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14.9.17

Está tudo bem...




...Porque o Tony vai continuar a ser:

- Um grande azeiteiro;
- Milionário, mas azeiteiro;
- O tipo que não canta ponta de um chavelho;
- O tipo de quem já ninguém espera melhor (é óptimo viver sem a pressão de ter de ser um Beethoven);
- Que usa o cabelo à Paulo Bento;
- Que usa há vinte anos o cabelo à Paulo Bento;
- Que usa tanga de lycra da Speedo;
- Que escondeu que tinha uma família "por causa das fãs" (ahahahah, tá bem, ó Tony!)
- O tipo que está numa crise de meia-idade e "adora" a ideia de ser avô (só que não);
- Que deixou a mulher quando ela estava mesmo boa;
- Que gosta tanto de música como eu de lagares de azeite;
- Aquele que fez o melhor uso da palavra do ano 2016, segundo o Dicionário Oxford*;
- A pessoa que vai continuar a deter o recorde de ajuntamento-de-mais-mulheres-bimbas-por-centímetro-quadrado-em-circuito-fechado-e-a-preços-pornográficos;
- E que vai continuar a rir-se de tudo e todos...

(... incluindo do José Cid, que é outro que também se deve estar, positivamente, pouco cagando para penteados. Estão mais unidos do que pensam, irmãos).




*Pós-verdade
Segundo a definição dos dicionários Oxford, pós-verdade ('post-truth' em inglês) é um adjetivo que faz referência a "circunstâncias em que os factos objetivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais".






3.6.17

Um dia sou despedida





Estou pelas pontas dos cornos com as pessoas, mais à conversa sobre a incompetência dos funcionários públicos.

É sempre a mesma puta da ladainha que os funcionários públicos é que arruinam com a vida das pessoas.
Que os funcionários públicos são umas putas de borda de estrada que se vendem por meia-dúzia de tostões. Que são corruptíveis por um par de meias de descanso. Ou, então, que os funcionários públicos são uns inflexíveis do caralho. Depende daquilo que der muito jeito ao requerente. Pronto, aqui vá, já é uma questão de conversarmos, não é suas pêgas?
Também adoro quando começa a conversa que os funcionários públicos só vivem de regalias. Se há porra de regalia a invejar (além do esplendoroso ordenado, upa, upa! progressão na carreira, motivação, avaliação, colegas a cheirar a refugado...) é pagar o seguro de saúde mais caro do país. Aquela coisa chamada ADSE e que custa pouco mais de 50 paus/mês. Querem?
Mas, talvez a melhor, é a ideia generalizada de que os funcionários públicos não trabalham. Foi assim uma merda de um boato que surgiu tipo "O Markl tem graça", e às tantas as pessoas começaram mesmo a achar que sim e a espalhar a palavra. E o que não era bem verdade, tornou-se numa verdade indiscutível.
E eu pergunto: ai não trabalham? Então andam todos a fazer o quê? Ai esperem, estou-me a fazer de sonsa, eu sei:
Passam a vida no café a coçar a rata, a conversar sobre o Love on Top, a rir em voz alta e a ver a Nova Gente, enquanto uma fila de malta por atender se acumula no guiché.
E também têm outra tarefa, aquela que os fez reencarnar neste mundo e que é a sua missão na terra: infernizar a vida às pessoas. Por nada. Assim racionalmente, não há razão nenhuma, mas o deuses, há milénios atrás, acharam que tinham de se criar grupos de pessoas que só soubessem dizer que não a tudo, a outros que só queriam que se lhes dissesse que sim a tudo. 

Na década de noventa havia uma publicidade institucional, de carácter pedagógico e cívico (foi quando deixámos de cuspir para o chão. regredimos entretanto), que dizia:
PORTUGAL NÃO É SÓ TEU!

Devia ser recuperada.
Estamos cada vez mais egoístas e estúpidos. Bestas. Para com os funcionários que trabalham para nós, público.
Respect!


Pronto minha gente.
Fica este leve apontamento de fim-de-semana.
A bem da nação, e talvez do meu contrato de trabalho, chegou a sexta-feira.

[Deixo um agradecimento especial ao meu colega do lado que me deixou exprimir livremente nestes últimos dias recorrendo a vocabulário pouco próprio, e que ainda sorria como se estivesse a achar a alguma graça quando ambos sabemos que já nem me estava a ver.]


17.11.15

Oops, caiu!



