quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Renascer



Renasceste hoje.
Era madrugada.
Acordei, ao lado do teu pai, e senti-te.
À mesma hora.
Todos os dias de madrugada, à mesma hora...
Renasces.

Os olhos abrem-se ao acelerar do coração.
Acordo em sobressalto.
O pulso diz-me que estás a renascer.
Sinto-te a sair de mim.
Sinto-te nos meus braços.
Dou-te o calor do meu peito.
É o único momento em que te posso ter.
Naqueles segundos entre o sonho e a realidade.
Nesses segundos que Deus me concede todos os dias.
Como uma recompensa.

Mas o tempo é-nos cruel.
Finda-se.
A realidade atinge-me e tu desapareces.
O calor dá lugar a coisa nenhuma.
A esse espaço a que chamam vazio.
Encalhada no silêncio, 
Entre o desnorteio e a dor.
Cerro os olhos.
Com força.
Em vão...
Sei que só voltarás a renascer amanhã, à mesma hora.
De madrugada.
Esperarei por ti.
Em mais um dia que se perpetua.

Com as lágrimas retidas num tempo perdido,
Volto à cama.
Ao calor dos braços do teu pai.
De olhos no tecto.
De mãos fechadas num punho de dor.
Com lábios duros, que hesitam entre fechar-se para sempre,
Ou nunca mais silenciar o choro.
Observo o teu pai.
Observo mais uma vez.
E os olhos amolecem em paz.
Sei que amanhã voltarás a renascer.

À mesma hora.
Todos os dias de madrugada, à mesma hora...
Renasces.


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