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7.8.25

Isto

 

 

 

Não percebi logo o que isto era.

 

Ou talvez minta.

Minto sempre.

Percebi muito bem o que era, logo no primeiro instante.

Conheço-me.

Primeiro aquilo atingiu-me como uma onda que me deixou surda.

Gozei aquele momento em que dói mas dá prazer.

Depois apressei-me a mentir a mim mesma.

Digo-me sempre que não é nada.

Não, não é a primeira vez.

Sei o que é, porque é sempre igual.

Dentro da minha cabeça sei que é alguma coisa.

Aliás, sem muito bem o que é.

Porque me consome.

Porque toma conta de mim, lenta, mas desmesuradamente.

Quando percebo que me tenho de deixar de mentir, já as minhas vísceras foram comidas.

Já só sobraram os restos da imoralidade.

A atormentarem-me.

 

Hoje, alguma coisa mudou.

Sinto-me adormecida.

É a rendição. 

O fim.

Por um lado, é o fim.

Devia sentir alívio. Ou tristeza. Ou nostalgia.

Mas sinto pena.

De mim.

Perco, hoje, isto.

A doença que me salvou.

 

Não era para ser.

Nunca foi.

Deixo-a ir.

Mas com dor.

 

Já sinto saudades.

Espero que aconteça, de novo.

 

 


 


8.7.17

Epifanias




Há um dia em que aquela pessoa, que não é mais que apenas uma pessoa na tua vida, se torna muito mais que uma pessoa até mesmo dentro da pessoa que ela é.





3.6.17

Um dia sou despedida





Estou pelas pontas dos cornos com as pessoas, mais à conversa sobre a incompetência dos funcionários públicos.

É sempre a mesma puta da ladainha que os funcionários públicos é que arruinam com a vida das pessoas.
Que os funcionários públicos são umas putas de borda de estrada que se vendem por meia-dúzia de tostões. Que são corruptíveis por um par de meias de descanso. Ou, então, que os funcionários públicos são uns inflexíveis do caralho. Depende daquilo que der muito jeito ao requerente. Pronto, aqui vá, já é uma questão de conversarmos, não é suas pêgas?
Também adoro quando começa a conversa que os funcionários públicos só vivem de regalias. Se há porra de regalia a invejar (além do esplendoroso ordenado, upa, upa! progressão na carreira, motivação, avaliação, colegas a cheirar a refugado...) é pagar o seguro de saúde mais caro do país. Aquela coisa chamada ADSE e que custa pouco mais de 50 paus/mês. Querem?
Mas, talvez a melhor, é a ideia generalizada de que os funcionários públicos não trabalham. Foi assim uma merda de um boato que surgiu tipo "O Markl tem graça", e às tantas as pessoas começaram mesmo a achar que sim e a espalhar a palavra. E o que não era bem verdade, tornou-se numa verdade indiscutível.
E eu pergunto: ai não trabalham? Então andam todos a fazer o quê? Ai esperem, estou-me a fazer de sonsa, eu sei:
Passam a vida no café a coçar a rata, a conversar sobre o Love on Top, a rir em voz alta e a ver a Nova Gente, enquanto uma fila de malta por atender se acumula no guiché.
E também têm outra tarefa, aquela que os fez reencarnar neste mundo e que é a sua missão na terra: infernizar a vida às pessoas. Por nada. Assim racionalmente, não há razão nenhuma, mas o deuses, há milénios atrás, acharam que tinham de se criar grupos de pessoas que só soubessem dizer que não a tudo, a outros que só queriam que se lhes dissesse que sim a tudo. 

Na década de noventa havia uma publicidade institucional, de carácter pedagógico e cívico (foi quando deixámos de cuspir para o chão. regredimos entretanto), que dizia:
PORTUGAL NÃO É SÓ TEU!

Devia ser recuperada.
Estamos cada vez mais egoístas e estúpidos. Bestas. Para com os funcionários que trabalham para nós, público.
Respect!


Pronto minha gente.
Fica este leve apontamento de fim-de-semana.
A bem da nação, e talvez do meu contrato de trabalho, chegou a sexta-feira.

[Deixo um agradecimento especial ao meu colega do lado que me deixou exprimir livremente nestes últimos dias recorrendo a vocabulário pouco próprio, e que ainda sorria como se estivesse a achar a alguma graça quando ambos sabemos que já nem me estava a ver.]