A propósito do que se tem passado na nossa vida política, neste inédito momento da nossa vida política, lembrei-me desta receita do Chef Massimo Bottura e que tem um nome curioso, como quase todos - se não todos - os que coloca nos seus pratos: "Oops! I Dropped the Lemon Tart"


Precisamos desta introdução...
The Italian topchef Massimo Bottura was about to come to The Netherlands to do a presentation at a food festival, as well as an interview with us. Unfortunately because of the earthquakes in Italy around that time he could not make it. But he was kind enough to send us this beautiful recipe for a slightly different lemon tart!
Massimo: “This playful dessert was inspired by my early days in the kitchen. I was totally obsessed with food as a child but very impatient as a young chef. I wanted to be able to create perfection from day one. When my mother was teaching me her technique for Emilian crostata crust, I was not giving her the attention I should have. The first couple of batches turned out crumbly or too hard. Every time I was dissatisfied I would throw the pie on the table and blame her:
“This is not the right recipe!!!!” After many broken pies, I learned how to kneed the dough properly. I never broke another pie until last year when one literally fell on the floor. Only then did I think about how important those first pie lessons were to me and appreciate how very patient my mother was with me. This dessert, by the way, is now my mother’s absolute favourite!
This dessert pokes fun at our daily strive for perfection and pristine beauty. I love the dynamics of a lemon tart but hate all the fuss- cream decorations and stubborn crusts. To get around all that nonsense, we purposefully crushed our tart. Of course, it isn’t just a one liner but full of flavoured experience from the most fragile crust to the peaks of tart, sour, sweet, cured and candied lemon on the plate.”

Penso que todos temos algo a aprender com esta tentativa/erro do Massimo Bottura, e com a sua impaciência em alcançar a excelência. Com esta lição sobre a displicência com que se olha para os que detêm o saber, apesar de nada sabermos, porque somos abalroados pelo nosso próprio ego. Muitas pelas vezes pela nossa imaturidade.

Não há nada de errado em querer ser-se perfeito. Não creio que haja. Mas há algo de pernicioso em querer-se ser perfeito sem primeiro aprender e sem se ter a humildade de se reconhecer que não se sabe tudo, não se conhece tudo. Muitas vezes temos de saber reconhecer que não dominamos o assunto que queremos dominar. Aquele que nos é caro ao coração. E, como tal, para bem dessa aprendizagem e dessa evolução que nos levará à luz de um conhecimento que nos conduzirá à excelência, por vezes, muitas vezes, talvez quase sempre, é preciso parar.
Parar para observar, ouvir, olhar, aprender, conhecer, errar, voltar a tentar, cair e voltar a erguer. Lá pelo meio, ou talvez no fim, teremos aprendido algo.

Massimo, apenas ao fim de muitos anos conseguiu dominar a técnica da massa da tarte de limão da sua mãe.
No dia em que deixou cair uma dessas tartes perfeitas ao chão foi quando deu realmente valor ao que a mãe lhe tinha ensinado.
Foi quando compreendeu, realmente, a matéria-prima de que era feita a tarte e a arte que foi preciso adquirir para a saber trabalhar.

Por estes dias caíram coisas no nosso país.
Ergueram-se outras que não sabemos por quanto tempo estarão erguidas. Porque não sabemos se tiveram tempo para ser aprendidas. Se tiveram tempo para ser erradas e, com isso, ter a possibilidade de se voltar a tentar, a corrigir, e a refazer.
Todos temos a aprender, com esta queda acidental da tarte de Massimo Bottura. A aprender que, por vezes, uma queda acidental nos faz pensar nos atos do nosso passado, nos faz dar valor às coisas que anteriormente não demos e nas coisas que desprezámos.
Gosto particularmente da ideia de, durante anos, insistir numa tarefa até que esta se torne perfeita e oleada e depois, muitos anos depois, quando estamos plenamente confiantes, a vida nos venha relembrar que não sabemos nada e que a aprendizagem é constante.

Gosto da ideia de que, mesmo de um acidente, pode nascer uma obra de arte.

Todos temos a aprender alguma coisa com esta história, ou não?
A nossa tarte caiu, mas e nós? Aprendemos alguma coisa com isto? Vimos-lhe alguma arte? Ou vamos apenas limpar o chão a pensar que foi tudo um acidente?



23.10.15

Afinal...



Já não vai haver Boom, nem Avante, nem Coliseu...

Vamos assistir ao maior espetáculo do mundo, sem pagar bilhete, e com direito a homem-bala e cãezinhos amestrados mas, convenhamos, já sem grande suspense: O Circo!



22.10.15

"Vamos lá cambada, todos à molhada..."



Eu não percebo muito de política mas...

Juntar o Boom Festival, com a Festa do Avante e um concerto no Coliseu dos Recreios, vai dar uma grande salada russa, não vai?

#oquedizerquandolhesjuntaremasóperasnoSãoCarlos
#lásefoiaFestadoPontal
#chamemoAvôCantigas
#voltaJudasestásperdoado



17.5.15

Sobre o futebol e o dia de hoje...




