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20.11.17

A Liturgia e o Preço Certo




Ontem fui à missa. Permiti-me ir sondar o meu estado de espírito e talvez esperasse alguma serenidade mas, por alguma razão, senti uma grande inquietação e, não, não é no sentido "do espírito que se inquieta com Deus". Deixemo-nos disso...

A verdade é que, em vez de me sentir envolvida e concentrada no momento, é-me muito difícil abstrair da envolvente e interiorizar o ritual litúrgico, quando dois terços da missa continuam a ser o que já eram desde que me conheço: uma repetição de frases feitas, entoadas como mantras, sempre nos mesmos momentos, com a mesma cerimónia. É caso para dizer que quem viu uma já viu todas. E isto não fideliza clientes. Até percebo, até determinado ponto, que a repetição e a entoação, proporcionem relaxamento mas, tal como no yoga, às tantas tens de mudar de posição ou começas a ficar entorpecido e perdes o interesse em ir à próxima aula. Por exemplo, eu gosto muito de ver o Preço Certo, mas não pode acontecer existirem sempre os mesmos prémios, com os mesmos preços, a Lenka estar sempre de minissaia, o gordo dizer sempre "espetácle", a roda calhar sempre no 100, e a montra final ser sempre 22 mil euros e no final, o mesmo homem com um pullover de malha grossa de mil nove oito nove, ganhar. Em algum momento, a Lenka tem de ir de calças, o prémio maior tem de ser uma caixa de rebuçados em vez de um carro, e o concorrente tem de esbardalhar-se por 5€. Caso contrário, qual é que é o propósito? Se eu já sei que todos os dias passam o mesmo programa, porque é que eu o hei-de voltar a ver todos os dias durante trinta anos?
A missa é isto. Perdoem-me, mas é.
Talvez com excepção para a homilia que, dependendo do talento do orador, pode ser enriquecedora ou parecer uma conferência de imprensa do Manuel Machado. Ontem, ainda que tivesse começado bem com uma leitura do Livro dos Provérbios sobre os dons das mulheres, e um provérbio é sempre fonte de sabedoria e reflexão, depois a homilia pareceu mesmo um misto de Manuel Machado com um piquinho de Manuel Maria Carrilho. Mas podia ser eu a escalpelizar já demasiado.

Assim, não é difícil perceber porque é que os meus pensamentos se dispersam e, quase sempre, tendo em consideração o contexto sagrado, eu diria, acabo a pecar. Ora reparo na pessoa que chega a quinze minutos do fim da missa, ou olho para o padre e não consigo evitar a comparação com o mestre Yoda, ou reparo que há um pozinho que já precisava ser limpo, ou penso nos número de mãos por lavar que já se enfiaram naquela pia de água benta, ou impressiono-me com a falta de mestria do senhor padre ao meter meia hóstia das grandes na boca como se estivesse a comer umPringle. A mim ensinaram-me que não se roía a hóstia! Ou engoles inteira ou vais desfazendo no céu da boca com a língua, mas mandar uma trinca é que era um grande sacrilégio no meu tempo! 
Na hora da comunhão também não sou branda com os pensamentos críticos: sou a única a ficar sentada no banco. A única! Ora bem, no meu tempo, comungava quem se sentia de bem com Deus, com os Irmãos e com o mundo em geral. Claro que isto pode ser vago porque a consciência de cada um varia muito mas, pergunto-me, será que toda aquela gente se porta bem 24 horas/dia, 7 dias/semana? Toda a gente é bom pai, bom filho, bom amigo, colega, funcionário, cristão? Epá, fiquei mesmo lá na merdinha porque no meu exame de consciência eu chumbei em mais de 50% dos critérios de avaliação e isto não dá direito a hóstia. Depois tentei tranquilizar-me e pensei que, pelo menos, era sinal que ali, naquele local, só estava rodeada de pessoas do bem que já atingiram o nirvana (não, não pensei nada). E nisto, lembrei-me de uma tia minha dizer que tomava sempre a hóstia porque não tinha pecados (ai filha...) e, por pecados, queria dizer que não tinha cometido pecados capitais ou ido contra os dez mandamentos. Pois, eu até espero bem que não. Assim de repente, apraz-me que ela nunca tenha matado ninguém, nem cobiçado a mulher alheia, ou invejado a galinha do vizinho, porque não se espera menos de um bom cristão. No entanto, pergunto-me, se é só desta check list que se faz um ser humano honrado e digno de receber Jesus dentro de si (que é como quem diz: estar em condições de receber a hóstia).
Pois eu não comungo, talvez, há uns dez anos. Acho que a última vez que o fiz foi quando a minha avó morreu, por respeito, e porque nesse momento o meu coração estava em paz. Fora isso, nunca mais me achei em condições de receber Jesus porque nunca mais "limpei a casa", não pratiquei a minha vida cristã e não mantive como hábito o sacramento da confissão que, lá está, no meu tempo era uma espécie de ritual detox pré-comunhão. Era uma espécie de "a menina não paga mas também não anda" da igreja católica. E eu, não sendo de longe a mais fiel das servas, uma coisa na minha vida sei: existem regras, se não estás disposta a segui-las, salta fora. E eu saltei fora.

Uma nota positiva, mais ou menos, nesta cerimónia - e isto depende dos padres e das igrejas - é que já não se dá o beijinho ao vizinho. Digo "mais ou menos" porque a intenção do ritual é boa mas nunca sei se me apetece alinhar. É uma espécie de ritual de abertura do Web Summit: levantem-se e dêem lá uma beijoca e um abraço ao colega do lado e a seguir cantamos o Kumbaya. Mas sem a parte fashion da coisa... e sem o kumbaya.
Eu sou das que sente o constrangimento de cumprimentar quem não conheço mas é igualmente constrangedor veres os meninos todos a darem beijinhos entre si e tu ficares de fora. É como se não gostassem de ti mas tu precisares da aprovação de todos. Há qualquer coisa de friozinho bom na barriga. Por isso, lá te arrastas um banco meio para o dar o beijinho à senhora que nem sabe rezar o Pai Nosso e apertar a mão ao cavalheiro que rezou a missa toda de cabeça baixa, sabe Deus porquê.
Apesar de tudo, e dos momentos de incompreensão do que se passa na maior parte da liturgia, ainda assim, algo dentro de mim me diz, que a melhor parte deste Preço Certo, é mesmo aquela em que, genuinamente, as pessoas dão beijos ao gordo e agradecem ao senhor presidente da junta ter emprestado o autocarro. E é isso que é uma pena estar a perder-se.