11.10.16

Do lado direito bate o coração




O teu coração é que estava certo.
A bater do lado direito.
Os nossos, esquerdinos,
Como todos os outros,
São só mais uns,
Entre tantos.
Iguais entre iguais.
A baterem do lado errado,
Pensando que batem do lado certo.
A viverem de viés,
Numa existência já de si torta.
O teu coração,
Que ousou romper do peito,
Escolher outro caminho,
Sabia que o amor se sentia mais,
Se nascesse do lado improvável.
Sabia que num abraço,
Entre duas pessoas,
Que se amam,
Ou se odeiam,
Um coração do lado direito,
Bate colado ao coração do lado esquerdo.
E há lá poder maior!
Haverá magia maior!?
Sentir dois corações colados,
A bater a compasso,
Ou descompassadamente,
Mas sempre,
Sempre,
Num momento único.
Como tu.
E o teu coração.
Haverá lá maior poder,
Que poder mandar,
No próprio coração?


24.9.15

Égoïste




Gostava de me voltar a cruzar com todos os homens com quem já estive e dizer-lhes:

Agora 

estou 

assim.



7.9.15

Catarina



Separa-nos a distância,
Uma vida,
Tantas vontades.
Queira Deus,
Ó Catarina,
Que nos reencontremos,
Num destes dias,
Entre sorrisos,
E abraços,
Contigo mulher,
De carácter forte,
Plena de coisas,
Para me contares.



[À minha afilhada maior, mais velha, mulher feita, e que me faz sentir também velha, ausente, e com vontade de ser melhor para os outros. 
Sem saberes, Catarina, deste-me a maior das lições nisto de, perante Deus, assumir a responsabilidade de guiar alguém na vida cristã: a lição de assumir apenas um compromisso que se esteja à altura de comportar. 
Contigo não me tenho portado à altura, mas tens-me ensinado a não falhar como os outros que se te seguiram. Aqueles a quem não consegui dizer não, porque também os amo, aqueles onde vi uma oportunidade de me redimir como madrinha, como orientadora para uma vida cristã.
Obrigada Catarina, apesar de não saberes porquê.]




23.6.15

Ao meu filho



Quando leres esta carta ela terá mais de quarenta anos. Talvez mais de cinquenta. Eu já terei partido.
A mãe escreve-te esta carta à distância do tempo em que soube que não te iria ter. À distância das dores dos dias em que soube que não te poderia ter.
Mas a mãe, bem sabes, porque te hão-de ter contado todas as minhas epopeias e as minhas tempestades de espírito, teve uma daquelas personalidades difíceis de abalar. E perante um desejo tão profundo, teve dificuldade em deixá-lo para trás e por isso lutou com todo o tempo e forças que lhe restaram na vida para o concretizar: ter-te.
Quando leres esta carta, sei, porque sei, e os que cá ficaram ter-te-ão contado porque é que sei, que já cá não estou. E, por essa razão, estás a ler esta carta sozinho. Mesmo sem saberes bem porque é que esta pessoa que não conheceste te deixa estas palavras. Sem saberes bem porque é que este amor me moveu a lutar por ti. Sem compreenderes como e porquê se luta por uma coisa que não existe. E é por isso que te escrevo esta carta. Para te explicar porque razão te quis tanto depois de saber que não te podia ter. Porque razão se passa uma vida a não querer algo e depois, perante a confirmação de que efectivamente não a teremos, afinal, já a queremos tanto. Não será uma lição de vida meu filho. Essas aprendem-se vivendo. É apenas a história do dia em que soube que perante a possibilidade de não te vir a ter te passei a amar e a querer ainda mais. Como uma menina mimada. É a história desta mulher mais nova que tu, em relação à idade que terás neste momento em que lês a carta, e que, no entanto, já é tua mãe mesmo sem o ser. Tens, neste  exacto momento, o amor mais honesto, desapegado e sincero, que uma mulher alguma vez te poderá dar. Tenho agora trinta e quatro anos e amo-te a ti e ao teu pai e a história desta carta resume-se a isso. 
Amo o teu pai karmicamente, para além do humanamente compreensível, e quis perpetuar esse amor numa comunhão genética que, apesar de se mostrar difícil, na minha cabeça, sairia perfeita. Não sei se és perfeito, mas na minha cabeça sempre imaginei que sim. Feio como o teu pai, inteligente como eu. Era assim que o desejávamos. 
Vou ter-te, se não me falham os astros, para lá dos meus quarenta anos, e o meu corpo, já saberás a história, não aguentará. Vou deixar-vos, amores da minha vida, entregues um ao outro. A ti e ao teu pai, num choro despregado, por razões dolorosamente diferentes. 
Não sei se compreendeste tudo o que te disse. Não sei se compreendeste o propósito destes palavras e de tantas voltas. Não sei se justificas uma vida com outra. Mas no fim, contas feitas, a única coisa que quero que compreendas passados tantos anos, é que tudo, tudo, todas as lutas, todas as perdas, todos os choros, resumiram-se a uma só coisa que podia ter poupado todas estas palavras: o amor.
No dia em que soube que podia não te ter, senti mais amor por ti, e senti que podia não estar a dar todo o amor que devia ao teu pai e isso assustou-me: poder viver sem mais amor. Já imaginaste o que é passar uma imensidão de vida sem qualquer espécie de amor?
Apesar do corpo, o meu, apesar de Deus, o nosso, não nos ter traçado a tua existência eu quis mais. E consegui mais. Eu ousei arriscar ter todo o amor possível na nossa vida. E tive.
Nesse dia dei-te o meu lugar.
Não podíamos ficar os dois.

