terça-feira, 2 de agosto de 2016

45 dias




Esta casa já não é minha.
Deixou-me no dia em que partiste.
Há mais de quarenta e cinco dias. 
Choro a tua ida, todos os dias, e conto esses mais de quarenta e cinco dias a dedo, entre a esperança de ver os dedos terminarem e a vontade de perpetuar este sofrimento.
De prolongar a lembrança do dia em que saíste de mim para ires morar num sítio que não conheço.
E aflijo-me, numa respiração profunda, com esse sítio para onde foste.
Sozinho.
Como te pude deixar ir sozinho? Para um lugar que não conheces... Durante a noite. Numa tranquila noite. Mas tão escura. Tão fria.
Que mãe me tornei eu para te deixar partir, ainda sem saberes andar, sem conheceres as provações deste mundo e do outro, sozinho?
Ou serás tu, meu amor, tão forte, tão mais forte que eu e que aqueles que te ficaram a chorar a partida, que tiveste forças para ir sozinho e esperar lá por nós?
Talvez o sejas.
És com certeza. A tua vinda tortuosa e breve neste mundo talharam-te o pulso. És o melhor de nós. És melhor que nós.
E serás, eternamente, um retrato de nós.
Guarda-o contigo porque, o que fomos em ti, já não voltaremos a ser.

[A mulher que eu era exilou-se dentro de outra que eu não conhecia.
E elas têm-se amigado, num apego que temo ser irreversível.
Tão irreversível que, se eu já não sou eu, como poderei voltar a ser uma coisa que já não sou?
A mulher que eu era exilou-se. E já não quer sair.]



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