14.9.17

Está tudo bem...




...Porque o Tony vai continuar a ser:

- Um grande azeiteiro;
- Milionário, mas azeiteiro;
- O tipo que não canta ponta de um chavelho;
- O tipo de quem já ninguém espera melhor (é óptimo viver sem a pressão de ter de ser um Beethoven);
- Que usa o cabelo à Paulo Bento;
- Que usa há vinte anos o cabelo à Paulo Bento;
- Que usa tanga de lycra da Speedo;
- Que escondeu que tinha uma família "por causa das fãs" (ahahahah, tá bem, ó Tony!)
- O tipo que está numa crise de meia-idade e "adora" a ideia de ser avô (só que não);
- Que deixou a mulher quando ela estava mesmo boa;
- Que gosta tanto de música como eu de lagares de azeite;
- Aquele que fez o melhor uso da palavra do ano 2016, segundo o Dicionário Oxford*;
- A pessoa que vai continuar a deter o recorde de ajuntamento-de-mais-mulheres-bimbas-por-centímetro-quadrado-em-circuito-fechado-e-a-preços-pornográficos;
- E que vai continuar a rir-se de tudo e todos...

(... incluindo do José Cid, que é outro que também se deve estar, positivamente, pouco cagando para penteados. Estão mais unidos do que pensam, irmãos).




*Pós-verdade
Segundo a definição dos dicionários Oxford, pós-verdade ('post-truth' em inglês) é um adjetivo que faz referência a "circunstâncias em que os factos objetivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais".






7.7.17

Fingimento




Neste momento existe um grupo de pessoas felizes, a conviver, a comer, a beber copos e a conversar. A serem pessoas, no fundo, e eu fugi de lá. Sem sair. Evadi-me apenas.
Das coisas mais curiosas que podemos sentir, é quando o nosso corpo não é nosso e estamos dentro dele a observar o que se passa lá fora.
Hoje sinto-me assim. Como em tantas outras vezes. Ou estava a sentir-me assim naquele grupo de pessoas. Os meus olhos pareciam observar uma cena fora da realidade e eu estava ali a forçar-me a ser como eles. A reagir, a conversar, a sorrir, a andar, a movimentar-me como todos eles.
Aquele grupo de pessoas felizes, estavam todos tão felizes como eu. Aposto. Talvez seja isso. Uma espécie de pólos invertidos que acabam por se repelir em vez de se atraírem. Talvez cada um, à sua maneira, estivesse a encenar a sua verdade. E eu, dentro daquele corpo emprestado, observava, não segura, o que cada um estava a tentar fazer. Perante olhares desatentos até diria que alguns cumpriram bem o seu papel mas outros denunciaram o que eu suspeitava: estávamos todos dentro de outros corpos que não queríamos estar. A representar papéis que não queríamos representar.
É trágico, e simultaneamente fascinante, observar-se a cena estando em palco. Se, por um lado, fazemos parte do elenco e isso nos coloca no papel que não queremos desempenhar, por outro lado, temos a possibilidade de ver de perto a dança de todas as personagens. A representação. Os risinhos e as amarguras que mais não são que emoções arrancadas de um guião. Inconscientes, mas, ainda assim, encenadas.
Estar no palco, é poder ver o desconcerto de cada uma das personagens quando se esquecem de uma deixa. É ver as pessoas a encruarem-se. A serem reais por milésimos de segundo. A serem aquilo que deveríamos ser sempre: nós próprios.
Apesar das mãos suadas de ansiedade, os palcos onde cada um se encontrava a representar nunca foram abandonados. Seguem, mesmo à deriva, com um guião improvisado, na esperançada angustia que ninguém repare naquele desconcerto. Que o público, que mais não é que parte integrante do espectáculo, não repare. Não vai reparar. O público anseia que ninguém olhe para eles e lhes desvende o mesmo mistério. Afinal, não há palco nem plateia. Estamos entre iguais. 
Eu há muito que abandonei o meu lugar, com a habilidade de um bom actor que já desistiu da peça mas ninguém reparou. Apenas me mantenho de pé. Com as pernas firmes e o rosto estendido. Para ninguém desconfiar. Assim, o drama não toma conta de todos e não se alastra como um rastilho desgovernado.
Assim, só eu, apenas eu, sei aquilo que todos sabem dentro de si mas não ousam, sequer, a si próprios confessar: somos todos fingidores.




11.5.17

Coisas novas para pensar



Não sei se me apoquenta mais a minha vida se a morte dos outros?

Ou se me apoquenta mais a minha morte do que a vida dos outros?


Ora aqui está uma daquelas chachadas que de vez em quando me vem à cabeça e me faz pensar.




Sobre o perdão



Ah, o perdão.
Essa coisa tão prodigiosa e dignificante.

Digo muitas vezes que gostava de ser melhor que aquilo que sou. Que gostava de exercer a gratidão mais vezes que aquelas que faço. Que gostava de ter um espírito mais elevado que aquele que tenho.

Nunca me lembro de ter dito que gostava de perdoar mais vezes que aquelas que perdoo.

Porquê?
Eu acho que já sou uma pessoa bastante boa na arte de perdoar. Nunca tive grandes problemas em aceitar fazer as pazes, em aceitar um pedido de desculpas e, até, em fingir que não se passou nada só para não ter de chegar à parte do conflito que, potencialmente, gera o momento da zanga e , consequentemente, o pedido de desculpas. E até já pedi desculpas mesmo sabendo que não tive culpa nenhuma. E até foi sentido. Na boa.
Não. Nunca fui muito difícil nesse aspecto. Acho que o facto de ser muito empática e, como tal, ter facilidade em me colocar no lugar dos outros me faz compreender sempre o lado dos outros, para além do meu lado e da minha visão dos acontecimentos.
Também achei, em tempos, que isto significava maturidade e, por essa razão, batalhei internamente para ser um ser humano mais inteiro neste aspecto. Não, não vale muito a pena, caso estivessem a pensar iniciar-se em exercícios de auto-elevação espiritual, emocional, noves-fora-nada...

