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16.11.15

Repetições # 8




Porque hoje José Saramago faria 93 anos, resgatei um texto dos primórdios do Dias Cães, escrito no dia em que Saramago faria 89 anos.
E, com certeza, digo eu à distância dos anos e daqueles tempos em que tudo me atacava a alma, com uma grande dose de paixão que talvez hoje não me assaltaria.
Partilho-o porque foi bom reler-me neste registo.
Espero que gostem também.



"Caro José Saramago,

Lamentavelmente, sei-o morto. Não se inquiete, não lhe venho pedir que volte ou, tampouco, dar-lhe más notícias do lado de cá. Creio que todos os que lhe são queridos estão bem, caso contrário tal agoiro saber-se-ia à velocidade dos impropérios saídos da boca do povo, que sempre fala do que não sabe. Também não o venho evocar, que esta coisa de acreditar no além nunca lhe foi assunto caro, bem o sei.
O que me traz até si, tantos anos depois de desavinda com a sua pessoa, é a vontade de lhe pedir perdão. Pedir perdão e reconhecer-lhe o valor como homem que, durante tempos sem fim, desconfiava ficar-se-lhe ao nível da sola dos sapatos. Na verdade achava-o um pobre miserável, pouco mais que ignorante, com a arrogância de manipular a língua-mãe como bem lhe aprouvia. Sem credo e sem temor a Deus. Um real néscio numa figura prepotente. Um ressabiado. Julgava-o descrente apenas da boca para fora, para esconder a fé desmesurada contra a qual lutava. Apenas via em si o ódio de quem, apesar da idade, ainda não tinha aprendido a viver, nem aprendido nada com a vida. Uma revolta apenas comparável à de uma de colegial a quem não foi satisfeito mais um inútil capricho e por isso amua de beiço estendido.
Caríssimo José, como eu estava enganada.
Como me penitencio por estar enganada. Como me satisfaço por ainda assim o reconhecer.
Lidos os seus livros, conhecida a sua vida, rendida à sua história de amor, não me resta senão estreitar a garganta de engano e embaraço.
Que notável homem foi, José! Que grande ser humano se encontrou nesse corpo! Nesse velho corpo onde ser escritor apenas coroou a excepcionalidade do génio em que se tornou.
Afinal, a sensibilidade que carregava no seu peito, era maior que aquela que carregava nas letras. Enganou-me bem. O seu amor pelos Homens não tinha fim e o amor pela vida doía-lhe por saber de um final inevitável. Amou a todos de modo mais ou menos severo mas entregou-se a tudo com as ganas de quem cresceu sem esse amor. Finalmente rendeu-se quando encontrou o mais literal dos pilares. Amaciou-se, e fez-me vê-lo doce, quando a velhice lhe chegou à pele. Os velhos são o meu conforto confesso. Passei a encontrar em si uma ternura que acreditava perdida para sempre entre as palavras agudas dirigidas a Deus. O mesmo Deus que o baptizou, ironicamente, com o nome de seu pai. Talvez soubesse que um dia o iria vergar. Sabia, com certeza, que um dia o iria receber. 
É por este reconhecimento de homem bom mesclado de escritor genial, que não podia continuar sem lhe pedir perdão. Sem lhe dizer que gostava de o ter conhecido. Sem lhe contar quantas vezes me imaginei em Lanzarote à conversa consigo, pela paisagem despida e insaturada. Sem confessar que, se as nossas vidas se tivessem cruzado, eu me teria apaixonado por si.
Assim, na solidão das palavras que deixou, choro cada dia que o julguei em vez de o ter tentado compreender. Perdoe-me.

Espero que guarde junto a si estas sinceras palavras, para que um dia, juntos, as possamos reler.

Com toda a estima,
Um até breve!"





3.5.15

Repetições # 7

Eu disse que voltava...

Não posso deixar de recordar uma mulher, que foi mãe de muitas maneiras.

Porque às vezes tendemos a esquecer que mesmo depois de velhas, as mães nunca deixam de o ser, relembro este Às velhas mulheres mães.