Perdoa-me, se ainda não o tiveres feito.
Acredita na eternidade porque é lá que nos encontraremos e te poderei dar um primeiro abraço.
Eu jovem. Tu velho. O teu pai... sem idade, como sempre o vi.



30.4.15

Tragédia!

Matthieu Bourel


Tragédia!
Tragédia!
Oh, horrores!
O maior drama
das mulheres
É sofrerem 
De amores.

Que morra!
Que morra já!
O raio do trapaceiro.
Esse homem,
Esse mouro,
Que roubou um coração
Inteiro.

Que diabo!
Raios partam!
Tanto ódio
Em vez de amor.
Chama-lhe ele
Amor sincero.
Nega ela
Ser rancor.

Que tragédia!
Que tragédia!
Ser mulher
De mil amores.
Ter amargos de boca
Tantos,
Ter dores d'alma
Mil terrores.



14.2.15

Super-Tudo




Nasceste valente, feito para a vida.
Foste forte quando ainda nem sabias que o ias ser.
Que o ias ser por toda a vida.
Foste herói quando ninguém te o exigia.
Salvaste pessoas quando eras tu quem precisava de socorro.
Quando gritavas dentro de ti por ajuda.
Aguentaste tudo em silêncio na esperança de esse silêncio os salvar.
Porque lhes és grato e sabes que a tua desgraça os iria desgraçar.
Porque lhes tens um amor maior que a própria vida.
E por isso, por mais que também tu precisasses de ser resgatado dos lugares profundos e difíceis por onde andaste, mantiveste sempre a trajetória. 
Mesmo quando tudo indicava que te ias despenhar.
Aguentaste os voos impossíveis, com todos os que te amam às costas, e com todos os destinos por traçar porque, sem saberes, era essa a tua missão.
Por essa altura, mesmo com a tua negação, já todos sabiam que eras um Super-Herói.
Que ias vencer tudo e todos e que era isso que ia livrar-te a ti mesmo de todas as desgraças.
Que o teu amor pelos outros ia ser a tua salvação.
Mas enquanto os outros te enalteciam as virtudes, tu cresceste tímido, escondido numa capa.
Cresceste a olhar-te como fraco quando todos os outros viam um ser forte.
Pleno de Super-Poderes.
Mas não o reconhecias e viveste amargurado.
Com voos baixos, quase a perder o rumo, na iminência de um despiste.
As forças faltaram-te mesmo com a capa posta.
Mesmo com o punho erguido.
O menino tomava conta do homem e perdia-se.
No silêncio do teu refúgio, sem nunca o dares a saber, sei que as forças muitas vezes te faltaram.
Mas a tua maior virtude esteve, precisamente, nas tuas fraquezas e não nos teus feitos.
Esteve naqueles momentos em que voavas de um lado para o outro, de capa intrépida e alma desfeita mas, ainda assim, com ganas de fazer tudo para ajudar quem precisava.
Foste, és, verdadeiramente, um Super-Homem com um Super-Coração.
És um Super-Herói.
Um Super-Ser-Humano.
Um Super-Filho-Irmão-Marido.
Um Super-Lutador.
Um Super-Sobrevivente.