À parte dos argumentos favoráveis à minha pessoa, também tenho um outro lado menos simpático e, assumo, um pouco radical em relação a isto do perdão: só me lixam mil trezentas e setenta e cinco vezes. À milésima trecentésima e septuagésima sexta vez, levam uma cruz tão grande em cima que acaba-se todo e qualquer contacto para sempre. E este é um caso em que digo com  toda a segurança, "para sempre".
É. nisto não sou lá grande charuto e acabo por baralhar imenso as pessoas. Trinta e cinco anos a perdoar toda a espécie de pressões, desilusões, agressões, o diabo-a-sete, e depois no trigésimo sexto ano já não perdoo?! Élecas!! A mulher está doida!!
Eu sei, eu sei, é necessário um momento de reflexão para eu melhorar isto.

Mas assoma-se-me outra questão: como é que alguém quer o perdão de outra pessoa sem, sequer, lhe o pedir?
Sim, porque, vejamos, a modalidade "ela é que me tem de perdoar vindo ela pedir desculpas" é uma cena que não lembra a ninguém! Mas a verdade, e talvez já vos tenha acontecido, é que há mesmo quem não esteja disposto a baixar a guarda por entender que a "guarda" é o limite para a sua humilhação.
Pedir desculpas, não é auto-humilhação. Pedir desculpas é ser-se um ser mais elevado, mais preparado, mais consciente, mais completo, mais cordial, mais humano, mais amigo...

E eu tenho dias em que olho para trás e tenho pena de não ter sido melhor a resolver conflitos que se irão perpetuar, inevitavelmente, pelo amanhã. Eternamente, talvez. Mas, por outro lado, olho para o agora, para a ilha que sou, e percebo que andei muitas vezes a carregar as responsabilidades às costas e ninguém quis saber.
E para fazer as pazes, para haver o perdão, são preciso duas partes com um objetivo em comum porque "quando um não quer, dois não dançam".
E estou farta e cansei-me de dar ao caneco.





29.12.16

Império dos sentidos



Recuperar rascunhos |2016 #2
Março 2016



Um destes dias, numa daquelas sessões de zapping irracionais quando se tem duzentos canais à escolha mas não se gosta de nada, lá acabei por assentar arraiais no óbvio, e nunca decepcionante, canal 2 (ou RTP 2 ou II, já nem sei...).
Ora bem, na informação da programação dizia-me que tinha começado há coisa de quinze minutos o filme "Império dos Sentidos", e eu pensei cá para comigo, entusiasmada, "que cena porreira, vou aqui ver um filmezinho para me entreter o resto da noite e ainda por cima um clássico daqueles imperdíveis mas que nunca vi! Que sorte!".
Bom, na realidade, isto foi depois de eu perceber que não era o "Império do Sol", coisa que demorou uns dois minutos (eu sei, eu sei...) mas que também não me estava a cair mal porque também era um clássico que precisava arrumar na minha prateleira. Enfim, não foi nesse dia, será noutro.

Mas dizia eu que, finalmente, vi esse grande, gigante, e incontornável clássico do cinema mundial que é o "Império dos Sentidos".
Pois que vi, não mais que vinte minutos.
E pergunto: senhores, mas o que é aquilo?
Que selvajaria fora de época é aquela?

Vamos a ver se me consigo fazer explicar.
O meu cérebro, que estava calmo e sereno naquela noite, ao ver na programação um filme que imediatamente reconheceu como um clássico que, inexplicavelmente, ainda não tinha visto, posicionou-se para ver qualquer coisa entre o "E tudo o vento levou" e o "Hiroshima meu amor", porém, não foi isso que aconteceu.
Em menos de nada, sem avisos prévios, estava o fulano montado na miúda franzina e quando esta se levantou ainda papou a velha que estava a lavar o chão como se andasse por ali a ver montras, numa do "disfarça que eu assobio", e foi tudo de empreitada. Era novas, velhas, cães e gatos e o que mais houvesse.
Entretanto a franzina, de seu nome Sada, que também não é boa das ideias senão não alinhava naquilo tudo e, se eu ainda tive alguma pena da rapariga nos dois primeiros minutos de jogo, a pena passou-me logo quando vi que ela batia o meio-dia às onze, ainda vende o corpinho a um velho rico que, valha-nos o Deus das gueixas, nem às múmias fazia inveja.

E no que mais é que este filme me atarantou?
É que aquilo às tantas mete pipis e pilinhas à descarada no meio de kimonos, mas com uma imagem antiga, típica de uma película dos anos 60 mas com pornografia barata dos anos 90. E isto é confuso, caramba!
Ou se bem que é um filme antigo, um clássico, ou se bem que é um filme porno. As duas coisas misturadas dá mais confusão que uma salada russa envolvida em leite condensado.
Alguma coisa, ou muitas coisas, não estavam a bater certo naquele filme. Cheguei, então, àquele ponto em que comecei a abrir a mente, a reposicionar-me e a tentar arrumar o filme numa categoria entre o erótico, o porno, a banda desenhada, o drama, e qualquer coisa do Hitchcock (há sempre um momento nos filmes do Hitchcock em que meto a mão à frente dos olhos) mas tive muitas dificuldades em organizar-me e desprender-me da ideia de que afinal já não ia ver um clássico nipo-naïf e que as mãos à frente dos olhos só se fosse para não ver as partes pudibundas do amante velho da Sada e da criada que gostava de festa da grossa.


(Isto era para continuar mas faltou-me o fôlego naquele dia e hoje falta-me o talento para o acabar...)



Foi tão bom, não foi? Não. Não foi.




Recuperar rascunhos | 2016 #1
11 de Fevereiro 2013


Ontem fui ao teatro.

