segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Repetições # 8




Porque hoje José Saramago faria 93 anos, resgatei um texto dos primórdios do Dias Cães, escrito no dia em que Saramago faria 89 anos.
E, com certeza, digo eu à distância dos anos e daqueles tempos em que tudo me atacava a alma, com uma grande dose de paixão que talvez hoje não me assaltaria.
Partilho-o porque foi bom reler-me neste registo.
Espero que gostem também.



"Caro José Saramago,

Lamentavelmente, sei-o morto. Não se inquiete, não lhe venho pedir que volte ou, tampouco, dar-lhe más notícias do lado de cá. Creio que todos os que lhe são queridos estão bem, caso contrário tal agoiro saber-se-ia à velocidade dos impropérios saídos da boca do povo, que sempre fala do que não sabe. Também não o venho evocar, que esta coisa de acreditar no além nunca lhe foi assunto caro, bem o sei.
O que me traz até si, tantos anos depois de desavinda com a sua pessoa, é a vontade de lhe pedir perdão. Pedir perdão e reconhecer-lhe o valor como homem que, durante tempos sem fim, desconfiava ficar-se-lhe ao nível da sola dos sapatos. Na verdade achava-o um pobre miserável, pouco mais que ignorante, com a arrogância de manipular a língua-mãe como bem lhe aprouvia. Sem credo e sem temor a Deus. Um real néscio numa figura prepotente. Um ressabiado. Julgava-o descrente apenas da boca para fora, para esconder a fé desmesurada contra a qual lutava. Apenas via em si o ódio de quem, apesar da idade, ainda não tinha aprendido a viver, nem aprendido nada com a vida. Uma revolta apenas comparável à de uma de colegial a quem não foi satisfeito mais um inútil capricho e por isso amua de beiço estendido.
Caríssimo José, como eu estava enganada.
Como me penitencio por estar enganada. Como me satisfaço por ainda assim o reconhecer.
Lidos os seus livros, conhecida a sua vida, rendida à sua história de amor, não me resta senão estreitar a garganta de engano e embaraço.
Que notável homem foi, José! Que grande ser humano se encontrou nesse corpo! Nesse velho corpo onde ser escritor apenas coroou a excepcionalidade do génio em que se tornou.
Afinal, a sensibilidade que carregava no seu peito, era maior que aquela que carregava nas letras. Enganou-me bem. O seu amor pelos Homens não tinha fim e o amor pela vida doía-lhe por saber de um final inevitável. Amou a todos de modo mais ou menos severo mas entregou-se a tudo com as ganas de quem cresceu sem esse amor. Finalmente rendeu-se quando encontrou o mais literal dos pilares. Amaciou-se, e fez-me vê-lo doce, quando a velhice lhe chegou à pele. Os velhos são o meu conforto confesso. Passei a encontrar em si uma ternura que acreditava perdida para sempre entre as palavras agudas dirigidas a Deus. O mesmo Deus que o baptizou, ironicamente, com o nome de seu pai. Talvez soubesse que um dia o iria vergar. Sabia, com certeza, que um dia o iria receber. 
É por este reconhecimento de homem bom mesclado de escritor genial, que não podia continuar sem lhe pedir perdão. Sem lhe dizer que gostava de o ter conhecido. Sem lhe contar quantas vezes me imaginei em Lanzarote à conversa consigo, pela paisagem despida e insaturada. Sem confessar que, se as nossas vidas se tivessem cruzado, eu me teria apaixonado por si.
Assim, na solidão das palavras que deixou, choro cada dia que o julguei em vez de o ter tentado compreender. Perdoe-me.

Espero que guarde junto a si estas sinceras palavras, para que um dia, juntos, as possamos reler.

Com toda a estima,
Um até breve!"





2 comentários:

  1. Acho que o José se emocionou, ao ler-te.

    Boa noite, DC. :)

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  2. Eu gostei também, DC. Muito.
    E se estivesses aqui à mão, mesmo sem te conhecer, olha, dava-te um abraço. Como estou certa Saramago te daria se pudesse.
    Quanta beleza neste post!

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