Meu amor, tu és o meu Super-Tudo.


17.11.14

Viajo porque preciso. Volto porque te amo.



Título do filme de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz - Brasil 2009 ... O filme com o melhor nome de sempre...



Andamos há demasiado tempo na estrada.
A contar traços brancos no asfalto negro.
A descontar dias aos longos anos.
A fazer uma viagem juntos em sentidos diferentes.
Quando chegas a partida já está marcada.
Quando parto tenho o regresso no horizonte.
É esse desencontro que nos une.
Aquele intervalo entre a ida e o regresso.
Aquele momento entre a tua partida e a minha chegada.
Entre o nosso encontro e a nossa despedida.
São aquelas escassas horas que se consomem em minutos.
E que nos desconcertam os abraços.

Quando conheceremos nós a estrada que encurta as distâncias?
Aquela a que as pessoas chamam de atalho.
Quantas mais estradas ainda teremos de conhecer?
Quando iremos nós percorrer o mesmo caminho no mesmo sentido?
Aquele que nos leva a casa.

Nada sabemos sobre o futuro.
Sobre as viagens e os quilómetros por fazer.
Não adivinharemos qual a noite em que entraremos juntos em casa.
Mas chegaremos um dia ao nosso destino sabendo o mesmo que sabemos desde a partida:
Viajamos porque nos precisamos.
Voltamos sempre porque nos temos amor.


31.10.14

Encenações



Sabes uma coisa?

Eu sei.


[E não foste tu que me contaste]



30.10.14

Ao largo do Camões aprendi



Tenho saudades tuas.

Tenho saudades da tarde em que comemos um gelado no Camões.
Sentados aos pés da estátua, sem cruzar muito os nossos olhares, apenas a trocar palavras contidas.
Recordo muitas vezes aquele dia em que nos vimos pela primeira e última vez. Ainda sinto saudades daquele dia, dos tremores na barriga antes de chegar a ti, dos sorrisos nervosos e hesitantes quando te encontrei, das palavras que me faltavam pelo caminho. Apesar do embaraço, do desconforto, que senti por ser eu mesma e não alguém melhor, senti-me ser invadida, aos poucos, por uma tranquilidade que vinha de ti. Foste bom comigo. Agradeço-te por isso.

Não me recordo exactamente da despedia. Tê-la-ei apagado da memória. Mas recordo-me do caminho até casa, que fiz a pé para poder repetir dentro da minha cabeça cada minuto contigo, sem interferências. Lembro-me da temperatura amena. Lembro-me de caminhar de cabeça caída para trás. Lembro-me de ter desejado que o teu corpo se tivesse colado ao meu, em algum momento antes da despedida. Lembro-me de não me apetecer estar com mais ninguém para além de ti e de desejar muito que aquele momento cristalizasse e se prolongasse pela noite dentro. Mas não podia ter sido assim.

Depois de nos despedirmos voltei a casa. Despi-me e tomei um banho de água quente. Voltei a vestir-me de outra pessoa que não era, para ir ao encontro de alguém com quem não queria estar. Caminhei uma vez mais a pé, para pensar e me castigar por ter tomado duas decisões erradas no mesmo dia. Caminhei, cheguei junto dessa pessoa sem sentir nada, jantámos, trocámos palavras sem calor (lembro-me de ele não parar de se auto-elogiar, de falar apenas de si, de quão excepcional era e de como o mundo girava à sua volta, sem nunca, sequer, perguntar se eu estava bem) e saímos do restaurante comigo em silêncio, eu com a cabeça em ti, e ele a matraquear-me conversas sem interesse.
Queria levar-me a casa, tentar o que não tentámos os dois, para se elogiar no fim.
Eu não quis. Tomei, finalmente, a única decisão acertada do dia.

Nesse dia, em que a tarde se pôs no Camões ao sabor de gelados de limão e caramelo, aprendi que temos apenas uma oportunidade para tomar ou desfazer uma decisão.
Desde esse dia lamento não te ter beijado.
Desde esse dia que aprendi que só tenho de estar com quem quero.


