Quem faz arte e quem a pode fazer?
Isso de fazer arte está na formação académica, nas ideias, na conceção, na técnica, no conhecimento, na inteligência, na divindade, na genialidade, na exclusividade, no nome ou no preço?
Bem, na verdade, a arte levanta-nos muitas mais questões.


Wolfgang, após uns tempos a cumprir pena pelo seu crime, regressa agora em nome próprio, com o seu rosto, e vontade de não voltar a fazer o mesmo erro: assinar com o nome de outros.
Porque no fundo foi disso que se tratou. Ninguém pintou, nem criou, nem se entregou às pinturas que não ele mas, no momento de escrever o nome, colocou o de outro. Foi ele que as fez, portanto, será justo que o mesmo as assine e não espere reconhecimento por via de outros. Wolfgang terá aprendido a lição e inaugurou uma exposição em nome próprio, sem máscaras.


Não conheço desafio maior que o do ilusionismo e este homem deu-nos a ilusão em que todos queremos acreditar: que um nome qualifica uma obra.
Sem falsos moralismos, quantos de nós saberão, verdadeiramente apreciar um quadro de Heinrich Campendonk? E quantos dos colecionadores não compram apenas por investimento ou por capricho?
Wolfgang veio dar um duro golpe neste estereotipo e nas verdades absolutas. Iludiu-nos e foi punido porque nos sentimos enganados.

No entanto, quanto a mim, para além de ser habilidoso com as mentiras (ou meias-verdades), Wolfgang escreveu a maior lição de moral da história de arte contemporânea, sem o saber. Deu a muitos artistas, estabelecidos ou wannabes, o maior exercício de humildade que pode haver e cumpriu a maior pena de cadeia que um artista pode cumprir: assinar com o nome de outro. Dar o mérito da sua obra a outro. Durante todos estes anos ele fez o maior exercício de contenção de ego e de humildade de que há história no meio artístico.



Agora a história da carochinha:

Wolfgang conseguiu esta proeza de falsificar e vender obras de arte como sendo de artistas consagrados e valiosos no mercado da arte, com a ajuda de uma cúmplice.
Helen, a sua mulher, que tem ar de quem não come torradas com galão de manhã, foi a parceira, no verdadeiro sentido da palavra, que a sua vida precisava.
Helen, serviu de veículo que legitimava a história do aparecimento dos quadros. Supostamente, uma avó de Helen teria deixado uma vasta coleção de obras de arte que, agora, esta e o seu honrado marido Wolfgang Beltracchi, faziam o favor de devolver ao público ou a colecionadores privados através de leilões milionários. E assim se justificava o aparecimento de tantos quadros novos de autores conhecidos.
Um esquema simples.
Para ajudar a compor a história, Helen disfarçou-se de sua avó junto de uma série de quadros, e mostrava-a como sendo um fotografia original, quando na verdade não passava de uma encenação, manipulada posteriormente em laboratório. Ou não fossem ambos os maiores embusteiros de sempre.
E aqui está ela, esta mulher apaixonada por um louco, também ela, certamente louca.
E eu vejo nisto tudo uma história incrível e sem paralelo neste mundo já tão pouco sonhador.
Quanto ao próprio Wolfgang, homem, esse caçador, esse ilusionista, resta-me notar que poucas vezes a humanidade viu uma figura assim. Brilhante, genial, ardiloso, escorregadio mas cheio de charme e com uma história de amor, daquelas verdadeiras, para contar.
Não há como não adorar Wolfgang Beltracchi.







2 comentários:

  1. Presumo que seja arte mas sem a componente fundamental que é a da criatividade única de cada artista.
    Quanto à mulher, foi a perfeita partenaire de um belo vigarista.

    Beijo, DC.

    ResponderEliminar
  2. Já tinha lido sobre ele. Que personagem!

    ResponderEliminar