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3.11.14

"Outra coisa"



"Outra coisa" do livro "Estilhaços e Cesariny"
Poema de Mário Cesariny
Voz de Adolfo Luxúria Canibal
Musica de Jorge Coelho




Depois de algumas tentativas falhadas em contribuir para uma mundialmente famosa playlist, (não tenho efectivamente uma cultura musical de que me possa orgulhar, muito menos uma que sirva os outros), foi-me dada a oportunidade de escolher, então, um poema para incluir nessa lista (foi fantástica a capacidade de contornar uma incompetência minha para me incluir de uma maneira mais digna nessa playlist. Se não és o maior, não sei quem será).

Depois de muito ler e reler, e ouvir e declamar, lá consegui resumir o resultado a dois poemas.
Um deles acabei por partilhar aqui e o outro, este poema de Cesariny, acabou por ser o escolhido para constar da melhor banda sonora da blogosfera para os dias em que nos apetece despejar a cabeça.

Foi um prazer.


8.10.14

Minha cabeça estremece




Não há como não amar tudo isto.
O poema.
A música.
A voz.
O tom.
O sentimento.
O entrelaçar das almas.
Não há como não sentir a vida.
Espreitar a morte.
Reflectir a existência.

Conseguirá alguém não se render?
Conseguirá alguém apenas ouvir as palavras sem fechar os olhos e se entregar a esta viagem?


[Caí dentro de mim e senti um tremor que há muito não sentia.
Estremeci.]



26.9.14

Post Mortem (Áudio)





Post Mortem

Lembro-me, estranhamente, do teu cheiro.
Uma mistura de madeiras quente e doce, com tabaco e Whisky.
Parecias trazer sempre o Verão.
Cheiravas bem.
Lembro-me da tua camisa rosa, de mangas arregaçadas.
Sempre engomada.
Denunciava o brio das mãos de uma empregada devota.
Lembro-me do teu cabelo. Claro que sim.
Todas as pessoas te conheciam o cabelo.
Ruivo, como as tuas sardas.
Temperamental, como o teu feitio.
Lembro-me do teu riso engraçado.
Cheio de humor inteligente.
Cheio de alegria.
Assim julgava eu.
Lembro-me de seres um homem maior que tu mesmo.
Megalómano. Inesquecível. Gigante.
Lembro-me do teu à vontade.
Dos teus cumprimentos honestos.
De como me juntavas dois beijos à face como se eu fosse uma filha.
Lembro-me do teu nome. Completo.
Da tua assinatura.
E de como ela deixou de se reproduzir.
De como o quiseste apagar.
Dessa maneira tão triste e fatal.
Tão definitiva e dramática.
Lembro-me das últimas palavras que me disseste.
Sem que soubesse que seriam as últimas.
Lembro-me da manhã seguinte.
Das palavras atropeladas.
Lembro-me de me perguntarem se eu já sabia.
Se eu já sabia que tinhas ditado o teu fim.
E não, eu não sabia.
Nem sequer esperava.

O que me lembro, muito bem,
Muito tempo antes dessa decisão,
É que os teus olhos tristes,
Há muito,
gritavam:

Solidão.




Publicação original aqui!



9.9.14

O Mar (Áudio)



O mar


Mar calmo.
Chão morto.
Ondas que se arrastam sobre si,
Como num namoro condescendente.
Calmas onde que se beijam,
Se almejam sem fulgor.

Horizonte cristalino,
Sobre o mar azul parado.
Sobre jade envidraçado.
Calmo amor entre ondas e mar.
Arrebatado abraço entre horizonte a deslumbrar.
Vida viva, inerte.
Batimentos de arrebatar.


Ao Rui.




2.6.14

Em nome de Samael (Áudio)





Em nome de Samael

Diz-se que vou morrer.
Que alguém me procurará.
Essa coisa da morte.
Esses anjos que são demónios.
De sorrisos cândidos e fingidores.
Estupores.
Julgam que eu não sei o que os traz.
Mas sei-o bem.
Trazem a dor.
O silêncio.
A agonia.
As promessas que se quebrarão.
As palavras enganadas.
Trazem provas de resistência.
De desistência.
Trazem decisões impossíveis.
Obrigações que todos quererão negligenciar.
Esses bastardos desses anjos virão vergar-me.
Dizer-me o meu lugar.
As minhas limitações.
A minha humanidade.
A minha grandiosa insignificância.
Vão dizer-me que sou atacável.
Vão mostrar-me que sou derrubável.
E assim irão derrubar.
Conseguirão que todos tenham pena de mim.
Que lamentem o meu findar.
Esses anjos assistirão aos choros dos vencidos.
Daqueles que não me conseguiram fazer viver.
Desses que contavam comigo para primeiro os ver morrer.