Tenho saudades tuas T.
Sei que estás bem.



21.9.14

Anónima






O que te fez voltar agora, sua ingrata?
Que forças foram essas que te empurraram do sítio onde estás para este sítio onde estamos todos?
Terás perguntado a ti própria se te queríamos de volta?
Se nos fazias falta?
Claro que não.
Julgas-te imprescindível na vida de todos nós, salvadora do mundo.
Não o és.
Terás, porventura, reparado que continuámos todos a viver sem ti?
Que o mundo continuou a girar mesmo sem estares aqui?
Um dia houve em que a respiração se suspendeu de desgosto mas, logo depois, as vidas seguiram. 
Tínhamos todos de seguir.

Responde-me:
O que te fez voltar agora, sua ingrata?
A vaidade?
Tinhas saudades de ver alimentada a tua vaidade?
Que todos se vergassem em teu redor, te fizessem vénias à retórica arrogante?
Era isso?
Sentiste falta do nosso amor, mesmo que invisível, por ser o único que ainda te restava nesta vida?
E quando foi que isso aconteceu?
Num dia de chuva, acompanhada pela solidão de uma banheira cheia de água, enquanto ouvias os cães a ladrar na noite?
Quando caíste em ti e percebeste, finalmente, o quão sozinha estavas?

Não se regressa a casa de braços abertos à espera que os outros também o estejam.
Não se pode voltar cheia de alegria no peito quando os outros ainda limpam a devastação.
Não se pode abrir com um sorriso a mesma porta que se fechou com amargura, quando alguém ficou lá dentro.
Quem ficou trancado guardou a imagem da chuva que caía lá fora.
Como se pode depois chegar, abrir a porta, e anunciar que nunca o sol deixou de se iluminar?
Quem acreditará em tal coisa?
E se acreditar, como poderá não cobrar no minuto seguinte uma clausura que não merecia?

A tua alegria não é a nossa.
Não vês que há partidas que se dão por um tempo tão infinito, que já não se espera que alguém possa de lá voltar?





5.9.14

Dear Joan Rivers...





... Então, quinaste minha malandra?
Pois não se faz, não se faz...


Espero que no sítio onde estás haja aquilo a que nós por cá, em Portugal, carinhosamente chamamos de "putas e vinho verde". 

É que tu não és pessoa de se ficar por contemplações em prados verdes com querubins a azucrinarem-te o cérebro. Eu sei que não. Sabemos todos.

Entretanto, e apesar de assumidamente ir sentir a tua falta, espero que nos voltemos a encontrar daqui por muitos e longos anos mas, até lá, espero que por aí tenhas muita ramboia e Martini do bom.



4.9.14

Amores literários, quem os não tem?

(Deve ser a melhor foto de sempre... por tudo... ha ha ha...)



Apaixono-me muitas vezes pelos homens que leio. Admito, no entanto, que sejam mais as vezes que não simpatizo ou empatizo com um homem pelo que escreve (há coisas muito más por aí, não há?) do que aquelas pelas quais me perco de amores. É engraçado constatar como também há sexualidade e distinção de géneros nesta coisa da literatura, porque, pelas mulheres que leio sinto apenas uma imensa admiração e de algumas nem tanto. Pensando bem talvez a Florbela me tenha feito revirar os olhinhos. Ou, pensando ainda melhor, talvez a culpa seja mesmo minha e nem dê hipótese às mulheres. Tenho de rever estes preconceitos.

Mas acerca de me perder de amores pelos homens que leio. E apenas sobre eles:
No início vieram os amantes do costume: Eça de Queiroz e Fernando Pessoa. Tentei o Almada Negreiros mas não me senti correspondida. Talvez com a idade me venha a render. Todos sabemos que existem pessoas certas mas nas alturas erradas. Pode bem ser o caso.
Aconteceu-me também, há muitos e longos anos, ter-me apaixonado pelo Paulo Coelho. Mas prefiro não falar disso. Todos temos um amor que anos mais tarde recalcamos, neste caso por razões que me parecem óbvias. 
Depois, iluminadamente, descobri Kafka, e Sartre, e Daudet, e Italo Calvino, e Wilde. Anos a devorá-los a todos aos mesmo tempo. Confuso, muito confuso. Daqueles amores coletivos que quanto mais dúvidas nos levantam mais nos viciamos neles. Também me embeicei pelo Rimbaud, porque me parecia precisar de colo. Mas o amor maior de todos, ainda hoje intenso e carnal, encontrei nas lamurias de Sartre. Ainda conheci o Al Berto mas achei-o demasiado grande para mim. Grande, de grandioso. Não estava preparada para uma relação de tamanha maturidade. Mas penso nele como o amante de meia-idade, de ar sisudo, que se esconde dos pais, mas que não pára de nos assombrar os pensamentos. Aquele com quem desejamos passar noites inteiras num hotel, onde se esqueceram de pagar a conta da luz. Um dia, sei, voltarei a Al Berto, como uma mulher frágil que procura o calor de um homem vivido.