Deu de mamar a seis. Cinco eram seus e a outra, uma menina, era filha de uma vizinha que, tinha o destino traçado, era também sua cunhada. A coitada era seca e nunca havia de deitar uma gota para alimentar a sua cria. Quando se apercebeu de tal infortúnio ficou desorientada. Foi então que, não por se lembrar genialmente de uma solução, mas por outras mulheres o terem feito, foi pedir à vizinha e cunhada, acabada de parir o primeiro dos cinco filhos que havia de ter, para amamentar também a sua querida filha, não fosse o Santo não ter piedade e levá-la desta para melhor. A vizinha, adocicada pela maternidade que acabara de experimentar, nem proferiu palavras. Estendeu os braços, pedindo a criança ao seu colo, e mostrou-lhe o caminho dos seus peitos fartos. A criança mamou sôfrega. Saciou-se. A mãe agradeceu e haveria de voltar nos próximos cem dias à hora da fome.
A mulher que amamentava, coração raro de bondade como havia de mostrar o resto da vida, pariu os restantes quatro filhos e deu-lhes de mamar até perder a forma dos peitos. Deu-lhes alimento à boca e deu-lhes tudo o que pode, numa época de miséria onde o tudo não passava de gestos de carinho e de palavras por não haver tostão para nada. Acompanhou-lhes o crescimento, encaminhado-os nos percursos mais ou menos difíceis; ensinou-lhes o que era uma família e os seus valores e quis que soubessem o que era o amor aos filhos, que também acabariam por ter. Depois dos sete filhos dos seus filhos, vieram mais seis netos destes, que juntando aos genros e noras e netos e netas por afinidade, formariam a família enorme pela qual sempre se entregou. Pela qual sempre se esqueceu de si mesma. Eram mais de vinte aqueles que descenderam do seu sangue. 
Quase no fim da sua vida continuava a contá-los a dedo para ter a certeza da prole que tinha alimentado e para se poder orgulhar dela. Mas os dias minguavam e as visitas à velha mulher também. Já não conseguia contá-los porque os seus descendentes já não se cruzavam na sua vida. Dias houve em que apenas os da casa estavam presentes para se recordar que tudo começara nela. E um dia, quando já não haviam mais dias para subtrair... o mundo acabou para uns... mas havia de continuar, sem sobressaltos, para muitos dos outros.
E nesse dia, em que o chão se abriu para a receber, uma mulher chorou copiosamente a sua despedida. Essa mulher, também já velha e de família criada, nunca esqueceu que a sua vida começou no peito daquela mulher generosa. A mãe de sangue lembrou-a sempre que a sua vida só o era graças à generosidade terna da sua mãe de leite. Essa mulher, que a sua mãe de leite homenageou no nome que deu à sua última filha, não esteve presente nos momentos fáceis da sua vida. Preferiu deixar esses para os filhos de sangue. Mas esteve sempre presente nos últimos momentos da sua vida, como essa sua mãe esteve presente nos seus primeiros. Cumpriu-se um ciclo. Esse ciclo que os seus filhos ingratos ainda não compreenderam e que tanta agrura trás aos poucos que compreendem. E apesar de os saber há muito autistas das suas emoções, hoje só doeu mais constatar isso. 

Porque hoje, essa brava mulher merecia ter sido recordada como mãe, recordo-a aqui também como uma querida avó.



Repetições # 6

Hoje é dia da etiqueta "Repetições".

Há três anos, precisamente no dia 3 de Maio, escrevi este texto.

Nessa altura andava numa de escrever histórias, coisa que há algum tempo que não me dá para fazer.
Talvez por essa razão, hoje soube-me bem voltar atrás e ver como andava este blog há três anos... tão diferente.
Vale o que vale, mas acho que vale uma repetição.

(Hoje ainda volto com outra repetição, dedicada às mães e a este seu dia, claro).






