domingo, 3 de maio de 2015

Repetições # 6

Hoje é dia da etiqueta "Repetições".

Há três anos, precisamente no dia 3 de Maio, escrevi este texto.

Nessa altura andava numa de escrever histórias, coisa que há algum tempo que não me dá para fazer.
Talvez por essa razão, hoje soube-me bem voltar atrás e ver como andava este blog há três anos... tão diferente.
Vale o que vale, mas acho que vale uma repetição.

(Hoje ainda volto com outra repetição, dedicada às mães e a este seu dia, claro).






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Saía todas as noites, sob as luzes imensas de Banguecoque, sabendo-se escondido pela multidão frenética. Era invisível, como todos os rostos com quem se cruzava. Sentia-se confiante a cada passo acelerado que dava de mãos nos bolsos, numa passada larga e curvada sobre a própria coluna, no belo fato que o divinizava.
A rotina estava instalada. Conhecia as ruas que lhe interessavam. As caves e fossos que escondem autênticas cidades subterrâneas. As condutas que foram sendo ocupadas com habitações miseráveis e lamacentas. E conhecia também a superfície dos luxos e da opulência. Conhecia as duas faces, mas apenas uma lhe interessava.
Quando saía para matar, e para dar vida à sua paixão inflamada, calcorreava a zona nobre da cidade. Movimentava-se bem nela. Conhecia as mulheres mais bonitas, mais ricas e com origem nas famílias mais influentes. Bem-falante e de pose aristocrática, captava-lhes a atenção de imediato.
Caídas na sua rede, golpeava-lhes a garganta sem esforço.
Sem lamentações ou hesitação. Sem amor nem paixão. Sem corpos impregnados de desejo ou imundos por conspurcações viscosas. Queria os melhores corpos. Limpos. Perfeitos. Sem cortes ou marcas. Cicatrizes ou tatuagens. Escolhia as suas vítimas a dedo. Era rigoroso, porque o era em tudo na sua vida. Nas suas paixões não poderia ser diferente. E por isso, apenas as mais belas e tenras mulheres da alta sociedade, tinham o prazer de findar-se às suas mãos. Pelo menos, ele assim o pensava.

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Todos os dias pela manhã abandonava o exclusivo condomínio onde vivia. Não concebia partilhar-se com ninguém e não suportava a ideia de o seu luxuoso apartamento ser respirado por quem fosse. Gostava da vida garbosa que levava no silêncio das suas paredes de vidro, sozinho, controlando totalmente todas as partículas da sua atmosfera. Altivo e de porte hirto e elegante, acabava a viver os prazeres da vida apenas quando se vergava à realidade lá fora. A sua vida apenas acontecia lá fora. As suas paixões também. Entregava-se a elas todos os dias. Todas as noites.
De manhã, quando saía cedo de casa, devotava-se a uma das suas razões para respirar.
Ser chef no mais luxuoso hotel de Banguecoque atribuíra-lhe estatuto e luxuria mas devolvera-lhe, sobretudo, a vontade de viver apaixonado. A sua cozinha era a sua vida.
Por não conceber que alguém interferisse nela, controlava o processo do início ao fim. Elaborava a ementa, selecionava os vinhos, tratava da decoração das mesas, fazia as compras dos alimentos e escolhia as carnes.

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Todos os dias, e todas as noites entregava-se às suas paixões. As noites completavam os dias, e para que esses dias fossem perfeitos, tinha de caçar todas as noites.
Seleccionava criteriosamente a carne que queria servir no restaurante do hotel no dia seguinte. Matava apenas os corpos que sabia terem a melhor carne. Provava-lhes o sabor. Degustava-as. Analisava a sua excelência. Era sabido que apenas as melhores teriam o privilégio de seguir até os pratos dos clientes mais exigentes e inacessíveis do planeta.
A carne que todos os dias fazia questão de selecionar com as suas próprias mãos para confeccionar magicamente, era, reconhecidamente, a melhor de toda a Banguecoque.
Houve pais que, sem saberem, comeram as suas filhas. Houve mães que sem suspeitar cuspiram-nas no prato.




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