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25.8.20

Regressar




Preciso de me emocionar.
Preciso de viajar e ver coisas com os olhos que nunca vi.
De deixar que essas coisas e paisagens me penetrem os sentidos.
E que os sentidos acordem.
Preciso da emoção do desconhecido.
Ou de algo antigo que deixei para trás.






5.10.17

Todos Mundo



Tenho saudades do mundo de há dez mil anos.
Aquele em que eu não existia.
Aquele em que todos éramos ignorantes.
Em que a terra era plana e ninguém contestava.
Em que as noites se sucediam aos dias sem ninguém fazer perguntas.
E as pessoas eram bichos e os bichos eram pessoas.
Todos iguais.
Sem consciência do indivíduo, do coletivo e da própria existência.
Éramos ramos caídos no solo, num solo pisado pelo Sol, de um Sol que ninguém sabia existir.
Éramos felizes sem o ser porque naqueles tempos não havia felicidade.
Nem tristeza, nem ódio, nem solidão.
Porque não havia nada.
Havia apenas brisa e a brisa batia em todos da mesma maneira.
Mortos, vivos, pessoas, bichos, pedras, mar.
Éramos todos iguais. Todos nascidos e morridos do mesmo e para o mesmo.
Sem história.
Éramos todos mundo.
Hoje não somos nada.


Tenho saudades do mundo de há dez mil anos.
Aquele em que eu não existia.


18.9.17

Cães vadios

Lee Jeffries



Na noite,
Há os cães e os vadios.
Almas moribundas,
Perdidas.
Corpos perdidos,
Devastados.
Consumidos pela solidão,
Pela vida,
Pela morte,
Por tragédias e desgraças.
São gente viva,
Mas sem vida.
Uns há,
Que nem gente são,
São cães,
São vadios.
São os restos,
Da civilização.

13.6.17

Tamanho da noite




Se a noite fosse tão vasta como o amor que te tenho, 
Não se contariam os dias,
E as noites não teriam nome.
Porque não conheceriamos mundo para além delas.

29.5.17

metamórṗhosis

Carolina Madruga



O meu corpo evade-se.
De tempos em tempos.
Sinto-o.
E cedo-lhe.
Observo o fenómeno.
Se nos permitirmos ver-lhe a beleza,
A mutação é assombrosa.


Quando o corpo sai do corpo,
Não sobra nada.
Sobra apenas a beleza de sermos nós.
De termos o raro momento de ficarmos a sós.
Connosco.
Com a nossa mente.
Num vazio.
Muitas vezes num vazio.
Quando o corpo sai do corpo,
Não há horizonte.
Nem passado.
Somos nós.
Naquele instante.
Sem intermitências.
Porque não há um corpo.
Porque não há pensamento.
Nem consciência.
É a mente a despegar-se.
A libertar-se do seu papel.
É um corpo a não querer ser corpo.
Uma mente que não quer ser mente.

Somos nós a não querermos ser nós.


[Não é inquietante não querermos ser nós. É fascinante.]



1.3.17

Sombras




No gueto da noite
Vêem-se sombras de almas que ainda não foram chamadas
E olham-nos
A querer ser vistas


Eu vi





21.12.16

Cubo de espelhos




Meti-me numa caixa - podia dizer a vida mas, porra, não posso culpar a vida de tudo - e mal consigo mexer os ombros. Estou de cócoras e braços arrumados ao longo do corpo. Inertes. A caixa lembra-me muitas vezes uma ideia dos tempos das aulas de projeto: o cubo de espelhos invertidos. Um cubo feito com espelhos virados para dentro cria um efeito de infinito. Em teoria sim, se tivermos luz. Por outro lado, se estivermos na escuridão não há como comprovar esta teoria porque não há condutor para a criação da imagem. A ideia do cubo infinito é inquietante. Um cubo - finito - que é infinito.
Tão limitado e tão potencialmente libertador.
Estou numa caixa que podia ser um cubo de espelhos invertidos, mas não é. Porque eu ainda não acendi a luz. 

E há qualquer coisa de doloroso e gostoso ao mesmo tempo em ter-me apertada entre seis planos, a conviver comigo, dentro de mim, exausta, claustrofóbica, e, ainda assim, resistir em acender a luz.

[Porque ainda me questiono se o botão por esta altura será um interruptor ou um gatilho.]



15.11.16

[recomeçar]




A soltura deu-se.
Algures entre uma parte e outra do corpo.
Ainda não o sabes.
Ainda não o disse.
Nem a mim o ousei anunciar.
Mas a soltura deu-se.