Sobre o dia de hoje,
Sobre as festividades,
E buzinões,
Sobre a alegria de um povo,
A euforia,
A celebração,
Sobre a emoção de vencer,
Sobre a esmagadora,
E avassaladora,
Excitação,
De ganhar.
Lembrei-me hoje,
Tantas,
E tantas vezes que,
Neste mundo de vitórias,
Neste mundo de audazes,
Neste mundo de glórias,
Neste mundo de vencedores
...


Sou do Sporting.




28.4.15

São só maminhas senhores...




Muita gente não saberá que, além de escrever aqui, no Dias Cães, escrevo em mais de uma dúzia de blogs.
Um deles é o Black Velvet e surgiu em parceria com um amigo por quem nutro uma profunda admiração e estima, o Jon Gavin.
Resumidamente, o Black Velvet aliava a escrita à fotografia mais direccionado a um público adulto e com tendência a gostar de calores e, durante pouquíssimos meses, fartamo-nos de curtir o Black Velvet. 
O Jon dava o mote com a fotografia e eu fazia um texto para ela.
A coisa correu bem no tempo que tinha correr, depois começou-nos a faltar a inspiração, a paciência e os recursos (estamos separados fisicamente por 400km) e deixámos de fazer publicações no blog.
Tendo em conta o tipo de fotografias e o público-alvo do Black Velvet, sempre primámos pela descrição e confidencialidade, sobretudo, em relação à identidade das pessoas que delas participavam, ainda que de sua livre e espontânea vontade.

Porém... hoje fomos surpreendidos por uma censura, vinda do lado mais improvável: 
De uma das modelos fotografadas.

Como não estou para me chatear com isto, ainda que o Black Velvet me estivesse no coração por diversas razões, decidi dar ouvidos ao Jon e acabar com tudo.
O Black Velvet vai encerrar.

Tendo assinalado o seu nascimento neste blog em 2012, porque me orgulhei dele, acho que devo anunciar o seu encerramento com o mesmo orgulho.

Fica o comunicado que deixei na página de Facebook do Black Velvet (entretanto também ele censurado) na esperança de que o mundo se torne um lugar melhor.



"Comunicado:

Ao fim de 3 anos do início do projeto Black Velvet, e mais de 1 ano decorrido sobre o seu fim, aconteceu algo inesperado e que, pessoalmente, me choca: fomos censurados.

Conforme sempre deixámos claro na página do blog em "Direitos de Autor e Advertências", todas as fotografias foram publicadas mediante autorização dos seus intervenientes, com a condição de as mesmas serem utilizadas exclusivamente pelo seu autor, designadamente no Black Velvet, sem especificar páginas ou sítios onde este publicasse.

Hoje, surpreendentemente, um dos participantes denunciou a nossa página por conter nudez. A sua própria nudez.
Aquela a que se expôs numa sessão fotográfica, como a sua concordância e livre participação, e cujo trabalho final concordou partilhar sem que fosse revelada qualquer informação sobre a sua identidade, acordo que cumprimos escrupulosamente.
Decorridos 3 anos desde a publicação da sua fotografia, vem denunciar a mesma por nudez.

Não foram, em circunstância alguma, associados nomes, rostos ou dados pessoais que revelem a identidade de cada uma das pessoas presentes nas fotografias onde existe nudez. Eu própria desconheço essas pessoas, pelo que me seria impossível, sequer, associar partes do corpo às mesmas.
Por essa razão, evidente, removi, o que vim a perceber depois, ser a fotografia errada: Os seios em questão eram outros.
Não me foi, sequer, dada oportunidade de remover a fotografia certa por não me ter sido indicada de qual se tratava.

Após uma escassa troca de mensagens com o queixoso, em que acedi remover a fotografia que julguei sua, fui surpreendida por um inquérito do Facebook sobre a minha conduta e sobre os conteúdos deste blog, tendo ficado inibida na minha página pessoal de fazer publicações por estas representarem risco para a moral e bons costumes.

Não me choca que a pessoa em causa tenha mudado de ideias, se tenham arrependida, e se sinta agora exposta.
Choca-me que a nudez seja alvo de censura.
Choca-me que as próprias pessoas se censurem e vivam desconfortavelmente com elas, o seu passado, a sua vida e o seu corpo.
Choca-me que se continue a colocar fim à liberdade de expressão, seja sob que forma for.
Chocam-me, sobretudo, os falsos moralismos.

Após discussão entre mim e o Jon Gavin, autor das fotografias e co-autor do blog, decidimos por fim ao Black Velvet que, de resto, se encontrava sem publicações há mais de 1 ano e sem pretensões de ser reaberto.