*
Saía todas as noites, sob as luzes imensas de Banguecoque, sabendo-se escondido pela multidão frenética. Era invisível, como todos os rostos com quem se cruzava. Sentia-se confiante a cada passo acelerado que dava de mãos nos bolsos, numa passada larga e curvada sobre a própria coluna, no belo fato que o divinizava.
A rotina estava instalada. Conhecia as ruas que lhe interessavam. As caves e fossos que escondem autênticas cidades subterrâneas. As condutas que foram sendo ocupadas com habitações miseráveis e lamacentas. E conhecia também a superfície dos luxos e da opulência. Conhecia as duas faces, mas apenas uma lhe interessava.
Quando saía para matar, e para dar vida à sua paixão inflamada, calcorreava a zona nobre da cidade. Movimentava-se bem nela. Conhecia as mulheres mais bonitas, mais ricas e com origem nas famílias mais influentes. Bem-falante e de pose aristocrática, captava-lhes a atenção de imediato.
Caídas na sua rede, golpeava-lhes a garganta sem esforço.
Sem lamentações ou hesitação. Sem amor nem paixão. Sem corpos impregnados de desejo ou imundos por conspurcações viscosas. Queria os melhores corpos. Limpos. Perfeitos. Sem cortes ou marcas. Cicatrizes ou tatuagens. Escolhia as suas vítimas a dedo. Era rigoroso, porque o era em tudo na sua vida. Nas suas paixões não poderia ser diferente. E por isso, apenas as mais belas e tenras mulheres da alta sociedade, tinham o prazer de findar-se às suas mãos. Pelo menos, ele assim o pensava.

*
Todos os dias pela manhã abandonava o exclusivo condomínio onde vivia. Não concebia partilhar-se com ninguém e não suportava a ideia de o seu luxuoso apartamento ser respirado por quem fosse. Gostava da vida garbosa que levava no silêncio das suas paredes de vidro, sozinho, controlando totalmente todas as partículas da sua atmosfera. Altivo e de porte hirto e elegante, acabava a viver os prazeres da vida apenas quando se vergava à realidade lá fora. A sua vida apenas acontecia lá fora. As suas paixões também. Entregava-se a elas todos os dias. Todas as noites.
De manhã, quando saía cedo de casa, devotava-se a uma das suas razões para respirar.
Ser chef no mais luxuoso hotel de Banguecoque atribuíra-lhe estatuto e luxuria mas devolvera-lhe, sobretudo, a vontade de viver apaixonado. A sua cozinha era a sua vida.
Por não conceber que alguém interferisse nela, controlava o processo do início ao fim. Elaborava a ementa, selecionava os vinhos, tratava da decoração das mesas, fazia as compras dos alimentos e escolhia as carnes.

*
Todos os dias, e todas as noites entregava-se às suas paixões. As noites completavam os dias, e para que esses dias fossem perfeitos, tinha de caçar todas as noites.
Seleccionava criteriosamente a carne que queria servir no restaurante do hotel no dia seguinte. Matava apenas os corpos que sabia terem a melhor carne. Provava-lhes o sabor. Degustava-as. Analisava a sua excelência. Era sabido que apenas as melhores teriam o privilégio de seguir até os pratos dos clientes mais exigentes e inacessíveis do planeta.
A carne que todos os dias fazia questão de selecionar com as suas próprias mãos para confeccionar magicamente, era, reconhecidamente, a melhor de toda a Banguecoque.
Houve pais que, sem saberem, comeram as suas filhas. Houve mães que sem suspeitar cuspiram-nas no prato.




11.2.15

Repetições # 5


Hoje é dia de voltar à etiqueta "Repetições".
Hoje, uma ano passado, voltei a sentir-lhe a presença.







