domingo, 13 de dezembro de 2015

Ferimentos na alma dos pés



Por vezes, os ferimentos maiores, não são os do corpo.

No ballet, os pés sofrem.
A alma dos pés sofre.
Fica torcida e retorcida para nos sustentar com beleza.
Sujeitamos os nossos pés ao nosso peso, sozinhos, a troco de uma glória que queremos só nossa.
Mas é dos nossos pés.

Eles elevam-nos.
Eles fazem-nos saltar.
Rodopiar.
Caiem no chão e voltam a erguer-nos.
A sua alma verga-se e espera-se que nunca parta.
Mesmo que a outra alma já esteja partida.

No ballet, a alma ergue-se.
Ambas as almas se erguem.
Uma empurra a outra mesmo quando as forças querem fazer o contrário.
A alma dos pés empurra a alma do peito.
Mesmo desfeita.
Numa bailarina, as almas dos pés salvam a alma do peito.
Salvam sempre.
Não a ressuscitam mas elevam-na a um lugar mais bonito.
Mais perfeito.

Por isso digo que, por vezes, os ferimentos maiores não são os do corpo, são os da alma.
Aquela alma que nos habita no peito.
Aquela que vemos menos mas nos derruba no mais profundo lamento.



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