Como co-autora deste projeto vejo-me no direito de mostrar o meu desagrado com esta situação e por ter de encerrar um projeto que também foi meu, e onde coloquei muito do meu tempo e dedicação, porque terceiros assim o entenderam e não irão dar tréguas enquanto não for satisfeita a sua vontade.

A minha vida segue para além do Black Velvet, a minha felicidade não se esgota nele e, como tal, cedo à pressão do seu encerramento.



Nunca pensei dizer isto mas hoje:

Je suis Black Velvet.



Até sempre, 

Dias Cães
(autora dos textos do Black Velvet)"



24.2.15

I don´t give a shit...



Uma barbearia só de gajos.
E então?
Há barbearias de mulheres?
E há mulheres que queiram ir a barbearias?
Digam lá mulheres: quantas vezes foram à barbearia com os vossos homens?
Não, isso de os convencer a ir ao vosso cabeleireiro não conta.
E se eles vos pedissem com muito amor e carinho "vem lá comigo ali à barbearia para eu cortar o cabelo e aparar a barba", quantas de vocês iam? Quantas iam a achar que era um programa a dois que valia mesmo a pena o vosso tempo?
Vá lá senhoras!!! Deixem-se de sensibilidades.
Quando vão à depilação ou arranjar os pés gostam de estar ali, lado a lado, com um gajo?
Eu não.
Talvez eu seja segregária, ou lá o que é essa palavra que se lembraram de ir desenterrar desta vez.
Talvez seja.
E quantas de vocês já se recusaram ir a clubs de strip porque "isso é um horror, uma porcaria, não sei o que vocês vão lá ver".
Pois eu sei. E percebo que gostem. E percebo que gostem ainda mais sem as suas mulheres por lá. É um momento deles.
Em tempos (espero eu que idos e longínquos) era impensável haver homens nas reuniões de Tupperware. Segregação?
Ainda querem comparar quem é que se safa melhor nisto de arranjar tempo e espaço só para os do seu género?

Segundo um dos funcionários da barbearia "se entrar uma mulher, o ambiente imediatamente muda".
Mas alguém é capaz de contestar isto?
Só se for alguém que não conheça nenhuma, o que deve ser para aí 0% da população mundial.
Deixem lá os rapazes brincar com coisas de rapazes.
Deixem-nos lá naquele mundinho retro/vintage/snob, a brincarem às barbas e aos bigodes, com cortes de cabelos patetas, metidos numas batas de velhos, a brincar aos homens crescidos.
Faz parte. 
Só quem nunca teve um homem na sua vida é que pensa que eles algum dia crescem. Não crescem, mas também não tem mal. Eles são assim, nós somos assado e é nisso que está a graça disto tudo. Um dia ficam velhos (que é diferente de ficarem adultos), olham para trás, e percebem que eram parvos mas, até lá, deixem-nos brincar.

Onde é que eu acho que esta gente meteu os pés pelas mãos?
Quando se quiserem armar em heróis e elevaram os cães a uma condição superior à das mulheres.
E a malta é sensível.
Se têm metido um letreiro com letras garrafais a dizer "NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A MULHERES", tirando meia-dúzia de feministas que por ali passassem, ninguém ia dar por aquilo.
Convenhamos: é uma barbearia, nós queremos lá saber. 
Até podem dar beijinhos no cu uns dos outros que nós nem vamos olhar.
Mas agora isso de dizer que os cães podem entrar mas nós não, é que fodeu o encanto todo à coisa.
Ponho-me aqui a pensar se, tirando a junção de palavras "cães" e "mulheres", existe alguma outra fórmula que levantasse esta onda de indignação, e tenho as minhas duvidas. Se a coisa não descambar para o racismo e para a xenofobia - que são coisas completamente diferentes e, para mim, condenáveis - não vejo mal em quererem um cena só para eles. Para esfregarem aquelas barbichas uns nos outros. A verdade, e isso é que nos dói, é que eles sabem divertir-se muito mais que nós. Sabem muito melhor como ganhar tempo e espaço para passarem só com eles próprios.

Só para finalizar, porque estou a sentir que tinha muito para dizer sobre o assunto, e quanto mais falo, regra geral, mais me enterro, deixo aqui uma pequena reflexão.
Qual das frases vos deixaria verdadeiramente chocadas, se vissem um letreiro à porta do vosso cabeleireiro, de gajas, entenda-se:
"NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A CÃES"
"NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A HOMENS"
"NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A CRIANÇAS"
"NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A CARECAS"
- "NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A PESSOAS COM PERTURBAÇÕES PSICOLÓGICAS"
"NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A PESSOAS QUE SE APRESENTEM ALCOOLIZADAS"
"NÃO É PERMITIDA A ENTRADA A LADRÕES"
- ...