"Em 1907, para tentar provar que a alma existe e tem peso, o médico americano Duncan MacDougall, pesou seis pessoas antes e depois de morrerem e constatou que o ponteiro da balança quase sempre descia.
O instrumento de trabalho de MacDougall era como uma enorme balança de dois pratos. De um lado ficava o paciente em estado terminal, deitado numa cama, do outro lado o médico colocava pesos equivalentes.
A primeira cobaia foi um homem com tuberculose, que ficou sob observação durante 3 horas e 40 minutos. Nesse tempo, perdeu peso aos poucos, em média 28 gramas por hora e, de repente, morreu. Segundo o médico, o prato da balança subiu, registando a perda dos famosos 21 gramas. "No instante em que a vida parou, o lado oposto caiu tão rápido que foi assustador", disse o médico ao jornal The New York Times.
Mas o peso registado nos outros pacientes foi diferente. O segundo teria perdido 46 gramas. O terceiro, 14 gramas e, alguns minutos depois, mais 28. Com o outro, o ponteiro da balança desceu e depois subiu novamente. Segundo o médico, a diferença tinha a ver com o temperamento de cada um. "Um dos homens era apático, lento no pensamento e na acção. Nesse caso, acredito que a alma ficou suspensa no corpo, depois da morte, até se dar conta que estava livre."
Para comprovar a sua teoria, MacDougall fez o mesmo teste com quinze cães e nenhum deles teria perdido um grama sequer. Conclusão: homens têm alma, cães não. Será que existe alguma verdade nos estudos de MacDougall? 
"Não", afirma o autor do livro "Morte ao Pó: O que Acontece com os Cadáveres?", Kenneth V. Iserson, da Universidade do Arizona. Iserson chama a atenção para o fato de o ar ter peso, coisa que MacDougall não levou em conta, e diz que não existe "o" momento da morte. "O processo pode se esticar por dias ou semanas". Mesmo com todas essas contradições, MacDougall é conhecido até hoje pela sua teoria dos 21 gramas."

In Wikipédia [tradução livre]


Encostei o meu ouvido ao seu peito, naquele preciso momento em que suspirou. Senti a alma desprender-se do corpo. A pairar sobre o quarto. Sobre o seu corpo velho e sobre mim. Ali paradas. Sem saber o que se seguia. Sem saber a qual das duas cabia o passo seguinte. Aguardei, com cerimónia, uns minutos. Nunca me tinha passado a morte pelas mãos. Nem sabia se era aquilo a morte: simplesmente morrer. Largar o último quinhão de ar. Ficar inerte. Abandonar um corpo usado. Seguir com a alma para outras vidas. Juraria, se preciso fosse, que lhe vi a alma despedir-se do corpo, como uma neblina levantada com um sopro. Juro que aquela alma viveu além da morte. Eu vi.

Olhei-lhe o rosto antes da partida. Olhei depois. Não era a mesma pessoa. Mas eu tive-lhe o mesmo amor. Era o corpo da mulher velha, que deu vida à vida que me fez viver. Amei-a na despedida como nunca terei amado na chegada. Em todo o caminho. Amei-a mais depois de um adeus que ela nunca chegou a saber que lhe fiz.
Morrerei eu, um dia, e o arrependimento de um amor tardio não me salvará. Talvez, quando a minha alma chegar até à sua, lhe possa dizer o quão agradecida estou por me deixar assistir à sua morte. Por ter esperado por mim para a ver morrer.
Ela amou-me mais ali. E não me doeu. Agradeci-lhe a partilha deste momento comigo. A sós.

Depois vieram as outras pessoas. Foi-se o nosso momento, o nosso silêncio. Vieram os rituais em que, sei, não acreditava. Choraram pessoas que, sei, não a amavam. Naquele dia que entregámos o seu corpo velho e magro, foi-se a crença de um céu e de um Pai que nos acolhe. Perdeu-se a magia. A história passou a ser outra. Levaram-nos a alma e deixaram-nos cá o corpo sem significado. Deixaram cá aquilo de que não se conseguiram livrar. Deixaram-nos um corpo para mandarmos para a terra. Para o lixo. Mas a nós também nos custa, sabiam?


[Soube que tinha morrido quando lhe olhei o rosto e vi que já não era ela quem ali estava. Restou apenas um corpo. Foi-se a alma. Não se sabe para onde.]


25.11.14

A queda de Sócrates... outra vez






Não é dia da etiqueta Repetições mas pareceu-me apropriado voltar a ler "A queda de Sócrates".
No dia 23 de Março de 2011, tinha caído pela primeira vez.