Entre os meus vinte e os meus trinta anos dormi com muito lixo e nunca me apaixonei. Nos livros como na vida.

Com a chegada dos trinta anos (a melhor década para amar, dizem), tive um pequeno arremesso de coração pelo José Saramago. Mas já era tarde. Para mim e para ele, que já estava morto há um tempo. E eu lá acabei por controlar as palpitações e agora revisito pontualmente a sua escrita, como uma namorada que relê as cartas de um amor já terminado. 
Entretanto, tinha uma declaração (quase amorosa) escrita à um ror de tempo para fazer ao Manuel António Pina, mas comecei a ver muito mulherio a fazer o mesmo e retraí-me. Faz muitas viagens de comboio comigo, temos relações rápidas e fugazes, por vezes de um só dia, mas eu fico sempre plenamente satisfeita com o que ele me dá. Cumpre. Por mim está bom.

E eis que... e agora é que começa o verdadeiro caso de amor, de perdição diria até: aquela paixão que andava a adiar.
Eu sei, eu sei, venho uns quinze anos atrasada.
"Mas só agora é que te apaixonaste por ele?"
Sim, só agora.
Porque, à semelhança do que se passava nos meus tempos de liceu, eu não queria seguir a carneirada e ter uma paixoneta pelo rapaz mais giro e a quem todas as mocinhas arrastavam um par de asas. Eu mantinha-me fria e inflexível por fora, mas secretamente perdida de amores por dentro. Mas carneirada é que nunca! Aliás, sinto-me ridícula hoje, como sentia naquela época, por parecer que não tenho opinião própria e por chegar à constatação que, afinal, gosto do que todas as outras gostam. Mas eu andei em negação ao inegável. Um amor que já se adivinhava inevitável há muitos anos, e eu sabia disso.

Sim, é esse mesmo, houve o dia na minha vida em que me apaixonei pelo Miguel Esteves Cardoso (eu sei, pensavam que eu ia dizer Paulo Portas). Assim mesmo, depois de já todos os outros quinhentos mil milhões de mulheres se terem apaixonado. Fui a última a chegar. E então? E então vai-se passar o mesmo que no liceu: nada.

O Miguel Esteves Cardoso deve ser o homem mais feio que me lembro de ver. Também não creio que a idade lhe tenha feito bem, pelo contrário, mas pelo menos arranjou-lhe a desculpa que durante anos não teve.
No entanto (e tinha de haver um mas), é incrivelmente interessante por dentro. Ou naquilo que tem por dentro que deita publicamente cá para fora. É caso para dizer que, na modernidade dos tempos que correm, se safaria lindamente nas redes sociais de engate, em que não há fotografias de caras (ou, pelo menos, não das terrivelmente verdadeiras) e onde as pessoas têm oportunidade de mostrar tudo o que valem apenas pelo que escrevem. Verdade, pode haver pouca paciência para tamanha erudição e virtuosismo num ambiente tão, digamos, pragmático, mas, certamente, colheria o interesse de muitas almas.
Provavelmente, e já que assumi a minha mundanidade literária, à semelhança de todas as outras mulheres e homens, eu também não consigo dizer concretamente o que me apaixona no Miguel Esteves Cardoso. Será o sentido de humor? A visão do mundo? A escrita irrepreensível? A criatividade? A genica? A sua comum mortalidade?
Pode ser tudo. Podem ser todas estas coisas juntas e mais aquelas que não se vêem mas, tenho para mim, que se ele fosse um homem bonito eu não me apaixonaria tanto.
Como diria um amigo meu, ser-se feio, arrogante e burro é contra-natura porque contraria todos os instintos de sobrevivência. Um feio precisa, necessariamente, de ser amoroso ou inteligente. Creio que o contrário também será verdade. Se o Miguel Esteves Cardoso fosse bonito, afável e inteligente, dispararia um alarme de perigo, porque sabemos, instintivamente, que não existem homens assim.