[Quero recomeçar.]




11.11.16

A. M. O. R.






                                                                       Mais que ódio e rancor,
                                                                       Sinto tudo,
                                                                       Sim.
                                                                       Sinto amor.



18.10.16

Ao acertar do violino



Quando o violino nos tocar aos ouvidos

A última nota afinada,

Conheceremos todas as outras que lhe seguirão.

Serão tortas.

Guinadas.

Serão agulhas afiadas,

A cantarem-nos o último hino.

Desejaremos que tudo termine,

Nos empurrem por fim para a cova.

Que a terra nos tape os ouvidos,

E nos acabe com o sofrimento.

Que a agonia das notas agudas,

Nos silencie por fim,

A dor,

Dos pensamentos.




[Vou buscar-te. Prometo-te.]



11.10.16

Do lado direito bate o coração




O teu coração é que estava certo.
A bater do lado direito.
Os nossos, esquerdinos,
Como todos os outros,
São só mais uns,
Entre tantos.
Iguais entre iguais.
A baterem do lado errado,
Pensando que batem do lado certo.
A viverem de viés,
Numa existência já de si torta.
O teu coração,
Que ousou romper do peito,
Escolher outro caminho,
Sabia que o amor se sentia mais,
Se nascesse do lado improvável.
Sabia que num abraço,
Entre duas pessoas,
Que se amam,
Ou se odeiam,
Um coração do lado direito,
Bate colado ao coração do lado esquerdo.
E há lá poder maior!
Haverá magia maior!?
Sentir dois corações colados,
A bater a compasso,
Ou descompassadamente,
Mas sempre,
Sempre,
Num momento único.
Como tu.
E o teu coração.
Haverá lá maior poder,
Que poder mandar,
No próprio coração?


3.10.16

O tempo e a cura



Envelheci dez anos.
Deve ser essa a cura que o tempo faz.
A cura de que todos falam.
A pele a contar as histórias que já se sabem.
Aquelas que se falaram nas costas.
E agora se notam pela frente.
É mentira o que nos contam.
O que nos dizem para nos consolar.
Que o tempo cura.
O tempo não cura.
Não cura nem faz esquecer.
O tempo marca.
Marca no rosto e na memória.
Marca na pele.
Nos cabelos que se acinzentam.
Nos olhos que se embaçam.
Marca-nos na relação com os outros.
Connosco.
Com o nosso passado.
O tempo, o que passou, trama-nos aquele que lhe há-de dar lugar.
Agoira o lugar das histórias que hão-de vir.
O tempo não cura o que não tem cura.
O tempo é apenas tempo.
E tempo só anda em frente.
A fazer-nos envelhecer.
Deve ser essa a cura que o tempo faz.
Envelhecer-nos.
E é na velhice que está a cura, não no tempo.
Porque só a velhice pode dar-nos a sabedoria para o saber aceitar.



31.8.16

Um sonho dentro de um sonho




Tome este beijo sobre tua fronte!
E, desenvencilhando-me de ti agora,
Permita-me confessar -
Não erras, ao supor
Que meus dias têm sido um sonho;
Ainda que a esperança se esvaia
Numa noite, ou num dia,
Numa visão, ou em nenhuma,
Tudo aquilo que vemos ou nos parece
Nada mais é do que um sonho dentro de um sonho.

Permaneço em meio ao bramido
Da costa atormentada pelas ondas,
E seguro em minha mão
Grãos dourados de areia-
Quão poucos! e contudo como arrepiam
Por entre meus dedos às profundezas,
Enquanto choro - enquanto choro!
Oh Deus! não posso eu segurá-los
De punho mais firme?
Oh Deus! não posso salvar
Um único da onda impiedosa?
Tudo aquilo que vemos ou nos parece
Nada mais é do que um sonho dentro de um sonho.