http://diascaes.blogspot.pt/2011/03/queda-de-socrates.html


"O filho do escultor Sofronisco e de sua mulher, Fenareta, foi um pomo de discórdia em todo o estado ateniense. O incómodo da sua presença avolumou-se, não se sabe desde quando, até aos últimos dias de vida - quando já atingira setenta e um anos. A cidade tolerou-o enquanto lhe foi possível. A figura mental de Sócrates, o espectro de perplexidade que ele fazia tombar sobre uma sociedade em crise moral e política, tornavam-no configurado à imagem de algo de sagrado, de que as sociedades carecem, para si mesmas se purificarem - o "bode expiatório", o cordeiro inocente. Os dias de catárse demoravam, envolvida Atenas nos pesadelos da guerra peloponésica, nos sobressaltos dos jogos da tirania e da democracia. Chegando o tempo da colheita, a cidade pediria um exorcismo mortal. E Sócrates foi o signo vital do exorcismo."

in "Platão - Apologia de Sócrates"


Como chegámos nós a isto, povo de Atenas? Como pudemos nós assistir rezingando, em vez de erguer os braços e lutar? Que caminho trilharemos nós até aos calabouços do inferno? Que luz encontraremos para nos guiarmos à razão?
Hoje choro de vergonha. Hoje envergonho-me de mim por não ter lutado quando devia. Como Ateniense sou a lástima reflectida de todo o povo. Como Ateniense, hoje baixo a cabeça de rendida, mas sobretudo de embaraço, por não me ter colocado ao lado de quem se ergueu. Não condeno os carismáticos por o serem. Não violentarei os reis surdos que governaram um reino de incapacitados. Não atirarei pedras a quem perdeu o sono para fazer o que ninguém queria. Baixo-me antes a seus pés, agradecendo as suas vidas entregues ao diabo, em troca de lutas vãs com Deus. Não me posso considerar alguém no meio de uma ceara seca que não reclamou por água e não posso cobrar ao Sol o dourado que não lhe dei, mas como Ateniense me questiono: "como é que nos entregámos a isto?".


5.11.14

Repetições # 4




Hoje é dia da etiqueta "Repetições".


E deixo um à parte: que saudades das pessoas que aqui vinham e deixavam os seus comentários.
Que saudades de mim, e deste tempo em que escrevia. Em que vos movia a comentar porque escrevia.
Não sei se sinto mais a vossa falta ou a minha.


Relembro, assim, um dos textos mais lidos e, certamente, o que mais comentários mereceu dos leitores.




Ser puta


Isto de ser puta, nunca foi fácil.
Uma puta tem que estar sempre disponível para tudo e para todos. O telefone está sempre ligado, toda a gente sabe a sua morada, toda a gente lhe conhece o carro e toda a gente sabe que pode aparecer quando precisar e bem lhe apetecer.
Puta que é puta, abre a porta de casa ou do carro a toda a gente. Boas ou más pessoas. Puta das boas deixa que toda a gente lhe entre pela vida. E nem precisa de mordomias. Abre a porta sozinha, está sempre de sorriso na cara, nunca diz que não a nada e no fim ainda agradece que a tivessem fodido.
Puta, com muitos anos disto, é aquela que atura os trastes e as pessoas porreiras. É aquela que não discrimina. É aquela gaja que aceita as diferenças dos outros. Que aceita a vida dos outros. Que aceita o passado dos outros. Que aceita estar no presente e no futuro da vida dos outros apenas quando estes precisarem dela e não por gostarem dela. 
Puta profissional é aquela que não chateia ninguém ao telemóvel, que não procura os seus clientes, mas espera a toda a hora chamadas de socorro para um consolo rápido. E vai. Vai, trabalha bem e deixa a pessoa satisfeita. Depois volta para casa arruinada, cheia dos problemas dos outros, minada de doenças que se propagam até ao inconsciente, com dores no corpo todo e sobretudo na cabeça. Ocasionalmente sujeita-se a voltar para casa com dores nos maxilares de tantos murros que levou nas trombas e de tantos broches que teve de fazer. Mas uma puta tem sempre de sorrir. 
Amanhã é outro dia, a malta que a fodeu ontem já se esqueceu e, portanto, não irá compreender porque é que, apesar de lhe terem ido às trombas, mesmo assim não ri.
Porque se há uma vaca que ri, uma puta tem de rir muito mais.
Uma puta como deve ser, fala pouco e trabalha muito. Os filhos da puta (não desta em questão!) lá se podem aliviar como bem entenderem que a puta resolve tudo. Alguns deles usam as putas para desabafar sobre os monos que têm em casa, no trabalho, no ginásio. Por vezes até fazem confidências sobre a sua intimidante e a puta nunca pode desviar a sua atenção da conversa ao mesmo tempo que percebe que está a ser enrabada. Tem de ser multifacetada e estar preparada para todo o tipo de encavadelas, broches e enrabanços. Falam lá da vidinha deles, até chamam putas às mulheres que escolheram, e depois do serviço feito voltam para as suas casas mais aliviados.
Puta que é puta diz sempre que gostou muito, dá sempre um desconto a tudo e sai a sorrir sem aceitar boleia. E puta que também tem sentimentos deixa a pessoa seguir a sua vida sem exigir que alguém lhe pergunte um dia se está tudo bem. Uma puta aguenta!
Puta à séria, está cravada de sentimentos para aguentar a choradeira dos virgens mas nunca se queixa de quem a viola. A puta só pode ter sentimentos para os outros mas nunca pode pensar que alguém se lembra dela.
Isto de ser puta tem muito que se lhe diga porque um dia a puta vai querer deixar de o ser, e já não vai conseguir sair dessa vida. Às tantas, dá por si a gostar de ser puta e a pensar que toda a gente devia ser puta de vez em quando. Só para saberem que há um lado de desfrute para quem é puta. Mas as putas não são bem vistas, porque ser puta dá muito trabalho e poucas alegrias.
O dia em que a puta quiser deixar de ser encavada por todos, todos irão achar muito estranho e atirar-lhe à cara que é uma ingrata. Que teve sempre quem a sustentasse e agora já não o quer. Vão pensar que tem a mania das grandezas e que já não quer ser puta mas sim, ser apenas mais um deles.