Eu já vi muito teatro: bom, mau, assim-assim.
Depois há outros sub-níveis: "Uau, foi o melhor que já vi na minha vida", "Cortem-me os pulsos, porque é que é que eu vim, porque é que eu nasci?" e o "Hmmm, está bem.... mal empregado dinheiro..."


Mas como dizia, ontem fui ao teatro.

E apeteceu-me acabar com a própria vida.
Desculpem meter isto assim à bruta mas o desespero  não conhece horas nem momentos oportunos.
Curiosamente (e há um ponto positivo nisto) não me apeteceu acabar com a vida dos atores mas sim com a minha.
O ponto positivo é, portanto, ainda haver qualquer coisa que me faz respeitar quem trabalha nisto do teatro e das artes em geral. (Viram? Até lhe chamei arte).


Algo já me fazia adivinhar que o público a que se destinava era pouco eclético mas nada me preparou para mais de duas horas de monólogos. 

Nem a mim, nem a ninguém, a ver pela reação do público no final.
Duas horas de espetáculo? Ou é muito bom, e nem em bom creio ter aguentado mais de duas horas num teatro ou, então, quaisquer quinze minutos são uma tortura.
Cinco pessoas, cinco monólogos.
Não, não eram cinco pessoas a conversar ou a contracenar. 
Eram cinco pessoas num palco, sempre em permanência, mas em que quatro assistiam sempre ao monólogo do outro.
Revezavam-se de monólogo em monólogo, de tiro no pé, em tiro no pé.

Dramaturgia e encenação à parte, que não sendo brilhantes tiveram os seus momentos que nos podiam agarrar se, em algum momento nos quiséssemos deixar agarrar, o que não ajudou absolutamente nada mas contribui, p'raí, em 90% para o sucesso de uma peça foi a representação. E a representação, valham-nos os deuses, a representação foi do mais medíocre que se tem visto neste planeta. Com um acréscimo grave: os atores acharem-se a última bolacha do pacote sem se darem conta que o pacote já passou do prazo e está tudo rançoso. 

Isto do teatro, como tantas outras áreas da arte, não é para todos e não basta montar uma coisa qualquer,  de preferência muito grande para parecer que envolveu muito trabalho intelectual,  espalhar uns cartazes e cobrar uns bilhetes. 
Nisto do teatro,  como em tantas outras coisas da vida, ou se tem ou não se tem.

Agora vou ali picotar os pulsos com pioneses e enfrascar-me em valiuns e já venho.
(vou sonhar com esta porra.  merda.)



Sobre as desilusões e a morte de golfinhos no Rio Ancão




Este título surgiu-me na cabeça quando andava nas lides domésticas, mas com um twist: "Sobre as desilusões e a morte de golfinhos no Pacífico".
Surgiu como metáfora, irónica, do que se passou e passa na minha vida, e naquele momento em particular. Sobre como não ter desilusões e existirem golfinhos no Pacífico é tão improvável como conseguir comer um gelado dentro de um vulcão. Mas afinal não é. Apesar de ser um bocado tonta, não sou totalmente estúpida, e tem vezes que gosto (ou prefiro ou acho mais seguro para não fazer más figuras) estudar as matérias antes de escrever sobre elas.
Pois bem, descobri que o título não podia conter "golfinhos no Pacífico" se me queria referir a uma impossibilidade porque, para grande espanto meu, existem golfinhos no Pacífico. Pronto, vá, não fiquei espantada, mas o "Pacífico" soava melhor no título e eu sabia que não podia ser e lá tive de ir procurar no globo um local com água onde não existissem golfinhos. Comecei pelos oceanos e não tive sucesso: existem golfinhos em todos os oceanos do planeta. Tive de passar para os mares. Nos mares também não me safei (ainda que a pesquisa não fosse exaustiva) e, bem sei, estarão a pensar no Mar Morto mas, a palavra "morto" não caía bem num título onde já consta a palavra "morte". Preciosismos, talvez. Falta de rigor, mais provavelmente, porque primeiro deviam estar os factos. Mas o blog é meu e eu faço o que quiser. E o cérebro também é meu e eu meto-o nos labirintos que me apetecer. Apeteceu-me prescindir do Mar Morto em favor de um título mais escorreito. Depois virei-me para os lagos, poças, riachos e lá cheguei aos rios. Só uma pequena nota: extinção dos golfinhos? Nunca vi tantos num momento em que precisava imenso não os encontrar em algum lugar.
E pronto, voltamos ao que interessa - a mim, pelo menos - que era a questão da metáfora entre as desilusões serem uma inevitabilidade na mesma medida em que é impossível existirem golfinhos onde? No Rio Ancão. Confesso que não fui confirmar esta informação de não existirem golfinhos no Rio Ancão. Estou a lançar-me sem rede, à maluca, completamente crente que desta vez acertei. Pensei no Rio Ganges mas, os Deuses sabem melhor que eu e talvez me tenham sussurrado ao ouvido que, naquele Ganges há muita vida para além da morte e, existirem golfinhos, talvez não seja assim tão impossível.
Ah, a parte da metáfora, que me está sempre a escorregar:
"Não há golfinhos no Rio Ancão como não há vida sem desilusões".
É só isto.
Não, não era mais que isto.

Pronto, já levaram uma seca sobre golfinhos, hein?!
Que legal!
Vamos então ficar por aqui.


[E este post também se podia chamar "Pensa lá numa coisa que não interesse a ninguém mas onde percas muito tempo".]


Mas para mim, isto nunca foi sobre golfinhos.


20.12.16

É tudo uma questão de electricidade



Este ano houve uma pessoa que me disse que eu tenho más energias.
Estranhamente,  e nunca pensei vir a dizer isto,  não posso concordar mais... darling.

Se não vejamos:
- O eletricista esteve três meses para vir instalar os focos do corredor e afinal a coisa morreu na praia;
- A máquina de lavar loiça avariou,  foi ao médico,  e ainda não voltou (RIP);
- A rede elétrica da cozinha foi-se e não estou a ver jeitos de se vir por sua iniciativa;
- E isto podia acabar aqui mas, ai as ironias, a EDP foi uma fofinha e mandou uma conta que upa upa... cheia de energia.