Aceitam-se sugestões para meter ali no (...).



25.11.14

A queda de Sócrates... outra vez






Não é dia da etiqueta Repetições mas pareceu-me apropriado voltar a ler "A queda de Sócrates".
No dia 23 de Março de 2011, tinha caído pela primeira vez.

http://diascaes.blogspot.pt/2011/03/queda-de-socrates.html


"O filho do escultor Sofronisco e de sua mulher, Fenareta, foi um pomo de discórdia em todo o estado ateniense. O incómodo da sua presença avolumou-se, não se sabe desde quando, até aos últimos dias de vida - quando já atingira setenta e um anos. A cidade tolerou-o enquanto lhe foi possível. A figura mental de Sócrates, o espectro de perplexidade que ele fazia tombar sobre uma sociedade em crise moral e política, tornavam-no configurado à imagem de algo de sagrado, de que as sociedades carecem, para si mesmas se purificarem - o "bode expiatório", o cordeiro inocente. Os dias de catárse demoravam, envolvida Atenas nos pesadelos da guerra peloponésica, nos sobressaltos dos jogos da tirania e da democracia. Chegando o tempo da colheita, a cidade pediria um exorcismo mortal. E Sócrates foi o signo vital do exorcismo."

in "Platão - Apologia de Sócrates"


Como chegámos nós a isto, povo de Atenas? Como pudemos nós assistir rezingando, em vez de erguer os braços e lutar? Que caminho trilharemos nós até aos calabouços do inferno? Que luz encontraremos para nos guiarmos à razão?
Hoje choro de vergonha. Hoje envergonho-me de mim por não ter lutado quando devia. Como Ateniense sou a lástima reflectida de todo o povo. Como Ateniense, hoje baixo a cabeça de rendida, mas sobretudo de embaraço, por não me ter colocado ao lado de quem se ergueu. Não condeno os carismáticos por o serem. Não violentarei os reis surdos que governaram um reino de incapacitados. Não atirarei pedras a quem perdeu o sono para fazer o que ninguém queria. Baixo-me antes a seus pés, agradecendo as suas vidas entregues ao diabo, em troca de lutas vãs com Deus. Não me posso considerar alguém no meio de uma ceara seca que não reclamou por água e não posso cobrar ao Sol o dourado que não lhe dei, mas como Ateniense me questiono: "como é que nos entregámos a isto?".


1.9.14

Ainda sobre o 25 de coiso



No mesmo dia em que tive a breve constatação de que "os meus 25 de Abril" não dão em nada, ainda aprendi umas quantas lições sobre o que pode ser isso de cada um fazer o seu 25 de Abril.