Hoje vieram ao cu a esta puta e doeu.
Mas amanhã, como já ninguém se vai lembrar, convém continuar a sorrir para não pensarem que eu tenho a mania que ninguém me pode foder e que afinal já não quero ser puta.




31.7.14

Repetições # 3




Hoje é dia da etiqueta "Repetições".


É caso para dizer que, há exactamente um ano, acabou-se um sofrimento e aprendeu-se uma lição.








Quando era muito pequena, ainda não sabia ler nem escrever, preconizei aquele que havia de ser o meu maior exercício de humildade. Ou pelo menos o mais emblemático e que me viria a servir, no futuro, de termo de comparação com outros momentos idênticos. Tive consciência dele apenas uns anos mais tarde mas sei que foi nessa idade, em que os dentes de leite ainda estavam para ficar, que comecei um percurso de auto-análise. De tomada de consciência. De uma das muitas lições de vida que viria a ter.
Nesse tempo, em que era ginasta, tinha muita vaidade em ser a menina que era escolhida para a linha da frente da formação. Aquela que todos conseguiriam ver a fazer as cambalhotas, os pinos e as espargatas. Um orgulho. Gostava do aprumo do maillot  azul com a gola de marinheiro. Do pequeno apanhado no cabelo. Da pose de pequena diva da ginástica, com as costas rigorosamente direitas e rígidas.
Até que um dia, passados meia-dúzia de anos, descobri em casa da minha prima, que também tinha pertencido ao mesmo grupo de ginástica rítmica, uma cassete de vídeo que o meu tio tinha guardado, religiosamente, com uma autocolante a anunciar "Sarau de ginástica 1985".
Eu e a minha prima lá fomos ver a cassete e eu, como é óbvio, transparecia uma evidente segurança de que iríamos assistir apenas a mais um grande momento da minha infância, cheia de genialidade. Mas o que acabei a ver foi uma menina, perdida no meio de outras meninas. Com um maillot  azul com gola de marinheiro, igual ao de todas as outras meninas, agarrada a uma boia, a uma bola, a um arco e a tentar encontrar o X no chão que indicava a minha posição e completamente interessada em chamar a atenção do público em vez de cumprir a minha rotina.
Nesse dia vi a menina que não conseguiu fazer o pino depois de três tentativas esforçadas, apesar de, nas minhas felizes memórias, apenas recordar um sarau fora de série em que eu tinha cumprido o que esperavam de mim, com grande sucesso.
Foi preciso meia-dúzia de anos depois para ter o meu exercício de humildade.
Coloquei em perspectiva aquela nova consciência e soube, a partir daí, que o que achamos de nós nem sempre é o que realmente somos. Aprendi, a partir desse dia, que afinal prometo muito e realizo pouco. Que sou uma fraude.
Aprendi que era escolhida para a linha da frente pela conveniência de ser a mais pequena e não por ser a melhor. Aprendi que só temos uma oportunidade para fazer o nosso melhor e que as restantes tentativas são apenas o aumentar do número de falhas.