E é isto.
Sim, sou uma pessoa cheia de más energias.
Sou a primeira a dizer.
Mas são só minhas, fiquem descansados, que isto não gangrena.


Rapidinhas



Coisas rápidas que tenho a apontar sobre o mundo antes que chegue o Natal e eu tenha coisas ainda menos felizes a dizer:


Sobre a cerimónia de juramento de António Guterres como secretário Geral da ONU, li muitas coisas nas redes sociais escritas por tugas como "Bravo Portugal!", "Parabéns ao povo Português" e por aí adiante.
Corrijam-me se estiver a ver a coisa mais curta que devia mas, "Bravo Portugal" porquê?
O que é que nós fizémos?
O mérito não é todo do próprio António Guterres?
E sou eu que sou esquecida e nova demais, ou andámos muitos anos sem saber, nem querer saber, do António Guterres e do que ele andava a fazer fora de Portugal?
Somos um bocadinho parvos nisto de querer colher louros que os outros fizeram por ter, só porque somos todos portugueses. Somos todos muito patriotas nestas alturas em que o mundo nos vê com as lentes cor-de-rosa mas, e não gostava de ser portadora de más notícias, é provável que metade do mundo não saiba ou que António Guterres é português ou onde fica Portugal. Desculpem.



Fuck me... Chiano Ronaldo ganhou uma bola de ouro e eleva o nome de Portugal no mesmo dia.

Isto faz-me lembrar o dia em que a Madre Teresa de Calcutá morreu. 
Coitada, não teve a culpa, mas foi logo morrer ao mesmo tempo que a princesa Diana e está-se mesmo a ver que não havia espaço nesse dia para duas pessoas nas notícias do país  e do mundo. 
Muito menos do mundo... que é tão pequenino e coiso... coisinho...



"Bob Dylan estava ocupado".

Alguém me explique o que será que há de mais importante para fazer que isso de ir receber um Nobel que não possa ficar para depois?
Porra Dylan, vai-te encher de moscas.
Eu ainda nem tinha exprimido a minha opinião sobre o Bob Dylan receber o Nobel da literatura porque, em boa verdade, a coisa resume-se a isto: eu nunca curti Bob Dylan. Não é a minha cena. Eu é mais Beyoncé. E por essa razão, assumindo que sou eu que ando contra o mundo, nunca me interessei por Bob Dylan e, consequentemente, perdi a legitimidade de falar nele, também não podia vir dizer que achei a maior barbárie entregar-se um Nobel da literatura a um músico (sim chamem-lhe autor, escritor, letrista. No The Big Picture queria ver se não respondiam que o homem é músico, quanto muito, vá, cantor).


Porra oh Bob Dylan, a sério, é caso para perguntar, onde estavas tu no 25 de Abril?




14.10.16

"Sou tão feliz"

Sou tão feliz



Não, acalmem-se, não sou eu que "sou tão feliz", assim de um momento para o outro. Quem dera.
É o Marco Paulo.
Ontem, nas minhas Googlices e Youtubices, de vídeo em vídeo, (comecei pelo "Anita" e sugiro que vejam um menos conhecido "Cá se faz cá se paga") deparei-me com a participação do Marco Paulo no Festival da Canção em 1967. 
Ora, eu nem sabia que o Marco Paulo tinha participado num Festival da Canção (evento que eu tanto, mas tanto, prezava - vejam o tempo verbal), quanto mais em vários, e que aqui tinha apenas 22 anos e... não se façam de sonsos, não me digam que aqui não parecia o Cristiano Ronaldo.

Chaladices à parte, o que me impressionou nisto, para quem já viu o vídeo, é esta brilhante interpretação, é a classe da época e é o ponto de interrogação crescente e inevitável do: "e se?".
E se o Marco Paulo não fosse de cá, e tivesse tido alguém que o conduzisse numa carreira menos romântica e popular e o tivesse encaminhado para uma carreira mais ambiciosa, profissional, glamourosa, internacional? Algo mais classy. Não queria cair na comparação fácil com um Sinatra mas o nosso Marco Paulo bem que podia ter estado lá. Vejam-lhe bem a postura. A voz, nem vamos falar. Ainda hoje há que reconhecer que tem um dom: o de cantar.
Talvez o Marco Paulo tenha feito exactamente o percurso que queria e tenha exactamente a carreira que ambicionada mas, depois de ter visto este momento singular, fico com a sensação que as opções dos 22 anos nos deixam sempre ficar mal e, que se soubéssemos naquela idade o que sabemos aos 62, seria tudo diferente. Mas também aquele brilho nos olhos o seria com certeza, porque já saberia que o que vem a seguir não são só rosas.

No ano de 1967 quem venceu o Festival da Canção foi Eduardo Nascimento com a mítica música "O vento mudou" cujo refrão conheço desde miúda porque, ao que consta, a coisa foi polémica por questões políticas e a minha mãe, de quando em vez, em modo de gozo, cantarolava isto lá por casa. Não é bom, nem é mau, marca uma época. Ninguém sabe que é feito do Eduardo Nascimento, bom cantor, por certo, todos concordamos que não seria, e também não será culpado do Marco Paulo não ter vencido, porque o Marco Paulo ficou lá para o sexto lugar.

Um dia crio aqui a etiqueta só dedicada ao Festival da Canção porque isto tem sumo que nunca mais acaba.
No ano em que nasci ganhou das mais emblemáticas músicas de sempre e, a minha preferida, foi a de Maria Guinot que, apesar de ser um tiro ao lado neste tipo de concursos, é de uma extraordinária beleza.
Quem não se perder com a frase "troco a minha vida por um dia de ilusão..." não anda cá a fazer nada.



7.10.16

O post mais repetido de sempre... que também se podia chamar "Gina Lollobrigida"



Eu, estou farta de ser eu.
Sim, já disse isto tantas e tantas vezes.