Logo depois de me ter lamuriado, saí do trabalho cedo - empenada pela falta de motivação - e peguei no carro convicta de que iria imediatamente para casa. Mas, pelo caminho, lá me lembrei daquele exame que ando para marcar há meses e que, por mera preguiça andava a adiar. E por isso lá me arrastei até à clinica para o marcar. Quando entrei vi a senhora do costume, com a sobranceria do costume, com a simpatia do costume, com os óculos na ponta do nariz como de costume. E esperei pela minha vez, como de costume, porque se há coisa que existe naquela casa são regras para os pacientes cumprirem. Mas nisto, sem tempo sequer de ver que lugar havia disponível, ouço uma voz detrás do balcão a chamar-me. E nem sequer estava na minha vez. Pensei, como mulher extremamente optimista na humanidade que sou, que já ia levar uma ripada. Mas não. Um jovem funcionário chamou-me de sorriso no rosto, perguntou-me em que podia ser útil, eu expliquei ao que ia, e o rapaz teve a amabilidade de me chamar a atenção para um erro na credencial que me faria pagar 1100% mais pelo exame. A colega, aquela que tem a atitude do costume, fitava-o pelo canto do olho. E a mim também. Certamente recordará o dia em que lhe pedi o livro de reclamações.
Eu agradeci a atenção, e prometi voltar com a credencial corrigida.
Já que estava numa de tratar do assunto, dirigi-me de imediato ao centro de saúde para auferir a possibilidade de alterar a dita credencial. Quando entrei, ao contrário da clinica privada, a sala de espera estava vazia e num silêncio absoluto. Talvez o facto de no privado se pagar 3,90€ por uma consulta em vez dos 5€ do público tenha influência, digo eu... 
Atrás do balcão, estava apenas uma senhora gorda, entalada entre os dois braços de uma cadeira, e com o olhar fixo mas perdido no ecrã do computador. O meu "boa tarde" não a fez pestanejar. Insisti: "boa tarde!".
- "Oh, boa tarde, desculpe, estava distraída".
- "boa tarde".
- "Em que posso ajudá-la?"
E a partir daqui não foi outra coisa que não extremamente simpática, atenciosa, disponível e útil. O problema foi resolvido em cinco minutos e eu vim, efetivamente, satisfeita.
Imbuída de tanta boa-disposição, de tanta alegria, perdi a vontade de ir logo para casa amargurar a cabeça na almofada e enfardar um pacote de aperitivos salgados. Decidi ainda parar no supermercado do bairro para comprar um queijinho fresco "que bem que me vai saber comer antes um queijinho fresco!". E lá fui, de andar leve e solto, em busca do dito queijo. E quando eu estava de mão esticada para resgatar um dos queijos da estante, passou-me nada mais, nada menos, que uma osga pelos pés. E eu pensei "fod*-s*...".
E não comprei o queijo.
Ao sair pela caixa do supermercado de mãos a abanar e de constrangimento na cara, a funcionária, que nunca me viu nem eu a ela, exclamou entusiasmada: "obrigada na mesma e até à próxima!". E eu pensei para comigo, que aquela miúda simpática já me tinha feito valer a ida àquele sítio.
Como se isto não me fizesse já pensar na vida e na atitude que decidimos ter perante ela, e nas lutas que decidimos travar, por vezes apenas contra nós, não resultando daí nenhum efeito positivo para o colectivo, eis que na manhã seguinte ainda me são abertos os olhos, só mais um bocadinho.
Uma cliente pergunta-me:
- "Em vez do livro de reclamações à vista posso ter antes o livro de elogios?"
Ao que eu ainda perguntei:
- "Mas existe livro de elogios?"
(E ouvi na minha cabeça: "Pumba, vai buscar! sua atrasada mental que nem sabias que existe livro de elogios e pensas que são todos uns deprimidos como tu. Always LOok on the bright side of life...")
O que há a reter disto? Que eu me foco nas coisas erradas mas há quem se foque nas coisas certas. Que há quem faça os 25 de Abril todos os dias, de forma consciente ou não, apenas para si ou envolvendo os outros mas usando sempre os cravos como arma. Esta pessoa, sem saber, fez uma revolução dentro de mim sem tiros (que era o que eu instintivamente faria): deu-me paz interior.

Não sei se já perceberam onde quero chegar com isto.

Cada uma destas pessoas teve a capacidade de revolucionar, à sua maneira, o meu dia. Não interessa se era o meu dia, poderia ter sido de outra pessoa qualquer. Conseguiram fazer a diferença na vida, ou num pequeno momento do dia, vá, de alguém. Quando eu estava convencidíssma que isto de andar a travar lutas sem balas já não estava a dar nada, cruzo-me com estas quatro pessoas, que me provam que as lutas se travam com bons estados de alma. É a tal teoria do copo meio-cheio ou meio-vazio. 
Levei ali uma lição de todo o tamanho, foi o que foi.
E ainda bem que estava desperta, aceitei os sinais, compreendi o que se estava a passar e, em vez de me convencer de que sou sempre eu que estou certa, abri o peito e a mente e deixei que Deus brincasse comigo e mostrasse que há outros meninos no parque com brincadeiras mais giras que a minha. 

E talvez sim, talvez, o 25 de Abril se faça todos os dias nas pequenas coisas, coletivamente ou pela vontade individual de cada um. Mas tenho a certeza que se faz.
A minha grande questão é: Que tenho feito eu de útil, e com impacto positivo na vida dos outros e na minha, com os meus 25 de Abril?



E pronto... fica um apontamento de humor... para amainar a cena.
[E não, fiquem descansados, que eu não vou dizer que o 25 de Abril é como o Natal, e que é quando um homem quiser, mas apetece-me.]


27.8.14

25 de Abril... às vezes



Todos os dias tento fazer um 25 de Abril.




Questiono-me, sempre, ao final de cada dia: Para quê?