Por tudo isto, meu caro Miguel Esteves Cardoso, acho que descobri porque é que, realmente, te amo.
Porque és um feio que escreve bonito.
E disso, já não há.



28.7.14

Post mortem





Lembro-me, estranhamente, do teu cheiro.
Uma mistura de madeiras quente e doce, com tabaco e Whisky.
Parecias trazer sempre o Verão.
Cheiravas bem.
Lembro-me da tua camisa rosa, de mangas arregaçadas.
Sempre engomada.
Denunciava o brio das mãos de uma empregada devota.
Lembro-me do teu cabelo. Claro que sim.
Todas as pessoas te conheciam o cabelo.
Ruivo, como as tuas sardas.
Temperamental, como o teu feitio.
Lembro-me do teu riso engraçado.
Cheio de humor inteligente.
Cheio de alegria.
Assim julgava eu.
Lembro-me de seres um homem maior que tu mesmo.
Megalómano. Inesquecível. Gigante.
Lembro-me do teu à vontade.
Dos teus cumprimentos honestos.
De como me juntavas dois beijos à face como se eu fosse uma filha.
Lembro-me do teu nome. Completo.
Da tua assinatura.
E de como ela deixou de se reproduzir.
De como o quiseste apagar.
Dessa maneira tão triste e fatal.
Tão definitiva e dramática.
Lembro-me das últimas palavras que me disseste.
Sem que soubesse que seriam as últimas.
Lembro-me da manhã seguinte.
Das palavras atropeladas.
Lembro-me de me perguntarem se eu já sabia.
Se eu já sabia que tinhas ditado o teu fim.
E não, eu não sabia.
Nem sequer esperava.

O que me lembro, muito bem,
Muito tempo antes dessa decisão,
É que os teus olhos tristes,
Há muito,
gritavam:

Solidão.




24.6.14

As andorinhas voltam sempre a casa






Eu conheci a Sónia assim...

Eu falei da amizade pela Sónia assim...

A Sónia responde-me assim...

E depois querem que uma pessoa ande bem. Não dá, né?


Somos, masé uma cambada de choronas, pá! :)





3.6.14

Maria Rita






Sabes, Maria Rita, por vezes temos de ser mais fortes que os outros, mesmo quando estamos na situação mais difícil.
Temos de dar aquele sorriso na hora certa, fazer aquele aceno de cabeça como quem consente, levantar o polegar para dizer que está tudo bem. E não é por nós, Maria Rita, nunca é por nós. É pelos outros que estão lá fora, do lado de lá do vidro: Os adultos.
Sabes, os adultos são pessoas que sabem o que é sofrer, que conhecem todas as dores - as do corpo e as da alma - porque já cá andam há muitos anos, já caminharam muitas estradas, já ouviram muitas histórias e por isso já não sonham, só vivem com a realidade. E a realidade que inventam é sempre tudo menos sonhadora. E nós sabemos que sonhar é bom. 
Por isso, Maria Rita, quando vires um adulto sem esperança, derrubado pela realidade da vida, e com os braços estendidos de cansaço, dá aquele sinal de que eles precisam. Um piscar de olho, um esgar com o canto da boca, um bocejo, que seja, mas alimenta-lhes a fé. E lembra-te que não é por nós, nunca é por nós. Mas esses adultos precisam de voltar à estrada sem curvas e às histórias sem fantasmas. Precisam de voltar a acreditar que em cada ser que nasce há esperança. Que há continuidade, descendência, e que essa continuidade e descendência é que os virá salvar de uma vida cheia de obstáculos. 
Sabes, Maria Rita, desde o início que a vida contigo se desenhou melhor e por isso esperam tudo de ti. Esperam que dês o tal sorriso que os irá resgatar, que lhes dê as forças que eles já não têm. Mas tu sabes bem que a tens. Nesse coração pequenino, do tamanho de um polegar, há mais vida que numa dúzia de corações de gigantes.

Então põe-no a pulsar.