[Há dias em que me apetecia ser assim, sei lá, a Gina Lollobrigida. Quando era da minha idade claro. Que era boa p'ra cacete, só lhe olhavam para as mamas e não precisava de dizer pão com queijo porque de qualquer maneira ninguém a estava a ouvir. Não precisavam dela para salvar o mundo e, caso ela própria precisasse de ser salva, aparecia meia-dúzia (ou dúzia e meia) de marujos prontos a ajudar. Labirintos psicológicos imagino que também não os tivesse que aquilo deve ser uma linha recta de cérebro que, valha-nos Deus, até deve dar sono, e não digo isto com desprimor, é mesmo com pena de não sofrer do mesmo mal, porque, neste momento, tudo o que eu mais queria, era ter um cérebro em linha recta em vez de parecer um intestino de um porco vietnamita. Estou cansada. A Gina Lollobrigida por esta altura também estará, mas, com a minha idade não estava. Estava viçosa que nem uma alface. E eu hoje, só queria ser a Gina Lollobrigida. Não para parecer uma alface, que já estou lá perto, mas para estar viçosa e, claro está, para não ter de ser eu. Porque ser eu, meus amigos, ser eu, é pior que ser a cama onde a Gina Lollobrigida deu puns a vida toda depois de comer fois gras com espargos braseados (experimentem que vão ver). E é nestes dias, em que não consigo fugir da minha vida mas dou por mim a evadir-me de mim mesma, que penso nestas coisas e penso noutras ainda mais desconcertantes, como o conhecer uma Gina, uma Lolla e uma Brígida. E o mundo é assim. Divertido. Irónico. Redondo. E eu é que ando sintonizada no canal errado ou menos medicada do que devia.]


19.9.16

Homem por instantes

Esta imagem só porque me diverte
[e para a minha amiga Elsa que diz que vai ter pesadelos]




A comida demora sete segundos a passar da boca ao estômago. O cabelo consegue aguentar até 3 kg. O comprimento do pénis é  três vezes o comprimento do polegar. O fémur é tão duro como o cimento. O coração das mulheres bate mais depressa. As mulheres piscam duas vezes mais os olhos. Usamos trezentos músculos para manter o equilíbrio. As mulheres leram o texto inteiro... O homem continua olhando para o seu polegar.


[Encontrei isto entre umas coisas antigas. Não sei porquê hoje achei graça. Quer dizer, eu sei porquê: porque também fiquei a fazer contas ao polegar... gaita...]




11.5.16

Sobre a morte e as desavenças





Não valem a pena.

Ambas.




1.5.16

Dia da mãe



"A investigação realizada no Brasil envolveu 6000 bebés desde 1982 até à idade adulta, de várias classes sociais e ambientes, e descobriu que aqueles que foram amamentados durante mais tempo provaram ser mais inteligentes, passaram mais tempo na escola e ganharam mais do que os que tiveram um período menor de amamentação (...)"



Esta notícia que saiu no Público e que vem sendo recorrentemente publicada e divulgada e que, sobretudo, vai passando de conversa em conversa entre mães, A-BO-RRE-CE-ME. 
Eu sou filha de uma mãe que nunca bebeu leite. Nunca. Nunca chegou a mamar porque detestava leite, nasceu a detestar e assim continua. Não acho que a minha mãe seja menos inteligente e mais falhada que a restante humanidade.
Depois venho eu, este caso especial de inteligência. Eu mamei uns míseros dois meses? Talvez, no limite, três meses?
As licenças de maternidade na altura em que nasci eram de três meses e, por essa razão, quem tinha de ir para um infantário não mamava mais que o tempo que estava em casa a gozar das maminhas da mãe no seu período de licença.
Antes do meu tempo, pouco antes, as licenças de maternidade eram de um mês. UM MÊS! Essas pessoas que mamaram um mês são hoje as pessoas que levam este mundo para a frente. São a maioria dos trabalhadores e contribuintes activos, entre muitas outras coisas que nem vale a pena elencar.
Pois pergunto eu:
Somos todos menos inteligentes que os que mamaram até ter dentes, ou até entrar para a escola?
Somos todos estúpidos e incapazes?
Temos todos menos sucesso e piores empregos e remunerações (bom aqui, talvez pense melhor...)?
Eu sinto-me lesada com estas notícias.
Mães deste mundo, por favor, não se massacrem com o facto de não conseguirem amamentar. Não sejam escravas das pressões sociais e cientificas e religiosas e sei lá mais o quê. Não se martirizem porque no dia em que o vosso filho tirar uma nega a matemática, foi porque não mamou. Não culpem a falta de amamentação no dia em que ele bater com o carro pela primeira porque isso pode ser só aselhice.
Ainda se me dissessem que a amamentação proporciona defesas e anticorpos e que era melhor beber mamas até aos dez anos que levar trinta vacinas, ainda vá, eu ia estudar melhor o assunto, agora falarem-me da falta de inteligência é que me dá cabo da mona.

E agora perguntam vocês:
Mas onde é que ficam os pais - homens - no meio disto tudo?
No bem-bom. No bem-bom. Lindos e intocados na foto de família porque, afinal, nem são eles que têm de dar de mamar.


[Este texto estava escrito há mais de um ano e decidi resgatá-lo hoje. Não foi fruto do novo estado de graça.]



17.11.15

Oops, caiu!



A propósito do que se tem passado na nossa vida política, neste inédito momento da nossa vida política, lembrei-me desta receita do Chef Massimo Bottura e que tem um nome curioso, como quase todos - se não todos - os que coloca nos seus pratos: "Oops! I Dropped the Lemon Tart"


Precisamos desta introdução...
The Italian topchef Massimo Bottura was about to come to The Netherlands to do a presentation at a food festival, as well as an interview with us. Unfortunately because of the earthquakes in Italy around that time he could not make it. But he was kind enough to send us this beautiful recipe for a slightly different lemon tart!
Massimo: “This playful dessert was inspired by my early days in the kitchen. I was totally obsessed with food as a child but very impatient as a young chef. I wanted to be able to create perfection from day one. When my mother was teaching me her technique for Emilian crostata crust, I was not giving her the attention I should have. The first couple of batches turned out crumbly or too hard. Every time I was dissatisfied I would throw the pie on the table and blame her:
“This is not the right recipe!!!!” After many broken pies, I learned how to kneed the dough properly. I never broke another pie until last year when one literally fell on the floor. Only then did I think about how important those first pie lessons were to me and appreciate how very patient my mother was with me. This dessert, by the way, is now my mother’s absolute favourite!
This dessert pokes fun at our daily strive for perfection and pristine beauty. I love the dynamics of a lemon tart but hate all the fuss- cream decorations and stubborn crusts. To get around all that nonsense, we purposefully crushed our tart. Of course, it isn’t just a one liner but full of flavoured experience from the most fragile crust to the peaks of tart, sour, sweet, cured and candied lemon on the plate.”