Trinta anos volvidos e fui obrigada a lembrar-me do meu maillot  azul com gola de marinheiro.
Relembrei, com a dor de quem se viu humilhado, que as expectativas sobre mim não se cumpriram e que, ainda assim, havia uma lição a reter daquele momento: a lição de humildade.
Hoje, perante um júri de mulheres e homens adultos, em que me defendi, defendi um trabalho suado e sofrido, e em que fiz o pino à primeira e sem quaisquer ajudas, voltei a ter a minha lição de humildade.
Erradamente, defendi que o papel de um arquitecto, quando passa por intervir num edifício histórico, deve ser mais modesto e menos centrado em si e que, resumidamente, se trata de um exercício de humildade para um arquitecto assumir a responsabilidade de intervir num edifício sem impor a sua marca.
A referência a "um exercício de humildade" foi mal acolhido por uma troika de divas que, naturalmente, adoram tudo nesta vida menos o conceito de humildade.
Erro o meu.
Para mostrar interesse em esclarecer todas as questões, a menina do maillot azul que nunca concretizava o pino à primeira, ainda tentou explicar que "humildade", naquele contexto, significava respeito. Respeito pela pré-existência, pelo edifício, pela sua história.
Segundo erro.
Dois conceitos, altamente desconhecidos para os jurados num dia só: Humildade e Respeito.
Admito que foi puxar pela minha sorte, esquecer a minha sina e gozar com o meu karma, mas ninguém me iria defender a não ser eu própria. E preferi arriscar a ficar parada a ver os outros brilharem com as piruetas. Mas voltei a ser colocada na primeira fila.
Naquele momento senti-me pequenina. A fazer investidas contra a esteira, uma e outra vez, sem nunca conseguir fazer o pino.
Tive o meu exercício de humildade.
Pelo menos hoje, alguém o teve.




17.6.14

Repetições # 2




Hoje é dia de voltar à etiqueta "Repetições".

Exactamente no dia 17 de Junho de 2012, estava assim. Hoje não estou melhor mas por outras razões. Razões muito distintas até. Afinal, de quantas formas podemos ser abandonados?



Da tua Janela dói-me o peito





Um dia decidiste dizer que ias embora. E foste. De uma maneira fugida. Não como quem foge de alguém, mas como quem foge de si. E isso ainda me doeu mais. Isso ainda me dói.

Agora, que te revejo as ideias, imagino as deambulações dessa alma atormentada para manter um segredo assim. Vejo-te nessa situação hesitante. Acordando um dia de peito feito mas escondendo as ideias que em ti nasciam. Aprofundando sem fim a vontade de partir, mas ocultando no rosto e nas palavras os avanços dos teus planos. Partiste um dia, quase em segredo, ainda mal tinhas pavoneado a novidade. Ainda mal tinhas arrumado as ideias e a vida. Ainda mal tinhas olhado o que deixavas para trás. Mas um dia decidiste dizer que ias embora. E foste.
Saíste um dia de casa, deixando os móveis assombrados pelo despejo dos teus bens. Deixaste as gavetas vazias e as janelas cerradas. Abandonaste tudo em ti e roubaste o significado à palavra lar. A luz, que entrava generosa pela janela, não mais aqueceu o quarto onde dormias. Sentiu-se traída, a janela velha e agora teima em não funcionar. Diz que lhe fazes falta. Diz que só tu a fazes chiar. O soalho, esse, morreu pela falta dos teus passos. Secou de desgosto e não consegue mais brilhar. Inerte , como me encontro, nem o consigo consolar. Os meus passos não lhe iludem a tua presença.