25.8.14

A Grande Casa





Havia uma grande casa onde morava muita gente. Uns conheciam-se, outros não. Havia casos de pessoas que eram familiares entre si, de amigos que eram bons amigos e de outros amigos que eram apenas conhecidos. Mas também havia os que não simpatizavam com este ou aquele, e havia também aqueles que não gostavam de ninguém. Também habitavam na grande casa os que diziam que gostavam de toda  gente mas o "toda a gente" eram apenas eles próprios. Havia os altruístas e os egoístas mas os egoístas eram mais. Depois havia os porreiros, para quem estava sempre tudo bem, e havia os paranóicos, para quem havia sempre alguma coisa mal. Também habitava na casa uma ou outra pessoa invisível: "Quem?", "Faz o quê?", "Chama-se como?"... "Ah, pois. Não estou a ver quem é". E havia os distraídos.
Na grande casa, uns diziam, com orgulho, que eram todos uma grande família. Outros, mais conscientes, fugiam do convívio e recusavam afinidades. Eram os surdos, os cegos e os mudos. Mas não eram burros. Mas também os havia, os burros. Estavam na parte da alta da casa. Eram arrumados na parte mais alta da casa para não incomodarem os outros, ainda que eles pensassem que estavam na parte alta da casa por serem muito importantes. Mas não eram. Eram burros e ninguém os queria aturar.
Depois, havia aquele punhado de gente que arrumava, limpava, organizava, que mandava na casa, que a punha a funcionar, mas cujo nome ninguém sabia. Só sabiam, e era consensual, que eram necessários à casa. Como formigas obreiras. São precisas mas se alguma morrer depressa se substitui. Afinal, são todas iguais.
Na casa grande onde morava muita gente, podiam não saber os nomes uns dos outros, nem o que faziam, mas os habitantes da grande casa conheciam as muitas regras que ao longo dos anos se instituíram. Mas havia um problema: uns cumpriam-nas e outros não. A primeira regra, por exemplo, sabiam-na na ponta da língua: não era permitido entrar mais ninguém na grande casa. Recebiam-se visitas à porta, aceitavam-se cartas, de quando em vez até se admitia um presente, de uma alma mais misantropa, mas nunca, nunca, as regras admitiram que estranhos se instalassem na grande casa. Mas era sabido que esta regra há muito que demorava a vingar e que nem sempre havia sido cumprida. Pelos mais velhos. Os mais velhos da casa, antes da casa grande ter muita gente lá dentro, gostavam de receber visitas, de lhes aceitar os favores e de retribuir com favores também. Faziam-se festas e arraiais, fizeram-se negócios, compraram-se segredos, e venderam-se almas. Tudo dentro das muitas paredes da grande casa.
Os velhos estavam tão habituados a fazer tudo dentro da casa, que acabaram por se esquecer que as muitas paredes que os escondiam também tinham muitos recantos que os expunham. Muitas esquinas pontiagudas que juntavam sujidade que se acumulou por anos, e anos... Estavam tão confortáveis que nem repararam que os mais novos da casa, avessos a velhos hábitos, começaram aos poucos a limpar o pó. A arrumar os móveis. A sacudir os cortinados. E a encontrar os segredos, debaixo dos tapetes.
Um dia, quando os mais novos já estavam cansados de limpar o que os mais velhos continuavam a sujar, gerou-se um motim. E os mais velhos não compreendiam. Não percebiam o que tinha de mal. Quiseram convencer os novos que as vendas da alma tinham de se perpetuar. Como uma herança. Como um ritual.
Mas os mais novos recusaram vender-se e a sentença ficou lida: "A grande casa ficou pequena para vocês. Não são mais bem-vindos aqui".

Os mais novos não choraram.
Encheram o peito de orgulho e seguiram o seu caminho.
Com a alma, intacta, que não venderam.



14.10.13

Economia explicada por uma dona-de-casa




Regras básicas para gerir uma casa com pouco dinheiro:

1º Mantenha sempre a noção de realidade
Nem todos podemos comer bifes do acém ao pequeno-almoço, almoço e jantar. E se estiver a passar por dificuldades, então, deve colocar essa hipótese completamente de parte. Não é vergonha nenhuma comprar asas de frango em vez dos bifes de vaca, mas será uma grande vergonha ostentar um par de bifes na mão que não conseguiu pagar e mais tarde lembrarem-no disso.

2º Não viva acima das suas possibilidades
Se tem 5€ no porta-moedas não olhe para a caixa de Ferrero Rocher que custa 10€. Quando olhar para a caixa de Ferrero Rocher, lembre-se que não é isso que alimentará a sua família. Compre antes um frango com os 5€. Em média alimentará quatro pessoas e se o desfiar e fizer uma salada, com sorte, alimentará oito. É tudo uma questão de não encher o bandulho de guloseimas a uns e deixar com fome os outros.

3º Nunca queira resolver um problema de economia atacando nas finanças
Se não consegue comprar três carcaças hoje, não pense em resolver isso usando o dinheiro para o leite de amanhã. Só se irá afundar mais em despesas e continuará sem ter ou as carcaças ou o leite. A ideia é produzir mais, para poder ganhar mais e, consequentemente, ter mais para gastar. Daqui por uns tempos até poderá pensar em comprar manteiga para barrar as carcaças. Quiçá, não conquiste a secção de peixe ou de carne.

4º Faça uma boa gestão da despensa
Não devemos encher a fruteira de com 5kg de pêssegos, só porque é a fruta que está em promoção no mercado, quando apenas temos capacidade para consumir 1kg. Para todos os efeitos, os outros 4kg irão para o lixo quando, com o preço desse desperdício, poderia ter variado a fruta e, quem sabe, não se poderia ter dado ao luxo de comprar um abacaxi.