Penso que todos temos algo a aprender com esta tentativa/erro do Massimo Bottura, e com a sua impaciência em alcançar a excelência. Com esta lição sobre a displicência com que se olha para os que detêm o saber, apesar de nada sabermos, porque somos abalroados pelo nosso próprio ego. Muitas pelas vezes pela nossa imaturidade.

Não há nada de errado em querer ser-se perfeito. Não creio que haja. Mas há algo de pernicioso em querer-se ser perfeito sem primeiro aprender e sem se ter a humildade de se reconhecer que não se sabe tudo, não se conhece tudo. Muitas vezes temos de saber reconhecer que não dominamos o assunto que queremos dominar. Aquele que nos é caro ao coração. E, como tal, para bem dessa aprendizagem e dessa evolução que nos levará à luz de um conhecimento que nos conduzirá à excelência, por vezes, muitas vezes, talvez quase sempre, é preciso parar.
Parar para observar, ouvir, olhar, aprender, conhecer, errar, voltar a tentar, cair e voltar a erguer. Lá pelo meio, ou talvez no fim, teremos aprendido algo.

Massimo, apenas ao fim de muitos anos conseguiu dominar a técnica da massa da tarte de limão da sua mãe.
No dia em que deixou cair uma dessas tartes perfeitas ao chão foi quando deu realmente valor ao que a mãe lhe tinha ensinado.
Foi quando compreendeu, realmente, a matéria-prima de que era feita a tarte e a arte que foi preciso adquirir para a saber trabalhar.

Por estes dias caíram coisas no nosso país.
Ergueram-se outras que não sabemos por quanto tempo estarão erguidas. Porque não sabemos se tiveram tempo para ser aprendidas. Se tiveram tempo para ser erradas e, com isso, ter a possibilidade de se voltar a tentar, a corrigir, e a refazer.
Todos temos a aprender, com esta queda acidental da tarte de Massimo Bottura. A aprender que, por vezes, uma queda acidental nos faz pensar nos atos do nosso passado, nos faz dar valor às coisas que anteriormente não demos e nas coisas que desprezámos.
Gosto particularmente da ideia de, durante anos, insistir numa tarefa até que esta se torne perfeita e oleada e depois, muitos anos depois, quando estamos plenamente confiantes, a vida nos venha relembrar que não sabemos nada e que a aprendizagem é constante.

Gosto da ideia de que, mesmo de um acidente, pode nascer uma obra de arte.

Todos temos a aprender alguma coisa com esta história, ou não?
A nossa tarte caiu, mas e nós? Aprendemos alguma coisa com isto? Vimos-lhe alguma arte? Ou vamos apenas limpar o chão a pensar que foi tudo um acidente?



22.10.15

"Vamos lá cambada, todos à molhada..."



Eu não percebo muito de política mas...

Juntar o Boom Festival, com a Festa do Avante e um concerto no Coliseu dos Recreios, vai dar uma grande salada russa, não vai?

#oquedizerquandolhesjuntaremasóperasnoSãoCarlos
#lásefoiaFestadoPontal
#chamemoAvôCantigas
#voltaJudasestásperdoado



13.10.15

Modalidade Olímpica Nacional




Desde as eleições que ando a ouvir, aqui pelos gabinetes do trabalho, colegas meus a ter debates apaixonados sobre o tema.
Na verdade são mais conversas de surdos porque, se eles próprios se ouvissem haviam de perceber que está cada um a falar para seu lado, não ouvem as opiniões uns dos outros, continuam a conversar sem que as frases e raciocínios se articulem num diálogo, não chegam a conclusão nenhuma e, se bem me parece, ninguém quer denunciar o partido que defende mas, pelo sim pelo não, todos falam mal da situação em que estas eleições meteram o país.
Conversa de surdos com muito lume à mistura.
Cheguei rapidamente a esta conclusão do lado de cá da, infelizmente, mui fina divisória do gabinete:

O desporto preferido dos portugueses é: meter lenha.

Podia até passar a modalidade olímpica.
Os portugueses são mesmo, mesmo, bons é a meter lenha e nisto ninguém nos tira a medalha.

E eu aqui a pensar que, se calhar, eu é que estou mal e devia ter mais opinião sobre o assunto - que até tenho - e que devia chegar ali àquele lado e levantar o punho esquerdo e dizer meia-dúzia de alarvidades em tom irado, meter ao barulho as palavras "ladrões",  "aldrabões", "vigarices", "dinheiro", "iguais", "tacho", e a coisa estava composta e eu passava a fazer parte da matilha mesmo que não tivesse dito porra nenhuma. Tal como eles que, espremendo a conversa, também não disseram.
Foi só mesmo falar mal por falar.
Fez-me lembrar aquelas noites de Natal em que está um calor que não se pode na sala mas, como faz parte da tradição, tem de se enfiar lenha a noite inteira na lareira mesmo que aquilo já pareça uma fornalha. Às tantas já nem faz sentido mas continuamos a fazer porque "faz parte".
Aqui é a mesma coisa. Neste meu estimado Portugal - que o é, e não o digo com ironia - temos este espírito tradicionalista de nos agarrarmos a costumes sem sentido e teimarmos em dar-lhes continuidade. Em deixá-los como herança. E isto de meter lenha nos assuntos, qualquer que seja, a par do outro desporto nacional que é ir aos supermercados e centros comerciais aos fins-de-semana, é só mais uma dessas heranças.