"Um sonho dentro de um sonho" - Edgar Allan Poe



3.8.16

No dia em que perdemos tudo

Joe Webb


Por vezes a dor é tudo o que se tem.
Tudo o que nos resta.
Perde-se a alegria.
A vontade.
Qualquer vontade.
Perde-se a visão do mundo.
E com ela a esperança.
Sim, tantas vezes se perde a esperança.
Tantas vezes, que nos perguntamos se alguma vez a chegámos a recuperar.
Perdemos o olhar sobre nós mesmos.
E ganhamos as atenções indesejadas de outros.
Perdemos a compreensão de todos.
Porque as dores e as curas se fazem a velocidades diferentes.
Porque a distância com que se olha para o poço ou nos amortece a queda, ou a endurece.
Quem olha de longe o poço não lhe conhece o fundo.
Quem está lá dentro não lhe encontra a saída.
Perdemos o distanciamento.
Perdemos a dignidade.
E a clareza dos pensamentos.
Perdemos o bom, o nosso melhor, e, outras vezes, todas as outras vezes, ficamos com o mau.
Dias há que nem a própria alma temos.
Foi-se.
Num dia, de repente.
Ou em todos os anos que se viveu, paulatinamente.
Como se fossemos consumidos.
Sem se dar por ela.
Ou porque ignoramos que esteja a acontecer.
Perdemos os momentos.
Os nossos, os dos outros, os do mundo.
Não vivemos o que tínhamos para viver.
Cristalizamo-nos no tempo.
Num único momento.
E desperdiçamos todo o resto.
Por que queremos.
Porque assim nos fazemos sofrer mais.
E nos tempos em que se perde tudo, o sofrimento consola-nos.
Faz-nos companhia.
A única que toleramos.

Há momentos na vida em que quase perdemos tudo.
Quase perdemos tudo.
Só não perdemos a dor.



9.3.16

Nas delongas das noites


Bill Brandt


Nas delongas das noites,
Em que te beijei as faces do bem,
Julgava-te um homem completo,
De carácter aprumado,
Julguei que fosses alguém.

Cantava as horas dos dias,
De pescoço quebrado sorrindo,
De queixo, mãos, a tremer,
Embevecida pela tua pessoa,
Ceguei! Não vi quem devia ter visto.

Ao raiar de cada manhã,
Impelida por tanto amor,
Rodeava-te a cama, a vida,
Exigia-te atenção,
Nunca vi a indiferença, absorvida.
Morri, na solidão.


Reprimido

Brandon Kidwell



O medo reprimido.

A ânsia que cresce devagar.

Que toma o tamanho de uma vaga.

Uma vaga maior que o mar.


A alegria que se quer gritar.

Um mundo que não quer ouvir.

O medo de querer partilhar.

De ninguém a querer sentir.


A tempestade que se aproxima.

O coração que se reprimiu.

O tempo que para trás ficou.

A felicidade que não mais se sentiu.



4.2.16

O pó



O pó.
O bago.
O grão.

Que lamento.
Que alegria.
Que exultação.

O pó.
Morreu cedo.
Nunca gritou.

O bago.
Criou-se firme.
Esperançou.

O grão.
Forte.
Seguro.
Nasceu da benção.
E se criou.
Deus pôs-lhe a mão.
O semeou.
O homem cultiva.
O homem o amou.
O grão nasceu.
Foi o único.
Que vingou.



O bago



O bago.
O grão.
O pó.

Um queixa-se da vida.
Um queixa-se do amor.
Um queixa-se de ser só.

O bago.
Voou longe.
Lá chegou.

O grão.
Filho do bago.
Ganhou.

O pó.
Esse inerte.
Indigente.
Ninguém o quer.
Ninguém o amou.
Morreu só.
Apenas pó.




O grão




O grão.
O bago.
O pó.

Um brotou.
Um cresceu.
Um não vingou.

O grão.
A vida.
Que germinou.

O bago.
A intenção.
Que ganhou.

O pó.
O silêncio.
O vazio.
Um grão que não nasceu.
Um bago que não vingou.



21.1.16

Nunca sonhes

Abby Kroke


Não sonhes.
Não ouses sonhar.
Nunca efabules sobre o que não tens.
O que não está ao teu alcance ter.
O que não depende de ti ter.
Assim se desenham tragédias sem fim.
Desgostos de vida.
Desgostos de amor.
Pior: desgostos com amargor.

Se nunca sonhares,
Se nunca ousares sonhar,
Também não cairás.
A vida levar-te-á em braços mansamente.
Soprará brisas.
Não tormentas.
Se não sonhares,
Se nunca quiseres conhecer a luxúria de sonhar,
O universo não conspirará.
Não te devolverá espinhos num caminho que fizeste sem rosas.
Sem rosas.
Por certo.
Sem rosas.

Mas quando não se sonha,
Quando não se ousa,
Quando não se luta,
Quando tudo chega.
Não existirão espinhos,
Mas, por certo,  não existirão rosas.
Que mais podias esperar?
Por isso não sonhes.
Nunca sonhes.
Mata à nascença a crença em algo que não terás.
Mata a chama.
Mata o sonho.
Aprende apenas,
A viver.
Aprende a ser aquilo que os outros,
Querem eles próprios,
Ser.