De vez em quando consigo entrar no teu quarto. Primeiro olho-o de longe. Espreito-lhe o espírito. Sinto-lhe a ausência. E ele, de vez em quando, lá me deixa entrar. De passos sorrateiros para não perturbar o soalho, passo as mãos pelos móveis vazios que ali deixaste. E eles nem mexem. Morreram de desgosto e solidão. E eu deixo-os. Não apoquento os seus vazios. Também não gosto que apoquentem os meus.
De pé em pé, lá vagueio pelo quarto para ir poisar na janela. De todas as vezes, dirigi-me sempre à janela. Ela não reclama nem  resiste e, por vezes, noto-lhe a generosidade do peitoril. Sente falta que alguém por ali espreite, e eu faço-lhe a vontade. Penduro-me nela e perco o olhar. Perco as horas no pensar. Finco bem os pés no pequeno banco de madeira, agarro o peitoril com tremores, e espreito. Penduro-me nela e perco o olhar na esperança de te ver voltar. Mas um dia decidiste dizer que ias embora. E foste.

Aquele banco, ali abandonado, resiste sozinho naquele soalho mal-tratado. Como tu. Sozinho em cima das pernas a aguentar o peso do desconhecido. A lutar por ser atingido por um clarão. Por vezes, também eu fico assim. Apenas suspensa nas pernas, a olhar para o longe, como se o longe fosse logo ali. Mas não é. Como se o tal clarão te trouxesse de volta, mas não traz.

Espero que te aguentes nas tuas pernas, mas se não aguentares volta, porque tens outras tantas em casa à tua espera. Tantas quantas as pernas que tem o banco. E ele, bem o vês, continua firme à tua espera.




16.5.14

Repetições # 1



Não sei se isto é começar alguma coisa mas ocorreu-me a ideia de republicar textos publicados, exactamente, no mesmo dia mas em anos anteriores.

Este que agora republico foi escrito no dia 16 de Maio de 2011.
Não escrevi nada em 16 de Maio em 2012, nem 2013.

Dá para perceber a ideia?

Não valerá a pena andar em modo repeat dia-sim-dia-sim mas sou rapariga para me lembrar de fazer isto uma vez por mês.

Nasce hoje o separador "Repetições".


[publicado em 16 de Maio de 2012]




Terminal de autocarros - Sete Rios - Lisboa - Dia 14 de Maio de 2011 - Das 20:30 às 22:00

. O sujeito de cabelos compridos anacronizados
. A rapariga do corpete de ganga com atilhos em fita de seda
. As crianças ciganas descalças
. O tipo que descasca um miúda com os olhos
. A sonsa que espera pelo namorado frick
. O japonês com cabelo de mulher
. A velha hippie com problemas de alcoolismo e com falta de dinheiro para a tinta do cabelo
. O tipo giro
. A tipa com estilo
. A miúda com calções pornograficamente curtos
. A preta que veste uns collants de padrão tigresse rosa-choque mas se esqueceu de vestir uma saia
. A loira que lê uma revista cor-de-rosa
. A tonta que já correu os autocarros todos mas ainda não acertou com o seu
. A excursão de adolescentes com problemas de identidade
. Os namorados que se lambuzam
. O rapaz que tem vergonha do beijo de despedida da mãe
. O chinês que quer parecer europeu
. O motorista engatatão
. O preto que ainda não tirou a mão da pila
. A mãe solteira que está farta da sua criança
. O emigrante de Leste que arrasta os sacos de plástico desde o fundo da gare
. O segurança que anda em círculos sem mexer uma palha
. A mulher que me observa porque não sabe porque escrevo
. Os passageiros impacientes dentro de um autocarro
. O velho sozinho com um boné da caça e um colete da pesca
. A dupla de polícias que exibem nádegas tesas dentro das calças apertadas
. A senhora de meia-idade que faz Sudoku
. O brasileiro com a camisola da selecção
. A introvertida que reza para ser ainda mais invisível
. O reformado que passa os dias a vaguear pela gare
. O casal que se odeia e se despede com alívio
. O casal que se beija à chegada e promete amor eterno
. Eu. Sozinha. Com o papel e a caneta.