Não morro tranquila.
Julgava a morte longe do sítio onde me encontro agora.
Julgava que todos morreriam antes de mim.




publicação original aqui!




14.5.14

21 gramas (Áudio)






Encostei o meu ouvido ao seu peito, naquele preciso momento em que suspirou. Senti a alma desprender-se do corpo. A pairar sobre o quarto. Sobre o seu corpo velho e sobre mim. Ali paradas. Sem saber o que se seguia. Sem saber a qual das duas cabia o passo seguinte. Aguardei, com cerimónia, uns minutos. Nunca me tinha passado a morte pelas mãos. Nem sabia se era aquilo a morte: simplesmente morrer. Largar o último quinhão de ar. Ficar inerte. Abandonar um corpo usado. Seguir com a alma para outras vidas. Juraria, se preciso fosse, que lhe vi a alma despedir-se do corpo, como uma neblina levantada com um sopro. Juro que aquela alma viveu além da morte. Eu vi.

Olhei-lhe o rosto antes da partida. Olhei depois. Não era a mesma pessoa. Mas eu tive-lhe o mesmo amor. Era o corpo da mulher velha, que deu vida à vida que me fez viver. Amei-a na despedida como nunca terei amado na chegada. Em todo o caminho. Amei-a mais depois de um adeus que ela nunca chegou a saber que lhe fiz.
Morrerei eu, um dia, e o arrependimento de um amor tardio não me salvará. Talvez, quando a minha alma chegar até à sua, lhe possa dizer o quão agradecida estou por me deixar assistir à sua morte. Por ter esperado por mim para a ver morrer.
Ela amou-me mais ali. E não me doeu. Agradeci-lhe a partilha deste momento comigo. A sós.

Depois vieram as outras pessoas. Foi-se o nosso momento, o nosso silêncio. Vieram os rituais em que, sei, não acreditava. Choraram pessoas que, sei, não a amavam. Naquele dia que entregámos o seu corpo velho e magro, foi-se a crença de um céu e de um Pai que nos acolhe. Perdeu-se a magia. A história passou a ser outra. Levaram-nos a alma e deixaram-nos cá o corpo sem significado. Deixaram cá aquilo de que não se conseguiram livrar. Deixaram-nos um corpo para mandarmos para a terra. Para o lixo. Mas a nós também nos custa, sabiam?


[Soube que tinha morrido quando lhe olhei o rosto e vi que já não era ela quem ali estava. Restou apenas um corpo. Foi-se a alma. Não se sabe para onde.]



Podem ler o texto original aqui!




6.4.14

Um outro homem (Áudio)




Um leitor deste blog, sob anonimato, decidiu pegar num dos textos do Dias Cães e gravá-lo com a sua própria voz.
O resultado é este e eu estou viciada.
Já ouvi mil e quinhentos milhões de vezes.


Agradeço a enorme, a gigante, gentileza e dedicação.




Um Outro Homem


"É errado querer o corpo de outro homem?
Querer ser possuída por outra alma?
Por outra mente.
Será errado querer suar às mãos de um novo amante?
Gemer junto de um outro pescoço.
Sussurrar palavras noutros ouvidos.
Querer que outras mãos me agarrem as coxas.
É errado desejar conhecer a pujança de outro homem?
Saber como me amaria?
Como partilharia o seu corpo com o meu.
Como me olharia nos olhos.
Se olharia sequer?
Será errado querer outro cheiro na minha pele?
Sonhar acordada com os seus lábios.
Desejar as marcas dos seus polegares na minha carne.
Querer que o seu prazer acabe dentro de mim.
Será errado querer ser sua numa solitária noite?

Será errado imaginar que o nosso homem poderia ser outro?

Será errado fechar os olhos e sonhar?"



Podem ler o texto original aqui!




6.3.14

Não era teu (Áudio)





E hoje iniciam-se os áudio textos no Dias Cães.

O que são?
São textos narrados por alguém e reproduzidos em vídeo.

Terei em breve a participação de alguém cuja voz merece ser apreciada mas, para já, entrego a minha a um primeiro teste que, espero, me perdoem ser tão amador.