5º Reveja os prazos de validade com frequência
Não garantir o cumprimento dos prazos pode dar grandes dores de barriga, já para não falar do desperdício de dinheiro que os mesmos podem implicar. Investir em artigos quase fora de prazo, mas que são muito mais baratos, pode ser arriscado e não ter o retorno esperado. Deve analisar bem esses produtos antes dos adquirir. Já em casa, deve vigiar as datas com regularidade. Se não o sabe fazer peça a alguém que o faça.

6º Nunca fique a dever na mercearia
Os merceeiros são uma raça má: apontam tudo num caderninho. Se não pagar no dia seguinte começam a olhá-lo de lado, se não pagar ao fim de uma semana proíbem-no de entrar na loja e, se não pagar ao fim de quinze dias, é difamado por todo o bairro. Depois, sabe o que acontece? A confiança em si desce, nunca mais ninguém lhe empresta dinheiro, é rotulado de caloteiro, e se quiser comprar um molho de bróculos na mercearia abaixo da sua, vão-lhe fazer um manguito.

7º Regateie sempre o preço
Não raras vezes somos roubados. Ao longo da nossa vida fomos roubados várias vezes. Balanças descalibradas, códigos de barras trocados, artigos que passam em duplicado… Por isso, não se iniba de regatear o preço. Faça bluf. Diga que ainda ontem pagou menos pelo mesmo artigo; que o vizinho é mais rico e mesmo assim pagou menos; que o produto não é assim tão bom e que há melhor na concorrência. Aceitar a primeira opção é mostrar ou riqueza ou desespero. Nenhum dos dois fará de si um bom gestor do orçamento familiar.

8º Faça trocas justas com os seus vizinhos
Se um dia oferecer um cesto de laranjas a um vizinho, pode esperar que, de futuro, ele lhe venha a retribuir com a mesma quantidade de maçãs. O que não pode, é receber uma banana e oferecer 1kg de papaias. A isso chama-se déficit. E o déficit é como uma doença prolongada: nunca acaba bem.

9º Nunca perdoe uma dívida
Primeiro, porque ninguém lhe perdoaria a si. Segundo, porque rapidamente se espalharia a notícia de que você é o otário que empresta e não pede de volta. Terceiro, porque abre um precedente. Se for mole, e não negociar, o buraco no orçamento ficará apenas do seu lado. Exija que, pelo menos, a divida seja saldada em garrafas de azeite todos os meses.

10º Crie o seu próprio sustento
Parado não consegue meter comida na mesa. Trabalhe. Obtenha um ordenado. Ou melhor, crie a sua própria riqueza e sustentabilidade. Se tem quintal, plante as suas próprias couves. Mesmo que não as venda, não dispenda dinheiro a comprar aos outros. Se vive a um passo do mar, pesque o seu próprio peixe. Mesmo que tenha trabalho a amanhá-lo em casa, pelo menos não passa pelo ridículo de ir gastar o seu dinheiro em peixe congelado apanhado aí mesmo à sua porta. Se tem habilidade para alguma coisa, use essa criatividade em seu benifício. Não dependa de ajudas para concretizar projectos. Não espere que o resgatem.

11º Nunca dispense o jardineiro se você não sabe cortar a relva
Não temos de saber fazer tudo. Idealmente sim, mas nesse caso não existiriam profissões e não existiriam pessoas especializadas em determinadas áreas. O merceeiro, sabe da mercearia. Por isso tem o seu valor. O jardineiro, sabe de jardinagem. Por isso tem o seu valor. O canalizador, sabe de canalizações. Por isso tem o seu valor. Não deixe, portanto, sair de sua casa quem produz ou o faz poupar dinheiro. Não deixe que o jardineiro vá embora se não tem quem saiba trabalhar com o cortador de relva. Não deixe o seu filho sair de casa se for ele o único a saber fazer contas. Não deixe o seu marido ir embora se ele for o único a meter um ordenado em casa.

12º Nunca roube
Se roubar, isso significa que esse dinheiro vai faltar a alguém. Se faltar a alguém, quer dizer que essa pessoa já não poderá gastar o dinheiro que lhe foi roubado. Se já não vai gastar o que lhe roubaram, quer dizer que alguém vai deixar de receber esse dinheiro. Quem deixar de o receber, não vai poder voltar a comprar, a investir, esse dinheiro. Se ninguém comprar, ninguém vende. Se ninguém vender, não se gera receita. Se não se gerar receita entra-se em falência. E a falência é sempre, mas sempre, aquilo que se quer evitar.