Música: Menina da Lua
Cantora: Maria Rita

Leve na lembrança
A singela melodia que eu fiz
Pra ti, ó bem-amada
Princesa, olhos d'água
Menina da lua

Quero-te ver clara
Clareando a noite intensa deste amor
O céu é teu sorriso
No branco do teu rosto
A irradiar ternura

Quero que desprendas
De qualquer temor que sintas
Tens o teu escudo
O teu tear
Tens na mão, querida
A semente
De uma flor que inspira um beijo ardente
Um convite para amar

Leve na lembrança
A singela melodia que eu fiz
Pra ti, ó bem-amada
Princesa, olhos d'água
Menina linda




30.5.14

Bacalhau à Brás





Receita de Bacalhau à Brás



Ingredientes

Bacalhau
Azeite
Batatas fritas palha
Ovos
Cebolas
Alho
Salsa
Sal
Pimenta
Azeitonas


Preparação

Demolhe o bacalhau. Retire a pele e as espinhas e desfie com as mãos. Corte as cebolas em rodelas finas. Pique o alho. Leve um tacho ao lume brando com o azeite, a cebola e o alho e deixe refogar lentamente até cozer a cebola. Junte, nesta altura, o bacalhau desfiado e mexa com uma colher para que fique bem impregnado com o azeite. Junte as batatas palha finas ao bacalhau e, com o tacho sobre o lume brando, deite os ovos ligeiramente batidos e temperados com sal e pimenta. Mexa com o garfo e, logo que os ovos estejam em creme, mas cozinhados, retire imediatamente do lume. Deite o bacalhau numa travessa. Polvilhe com salsa picada e sirva bem quente, acompanhado com azeitonas.



Receita desconstruída de Bacalhau à Brás


Ingredientes

Eu
Tu
Mãos
Sexo
Desejo
Amor
Sonhos
Tesão
Esperança
Felicidade


Preparação

Molha-me os lábios. Rouba-me a pele e os beijos, desfia-me com as tuas mãos. Corta-me o desejo em rodelas finas. Pica-me com esse amor. Dá-me num abraço teu, ainda num calor brando, mas com todo o desejo e amor. Deixa-nos pois, aquecer lentamente até esse desejo ferver. Dá-me, nesse preciso momento, mais desses teus beijos e mexe-me no corpo para que fique impregnada de ti. Une as tuas mãos com as minhas e, então, com os nossos corpos já aquecidos, dá-me todo o sexo que consigas dar, temperado de felicidade e tesão. Agita bem a nossa vida e, logo que o sexo tenha arrefecido, mas ainda haja amor, coloca-o imediatamente ao lume. Deitar-nos-emos juntos numa cama, polvilharemo-nos esse amor com sonhos e servi-lo-emos bem quente, acompanhado desta imensa felicidade.



[Honey, eu já sabia fazer Bacalhau à Brás, ainda tu nem eras nascido (vá, mais ou menos...). Ainda assim, arranjei uma nova versão só para ti. Uma daquelas modernices a que vocês, cozinheiros, gostam de chamar de desconstrução.]



22.5.14

Eu conheço essa dor




Eu sei o que se passa contigo.
A tua vida continuou sem ti.
E agora segues sozinho, perdido.

Eu sei bem o que se passa contigo.
Amaste e eras amado e perdeste isso.
Tinhas uma casa e um lar e ficaste sem ambos.
Tinhas conhecidos, amigos e família mas ficaste só.
Tinhas um título e um estatuto e isso foi-te retirado.
Tinhas um carro e dinheiro para viajar e restaram-te memórias.
Tinhas o respeito e a reverência dos outros e agora és apenas mais um.
Tinhas projectos para um futuro tranquilo e agora nem enxergas a linha do horizonte.
Tinhas a palavra pronta para julgar e agora nem te consegues proteger daquelas que te atiram.
Julgavas-te forte e descobriste em ti o fraco.
Subestimavas as mulheres e agora precisas delas.
Juraste muitas coisas a ti próprio que agora não consegues entender.
Lutavas com os outros e agora lutas apenas contra ti.
Tratavas com superioridade o meu carácter e agora não suportas a minha indiferença.
Julgavas-me dominada por ti e descobriste que afinal nunca te respeitei.


[Já vos aconteceu conhecer uma pessoa que vos odeia tanto que mais parece que vos ama?]