[Fátima Campos, muda mas é o nome do programa para "O Recuperador de Calor" ou "A Salamandra" ou "O Lenhador" ou "Portugal a Arder" ou "Vamos deixar de ser parvos e tentar ser produtivos".]



29.9.15

As florestas

Merve Ozaslan



As arverens serem pequenas,
E as florestas serem grandes,
Nós gostaramens de vacas,
Nam curtirames elefantes.


Ora aqui fica este pequeno apontamento, um interlúdio, a esta temática tão fraturante da sociedade atual, de ontem, de hoje e de amanhã: As florestas.

Pois que, meus caros, hoje vos trago este assunto que me tem perseguido nestes dias e que, não podendo ignorar o mesmo, ainda que o mesmo teime em se apresentar a mim de modo ignorante, terei de vos relatar de forma dolorosamente real, ainda que, para menor sofrimento da humanidade em geral, queria eu, acreditem, fosse uma generosa fabulação da minha mente. Não o é.

Comecemos, pois, com o primeiro episódio.
Dou-vos, ainda antes, umas dicas para que o relato não vos caia de chofre no colo, sem qualquer aviso prévio.
Este momento desconcertante mete palavras como: floresta (óbvio), vacas e queijo. Todas juntas, bem entendido seja.

Pois que por estes dias me desloquei a uma dessas grandes superfícies a que os humanos de raça inferior se têm de deslocar frequentemente para sobrevivência da própria espécie: um hipermercado.
Dirigi-me à charcutaria, meti o dedo naquele equipamento que emite uma senha com um número, e, como qualquer mortal (e a beleza de nada nos serve nestes momentos, que pensar, então, da excepcional inteligência) tive de aguardar a minha vez.
E eis que tudo sucede.
Um ser do sexo masculino, acima dos quarenta anos, abaixo dos cinquenta, de compleição física bastante aceitável, e vestuário aceitável para a região do país em que se encontra ainda que não satisfazendo os meus gostos pessoais, assoma-se ao balcão e inicia este diálogo com a funcionária da charcutaria, uma mulher, talvez mais jovem que ele mas aparentando ser mais velha, seguramente ali colocada após sair do complexo turístico de Tires:
- Boa noite, dê-me 200gr desse queijo aí, por favor.
- Deste??? Têm a certeza??? Ai filho, pamórdedeus... Já provou isto?
- Hmmmm... Não, de facto não.
- Até lhe dou um bocado. Tome lá (atirando-lhe uma fatia do dito queijo para as mãos).
- De facto...
- Ainda por cima é mais caro. E essa cor? Amarelinho, hein? Bem bom!!! Credo!!! Já viu este aqui do lado? Ó homem, não leve isso pela sua saúde.
- Bom, já que insiste...
- ´Tá a ver? ´Tá a ver que eu sempre tinha razão? E já viu bem o nome deste queijo? Já viu bem? 'QUEIJOooo DAaaa FLORESTAaaa'. Nunca mais se esqueça deste nome: queijo da floresta.
Diga-me lá: Já alguma vez viu vacas na floresta?
Não, 'né?
Então como é que o queijo há-de ser bom?
Pense nisto amigo, pense nisto.


Bom, eu tinha mais uma pessoa de idade à minha frente e poderia fazer todo um relato sobre o seu pedido de fiambre da pá, mas o diálogo não mete a palavra floresta e eu não quero perder o foco pelo que prosseguirei o caminho que encetei, na certeza de que, a vossa atenção sobre este assunto já estará por esta altura, totalmente, absorvida.
Pois segui-me no próximo episódio.

Hoje, hoje mesmo, numa reunião com um homem que, enfim, sem desprimor para a raça, se apresentou com calças já descidas ao nível do rabo, talvez, diria, sem querer ter medido muito com os olhos, uns seis dedos abaixo do que seria humanamente aceitável. Pois isto descompensa logo uma pessoa de superior sensibilidade como eu. Não obstante, o homem ser uma pessoa tão devota à sua mãe e a um qualquer clube futebolístico cujo animal que o representa tem umas asas, que fez o favor de os tatuar no corpo e oferecer aos olhos dos outros como se de uma dádiva se se tratasse, uma pessoa lá tem de trazer a si o melhor que tem ao nível profissional e, de quando em vez, ir lá abaixo, às grutas húmidas onde estes seres habitam, e tentar estabelecer comunicação com eles:
- Diga-me, então o que o traz por cá?
- Pois, atão, quero mudar o telhado.
- Hmmm... Quer mudar, ou já mudou?
- Não, atão? Quero mudar. Aquele 'tá podre, 'né? Os barrotes, aquilo tudo, ´tá tudo podre.
- Então, está-me a dizer que precisa substituir toda a cobertura, inclusivamente toda a estrutura em madeira?
- Sim, pois.
- E consegue executar todo o sistema de suporte em madeira conforme o existente? Que madeira é que vai usar?
- Madeira? Atão, madeira, vou usar daquela madeira normal.
(baixa em mim aquela mulher das cavernas que todos trazemos no ADN mas que teimamos em arrumar debaixo de uns sapatos Prada)
- Ó homem! Madeira normal? O que é que é madeira normal? JÁ VIU ALGUMA FLORESTA DE MADEIRA NORMAL???
- Pinho. Ou casquinha.
- Ah bom, chiça. Agora madeira normal!!! Ainda me há-de dizer que gaita de árvore é que dá madeira normal. Vai ao carpinteiro e diz o quê? "Olha pá, dá-me aí um barrote de madeira normal"??? 
Já se está mesmo a ver que só vai sair daí asneira. Se ainda nem começou já vai assim, quando acabar... deve lá ter asnas em amianto!

E pronto, depois desencarnou o espírito mau que, uma vez por hora, baixa em mim.
Por esta altura já estou recomposta, já estou branda e serena, pronta para limpar estes pensamentos.
Sonharei, seguramente, com uma qualquer floresta deste país, do mundo quiçá, mas não queira Deus que eu sonhe com aquele vale renegado que encerrava o fundo das costas do homem das asnas em madeira normal, porque, a bem dizer, já tive a minha quota de obscuridade por hoje.